Bíblia

Leitura Orante da Palavra de Deus

Frei Carlos Mesters

Uma prática antiga, sempre nova

“A Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” (Dt 30,14)

Há pessoas que acham a Bíblia um livro difícil. Dizem que ela só serve para o estudo das coisas de Deus, mas não para rezar e fazer a pessoa crescer na intimidade com Deus. No AT, já havia gente que pensava assim achando que só alguns poucos seriam capazes de descobrir e entender a Palavra de Deus. Por exemplo, pessoas estudadas e viajadas, capazes de entender as coisas do céu e da terra. More →

Em que não crê quem crê em Deus

Marcelo Barros

Com um título parecido com este, (O que crê quem não crê), o Cardeal Carlo Martini, ex-arcebispo de Milão e o escritor Umberto Eco nos presentearam com um belo livro de diálogos sobre a fé, a dúvida e a descrença. De fato, estamos sempre desafiados a aprofundar este assunto, quando nos deparamos com certas posições de pessoas que não somente se dizem crentes, mas pretendem falar em nome de Deus.

Moscou ainda se recuperava dos violentos ataques terroristas que sofreu neste mês com dezenas de vítimas fatais e muitos feridos, quando, nos jornais, um pregador cristão fundamentalista declarou que aquilo aconteceu como castigo divino, porque a sociedade russa é cada vez mais alheia à fé e à moral cristã. Já o pastor norte-americano Pat Robertson afirmou à imprensa: “o terremoto do Haiti aconteceu porque, há 200 anos, os haitianos teriam feito um pacto com o diabo para obter o fim da dominação francesa. Agora, seus descendentes sofrem as conseqüências daquela aliança maléfica”. Racismos e discriminações sociais à parte, este tipo de teologia não existe apenas em ambientes pentecostais. Na Itália, na Semana Santa de 2009, um terremoto devastou a cidade de Áquila e seus arredores. A Rádio Maria divulgou a opinião de Lívio Gonzaga, líder católico carismático: “O Senhor quis que, nesta semana santa, os habitantes de Áquila participassem do seu sofrimento e sua paixãol” (6ª f., 10/04/ 2009).

Há quem use este mesmo tipo de pensamento para consolar uma mãe que chora a perda de um filho ou filha, arrancada da vida em plena infância: “Deus quis assim”, ou “foi a vontade de Deus”. Que Deus é esse que quer a morte de crianças inocentes? Recentemente, no Recife, em um sinal de trânsito, um táxi parou ao lado de um automóvel de luxo que tinha colado no vidro um adesivo: “Este carro foi presente de Deus”. O taxista reagiu: “Que Deus é este que te deu um presente tão caro e a tantos aí não dá nem o que comer?”. Lembrei-me do primeiro acidente da TAM. O fokker decolou de Congonhas e caiu perto da pista, matando 89 pessoas. Quando parentes das vítimas se acotovelavam no aeroporto a procurar, aflitos, notícias de seus entes queridos, apareceu um senhor que declarou tranquilamente: “Eu deveria tomar este avião, mas houve um engarrafamento no trânsito e cheguei atrasado. Deus me salvou!”. Salvou a ele e deixou morrer 89 pessoas…

A Bíblia é muito sábia ao insistir no mandamento que a tradição cristã traduziu como: “Não pronunciar o nome de Deus em vão”. Em cada celebração pascal, na renovação do batismo, a comunidade cristã é convidada a dizer em que Deus crê. Entretanto, para isso, deve antes deixar claro em que Deus não crê. É isso que significa hoje o que, em outros tempos, se denominava renunciar ao demônio e a suas obras. Hoje, mais do que nunca, somos chamados a rejeitar as falsas imagens de um Deus que dá êxito a poucos e despreza a maioria da massa humana. Não podemos crer em uma divindade com a qual podemos negociar. Deus não é tapa-buraco para resolver problemas e mistérios que, através da ciência ainda não conseguimos superar. Em 1943, de uma prisão nazista, em uma carta ao cunhado, Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo luterano, escreve: “Deus nos faz viver neste mundo, sem nos servirmos de sua presença. Durante todo o tempo, vivemos diante de Deus e com Deus, mas como se Deus não existisse. Não devemos nos utilizar dele como uma hipótese de trabalho. Desde que criou o mundo, ele deu a suas criaturas e ao ser humano a autonomia de existir. Aceitou se retirar e fica feliz quando nos vê como seres que podem viver e prosseguir por conta própria sem, para tudo, se esconder em seu manto” Cf. Resistência e Submissão).

Na mesma época, Simone Weil, intelectual e mística francesa, afirmava: “Eu sei quem é de Deus não quando me fala de Deus, mas pela forma como se relaciona com as outras pessoas e como orienta a sua vida”. Na Idade Média se conta de São Francisco de Assis que este se aproximava de Roma com alguns irmãos. Um mendigo se aproxima do grupo e pede comida. O irmão encarregado da bolsa responde que não tem nada, já que eles também estão vivendo de esmola. Francisco procura o irmão e lhe diz: Por que você não vende a Bíblia que temos para dar comida ao mendigo? O irmão responde: “Nós precisamos da única Bíblia que temos. Além disso, vender a Bíblia seria um sacrilégio”. Francisco retruca: “Como todo pai, Deus prefere que alimentemos um filho seu que está com fome. E não é certo que precisamos da Bíblia. Já a escutamos e as palavras do livro sagrado devem se transformar na pessoa que a lê ou escuta. Nós é que somos a Bíblia viva de Deus” (Cf. Os fioretti).

A pedagogia do Advento

Domingos Zamagna

Em Minas Gerais tive um professor alemão que costumava pilheriar com os alunos dizendo que “a História é a sucessão de sucessos que se sucedem sucessivamente”. Mas depois ele nos falava, com palavras adequadas para adolescentes, da história como processo, animado por uma espécie de poder secreto que se desvela no tempo e no espaço. A história, com suas chances e fracassos, ambigüidades e conquistas. Falava com a experiência de duas guerras mundiais, uma longa fuga pela Sibéria e muitos anos de magistério no Brasil, de coração transbordante de fé e amor. Saudades desses velhos mestres que nos enriqueciam cultural e moralmente, sem jamais envenenar as inteligências dos jovens com ideologias tolas e preconceitos!

O reinício do Ano Litúrgico, com o primeiro domingo do Advento e a preparação imediata para o Natal, nos proporciona a reflexão sobre o mistério da história e da sua salvação. A Bíblia entende a história como uma sucessão de gerações. E cada geração dá a sua contribuição para, guiadas todas pela Providência divina, descobrirem o desígnio de Deus. Um desígnio sempre “novo”, mas um novo que não se reduz às “novidades”, que estas podem converter-se num retumbante, superado e estéril arcaísmo. Um novo que pode transformar, e habitar permanentemente, até mesmo no que alguns chamam de banalidade do quotidiano.

O que importa é saber que Deus -eterno em si mesmo- quis se relacionar com a nossa raça, e a divinizou, na forte expressão dos Padres Gregos. Tocou a fragilidade do tempo, a precariedade do espaço e a ambigüidade da história: enviando-nos o seu Filho para, pelo mistério da Encarnação, ser um de nós, ele deu dimensão de santidade a todas as realidades humanas. Noutras palavras: deu-nos a possibilidade de nos subtrair à sedução mítica e idolátrica do quotidiano, que nos impedia de ampliar nossos horizontes. A graça que nos vem do Redentor nos projeta para além dos limites espaciais, temporais e históricos: “novos céus e novas terras”, como profetizou Isaías.

O ano litúrgico da Igreja, que está prestes a se iniciar, é uma maravilhosa e atualíssima pedagogia: dia após dia, ciclo após ciclo, somos encaminhados -a história da Igreja é uma caminhada- para o esperançoso amadurecimento da fé, pelo aumento da compaixão, da solidariedade (ágape) e o gozo da paz salvífica.

JESUS, Formando e Formador

Carlos Mesters

Palestra na 3ª Semana Brasileira de Catequese, de 06 a 1/10/09, em Itaici, Indaiatuba, SP. Conteúdo publicado originalmente no site Adital

Geralmente, quando falamos de Jesus, não costumamos ver nele o formando, mas só o formador. Na realidade, Jesus, igual a nós em tudo, menos no pecado (Hb 4,15), viveu o mesmo processo de aprendizagem, próprio de todo ser humano. Como todo mundo, crescia em sabedoria, tamanho e graça, diante de Deus e dos homens (Lc 2,52). Naqueles trinta anos em Nazaré, Jesus “crescia e ficava forte, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). E mesmo depois, ao longo dos três anos da sua vida como formador dos discípulos e das discípulas, ele ia aprendendo no contato com o povo, com os discípulos e com os fatos duros da vida. “Mesmo sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente através de seus sofrimentos” (Hb 5,8). Como todos nós, ele matriculou-se na escola da vida e tornou-se discípulo aplicado de Deus e do povo.

Falando de “Jesus formando e formador”, não se trata de dois períodos distintos, como se nos trinta anos em Nazaré Jesus fosse só formando, e nos outros três anos fosse só formador. Na realidade, o formando sempre é fator de formação para seu próprio formador. O formador se forma formando seus discípulos. Uma vez tendo formado o discípulo, o formador desaparece.

1. Seguir Jesus

2. O amigo que convive e forma para a vida

3. Jesus forma os discípulos envolvendo-os na missão

4. O método participativo das Parábolas

5. Atento ao processo de formação dos discípulos

6. Conteúdos e recursos didáticos


1. Seguir Jesus

Desde o começo, o objetivo do seguimento é duplo: estar com Jesus, formar comunidade com ele e ir em missão, ou seja, pregar, expulsar os demônios, ser pescador de gente (Mc 1,17; Lc 5,10; Mc 3,13-15). “Seguir Jesus” era o termo que fazia parte do sistema educativo da época. Indicava o relacionamento do discípulo com o mestre. O relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre uma determinada matéria, mas não convivem com ele. Os discípulos “seguem” o mestre e se formam na convivência diária com ele, dentro do mesmo estilo de vida.

O seguimento de Jesus tinha três dimensões que perduram até hoje e que formam o eixo central do processo de formação dos discípulos:

* Imitar o exemplo do Mestre:

Jesus era o modelo a ser recriado na vida do discípulo ou da discípula (Jo 13,13-15). A convivência diária com o mestre permitia um confronto constante. Nesta “escola de Jesus” só se ensinava uma única matéria: o Reino! E este Reino se reconhecia na vida e na prática do Mestre. Isto exige de nós leitura e meditação constantes do Evangelho para olharmos no espelho da vida de Jesus.

* Participar do destino do Mestre.

A imitação do Mestre não era um aprendizado teórico. Quem seguia Jesus devia comprometer-se com ele e “estar com ele nas tentações” (Lc 22,28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt 10,24-25). Devia estar disposto a carregar a cruz e a morrer com ele (Mc 8,34-35; Jo 11,16). Isto exige de nós um compromisso concreto e diário de fidelidade com o mesmo ideal comunitário com que Jesus, fiel ao Pai, se comprometia.

* Ter a vida de Jesus dentro de si.

Depois da Páscoa, surge uma terceira dimensão, fruto da fé na ressurreição e da ação do Espírito na vida das pessoas. Trata-se da experiência pessoal da presença de Jesus ressuscitado, que levava os primeiros cristãos a dizer: “Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Eles procuravam refazer em suas vidas a mesma caminhada de Jesus que tinha morrido em defesa da vida e foi ressuscitado pelo poder de Deus (Fl 3,10-11). Isto exige de nós uma espiritualidade de entrega contínua, alimentada na oração.

Tanto a convivência comunitária estável ao redor de Jesus e a missão itinerante através dos povoados da Galileia, as duas dimensões fazem parte do mesmo processo de formação. Uma não exclui a outra. Pelo contrário! Elas se completam mutuamente. Uma sem a outra, não se realiza, pois a missão consiste em reconstruir a vida em comunidade.

2. O amigo que convive e forma para a vida

Ao longo daqueles três anos, Jesus acompanhava os discípulos. Ele era o amigo (Jo 15,15) que convivia com eles, comia com eles, andava com eles, se alegrava com eles, sofria com eles.

Era através desta convivência que eles se formavam. Muitos pequenos gestos refletem o testemunho de vida com que Jesus marcava presença na vida dos discípulos e das discípulas: o seu jeito de ser e de conviver, de relacionar-se com as pessoas e de acolher o povo que vinha falar com ele. Era a maneira de ele dar forma humana à sua experiência de Deus como Pai:

* Amigo, comparte tudo, até mesmo o segredo do Pai (Jn 15,15).

* Carinhoso, provoca respostas fortes de amor (Lc 7,37-38; 8,2-3; Jo 21,15-17; Mc 14,3-9; Jo 13,1).

* Atencioso, preocupa-se com a alimentação dos discípulos (Jo 21,9), cuida do descanso deles e procura estar a sós com eles para repousar (Mc 6,31).

* Pacífico, ele inspira paz e reconciliação: “A Paz esteja com vocês!” (Jn 20,19; Mt 10,26-33; Mt 18,22; Jn 20,23; Mt 16,19; Mt 18,18).

* Compreensivo, aceita os discípulos do jeito que são, até mesmo a fuga, a negação e a traição, sem romper com eles (Mc 14,27-28; Jn 6,67).

* Comprometido, defende os amigos quando são criticados pelos adversários (Mc 2,18-19; 7,5-13).

* Manso e humilde, convida os pobres e oprimidos: “Venham todos a mim” (Mt 11,28).

