Santa Maria

A tragédia de Santa Maria

Dom Demétrio Valentini

Tão fácil não será esquecida a cena que logo foi difundida pelo mundo. De um momento para outro, em questão de minutos, o que era uma festa alegre e descontraída, se tornou um desastre de consequências terríveis e inesperadas. Mais de duzentas pessoas acabaram morrendo subitamente, mal tendo tempo para se darem conta da fatalidade que se abatia de repente sobre elas.

Perderam a vida, lá onde tinham ido para comemorá-la. De repente, o que devia ser um ambiente seguro e propício para a alegria e o divertimento, se tornou uma terrível armadilha, de onde foi difícil escapar, mesmo para aqueles que conseguiram sair de suas garras.

Diante de um fato trágico como este, que implicou a morte de centenas de pessoas, num primeiro momento nos invade o sentimento de impotência, face a realidades que impiedosamente vão ceifando pessoas, tirando-lhes o dom mais precioso, imprescindível, e insubstituível, que é a própria vida.

A difusão da notícia foi suscitando um turbilhão de sentimentos. Todos nos imaginamos como teria sido diferente se em tempo o incêndio pudesse ter sido evitado. Teria sido tão fácil agir com antecedência, ficou tão difícil enfrentar as consequências.

Esta constatação faz logo pensar na medida indispensável que precisa sempre ser tomada, de prevenção adequada a ser feita, com a suficiente garantia e com medidas generosas, mesmo que pareçam exageradas quando vistas fora de nossas previsões de acidentes inesperados que possam acontecer.

Esse fato deixará certamente muitas lições práticas, a serem tiradas por todos. De maneira especial pelas autoridades encarregadas de urgirem a segurança em qualquer ambiente de aglomeração humana.

Mas antes de pensar nas providências que esta tragédia vai certamente despertar, todos nos sentimos ainda envolvidos e solidários com as pessoas que mais de perto estão agora experimentando a dureza deste drama que se abateu sobre elas, de maneira tão terrível e inesperada.

Para os que morreram, podemos ter uma certeza iluminadora, seja qual for a forma que toma nossa fé e nossa esperança. Com serenidade, para eles, podemos cultivar a certeza de que terão se encontrado com o Deus da vida, que os acolheu com misericórdia, ternura e bondade, fazendo com que passassem diretamente da festa nesta vida, para o banquete definitivo, mesmo que isto tenha acontecido em hora tão inesperada.

Esta certeza a respeito de todos os falecidos nesta tragédia serve de principal conforto para os sobreviventes, seja os que estavam na festa e conseguiram sobreviver, seja para as famílias, para os parentes e amigos dos falecidos.

Assim mesmo, sabemos que a dor persiste e vai ser levada para a vida inteira. E diante desta dor humana, a melhor atitude é o respeito, o silêncio, e a solidariedade com todos e cada um.

São muitas as reflexões que este triste acontecimento suscita. Ainda mais diante do fato de ter envolvido especialmente jovens, neste ano em que a Campanha da Fraternidade tem como tema a juventude, e como evento principal o encontro mundial do Papa com os jovens, aqui no Brasil.

A seu tempo, estas reflexões precisarão ser bem recolhidas, para serem transformadas em lições de vida.

Impressiona a constatação de que a grande maioria das vítimas deste incêndio, não morreu queimada. Morreu por inalar fumaça tóxica produzida pelo fogo. Esta circunstância é carregada de simbolismo. Quando se queimam valores, se abandonam critérios éticos, se esquecem recomendações da prudência e da sabedoria tradicional, o perigo mora nas consequências! Parece inócuo prescindir destas referências. Mas, a seu tempo, o resultado se manifesta.

É urgente identificar onde mora na sociedade de hoje a fumaça tóxica que ceifa vidas e impede sua realização plena. Que este triste episódio de Santa Maria sirva de alerta a todos.

Minima Theologica: em memória dos mortos de Santa Maria

Leonardo Boff

Os antigos já diziam:”vivere navigare est” quer dizer, “viver é fazer uma viagem”, curta para alguns, longa para outros. Toda viagem comporta riscos, temores e esperanças. Mas o barco é sempre atraído por um porto que o espera lá no outro lado.

