renúncia

Mudança de estação

Dom Demétrio Valentini 

A seca e o calor destes dias, em todo o Brasil, nos fazem experimentar de maneira mais intensa o fenômeno natural da mudança de estação. Às vezes o contraste impressiona. A natureza sabe nos surpreender. E de um momento para outro, da angústia se passa para o alívio.

Quando finalmente aparece a estação das chuvas, a natureza reencontra suas energias. E se abrem novas possibilidades de lançar as sementes.

O que se passa na natureza, pode acontecer com a Igreja, pode acontecer com a sociedade. Precisamos estar atentos à “propícia estação”.

Nestes dias está se completando um ano da renúncia do Papa Bento XVI, e da eleição do Papa Francisco.

Se acionamos a memória, e olhamos o que se passou neste ano, nos damos conta da intensidade dos acontecimentos, e da força que os aglutina, como frutos de uma inesperada primavera eclesial.

Basta recordar o impacto positivo provocado pela renúncia de Bento XVI. E sobretudo a repercussão que teve a eleição do Papa Francisco, com seus gestos iniciais, carregados de simbolismo, sinalizando a retomada do impulso renovador desencadeado pelo Concílio, mas que vinha perdendo força na medida das dificuldades de sua implementação.

De fato, dá para dizer que começou uma nova estação para a Igreja. Sobretudo pela figura, pela força moral, e pelo testemunho do Papa Francisco. Ele teve a grande intuição de relançar o projeto de renovação da Igreja, levando em conta o esforço já feito, mas contando sobretudo com os ventos favoráveis do momento que a Igreja passou a viver, a partir da inesperada renúncia do Papa Bento, e também da inesperada eleição do Papa Francisco.

Como acontece com a natureza, a força de renovação brota de dentro, mas a colheita depende muito do que o agricultor semear, no tempo oportuno, favorecido pelas circunstâncias, no clima propício de nova estação.

Já passou um ano deste novo ciclo que a Igreja vem vivendo. Aguardam-se para este segundo ano algumas iniciativas de ordem mais estrutural .Elas servirão de alento para mudanças mais significativas da organização da Igreja, visando incentivar sua missão de ser portadora da mensagem evangélica para todas as pessoas, em qualquer situação que se encontrem.

Comparando agora com a situação da sociedade, parece haver um claro contraste. Cabe à saberia política, orquestrar os acontecimentos, de tal modo que se valorize o que existe de positivo, e se coíba o que prejudica o bem comum.

O que não se pode é deixar que as coisas aconteçam, para depois correr atrás do prejuízo. Como na agricultura: se deixamos a natureza por conta própria, o inço acaba tomando conta de tudo.

Como nação brasileira, nesta época de grandes possibilidades de crescimento com maior justiça social, somos chamados a ser bons agricultores. Vamos cuidar das boas sementes, e neutralizar o inço daninho.

Vamos assumir os valores, vamos coibir os abusos. Não vamos permitir que se transforme em inverno a primavera que recém começou.

Convite para a missa de ação de graças do papa Bento XVI

Aos Excelentíssimos Bispos Auxiliares
Aos Padres e Diáconos, religiosos e consagrados
Aos leigos/as e suas organizações
da Arquidiocese de São Paulo

Caríssimos,

Dia 22 de fevereiro, a Liturgia da Igreja nos faz celebrar a festa da “CÁTEDRA DE SÃO PEDRO”; neste ano, a festa é especialmente significativa em vista do fato da renúncia do papa Bento XVI à “Cátedra de São Pedro”, no próximo dia 28 de fevereiro.

Portanto, peço a todos os Párocos que prevejam a Missa na Festa da Cátedra de São Pedro em suas paróquias e convidem o povo a participar, dando um cunho de ação de graças pelo pontificado de Bento XVI. Ao mesmo tempo, dentro do Ano da Fé, convém destacar a nossa fé – “creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”.

Eu mesmo estarei celebrando na Catedral Metropolitana às 12h e convido os padres que possam e queiram, a concelebrar comigo. Darei, justamente, um caráter de ação de graças pelo pontificado de Bento XVI, que está se despedido. Peço que também avisem o povo a respeito dessa celebração, quer na Catedral, quer em suas paróquias, para que as pessoas saibam e tenham a possibilidade de participar.

A renúncia do Papa está sendo objeto de muitas considerações e interpretações estranhas sobre a Igreja Católica, a Santa Sé e o próprio Papa. Será por quererem o bem da Igreja? Muitos dos nossos fiéis devem estar sofrendo com isso e até escandalizados. Neste momento, pois, tenhamos firme nossa fé na Igreja e na ação do Espírito Santo. E ajudemos também nosso povo a manter firme e serena a sua fé. Rezemos pelo Papa Bento XVI e pela Igreja.

Sendo este o primeiro domingo após o anúncio da renúncia do Papa, sugiro que seja lido o COMUNICADO do próprio Papa sobre sua renúncia, com a explicação ao povo das palavras do Papa, às quais quase não se faz referência nas matérias divulgadas. Também minha carta sobre o assunto, já enviada a todos, pode ser útil para esse fim.

Saudação e votos de bom domingo para todos! Desejo-lhes uma vivência da Quaresma e da Campanha da Fraternidade com muito fruto!

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

Mensagem de D. Odilo sobre a renúncia do Papa Bento XVI

Caríssimos Bispos Auxiliares,
Padres, diáconos, consagrados/as,
Queridos leigos e leigas
da Arquidiocese de São Paulo

No dia 11 de fevereiro passado, como já foi amplamente divulgado, o Papa Bento XVI anunciou a sua renúncia ao ministério de Sucessor de São Pedro, diante de um grupo de Cardeais que havia convocado para um Consistório Ordinário em vista de algumas novas canonizações de santos.

Portanto, no próximo dia 28 de fevereiro, às 20h de Roma, a Cátedra de Pedro, em Roma, se tornará vacante; Bento XVI se recolherá num convento, dentro do Vaticano e, portanto, o Colégio dos Cardeais deverá reunir-se em Conclave para escolher um novo Papa para suceder a Bento XVI no governo da “barca de Pedro”, a Igreja.

O próprio Papa explicou os motivos desse seu gesto surpreendente: a idade avançada (quase 86 anos) e a diminuição de suas forças, que não lhe permitiam mais exercer de maneira adequada a exigente missão do Papa. Com grande realismo e humildade, Bento XVI reconheceu que seu vigor diminuiu nos últimos meses a ponto de já não se sentir mais em condições de administrar o ministério que lhe foi confiado, como Sumo Pontífice.

Assim, agradecendo a colaboração recebida dos Cardeais, Bento XVI usou uma expressão belíssima e de profundo significado: “agora entregamos a Santa Igreja aos cuidados do seu Supremo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo”; indicava, assim, para a verdadeira natureza do ministério do Papa, dos Bispos e de todos os sacerdotes, colocados a serviço da Igreja: todos eles, de fato, estão a serviço da Igreja em nome de Jesus Cristo e por encargo seu. Ele é o verdadeiro e único Senhor e Pastor da Igreja, que cuida dela e quer o seu bem.

Como é bem compreensível, a decisão do Papa, num primeiro momento, deixou muitas pessoas perplexas e sem saber o que dizer. A surpresa foi grande, pois ninguém está acostumado com a idéia da renúncia de um papa e, na história da Igreja, conhecemos apenas um caso de papa que renunciou, depois de ter sido eleito regularmente: trata-se do Papa Celestino V, um monge eremita eleito papa já com idade avançada e que renunciou em 13 de dezembro de 1294. Portanto, este é o segundo caso de renúncia do Papa, eleito em condições regulares, em cerca de 2 mil anos de história. No entanto, o Direito Canônico, que é o código das leis da Igreja, prevê a possibilidade de renúncia do Papa (cf cân. 332 §2).

A decisão do Papa Bento XVI, merece toda nossa compreensão, respeito e admiração pela sua humildade e coragem e pelo ensinamento de fé que nos deixa no serviço a Jesus Cristo e à Igreja. Não devemos estar apegados a cargos e posições, quando está em jogo o bem maior da Igreja, à qual servimos.

No Ano da Fé, neste momento, também somos levados a fazer um profundo ato de fé na própria Igreja: por um lado, ela é feita de pessoas e instituições humanas que passam, por mais importantes que elas sejam; por outro lado, a Igreja é uma realidade de fé, edificada sobre Jesus Cristo e animada pelo Espírito Santo. Por isso mesmo a Igreja é mais do que vemos e constatamos humanamente. Ela é o Corpo do qual Cristo é a Cabeça e o Espírito Santo é a alma vivificante; ela é o rebanho, do qual o próprio Jesus continua a ser o Supremo Pastor; ela é ainda o povo que Deus reúne e conduz pela história para a Pátria celeste, enquanto o envia para testemunhar a Vida Nova, tornada possível mediante a vivência do Evangelho e o seguimento de Jesus.

Mais do que nunca, este é o momento de reafirmarmos nossa fé na “Igreja Una, santa, Católica e Apostólica” e de confiar na ação do Espírito Santo, que a assiste, e na palavra de Cristo, que prometeu: “as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela” (cf. Mt 16,18)… E ainda: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (cf. Mt 28,20).

Ao Papa Bento XVI, nossa admiração e nosso agradecimento pelo bem que fez à Igreja, mesmo em meio a tantos sofrimentos e até incompreensões. Somos gratos ao Papa Bento XVI por seus numerosos, ricos e profundos ensinamentos, pelas suas catequeses e documentos magisteriais, pelas suas encíclicas sobre a caridade, a esperança e a encíclica social – Caritas in Veritate -, sobre as novas questões que o mundo e a Igreja enfrentam. Somos gratos, especialmente, pela visita do Papa ao Brasil, em 2007, aqui em São Paulo e Aparecida, pela canonização de Santo Antonio de Sant’Ana Galvão, 1º brasileiro nascido no Brasil. Somos gratos pelo estímulo dado à Igreja para renovar-se na fé, mediante o Ano da Fé, que estamos vivendo. Por ele, continuemos a rezar, para que Deus o conserve com saúde e serenidade.

E agora, ponhamo-nos em oração ao Espírito Santo, para que fortaleça a fé na Igreja e a renove na fidelidade a Cristo e na dedicação à missão. Ao mesmo tempo, peçamos que o mesmo Espírito de sabedoria e discernimento oriente os cardeais que deverão escolher o novo Sucessor de Pedro. Que ele seja fortalecido com todos os dons do Alto para exercer tão importante e pesada missão, para o bem de todo o povo de Deus e para que as ovelhas do rebanho do Bom Pastor tenham vida em abundância.

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

O caminho de Jesus e dos seus seguidores!

httpv://www.youtube.com/watch?v=X7h2F5zexlc

“Nós podemos desconfiar de uma Igreja que não conhece o martírio?” Por quê? Porque o caminho dos cristãos não é diferente do caminho de Jesus.
É feito de incertezas, mas também de coragem e esperanças, de lutas e conquistas; de cruz e também de ressurreição e vida, de não conformismo, mas também de compromisso com o projeto de Deus. Isso tudo nos diz o Padre Bortolini a respeito da evangelho de hoje.

Muitas vezes temos medo das consequências do seguimento de Jesus que enfrenta as forças contrárias à vida.

Renunciar a tudo o que nos afasta do seguimento de Jesus requer discernimento e grande amor.
Seguir Jesus no caminho da cruz nos educa e humaniza, não buscando o poder mas vivendo do serviço e fazendo da vida oblação.

Jesus nos ensina, pelo seu testemunho, a fidelidade e a coragem para enfrentar as forças da morte e superar a mediocridade da cultura do egoísmo e da busca do poder.

Que o seguimento de Jesus nos fortaleça e conforte, nos traga a alegria de escolher o caminho de quem faz de sua vida doação e sinal do Reino de Deus!