* Exigente, pede para deixar tudo por amor a ele (Mc 10,17-31).

* Sábio, conhece a fragilidade dos seus discípulos, sabe o que se passa no coração deles e, por isso, insiste na vigilância e ensina-os a rezar (Lc 11,1-13; Mt 6,5-15).

* Homem de oração, aparece rezando em todos os momentos importantes de sua vida e desperta nos discípulos a vontade de rezar: “Senhor, ensina-nos a rezar!” (Lc 11,1-4; Lc 4,1-13; 6,12-13; Jn 11,41-42; Mt 11,25; Jn 17,1-26; Lc 23,46; Mc 15,34)

* Humano, Jesus é humano, muito humano, “tão humano como só Deus pode ser humano” dizia o Papa Leão Magno (Séc. V). Ele veio nos mostra o caminho para quem quer ser divino: antes de tudo ser profundamente humano! (cf. Fl 2,6-11)

Deste modo, pelo seu jeito de ser e por este seu testemunho de vida, Jesus encarnava o amor de Deus e o revelava aos discípulos e discípulas (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14,9). Tornava-se para eles uma pessoa significativa que os marcou pelo resto de sua vida como “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6).

3. Jesus forma os discípulos envolvendo-os na missão

Desde o primeiro momento do chamado, Jesus envolve os discípulos na missão que ele mesmo estava realizando em obediência ao Pai. A participação efetiva no anúncio do Reino faz parte do processo formador, pois a missão é a razão de ser da vida comunitária ao redor de Jesus. (Lc 9,1-2; 10,1). Eles devem ir, dois a dois, para anunciar a chegada do Reino (Mt 10,7; Lc 10,1.9), curar os doentes (Lc 9,2), expulsar os demônios (Mc 3,15), anunciar a paz (Lc 10,5; Mt 10,13) e rezar pela continuidade da missão (Lc 10,2). Eis alguns aspectos desta sua atitude formadora com relação à missão:

* corrige-os quando erram e querem ser os primeiros (Mc 9,33-35; 10,14-15)

* sabe aguardar o momento oportuno para corrigir (Lc 9,46-48; Mc 10,14-15).

* ajuda-os a discernir (Mc 9,28-29),

* interpela-os quando são lentos (Mc 4,13; 8,14-21),

* prepara-os para o conflito e a perseguição (Jo 16,33; Mt 10,17-25),

* manda observar a realidade (Mc 8,27-29; Jo 4,35; Mt 16,1-3),

* reflete com eles as questões do momento (Lc 13,1-5),

* confronta-os com as necessidades do povo (Jo 6,5),

* ensina que as necessidades do povo estão acima das prescrições rituais (Mt 12,7.12),

* esquece o próprio cansaço e acolhe o povo que o procura (Mt 9,36-38).

* tem momentos a sós com eles para poder instruí-los (Mc 4,34; 7,17; 9,30-31; 10,10; 13,3),

* sabe escutar, mesmo quando o diálogo é difícil (Jo 4,7-30).

* ajuda as pessoas a se aceitarem a si mesmas (Lc 22,32).

* é severo com a hipocrisia (Lc 11,37-53).

* faz mais perguntas do que respostas (Mc 8,17-21).

* é firme e não se deixa desviar do caminho (Mc 8,33; Lc 9,54).

* desperta liberdade e libertação: “O ser humano não foi feito para o sábado, mas o

sábado para o ser humano!” (Mc 2,27; 2,18.23)

* depois de tê-los enviado em missão, na volta faz revisão com eles (Lc 9,1-2;10,1; 10,17-20)

* desperta a atenção dos discípulos para as coisas da vida através do ensino das Parábolas (Lc 8,4-8).

4. O método participativo das parábolas

Jesus tinha uma capacidade muito grande de inventar parábolas ou pequenas histórias para comparar as coisas de Deus, que não são tão evidentes, com as coisas da vida do povo que todos conheciam e experimentavam diariamente na sua luta pela sobrevivência. Isto supõe duas coisas: estar por dentro das coisas da vida do povo, e estar por dentro das coisas de Deus, do Reino de Deus.

A parábola é uma forma participativa de ensinar e de educar. Não dá tudo trocado em miúdo. Não faz saber, mas faz descobrir. Ela muda os olhos, faz a pessoa ser contemplativa, observadora da realidade. Leva a pessoa a refletir sobre a sua própria experiência de vida, e faz com que esta experiência a leve a descobrir que Deus está presente no cotidiano da vida de cada dia. Por exemplo, o agricultor que escuta a parábola da semente, diz: “Semente no terreno, eu sei o que é. Mas Jesus diz que isso tem a ver com o Reino de Deus. O que será que ele quis dizer com isto?” E aí você pode imaginar as longas conversas do povo e dos discípulos em torno das parábolas que Jesus contava.

A parábola provoca. Em algumas parábolas acontecem coisas que não costumam acontecer na vida normal. Por exemplo, onde se viu um pastor de cem ovelhas abandonar noventa e nove no deserto para encontrar aquela única ovelha que se perdeu? (Lc 15,4) Onde se viu um pai acolher com festa o filho devasso, sem dar nenhuma palavra de censura? (Lc 15,20-24). Onde se viu um samaritano ser melhor que o levita e o sacerdote? (Lc 10,29-37). A parábola traz um exagero pedagógico. Ela provoca assim para levar o ouvinte a pensar. Ela leva a pessoa a se envolver na história a partir da sua própria experiência de vida.

Uma vez um bispo perguntou numa reunião da comunidade: “Jesus falou que devemos ser como sal. Para que serve o sal?” Discutiram e, no fim, partilhando entre si suas experiências com o sal, encontraram mais de dez finalidades para o sal. Aí eles foram aplicar tudo isto à sua própria vida e descobriram que ser sal é difícil e exigente! A parábola funcionou e ajudou-os a dar um passo. Iniciaram a travessia em direção ao Reino!

Certa vez, por ocasião da parábola da semente, os discípulos perguntaram a Jesus o que ele queria ensinar por meio daquela parábola. Jesus disse: “Para vocês, foi dado o mistério do Reino de Deus; para os que estão fora tudo acontece em parábolas, para que olhem, mas não vejam, escutem, mas não compreendam, para que não se convertam e não sejam perdoados.” (Mc 4,11-12).

Jesus distingue duas categorias de pessoas: “os de fora” e os “de dentro”. Aos de dentro, isto é, aos discípulos que convivem com Jesus e acreditam nele, é dado conhecer o mistério do Reino, pois o mistério do Reino era o próprio Jesus. Jesus é a semente do Reino. Aos de fora, isto é, aos que não faziam parte da “família de Jesus”, tudo é dito em parábolas, “para que vendo não vejam”. Estes, os de fora, sabem o que é semente, mas não sabem que o próprio Jesus é esta semente. Alguns deles, como por exemplo, aqueles fariseus e os herodianos que queriam matar Jesus (Mc 3,6), nunca aceitariam Jesus ser a semente do Reino. Por isso, mesmo vendo não enxergam e ouvindo não entendem. E por causa desta cegueira eles se excluem a si mesmos do Reino.

Só poucas vezes Jesus explica as parábolas. Geralmente, ele diz: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça!” (Mt 13,9; 11,15; 13,43; Mc 7,16). Ou seja: “É isso! Vocês ouviram! Agora tratem de entender!” De vez em quando, em casa, ele dava explicação aos discípulos (Mc 4,34-34). Isto significa que o ensino em parábola era um voto de confiança de Jesus na capacidade do povo e dos discípulos de entenderem o seu ensinamento. É bom para o formando saber e experimentar que o formador acredita nele e na sua capacidade de assimilar e compreender as coisas.

5. Atento ao processo de formação dos discípulos

Não é pelo fato de uma pessoa andar com Jesus e de conviver com ele que ela já seja santa e renovada. O “fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15), a ideologia dominante da época, tinha raízes profundas na vida daquele povo. A conversão que Jesus pedia e a formação que ele dava procuravam atingir e erradicar de dentro deles esse “fermento” da ideologia dominante.

Também hoje, a ideologia do sistema neoliberal renasce sempre de novo na vida das comunidades e dos discípulos e discípulas. O “fermento do consumismo” tem raízes profundas na vida, tanto dos formandos como dos formadores, e exige uma vigilância constante. Jesus ajudava os discípulos a viverem num processo permanente de formação. Vamos ver alguns casos desta vigilância com que Jesus os acompanhava e os ajudava a tomarem consciência do “fermento de Herodes e dos fariseus”. É a ajuda fraterna com que ele, atento ao processo de formação dos discípulos, intervinha para ajudá-los a dar um passo e criar nova consciência:

1. Mentalidade de grupo fechado.

Certo dia, alguém que não era da comunidade, usava o nome de Jesus para expulsar os demônios. João viu e proibiu. Ele disse a Jesus: “Impedimos, porque ele não anda conosco” (Mc 9,38). 5 João pensava ter o monopólio de Jesus e queria proibir que outros usassem o nome dele para realizar o bem. Era a mentalidade antiga de “Povo eleito, Povo separado!”. Jesus responde: “Não impeçam! Quem não é contra é a favor!” (Lc 9,39-40). Para Jesus, o que importa não é se a pessoa faz ou não faz parte da comunidade, mas sim se ela faz ou não o bem que a comunidade anuncia a todos em nome de Deus.

2. Mentalidade do grupo que se considera superior aos outros. Certa vez, os samaritanos não queriam dar hospedagem a Jesus. A reação de alguns discípulos foi violenta: “Que um fogo do céu acabe com esse povo!” (Lc 9,54). Queriam imitar o profeta Elias (cf. 2Rs 1,10-11). Achavam que, pelo fato de estarem com Jesus, todos deviam acolhê-los. Pensavam ter Deus do seu lado para defendê-los. Era a mentalidade antiga de “Povo eleito, Povo privilegiado!”. Jesus os repreende: “Vocês não sabem de que espírito estão sendo animados” (Lc 9,55).

3. Mentalidade de competição e de prestígio.

Os discípulos brigavam entre si pelo primeiro lugar (Mc 9,33-34). Era a mentalidade de classe e de competição, que caracterizava a sociedade do Império Romano. Ela já se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas nascendo ao redor de Jesus. Jesus reage e manda ter a mentalidade contrária: “O primeiro seja o último” (Mc 9,35). É o ponto em que ele mais insistiu e em que mais deu o próprio testemunho: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16).

4. Mentalidade de quem marginaliza o pequeno.

Mães com crianças querem chegar perto de Jesus. Os discípulos as afastam. Era a mentalidade da cultura da época na qual criança não contava e devia ser disciplinada pelos adultos. Era ainda o medo de que as mães e as crianças, tocando em Jesus com mãos impuras, causassem alguma impureza em Jesus. Mas Jesus os repreende: “Deixem vir a mim as crianças!” (Mc 10,14). Ele os acolhe, abraça e abençoa. Coloca a criança como professora de adulto: “Quem não receber o Reino como uma criança, não pode entrar nele” (Lc 18,17). Transgride aquelas normas da pureza legal que impedem o acolhimento e a ternura.

5. Mentalidade de quem segue a opinião da ideologia dominante.

Certo dia, vendo um cego, os discípulos perguntaram a Jesus: “Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9,2). Como hoje, o poder da opinião pública era muito forte. Fazia todo mundo pensar do mesmo jeito de acordo com a ideologia dominante. Enquanto se pensa assim não é possível perceber todo o alcance da Boa Nova do Reino. Jesus os ajuda a ter uma visão mais crítica: “Nem ele, nem os pais dele, mas para que nele se manifestem as obras de Deus” (cf Jo 9,3). A resposta de Jesus supõe uma consciência nova e uma leitura diferente da realidade.

Estes e muitos outros episódios mostram como Jesus estava atento ao processo de conversão e de formação em que se encontravam seus discípulos. Isto revela duas características em Jesus: 1) Possuía uma visão crítica, tanto da sociedade em que ele vivia, como da ideologia ou “fermento” que os grandes comunicavam aos súditos. 2) Tinha uma percepção clara de como este “fermento”, disfarçadamente, se infiltrava na vida das pessoas. Pois de certo modo, eles pensavam agradar a Jesus quando proibiam as mães aproximar-se de Jesus ou quando pediam para Deus fazer baixar o fogo do céu.

6. Conteúdos e Recursos didáticos

O sistema educativo da época era bem diferente de hoje. Jesus era Mestre, Rabino. Não era professor. Seus formandos não eram alunos, mas sim discípulos e discípulas. Mesmo assim, apesar de ser diferente de hoje, vamos arriscar uma resposta para a seguinte pergunta: Quais eram os conteúdos e recursos didáticos em que Jesus mais insistia e a que dava mais atenção no processo de formação dos discípulos?

* O testemunho de vida.

O recurso básico que Jesus utiliza na formação dos discípulos é o testemunho de sua vida: “Segue-me” (Lc 5,27). “Venham e vejam” (Jo 1,39). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jn 6 14,16). O discípulo tem na vida do Mestre uma norma (Mt 10,24-25). Neste seu testemunho de vida Jesus reflete para os discípulos os traços do rosto de Deus: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). A raiz da Boa Nova é Deus, o Pai. A raiz da transparência de Jesus é a sua fidelidade ao Pai e a sua coerência com a Boa Nova que anuncia e irradia.

* A Vida e a natureza.

Jesus descobre a vontade do Pai nos fenômenos mais comuns da natureza e a transmite aos discípulos e discípulas: na chuva que cai sobre bons e maus ele descobre a misericórdia do Pai que acolhe a todos (Mt 5,45); nos pássaros do céu e nos lírios do campo ele descobre os sinais da Divina Providência (Mt 6,26-30). A sua maneira de ensinar em parábolas provoca os discípulos a refletirem sobre as coisas mais comuns do dia a dia da sua vida (Mt 13,1-52; Mc 4,1-34). As parábolas de Jesus são um retrato da vida do povo e da realidade confusa e conflituosa da época.

* As grandes questões do momento e as perguntas do povo.

O crime de Pilatos contra alguns romeiros da Galileia, a queda da torre de Siloé em construção que matou 18 operários (Lc 13,1-4), a discussão dos discípulos em torno de quem deles era o maior (Mc 9,33-36), a fome do povo (Lc 9,13), o ensinamento dos escribas (Mc 12,35-37) e tantos outros problemas, fatos e perguntas do povo funcionavam como gancho para Jesus levar os discípulos a refletir, a cair em si e a descobrir algum ensinamento ou apelo de Deus.

* O jeito de ensinar em qualquer lugar.

Em qualquer lugar onde encontrava gente para escutá-lo, Jesus transmitia a Boa Nova de Deus: nas sinagogas durante a celebração da Palavra nos sábados (Mc 1, 21; 3,1; 6,2); em reuniões informais nas casas de amigos (Mc 2,1.15; 7,17; 9,28; 10,10); andando pelo caminho com os discípulos (Mc 2,23); ao longo do mar na praia, sentado num barco (Mc 4,1); no deserto para onde se refugiou e onde o povo o procurava (Mc 1,45; 6,32-34); na montanha, de onde proclamou as bem aventuranças (Mt 5,1); nas praças das aldeias e cidades, onde povo carregava seus doentes (Mc 6,55- 56); no Templo de Jerusalém, por ocasião das romarias, diariamente, sem medo (Mc 14,49).

* Memorização na base da repetição.

Não havia livros, nem manuais como hoje. O ensina era baseado na repetição do conteúdo a fim de favorecer a memorização. Isto ainda transparece em algumas partes dos discursos de Jesus, conservados nos evangelhos. O final do Sermão da Montanha, por exemplo, repete duas vezes, de maneira rítmica, com poucas diferenças, a mesma frase (Mt 7,24-25 e 26-27).

* Momentos a sós com os discípulos.

Várias vezes, Jesus convida os discípulos para ir com ele a um lugar distante, seja para instruir (Mc 4,34; 7,17; 9,30-31; 10,10; 13,3), seja para descansar (Mc 6,31). Ele chegou a fazer uma longa viagem ao exterior na terra de Tiro e Sidônia para poder estar a sós com eles e instruí-los a respeito da Cruz (Mc 8,22-10,52).

* A Bíblia e a história do povo.

Nem sempre é possível discernir se o uso que os evangelhos fazem do AT vem do próprio Jesus ou se é uma explicitação dos primeiros cristãos que, assim, expressavam o alcance da sua fé em Jesus. Seja como for, é inegável o uso constante e frequente que Jesus fazia da Bíblia. Ele conhecia a Bíblia de cor e salteado. Como ainda veremos, Jesus se orientava pela Sagrada Escritura para realizar sua missão e ele a usava para instruir os discípulos e o povo.

* A Cruz e o sofrimento.

Quando ficou claro para Jesus que as autoridades religiosas não iam aceitar a sua mensagem e que decidiram matá-lo, ele começou a falar da cruz que o esperava em Jerusalém (Lc 9,31). Isto provocou reações fortes nos discípulos (Mc 8,31-33), pois na lei estava escrito que um crucificado era um “maldito de Deus” (Dt 21,22-23). Como um maldito de Deus poderia ser o Messias? Por isso, a partir deste momento crítico, o eixo da formação que Jesus dava aos discípulos consistia em ajudá-los a superar o escândalo da Cruz (Mc 8,31-34; 9,31-32; 10,33-34). Estes são alguns dos recursos didáticos usados por Jesus na formação dos discípulos e discípulas. Alguns destes recursos eram diferentes de hoje, outros eram iguais.

Caim, livro de José Saramago

Pe. Geovane Saraiva

Caim é o mais recente livro do escritor português, Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que chegou às bancas nestes dias. Trata-se de um livro engenhoso e bem humorado, questionador de Deus e das decisões por Ele tomadas.

É um livro para os profanos, irreverentes, agnósticos, anárquicos e descrentes, de um homem que afirma categoricamente, que ter fé e acreditar na Bíblia, é entrar na “infinita dimensão da estupidez humana”, capaz de acreditar em fábulas…

Para Saramago, a Bíblia “não é um livro para se deixar nas mãos de inocentes, pois só narra maus conselhos, assassinatos e incestos”. Esse senhor a chama de livro dos maus costumes.

Para os bispos portugueses, um escritor da grandeza de José Saramago deveria tomar um caminho mais sério e lúcido. Pode-se fazer crítica, mas entrar em um gênero, a ponto de ofender os que professam a sua fé, não fica bem para ninguém e muito menos para o Prêmio Nobel de Literatura.

Para o Rabino Eliezer di Martino, de Portugal, trata-se de “leituras superficiais das narrativas da Bíblia”. Ele diz mais mais: “Continuamos a existir e acreditar naquele livro, a Bíblia, desde milhares de anos, embora tenhamos ataques e perseguições, precisamente porque acreditamos”. Vamos continuar na nossa fé sem ter a mínima dúvida daquilo que vai ser o nosso caminho, apesar do livro do Senhor José Saramago e daqueles que pensam de outro modo, como ele.

Não vamos perder tempo e nem dar importância à polêmica, resultado do seu livro, esse sim, estúpido e deselegante, que deveria respeitar as pessoas que têm fé e pensam diferente dele e ao mesmo tempo, com a consciência de que Caim é uma história marcada por uma rica simbologia e profundamente humana.

Avisos de 04/10/2009

* Segunda-feira, 12 de outubro – Dia de Nossa Senhora Aparecida – Missa às 7h30 e 18h
* Quarta-feira, 28 de outubro – Dia de São Judas Tadeu – Missa às 19h30 – Capela da Universidade São Judas Tadeu
* Segundas-feiras – Escola de Teologia – Módulo sobre a Bíblia – 19h30 às 21h30 no Centro Pastoral São José (Av. Álvaro Ramos, 366)
* Outubro – Novena a Nossa Senhora Aparecida – TV Aparecida (TV ou Internet)
* Outubro – Mês Missionário e Mês do Dízimo

Releituras Judaicas da Bíblia

Antônio Mesquita Galvão

Agência Adital

Eu estive recentemente na Terra Santa onde participei de um congresso multidisciplinar de estudiosos das Sagradas Escrituras. O encontro envolveu pesquisadores norte-americanos (pentecostais), alemães (protestantes), israelenses (judaísmo) e brasileiros (católicos). Embora realizado por especialistas das áreas de teologia, ciências da religião, antropologia e arqueologia, reuniu pessoas não pertencentes às hierarquias ou ao saber oficial das religiões, mas pensadores independentes. Não havia padres nem pastores. O evento ocorreu em dois lugares: em Caphernaun, na Galiléia, e junto a Ramat Rachel, um sítio arqueológico perto de Tel Aviv. As apresentações e os debates ocorreram em hebraico, inglês e francês.

Os trabalhos foram abertos pelo antropólogo Felix Posen, 55 anos, organizador do 15th World Congress of Jewish Studies da Hebrew University of Jerusalem. Em seu discurso inaugural o professor Posen disse lamentar que a juventude de Israel se interesse hoje pela cultura hebraica do que pela religião de Moisés. Segundo ele, os judeus não-religiosos são hoje maioria, não somente em Israel, mas no mundo todo. Para Posen o encontro de Ramat Rachel vai servir para acelerar o diálogo interreligioso e cultural das crenças cristãs e judaicas, uma vez que é suscitado pelas bases e não pelas cúpulas, o que torna o debate mais célere e viável. Para isto, entendem os organizadores do conclave, a arqueologia dá um suporte indispensável. Segundo os promotores do conclave, o distanciamento dos jovens do estudo da religião ocorre por conta de um certo dogmatismo hermético do mesmo, onde não é admitido o questionamento e a especulação científica.

O objetivo do trabalho foi trazer mais esclarecimentos de exegese e interpretação para a chamada “parte mitológica” da Bíblia, capítulos 1 a 11 do bereshit, (livro de Gênesis). Assim buscou-se uma nova visão, místico-científica, e sobretudo crítica para os personagens Lylith (a primeira mulher de Adão), Adão e Eva (como uma geração e não um simples casal), seus filhos Cahim e Abbel (como classes em tensão e não apenas dois irmãos) e sobre a família de Noé, e sobre os eventos “Dilúvio”, “Torre de Babel” “Gigantes” e “Tomada de Jericó” (Êxodo). Como essência, Deus criou, salvou e preparou um projeto. A forma como isto aconteceu é acidental, adstrito à exegese de cada época. Os participantes esperam que, com o passar dos anos haja um substancial incremento de informações crítico-científico-religiosas nos rodapés dos livros sagrados, com o aporte dos subsídios da ciência, ao invés de tão-somente informações religiosas. A pesquisa vai continuar pelos links da Internet.

O evento teve o apoio do Rockfeller Archeological Museum (Jerusalém), do Museum of Jewich People (Tel Aviv) e da École Biblique et Archéologique (française) de Jèrusalem. A reunião desses intelectuais, por sua importância mereceu reportagem de destaque no “The Jerusalem Post” de 13/08/2009.

Carmen, minha mulher, viajou comigo, me auxiliando nas traduções e no manejo do laptop durante minhas intervenções.

12º encontro Intereclesial de CEBs: a atualidade da Palavra

Marcelo Barros

A Bíblia continua a ser o livro mais traduzido e editado no mundo. Ao mesmo tempo, ganha uma infinidade de interpretações que dão origem a centenas de movimentos e Igrejas. Cada texto é passível de múltiplas interpretações, de acordo com o contexto e lugar social a partir do qual é lido. Deus se revela em palavras humanas e culturais e não através de uma doutrina dogmática. Sua revelação ao mundo se dá na natureza e na história. Sendo na história que evolui, tem uma meta. Na Bíblia, encontramos costumes antigos com os quais não concordamos, como guerras sagradas, escravidão de seres humanos, um sistema patriarcal e opressor da mulher, pena de morte e vários outros elementos que faziam parte das culturas antigas. A revelação divina mostrou que estes elementos devem ser superados. Uma vez, o próprio Jesus comentou um destes costumes ao dizer: “Foi por causa da dureza do vosso coração que naquela época era assim, mas este não era o projeto divino original” (Cf. Mt 19, 8). A revelação se dá à medida não que estes costumes viram dogmas, mas que a evolução da história ajuda em sua superação e crítica. Seja como for, através dessa inserção na história e na cultura de um povo, o Espírito vai conduzindo os acontecimentos para um projeto divino de amor e justiça. Para se ler e compreender bem a Bíblia, um bom método é ir descobrindo e seguindo este fio condutor da história que avança para um ponto culminante: a interiorização do Espírito Divino nos seres humanos e no universo, assim como a conseqüente transformação do mundo.

Nesta semana, em toda a América Latina, muitas comunidades lembram que no dia 20 de julho de 1979, há exatamente 30 anos, o frei Carlos Mesters e um grupo de amigos criaram, em Angra dos Reis, RJ, o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), entidade ecumênica e de cunho pastoral, cujo objetivo é devolver ao povo mais pobre a capacidade de ler e compreender a Bíblia, assim como a possibilidade de ligá-la à vida concreta e à caminhada da libertação dos camponeses, dos índios e do povo das periferias urbanas.

Quem conhece de dentro, nas últimas décadas, a história das comunidades eclesiais de base e das pastorais na América Latina sabe a importância que teve a forma de ler a Bíblia desenvolvida pelo CEBI para a caminhada de inserção das Igrejas cristãs no meio dos movimentos populares e no processo social e político, hoje, em curso no continente. Há até quem se pergunte se a evolução política de vários países latino-americanos teria ocorrido, do modo como está se dando, sem a participação ativa das comunidades e do seu modo de ler a Bíblia. O CEBI deu origem ou ao menos inspirou diversos centros e institutos de estudo popular da Bíblia, em vários dos nossos países.

Esta leitura da Bíblia que parte da fé e se liga à vida e às lutas do povo é o fruto mais maduro e comum de uma espiritualidade e teologia da libertação. Nunca foi majoritária ou hegemônica em nossas Igrejas, menos ainda nestes tempos de marketing religioso e de todos os tipos de shows missa e cultos eletrônicos, tanto católicos, como evangélicos. Certamente, o melhor fruto do Centro Bíblico (CEBI) no Brasil é o fato de que, apesar de muitas dificuldades e de não poderem contar com o mesmo apoio espiritual e humano que, há vinte anos, ainda recebiam por parte de muitos bispos e pastores, as comunidades eclesiais de base continuam espalhadas em todo o país e perseveram em sua caminhada espiritual.