Parte o barco mar adentro. Os familiares e amigos da praia acenam e o acompanham. E ele vai lentamente se distanciando. No começo é bem visível. Mas na medida em que segue seu rumo parece aos olhos cada vez menor. No fim é apenas um ponto. Um pouco mais e mais um pouco desaparece no horizonte. Todos dizem: Pronto! Partiu!

Não foi tragado pelo mar. Ele está lá, embora não seja mais visível. E segue seu rumo.

O barco não foi feito para ficar ancorado e seguro na praia. Mas para navegar, enfrentar ondas, vencê-las e chegar ao destino.

Os que ficaram na praia não rezam: Senhor, livra-os das ondas perigosas, mas dê-lhe, Senhor, coragem para enfrenta-las e ser mais forte que elas.

O importante é saber que do outro lado há um porto seguro. Ele está sendo esperado. O barco está se aproximando. No começo é apenas um ponto levemente acima do mar. Na medida em que se aproxima é visto cada vez maior. E quando chega, é admirado em toda a sua dimensão.

Os do porto dizem: Pronto! Chegou! E vão ao encontro do passageiro, o abraçam e o beijam. E se alegram porque fez uma travessia feliz. Não perguntam pelos temores que teve nem pelos riscos que quase o afogaram. O importante é que chegou apesar de todas as aflições. Chegou ao porto feliz.

Assim é com todos os que morrem. O decisivo não é sob que condições partiram e saíram deste mar da vida, mas como chegaram e o fato de que finalmente chegaram. E quando chegam, caem, bem-aventurados, nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade para o abraço infinito da paz. Ele os esperava com saudades, pois são seus filhos e filhas queridos navegando fora de casa.

Tudo passou. Já não precisam mais navegar, enfrentar ondas e vencê-las. Alegram-se por estarem em casa, no Reino da vida sem fim. E assim viverão para sempre pelos séculos dos séculos.

(Em memória dolorida e esperançosa dos jovens mortos em Santa Maria na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013).

Arcebispo de São Paulo emite “Nota de pesar e solidariedade” por mortos em Santa Maria

O cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, publicou no final da tarde deste domingo, 27 de janeiro de 2013, “Nota de pesar e solidariedade” pelo acidente que matou mais de 230 jovens em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. No documento, que será encaminhado ao clero de São Paulo nesta segunda-feira, 28, o arcebispo recomenda a todos os padres da Arquidiocese de São Paulo que celebrem missas em intenção das vítimas do incêndio, bem como pelos feridos e pelos familiares.

NOTA de pesar e solidariedade

“Ó Deus, que governais o tempo e a vida dos seres humanos, nós vos recomendamos vossos filhos de quem choramos a morte prematura; dai-lhes gozar perene juventude na alegria da vossa casa. Por Jesus Cristo, vosso Filho, Senhor da vida. Amém”

No ano em que a Igreja no Brasil se alegra pela oportunidade única de valorizar a juventude e celebrar a sua vida, com a realização da Campanha da Fraternidade e da Jornada Mundial da Juventude, recebemos a chocante notícia da morte de mais de 230 jovens, a maioria universitários no incêndio de uma casa de diversão noturna em Santa Maria, RS, na madrugada deste domingo, dia 27 de janeiro. A tristeza aumenta com a constatação de que a tragédia foi consequência de uma série de erros e omissões, certamente evitáveis, se tivessem sido observadas as normas de segurança prescritas.

Em nome da Arquidiocese de São Paulo, apresento as mais sinceras condolências aos familiares e parentes das vítimas dessa dolorosa tragédia. Elevo orações a Deus pelos jovens que perderam tão prematuramente suas vidas, por aqueles que ficaram feridos e por seus familiares, que vivem este momento com profunda dor e consternação. Rogo a Deus que os conforte! Peço também a todos os padres da Arquidiocese de São Paulo que celebrem santas missas nessas mesmas intenções.

A Dom Hélio Adelar Rupert, arcebispo de Santa Maria, expresso minha solidariedade na dor, na prece e na missão de confortar os enlutados e feridos. Da mesma forma, apresento minha solidariedade às famílias de Santa Maria e de todos os jovens falecidos, bem como às Autoridades públicas locais, fazendo votos de que as causas desse acidente sejam cuidadosamente apuradas e suas lições, aprendidas, para que no futuro, não aconteçam novas tragédias semelhantes em Santa Maria e em todo o Brasil.

São Paulo, 27/01/2013
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo