Bíblia

Com a palavra, a ação

Com a palavra, a ação

“Tente explicar o prazer de esquiar a um sujeito que viveu a vida inteira no deserto.” – Michael Michalko

Ser Igreja transformadora é ser capaz de se envolver com o ser humano em todas as suas dimensões, a terrena e a espiritual. Provocar mudanças na sociedade para que ela se pareça cada vez mais com o sonho de reinado de Deus proposto por Jesus. Aí então, o apelo se concentra muito mais em que haja testemunho eficaz do que discurso vazio, ainda que sua elaboração sofisticada o coloque entre os ganhadores do Prêmio Nobel.

Tudo bem, nós temos uma religião que está escrita – são nada menos que setenta e dois livros, Antigo e Novo Testamento, reunidos num só, a Bíblia. E é lá, naquele extenso mapa, construído ao longo de séculos de oração e experiência prática, que vamos buscar a direção para a nossa caminhada. Mas ninguém se sente em Copacabana apenas porque em algum momento deu de cara com uma placa apontando na direção do Rio de Janeiro. Assim como ninguém é cristão simplesmente porque acumula horas e mais horas de leituras bíblicas – ao contrário das empresas aéreas, Deus não adota nenhum programa de milhagem. A propósito, dia desses li algo que agora me ajuda a completar este pensamento: dizia o autor que ninguém se transforma num carro apenas porque fica horas e horas na garagem.

Não sou exegeta, especialista em Sagrada Escritura. Mas sei de nomes como o do competentíssimo Luís Alonso Schökel [Bíblia do Peregrino – Paulus], que já substituem a expressão “Reino de Deus”, vista como um local específico e estático, por outra tão mais precisa quanto dinâmica e comprometedora, “reinado de Deus”, isto é, o senhorio Dele manifestando-se em todos os lugares e dimensões, primeiro pela ação de Jesus e depois pelo comprometimento dos batizados. Ora, comprometer-se é testemunhar. E isso é muito mais do que apenas ensinar, transferir conhecimentos. Comprometer-se é agir de tal forma que provoque atitudes capazes de levar também à prática. Porque só ela transforma e atualiza o sonho de Cristo. Detalhe: se este sonho não se tornar realidade, nossa realidade certamente se converterá num enorme e infindável pesadelo. Mãos à obra, eis a grande lição.

Rubens Marchioni – [email protected]

Literatura e Experiência de Deus

Frei Betto

Pela literatura, o verbo se faz carne. Embora a música seja, na minha opinião, a mais sublime das artes, a literatura é a mais sagrada. Deus a escolheu para, através dela, se revelar a nós. Escolheu uma escrita, a semítica, e um gênero próximo da ficção, pois em toda a Bíblia não há uma única aula de teologia, um ensaio doutrinário, um texto conceitual. É toda ela uma narrativa pictórica – vê-se o que se lê.

Os livros bíblicos reúnem uma sucessão de fatos históricos e alegóricos (parábolas, metáforas, aforismos), entremeados de genealogias, axiomas, provérbios, poemas (Cântico dos Cânticos e Salmos) e detalhes técnicos e ornamentais (a construção do Templo cf. 2 Crônicas).

Como frisa Herbert Schneidau, a Bíblia pode ser considerada “prosa de ficção historicizada”. Historicizada porque se distancia do universo das lendas e dos mitos, embora haja matéria-prima lendária subjacente ao Gênesis no relato sobre Davi, na saga de Jó e em parte dos Livros dos Reis.

Os autores bíblicos se afastaram, deliberadamente, do gênero épico (Homero e Virgílio), o que se explica pela rejeição do politeísmo. O que impregna a escrita bíblica é o senso de historicidade. Ela rompe com a circularidade do mundo mitológico e apresenta-nos um Deus que tem história: Javé, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Nela a historicidade se faz presente na descrição dos cinco primeiros dias da Criação, antes do surgimento daquele que viria a ser considerado o protagonista do processo histórico: o ser humano. Há uma evolução, simbolizada na sucessão dos seis dias.

O que faz de nós imagem e semelhança de Deus é a capacidade de amar e a linguagem. Animais também amam, tanto que certos pássaros, como os pardais, se mantêm fiéis após se acasalarem. Mas somente o ser humano possui um nível de consciência que lhe permite ordenar e expressar sentimentos, emoções, intuições e afetos. Isso nos faz semelhança divina. Deus é amor e seu afeto por nós se manifesta na linguagem contida na narrativa bíblica e na epifania do Verbo que, entre nós, se fez carne.

A escrita é uma forma de tentar organizar o caos interior. Por isso, todo artista é clone de Deus. A escrita é terapêutica, libertadora. Hélio Pellegrino, psicanalista, atribuía a minha sanidade mental no decorrer de meus anos de prisão ao fato de eu ter literalizado a vida de cadeia. O meu mundo é recriado quando lanço mão de vocábulos e regras sintáticas para dar forma e expressão ao que penso e sinto. Assim, transubstancio a realidade, projeto-me em algo que, fora de mim, não sou eu e, no entanto, traduz o meu perfil interior de um modo que eu jamais conseguiria pela simples fala.

A escrita constitui uma forma de oração, como bem sabia o salmista. A experiência de Deus antecede e ultrapassa a escrita. No entanto, o pouco que dela se sabe é por meio da escrita; raras vezes por experiência pessoal. Grandes místicos, como Buda, Jesus e Maomé, nada escreveram. O que sabemos deles e de seus ensinamentos é graças a quem teve o trabalho de redigir.

Ainda que o próprio místico possa fazê-lo, como são exemplos Plotino, Mestre Eckhart e Charles de Foucauld, há um momento em que a experiência de Deus ultrapassa os limites da palavra. É inefável. Como diz Adélia Prado, “Se um dia puder, nem escrevo um livro” (Círculo). “Não me importa a palavra, esta corriqueira, / Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, / A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda / foi inventada para ser calada. / Em momentos de graça, infrequentíssimos, / se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. / Puro susto e terror (Antes do nome).

João da Cruz, patrono dos poetas espanhóis, deixou três de seus quatro livros inacabados. Tomás de Aquino considerou, após seu êxtase em Nápoles, que toda a sua obra não passava de “palha”. E não mais escreveu.

Há no enfoque adeliano uma empatia com o poema Ash-Wednesday (Quarta-feira de Cinzas), de T. S. Eliot, escrito em 1930, três anos após a conversão do poeta ao cristianismo. Na quinta parte, Eliot canta que “a palavra perdida se perdeu”, “a usada se gastou”, mas perdura no “Verbo sem palavra, o Verbo. Nas entranhas do mundo”.

Toda poesia de qualidade é polissêmica. É verso que faz emergir nosso reverso. É canto que encanta, desdobra em múltiplo o nosso ser e nos induz a encontrar aquela pessoa que realmente somos e, no entanto, em nós reside como um estranho que provoca temor e fascínio.

É à poesia que o apóstolo Paulo recorre quando, no discurso no Areópago (Atos dos Apóstolos 17, 28), expressa a nossa ontológica e visceral união com Deus: “Nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ‘Porque somos também de sua raça’.”

Trata-se de uma citação livre da obra Fenômenos, de Arato, poeta que viveu na Cilícia no século III a.C. O texto originário é: “Comecemos com Zeus, de que nós mortais nunca deixamos de lembrar. Porque toda rua, todo mercado está cheio de Zeus. Mesmo o mar e o porto estão cheios da divindade. Em todo lugar todo mundo é devedor a Zeus. Porque somos, na verdade, seus filhos… (Phaenomena 1-5).”

O Evangelho, o homem, a religião

Enzo Bianchi

O monge fundador e prior da Comunidade Monástica de Bose, na Itália, Enzo Bianchi, crê que é a partir do Evangelho que alguém pode se dizer cristão. Em artigo para o jornal La Stampa, 03-04-2009, o autor de numerosos textos sobre a espiritualidade cristã e a grande tradição da Igreja afirma que, “só com a leitura pessoal e direta da Bíblia […] o cristão pode nutrir a sua fé e robustecer a sua capacidade de testemunhá-la”. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo:

Na situação atual, muitos esperam um cristianismo vivido segundo o paradigma da religião forte e encarnado em minorias ativas e eficazes, capazes de assegurar identidades e visibilidades que se impõem, porque pensadas em uma estratégia defensiva e de concorrência. Para mim, considero que apenas vivendo a diferença cristã na companhia dos homens pode-se introduzir uma dinâmica que abale a indiferença à fé cristã e às suas exigências próprias também a muitos falsos católicos.

Acredito que, em vista de uma recuperação do primado da fé, da espera pelas coisas últimas e por uma arte da comunicação autêntica, ainda são indispensáveis a leitura e o conhecimento do Evangelho entre aqueles que compõem a comunidade cristã.

De fato, se é verdade que o cristianismo não é uma religião do Livro, é também verdade que só o Evangelho permite o conhecimento de Jesus Cristo, centro e coração do cristianismo. “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”, afirmava São Girolamo, retomado não por acaso pelo Concílio Vaticano II.

Que figura de cristão pode emergir sem um conhecimento direto de Jesus Cristo e da sua humanidade exemplar como a que pode vir da leitura e da familiaridade com os Evangelhos? Como um cristianismo em que o Evangelho não inspira a vida, a esperança e a linguagem dos fiéis conseguirá não se tornar ritual, devocional e se reduzir a um fato cultural ou social, ou até mesmo um fenômeno folclórico ou supersticioso? Só com a leitura pessoal e direta da Bíblia – e, em primeiro lugar, dos Evangelhos – o cristão pode nutrir a sua fé e robustecer a sua capacidade de testemunhá-la.

Nesse sentido, seria portanto desejável um percurso de sério aprofundamento na comunidade cristã que leve em consideração, em síntese, duas exigências. A primeira é a de colocar o acento no Evangelho, sobre o texto que o Concílio quis e soube devolver nas mãos dos católicos na sua inteireza e riqueza depois de séculos de exílio da Escritura da catequese e da pregação: alguns se admiram, outros lamentam frente ao dado que nem um quinto dos italianos afirma ter lido os quatro Evangelhos.

Como é possível, sem conhecer o Evangelho, conhecer Jesus Cristo e senti-lo como Senhor? Como se pode compreender a sua humanidade exemplar para nós, homens, o ser feito homem de Deus “para nos ensinar a viver como homens neste mundo”, segundo a expressão de São Paulo? Como perceber que o objetivo da humanização de Deus é a autêntica humanização do homem?

A segunda exigência é a escuta da humanidade de hoje, homens e mulheres: uma escuta que deve ocorrer por meio da emergência da dimensão antropológica. Sim, ao manter juntos o Evangelho e o homem, a fé e a dimensão antropológica, está em jogo o futuro da fé cristã. Se houve e se há um fracasso, é o da transmissão, da “tradição” da fé, mas o antídoto consiste apenas no restabelecer o primado do Evangelho e da escuta do humano.

Em um período em que tudo é colocado em discussão – a concepção da relação com o próprio corpo, com o outro sexo, com o sofrimento, com o tempo, com a natureza… – é preciso elaborar respostas de sabedoria que digam o que é o ser humano e como ele pode se humanizar por meio de uma qualidade de vida pessoal e de convivência.

A religião precisa do exercício da razão para não cair em formas paganizadoras, mágicas ou supersticiosas, mas também precisa que esse exercício racional ocorra não sem os outros, mas com os outros, todos habitantes da mesma pólis. Juntos, cristãos e não cristãos, devemos nos colocar a questão antropológica: o que é o homem? Para onde ele vai? Como pode viver em uma sociedade que luta contra a barbárie e em favor da humanização?

Das respostas que cada um souber dar, obtendo-as do próprio patrimônio espiritual, depende certamente o nosso futuro, mas também, já hoje, a qualidade da nossa vida pessoal e da convivência civil.

Dia Internacional da Poesia

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Dia 21 de março é o dia internacional da poesia. Dia de celebrar essa que é louca e livre, louca porque livre, liberta no exercício da sua loucura que vislumbra beleza onde outros só vêem cinza e rotineiro cotidiano.

Poesia vem do grego poíesis, que significa ‘ação de fazer algo’. Poesia, portanto, é práxis, apesar de ser a mais gratuita das práxis. Entre as suas inúmeras definições, o Aurélio nos fornece uma que nos interessa de perto : entusiasmo criador, inspiração.

O Houaiss reafirma e re-enfatiza a definição Aureliana: semelhante no latim como em grego, poesia é em latim: poésis, is ‘poesia, obra poética, obra em verso’ , assim como no grego: poíésis,eós ‘criação; fabricação, confecção; obra poética, poema, poesia’.

Arte e técnica de exprimir em verso uma determinada visão de mundo, a poesia tem sido, através dos tempos, aliada incontestável e companheira inseparável da beleza, do espírito, da inspiração. Da inspiração nos dizem a Fisiologia e a Bíblia que tem ela tudo a ver com o ar em nossos pulmões. Esse ar sem o qual não se vive, diz a Bíblia ser ele semelhante ao Espírito de Deus, o qual leva e traz a vida, sem se saber de onde vem nem para onde vai (cf. Jo 3, 1 ss).

Sob a força da inspiração, os profetas disseram com boca humana as palavras divinas, os hagiógrafos escreveram nos textos sagrados o que Deus desejava que escrevessem. É o mesmo Espírito que enche de inspiração o poeta para que passeie pelas vias da beleza e diga o que vê e o que sente em versos e palavras. Inspirada é a profecia do profeta nele derramada pelo Espírito de Deus que o possui, exaltando-o e enchendo-o de entusiasmo. Inspirada é a poesia do poeta, que seduz e arrebata corações e mentes, enlevando o ser humano no indizível que ousa dizer-se e no inefável que se atreve a expressar-se.

Por meio da palavra, escritores sagrados e poetas ultrapassaram o suporte da letra e adentraram um sistema de signos e ritmos que perpassa toda a história da humanidade. Inúmeras civilizações, desde a grega antiga à escandinava,francesa e inglesa, produziram importantes tradições orais poéticas. Inclusive, extensos poemas narrativos como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, as sagas islandesas e o Beowulf anglo-saxônico foram, presumivelmente, cantados ou entoados por rapsodos e bardos profissionais, séculos antes de terem sido postos por escrito.

Para que possa abranger essas e outras obras verbais, é útil considerar a poesia como arte verbal e inspirada. O poeta, artesão das palavras, receptor e tradutor da inspiração, deixa em aberto a questão sobre se a linguagem é escrita ou falada e derrama pelo mundo a identidade mais profunda da realidade e das coisas feita verso, ritmo, imagem e som.

Sendo arte, no entanto, a poesia não é distante da vida. Pois na verdade, a emula, a imita, a mimetiza criativamente. A poesia é como um meio de reproduzir ou recriar em palavras as experiências da vida, tal como a pintura reproduz ou recria certas figuras ou cenas da vida em contornos e cores.

Porém, ao mesmo tempo em que imita a vida, a poesia a reinterpreta e recria. Nela, na poesia, a matéria prima que é o ser humano, a vida sobre a face da terra, é remodelada e recriada até ser transformada na obra poética, em versos e palavras que se alternam e expressam o que o coração sente e o que faz o espírito vibrar.

Por isso, poesia e Escritura Sagrada, poesia e teologia encontram sua fonte na inspiração que vem de mais além, cujo segredo é desvendado progressivamente aos seres humanos que se dispõem a tratar mais intimamente com o mistério da vida gratuitamente doada pelo Criador a suas criaturas.

Salve Dia internacional da poesia! Salve que de ti temos necessidade…e muita! De ti vivemos e sem ti apenas sobrevivemos. O trabalho sem ti é escravidão. A religião sem ti é conjunto de normas e definições que não consegue mover os corações humanos. Na gratuidade dos versos do poeta, inspirado e possuído pela musa, é o próprio Criador que penetra em sua criação dando-lhe flexibilidade e sopro e fazendo acontecer no mundo o milagre do amor. A poesia pode salvar-nos…desde que não nos deixemos sufocar por sua ausência e desde que não a consideremos inutilidade ineficaz que para nada serve a não ser para ser inapelavelmente descartada.

Pois, como diz a poeta Adélia Prado:

A poesia me salvará….
Não falo aos quatro ventos
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?[1]

[1] Guia, Adélia PRADO. Poesia reunida. 4ª ed. São Paulo: Siciliano, 1995, p. 61

Carlos Mesters: A Palavra está presente em todos os setores da vida da Igreja

“Judeus, Cristãos e Muçulmanos, somos irmãos, filhos do mesmo pai Abraão”, considera o frei Carlos Mesters. Ao falar sobre a importância dos círculos bíblicos, o frei afirma que neles “a Bíblia se torna um espelho, no qual as pessoas descobrem dimensões mais profundas da sua própria vida que antes não tinham percebido”. Para ele, na entrevista que segue, concedida por e-mail para a IHU On-Line, a importância de um sínodo sobre a Bíblia no atual momento é muito grande por vários motivos, dentre os quais “o aprofundamento que a Palavra de Deus pode trazer para a vida humana” e a percepção da “importância da presença da sabedoria de Deus na leitura que os pobres do mundo inteiro fazem da Bíblia”.

Carlos Mesters é frade Carmelita, doutor em Teologia Bíblica. É natural da Holanda e ligado à caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, ajudou a criar o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos). Escreveu, entre outros, Esperança de um povo que luta (São Paulo: Paulus, 1983), Círculos bíblicos (São Paulo: Paulus, 2001), Paulo apóstolo: um trabalhador que anuncia o evangelho (São Paulo: Paulus, 2002), Bíblia: livro feito em mutirão (São Paulo: Paulus, 2002), e Por trás das palavras (Petrópolis: Vozes, 2003). Mesters é assessor de um dos bispos brasileiros na XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que ocorre de 5 a 26 de outubro, no Vaticano. A entrevista a seguir foi elaborada em parceria com a equipe de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

IHU On-Line – A leitura orante da Palavra de Deus tem tido muita difusão nas comunidades eclesiais, através dos círculos bíblicos. Qual é para o senhor a riqueza deste método e qual o seu limite?

Carlos Mesters – A riqueza deste método é que a leitura orante da Palavra de Deus provoca no povo um contato direto com a Bíblia, sem intermediários, num ambiente comunitário de fé, dentro da realidade do dia-a-dia da vida. Deste modo, vai nascendo um confronto entre Bíblia e Vida. A Bíblia se torna um espelho, no qual as pessoas descobrem dimensões mais profundas da sua própria vida que antes não tinham percebido. Você pergunta: “Qual o seu limite?”. Tudo o que é humano é limitado. Um limite aparece quando os participantes do Círculo Bíblico se fecham em si mesmos e esquecem a realidade da vida ao redor. Pois a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na Vida, na natureza, nos fatos, em tudo que acontece.

IHU On-Line – Qual é a importância de um Sínodo sobre a Bíblia no momento atual? Qual é a sua apreciação do “instrumentum laboris” para o sínodo?

Carlos Mesters – A importância de um sínodo sobre a Bíblia no atual momento é muito grande por vários motivos: 1) permite uma partilha entre os bispos, participantes do Sínodo, em torno das experiências e dos problemas no uso e na leitura que o povo faz da Bíblia nas várias partes do mundo, sobretudo nos países da América Latina, África e Ásia. Uma partilha assim enriquece a todos, ajuda relativizar os problemas e faz perceber melhor o caminho, o rumo do Espírito; 2) favorece o aprofundamento que a Palavra de Deus pode trazer para a vida humana e ajuda a descobrir melhor o alcance e o significado do documento “Dei Verbum ” do Vaticano II sobre a Revelação; 3) faz perceber a importância da presença da sabedoria de Deus na leitura que os pobres do mundo inteiro fazem da Bíblia. Isto ajudará para que a exegese científica descubra melhor qual a sua contribuição para a vida das Comunidades, para a Igreja; 4) o Sínodo sobre a “Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” completa a caminhada iniciada no Sínodo anterior sobre a Eucaristia. Quanto ao Instrumentum Laboris, a opinião geral é de que se trata de um documento bom que está dando ao sínodo um rumo positivo. O Instrumentum Laboris é o resultado das contribuições do mundo inteiro. Mostra como a Palavra está presente em todos os setores da vida da Igreja.

IHU On-Line – Que leitura o senhor faz da presença de 25 mulheres e do rabino chefe de Haifa, Israel, Shear-Yashuv Cohen, neste sínodo?

Carlos Mesters – Acho muito importante a presença das mulheres, mas ainda é pouco. Só 25 entre mais de 200 participantes. O olhar feminino descobre e revela aspectos da Palavra de Deus que o olhar masculino não percebe, e vice-versa. Os dois olhares se completam e se enriquecem mutuamente. Limitando tudo ao olhar masculino, empobrecemos a riqueza que a Palavra de Deus poderia proporcionar às Igrejas e à humanidade. Quanto à presença do Rabino chefe de Haifa, Shear-Yashuv Cohen, ela é muito significativa e muito importante nos nossos dias. Ela nos ajuda a recuperar a memória. Não podemos esquecer nunca que Jesus era judeu, nasceu judeu, viveu como judeu e morreu como judeu. Todo o Novo Testamento é uma interpretação do Antigo Testamento à luz de Jesus. Temos muito a aprender uns dos outros. No passado, essa perda de memória a respeito da nossa origem nos levou a erros e crimes ao longo dos séculos. Recuperar a memória significa recuperar nossa identidade através do diálogo com nossos irmãos judeus. Em mim nasce o desejo de que, um dia, possa fazer o mesmo com nossos irmãos muçulmanos. Judeus, cristãos e muçulmanos, somos irmãos, filhos do mesmo pai Abraão.

IHU On-Line – Por que os livros apócrifos atraem tanto ao público? Não é tempo de fazer uma leitura de como foram selecionados os livros que hoje formam a Bíblia e revisar os que ficaram de fora?

Carlos Mesters – Acho que não há o que revisar. Os livros chamados apócrifos atraem porque são considerados proibidos. Tudo que é proibido atrai. Na realidade, nunca foram proibidos. Apócrifico quer dizer que estes livros não fazem parte da lista oficial. Deveriam ser chamados de livros “não-canônicos”. É bom notar que os livros apócrifos mais tardios, escritos entre o século V e VIII, têm uma tendência anti-semita, o que não é bom. É deplorável. Alguns chegam quase a considerar Pilatos como um homem honesto que foi enganado pelos judeus para condenar Jesus. Isto não corresponde à verdade histórica.

IHU On-Line – Que hermenêuticas o senhor apontaria como importantes, hoje, na leitura da Palavra, para não cair em fundamentalismos, literalismos ou leituras ideológicas?

Carlos Mesters – Todas as hermenêuticas que ajudam o povo a descobrir a presença da Palavra de Deus na vida são importantes: a hermenêutica feminina, a negra, a indígena, a leitura que os pobres fazem da Bíblia, enfim, tudo que faz a gente olhar os textos com um olhar a partir da realidade das pessoas. Resumindo, acho importante seguir os três passos do método ou da hermenêutica que Jesus usou com os discípulos na estrada de Emaús. O primeiro passo: aproximar-se das pessoas, escutar sua realidade e seus problemas; ser capaz de fazer perguntas que as ajudem a olhar a realidade da vida com um olhar mais crítico (Lc 24,13-24). O segundo passo: com a luz da Palavra de Deus iluminar a situação que os fazia sofrer e os levou a fugir de Jerusalém para Emaús; usar a Bíblia para fazer arder o coração (Lc 24,25-27). O terceiro passo: criar um ambiente orante de fé e de fraternidade, onde possa atuar o Espírito que abre os olhos, faz descobrir a presença de Jesus e transforma a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Assim, aquilo que antes gerava desânimo e cegueira, torna-se luz e força na caminhada (Lc 24,28-32). O resultado do uso da Bíblia é o de criar coragem e voltar para Jerusalém, onde continuam ativas as forças de morte que mataram Jesus, e experimentar a presença viva de Jesus e do seu Espírito na experiência de Ressurreição (Lc 24,33-35). O objetivo último da Leitura Orante da Bíblia ou da Lectio Divina não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida. Não é conhecer o conteúdo do Livro Sagrado, mas, ajudado pela Palavra escrita, descobrir, assumir e celebrar a Palavra viva que Deus fala hoje na nossa vida, na vida do povo, na realidade do mundo em que vivemos (Sl 95,7); é crescer na fé e experimentar, cada vez mais, que “Ele está no meio de nós!”

Leitura Orante, outra vez!

O grupo da leitura Orante da Bíblia mais uma vez reuniu-se neste tempo do Advento e seguindo as sugestões do Frei Carlos Mesters leu e orou o texto de Mateus 1,18-24.

A experiência foi intensa de oração e resposta à palavra de Deus para nós.

A Leitura Orante da Bíblia tão antiga e tão nova na vida da Igreja tem a força e a ternura de nos renovar tendo uma postura de “ler a palavra de Deus para escutar o que Deus tem a dizer,para conhecer sua vontade e viver melhor o Evangelho de Jesus Cristo” como nos diz o Frei Mesters, e de descobrir na Bílblia o espelho do que vivemos hoje interpretando a vida.

O texto escolhido mexeu com todos, fez uma reviravolta na cabeça e nos fez orar com grande confiança no Amor Divino que age em nossas impossibilidades e que nos mostra que o novo nasce dos fracos e pequenos.

Leitura Orante da Bíblia

Nossa comunidade fez ontem a Leitura Orante da Bíblia orientada pelo texto do Frei Carlos Mesters e ilustrada pela Irmã Elda Broilo, publicado pelas Paulinas.

O texto do evangelho de Lucas 1,39-47 foi o escolhido, Izabel e Maria, a visita, o encontro, a vida que pulsa no ventre de duas pobres mulheres, a fé na palavra de Deus, a esperança que resiste a história que se transforma,o serviço aos irmãos e irmãs.

Os dez pontos para orientar a leitura orante foram seguidos,procuramos aprofundar a mística que deve animar a leitura orante da Bíblia. A experiência foi impressioante, profunda, pessoal e comunitária, todos estavam envolvidos pela palavra de Deus ontem e hoje.

Duas frases marcaram a minha mente:
O olhar de Izabel, o olhar de Maria!
Respeitar o mistério do outro!

Nosso grupo era pequeno mas muito envolvido e ciente que o recente sínodo sobre a Palavra de Deus nos pediu empenho na Leitura orante da Bíblia, queremos continuar essa experiência na semana que vem e no ano próximo mensalmente. Vale a pena! Participe!

Um pouco sobre a Bíblia

A palavra Bíblia é originária do idioma grego e significa “coleção de livros”; é dessa palavra que deriva o termo “biblioteca”. Esses livros contêm a história da Criação, da Salvação, da formação dos povos, das origens dos conflitos terrestres, entre outros vários temas.

Para um melhor entendimento, alguns estudiosos preferem caracterizar a Bíblia como uma “grande carta” enviada por Deus a todos os cristãos. A Bíblia foi escrita durante muitíssimo tempo. Seu início ocorreu antes da vinda de Cristo, com as chamadas “traduções orais”, que vêm a ser as histórias que uns contavam a outros. Bem antes do nascimento de Cristo, os chamados escribas decidiram “passar para o papel” essas histórias. Com isso, pouco a pouco, a Bíblia foi sendo formada.

A Bíblia terminou de ser escrita por volta do ano 100 d.C., com o Apóstolo João Evangelista (que escreveu o Apocalipse). Foi escrita por várias pessoas, mas todas com inspiração divina.

A Bíblia é formada por um total de 73 livros, dos quais 46 formam o Antigo Testamento e 27 constituem o conjunto dos livros do Novo Testamento. É correto afirmar, então, que a Bíblia é dividida em duas grandes partes: Antigo Testamento e Novo Testamento. A palavra testamento significa aliança, compromisso, pacto, primeiro com Moisés, segundo com Jesus Cristo (plena).

Antigo Testamento

O Antigo Testamento fala da Criação do mundo, as alianças que Deus fez com os homens, as profecias que anunciavam a vinda do Messias, a fidelidade e infidelidade do povo de Deus, e principalmente a preparação do povo escolhido de onde viria o Verbo Encarnado.

Salmos

O livro dos Salmos com 150 (cento e cinqüenta) orações, é o coração do Antigo Testamento.
Podemos dizer que os Salmos formam uma coleção de Poemas. Um canto de louvor a DEUS LIBERTADOR, que ouve o clamor do povo e se torna presente.