Nesta semana, em Porto Velho, RO, se reunirão 3500 ou 4000 pessoas, entre cristãos de base, lavradores, pessoas de periferia urbana, negros e índios, além de teólogos e teólogas, assessores das comunidades, bispos católicos, pastores evangélicos, padres, religiosas e convidados internacionais. É o 12º encontro Intereclesial de CEBs; um encontro nacional das comunidades eclesiais de base, que, desde 1975, se reúne mais ou menos de quatro em quatro anos e, pela primeira vez, acontece na Amazônia. O tema geral desta vez, como não poderia deixar de ser, é “Ecologia e Missão”. O lema que se desenvolve em vários outros itens é “Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”. Neste momento de medidas provisórias que entregam a grileiros a possibilidade de ficarem com mais terras e de assegurarem o desmatamento já tão violento, é importante este movimento sobre a defesa da Amazônia e de seu bioma.

O encontro segue o itinerário metodológico do “ver, julgar e agir” e tem como objetivo, não tanto redigir documentos ou realizar ações novas em nível nacional, mas animar e apoiar a caminhada das comunidades de base e de muitas pessoas que, em todo o Brasil, olham com esperança para este encontro.

Os grupos de base ficam felizes em saber que não estão sozinhos e que, apesar de não pretenderem ser uma massa, ou terem a força de marketing de alguns grupos religiosos de hoje, de qualquer forma, recebem uma força afetuosa e espiritual uns dos outros e continuam o caminho da profecia. Viver esta proposta é algo acessível a todos, mas em um mundo como o nosso, não é escolha de multidões. Sem se fechar em pequenas seitas, as “minorias abraâmicas”, como chamava Dom Hélder Câmara, são sinais e instrumentos de um novo mundo possível.

Entrevista com Carlos Mesters, fundador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos

Agência Adital – Biblista fundador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), que em 2009, completa 30 anos de atividades, o frei Carlos Mesters está em Fortaleza (CE) participando da 9ª. Edição do Curso de Verão na Terra do Sol, para falar sobre o livro do Profeta Isaías. O evento, cujo tema é “Jovens, construtores de uma nova realidade. É possível?”, começou na segunda-feira, dia 6, e prossegue até o próximo dia, 18, com cerca de 250 participantes.

Conhecido por seus estudos sobre a Bíblia – estudou em Roma e em Jerusalém -, frei Mesters nasceu na Holanda em 1931, mas, já mora no Brasil há sessenta anos. É professor e, desde 1973, trabalha nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, sempre utilizando a leitura da Bíblia. Aproveitando a sua passagem pela capital cearense, a Adital conversou com frei Mesters sobre a importância da leitura popular da Bíblia, entre outros temas. Confira a entrevista!

ADITAL: Qual foi o caminho e qual é a intuição de fundo da leitura popular da Bíblia?

Carlos Mesters – As coisas acontecem e só depois a gente descobre o que são. Eu acho que a leitura popular da Bíblia no Brasil começou, sobretudo, depois do golpe militar de 1964. O pessoal se chocou e aí começaram a existir as comunidades. Muita gente que tinha lutado na vanguarda se deu conta que o método usado junto ao povo não foi suficientemente respeitoso e começou um trabalho muito mais de base para escutar melhor o povo. O próprio povo começa a ler a Bíblia antes de nós chegarmos e lê como um livro que é a própria vida.

Eles não têm nem dinheiro nem tempo para estudar livros sobre a Bíblia, mas lá está sua intuição de fundo, que depois se explicita: é o método de Emaús (Lucas, c. 24, 13-35). Primeiro Jesus pergunta (aos dois discípulos): “De que vocês estão falando, qual é o problema, por que estão tristes?”. Então, é preciso escutar primeiro, usar a Bíblia não para dar aula, mas para iluminar o problema. E depois para nos abrir os olhos e esquentar o coração, graças a Deus. O terceiro elemento é a dimensão comunitária. Eles convidam Jesus para entrar, rezam juntos, rompem o pão, e aí os olhos abrem e criam coragem para voltar para Jerusalém onde contestam, vivos, as forças da morte. Mas eles superaram a morte porque eles ressuscitaram.

ADITAL – Como este trabalho da leitura popular da Bíblia se espalhou na América Latina e Caribe? E foi mais além?

Carlos Mesters – Também aqui as coisas vão acontecendo. No Sul, no COM (Centro de Orientação Missionária), o Pe. Orestes Stragliotto, que já faleceu, tinha um trabalho grande com muita gente da América Latina pois era amigo do pessoal do CEBI. Muita gente de outros países da América Latina participa dos cursos; vem gente também de outros países como da Itália e muitos italianos chamam para dar cursos de Bíblia lá. Ainda há um centro bíblico na Argentina, um grupo no Equador e outros que atuam dentro do FEBIC (Federação Bíblica Católica Internacional). Assim, todas estas estradas foram utilizadas para divulgar a leitura popular da Bíblia. E foi se espalhando em outros países, agora na África, na Europa e, aqui e acolá, também nas bandas da Ásia, mais no sentido de uma atitude frente à Bíblia do que como organização.

ADITAL – E qual a relação da leitura popular da Bíblia com as Comunidades Eclesiais de Base?

Carlos Mesters – É de nascimento. Num certo sentido o CEBI nasceu antes de nascer porque o povo já lia, já explicava a Bíblia nas comunidades. Assim, no fundo, esta leitura popular da Bíblia nasce lá. O CEBI nasce e existe para articular, aprofundar e espalhar melhor esta leitura popular para que o livro, a Bíblia que nasceu do povo possa voltar para a mão do povo.

ADITAL – No Curso de Verão, cujo tema é ‘Jovens, construtores de uma nova realidade’ o senhor apresenta a Sagrada Escritura. Qual a receptividade da Bíblia entre os jovens?

Carlos Mesters – Eu penso que se a gente consegue colocar a Bíblia no seu contexto humano de origem, e aí a ciência ajuda um pouquinho, porque o coração do jovem que busca está aberto. A gente sente muita receptividade da parte dos jovens para este aspecto profundamente humano da Bíblia quando eles descobrem uma resposta aos seus anseios de justiça, fraternidade, igualdade e de bondade. A Bíblia, se você analisa e procura saber como é que surge o texto bíblico, bate no coração deles, toma pela mão e vai embora.

ADITAL – Nas igrejas está se dando espaço a atitudes fundamentalistas: os cristãos se sentem mais seguros, os melhores. Acontece o mesmo no setor bíblico?

Carlos Mesters – Um desafio muito grande, hoje, é o fundamentalismo que pega a Bíblia separada da história, do contexto, da comunidade, como se fosse uma pedra que cai do céu e se aplica à vida, sem olhar a pessoa que a recebe, seu contexto, sua origem. Isso é perigoso porque, no fundo, não respeita a Bíblia, não respeita a pessoa, não respeita o próprio Deus e faz de Deus o quebra-galho de tudo. Graças a Deus, na nossa igreja católica, isso foi condenado, pela primeira vez, no começo dos anos 90 por um decreto da Pontifícia Comissão Bíblica. Fundamentalismo é perigosíssimo e no Sínodo que teve em Roma no ano passado, uma das coisas de que mais falaram foi contra o fundamentalismo, como é perigoso desvincular a Bíblia das pessoas; vira um troço aéreo, solto no ar, cai na cabeça e pode até matar.

ADITAL – Na Conferência de Aparecida, em maio de 2007, apareceu uma igreja mais clara em seu compromisso de caridade, na escolha preferencial pelos pobres. Neste momento, como a Bíblia pode sustentar esse ‘novo tempo’ do Espírito na América Latina?

Carlos Mesters – Nem sempre tem laranjas na laranjeira, existem momentos em que você busca frutas e não têm. Parece que estamos, no momento, numa baixa, também as CEBs, mas não morremos não. Há tempo em que tem que fazer umas podas e aprofundar as raízes. A gente, hoje, sente em muitos lugares que o povo quer continuar nas comunidades, apesar de nós padres. A gente sente que está começando uma floração nova; o povo descobre que nesta caminhada queremos melhorar a sociedade, lutar contra a corrupção, refazer o relacionamento humano na base.

Eles sentem que a Bíblia pode ajudar nisso e provocar uma força muito grande. Aí depende, também, de nós, exegetas, de explicar a Bíblia não como se fosse uma peruca em cima de uma careca que não faz nascer cabelo, mas como uma coisa que vem lá de dentro, que faz a gente sentir que o que Deus pede de nós é refazer o relacionamento humano na base, procurar uma nova maneira de conviver, perceber as injustiças que existem, ser capaz de desfazer os enganos que a mídia coloca na cabeça do povo. E perceber o engano do consumismo: nisso a Bíblia ajuda sim. Eu faço uma comparação assim: é como quando você está num quarto e parece tudo limpo. De repente cai um raio de sol, de repente você percebe que o quarto está cheio de pó.

Assim, a luz de Deus, quando cai dentro da comunidade, faz perceber o que está errado e aí nasce a ação profética. Eu não sei se estou certo, mas sinto que está se preparando Porto Velho (no fim de julho haverá lá o 12º Intereclesial da CEBs) e aí pode ser o momento para fazer explodir este tempo novo e colocar em movimento os discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nele os nossos povos tenham vida, não mais numa pastoral de manutenção, mas numa pastoral de missão. Isso diz o [José] Comblin num artigo dele: este processo de mudança deve começar e, diz ele, é para os próximos 100 anos. Eu gostei disso porque caminhão não faz curvas fechadas, capota. A igreja é um caminhão muito grande, mas tem que entrar na curva da história.

Mãe ambiente

Frei Betto

Ecologia vem do grego “oikos”, casa, e “logos”, conhecimento. Portanto, é a ciência que estuda as condições da natureza e as relações entre tudo que existe – pois tudo que existe coexiste, pré-existe e subsiste. A ecologia trata, pois, das conexões entre os organismos vivos, como plantas e animais (incluindo homens e mulheres), e o seu meio ambiente.

Talvez fosse mais correto, embora não tão apropriado, falar em ecobionomia. Biologia é a ciência do conhecimento da vida. Ecologia é mais do que o conhecimento da casa em que vivemos, o planeta. Assim como economia significa ‘administração da casa’, ecobionomia quer dizer ‘administração da vida na casa’. E vale chamar o meio ambiente de mãe ambiente, pois ele é o nosso solo, a nossa raiz, o nosso alimento. Dele viemos e para ele voltaremos.

Essa visão de interdependência entre todos os seres da natureza foi perdida pela modernidade. Nisso ajudou uma interpretação equivocada da Bíblia – a ideia de que Deus criou tudo e, por fim, entregou aos seres humanos para que “dominassem” a Terra. O domínio virou sinônimo de espoliação, estupro, exploração. Procurou-se arrancar do planeta o máximo de lucro. Os rios foram poluídos; os mares, contaminados; o ar que respiramos, envenenado.

Ora, não existe separação entre a natureza e os seres humanos. Somos seres naturais, porém humanos porque dotados de consciência e inteligência. E espirituais, porque abertos à comunhão de amor com o próximo e com Deus.

O Universo tem cerca de 14 bilhões de anos. O ser humano existe há apenas 2 milhões de anos. Isso significa que somos resultado da evolução do Universo que, como dizia Teilhard de Chardin, é movida por uma “energia divina”.

Antes do surgimento do homem e da mulher, o Universo era belo, porém cego. Um cego não pode contemplar a própria beleza. Quando surgimos, o Universo ganhou, em nós, mente e olhos para se olhar no espelho. Ao olharmos a natureza, é o Universo que se olha através de nossos olhos. E vê que é belo. Daí ser chamado de Cosmo. Palavra grega que dá também origem à palavra cosmético – aquilo que imprime beleza.

A Terra, agora, está poluída. E nós sofremos os efeitos de sua devastação, pois tudo que fazemos se reflete na Terra, e tudo que se passa na Terra se reflete em nós. Como dizia Gandhi, “a Terra satisfaz as necessidades de todos, menos a voracidade dos consumistas”. São os países ricos do Norte do mundo que mais contribuem para a contaminação do planeta. São responsáveis por 80% da contaminação, dos quais os EUA contribuem com 23% e insistem em não assinar o Protocolo de Kyoto.

“Quando a última árvore for derrubada – disse um índio dos EUA -, o último rio envenenado e o último peixe pescado, então vamos nos dar conta de que não podemos comer dinheiro”.

O maior problema ambiental, hoje, não é o ar poluído ou os mares sujos. É a ameaça de extinção da espécie humana, devido à pobreza e à violência. Salvar a Terra é libertar as pessoas de todas as situações de injustiça e opressão.

A Amazônia brasileira é um exemplo triste de agressão à mãe ambiente. No início do século XX, empresas enriqueceram com a exploração da borracha e deixaram por lá o rastro da miséria. Nos anos 1970, o bilionário americano Daniel Ludwing cercou um dos maiores latifúndios do mundo – 2 milhões de hectares – para explorar celulose e madeira, deixando-nos como herança terra devastada e solo esgotado virando deserto. É o que pretende repetir, agora, o agronegócio interessado em derrubar a floresta para plantar soja e criar gado.

A injustiça social produz desequilíbrio ambiental e isso gera injustiça social. Bem alertava Chico Mendes para a economia sustentável (isto é, capaz de não prejudicar as futuras gerações) e a ecologia centrada na vida digna dos povos da floresta.

A mística bíblica nos convida a contemplar toda a Criação como obra divina. Jesus nos mobiliza na luta a favor da vida – dos outros, da natureza, do planeta e do Universo. Dizem os Atos dos Apóstolos: “Ele não está longe de cada um de nós. Pois Nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da raça do próprio Deus” (17, 28). Todo esse mundo é morada divina. Devemos ter uma relação de complementação com a natureza e com o próximo, dos quais dependemos para viver e ser felizes. Isso se chama amor.