“Eles acalmam nossa ira, afastam nossas preocupações e nos confortam em nossas tristezas. De noite são uma arma, de dia um instrumento, no perigo são uma defesa, nas festividades nossa alegria, expressam a tranqüilidade de nosso espírito, são uma prenda de paz e concórdia, são como a cítara que une em um único canto as vozes mais diversas.

Com os Salmos celebramos o nascimento do dia e cantamos seu ocaso.”

Salmos de ação de graças e confiança:
8, 21, 23, 27 e 85.

Salmos de súplica:
16, 25, 27, 67 e 85.

Salmos penitenciais:
50, 129.

(Para conhecer os Salmos, visite a Capela Virtual Paulinas)

Novo Testamento

O Novo Testamento possui quatro livros (Mateus, Marcos, Lucas e João) que contam toda a vida de Jesus Cristo, desde o seu nascimento até a sua ascensão ao céu. Esses quatro livros formam um conjunto denominado evangelho. O Novo Testamento é também constituído por várias cartas (também chamadas epístolas), que foram escritas pelos apóstolos com o objetivo de direcionar a Igreja fundada por Cristo. Além do evangelho e das cartas, o Novo Testamento possui um livro que conta os primórdios da Igreja Cristã e outro livro profético que fala da Segunda Vinda do Messias, o Apocalipse.

A Bíblia original foi escrita em três idiomas: o hebraico, o aramaico e o grego. O Antigo Testamento foi totalmente escrito em hebraico. Já o Novo Testamento foi a maior parte escrita em grego e uma pequena parte em aramaico (que vem a ser um dialeto do hebraico). Por curiosidade, o idioma que Cristo falava era o aramaico.

Com o tempo, foram surgindo as traduções. Hoje em dia, a Bíblia é o livro mais traduzido no mundo inteiro. Isso foi graças ao esforço de muitos estudiosos da época. São Jerônimo é um grande exemplo disso; foi ele quem traduziu a Bíblia para o latim, no século III d.C. . Pouco a pouco, logo após a tradução para o latim, a Bíblia foi sendo traduzida em mais e mais línguas. Até chegar ao que temos hoje: o livro mais lido mundialmente.

No ano de 1966, no Concilio Vaticano II, o Papa João XXIII com suas mudanças, colocou a Bíblia nas mãos do povo.

A Interpretação da Bíblia é algo muito importante e delicado. A Igreja Católica, que vem a ser a Igreja fundada por Jesus Cristo, vem desde os seus primórdios adotando a tradição apostólica, ou seja, os ensinamentos de Jesus não foram deturpados e muito menos interpretados de modo diferente desde sua origem. Ao ler a Bíblia, deve-se ter bastante cuidado, pois muitas são as palavras estranhas, os exemplos difíceis de serem entendidos e, principalmente, muitos são os equívocos que se cansa de cometer na tentativa de interpretá-la sem a ajuda de um padre, um catequista, um teólogo, ou seja, um conhecedor do assunto.

A BÍBLIA É UMA CARTA DE AMOR DE DEUS A SEUS FILHOS.

A diferença entre a Bíblia Protestante e a Bíblia Católica

Tanto a Bíblia Católica como a Bíblia Protestante devem ser consideradas Palavra de Deus! A única diferença entre elas é em relação ao número de livros, ou seja, a Bíblia Protestante possui sete livros a menos do que a Bíblia Católica. Esses livros são os seguintes: Tobias, Judite, Macabeus I, Macabeus II, Eclesiástico, Sabedoria e Baruc.

Setembro: Mês da Bíblia

Dia 30 de setembro é o Dia da Bíblia, dia de São Jerônimo que passou a maior parte de sua vida recluso, traduzindo a Bíblia para o latim.


Este texto foi redigido e elaborado pela Rita Aparecida (Ritinha), da Equipe da Pastoral do Batismo, da comunidade São Martinho de Lima e tantas outras, sendo um compêndio de várias fontes, tais como: Curso sobre a Bíblia, Livros de Curiosidades, Programas da Rádio 9 de Julho, entre outras.