história

11 de outubro

Dom Demétrio Valentini

Neste ano de 2012 podemos exorcizar um trauma vivido pela humanidade em nossos dias. Trata-se do 11 de setembro. A data do grande atentado terrorista de 2001.

Ao lado desta data trágica, neste ano percebemos que existiu outro dia 11, desta vez no mês de outubro, em 1962, quando aconteceu a abertura do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo.

Ao contrário do 11 de setembro, o 11 de outubro lembra paz e fraternidade.

Até parece providencial. Em todo o caso, não deixa de ser simbólico comparar as duas datas. Uma causou tantas vítimas, e produziu tanto estardalhaço. A outra quase passou desapercebida. Talvez neste ano recobre força.

Mas a história parece nos dar esta preciosa lição. O mal é violento, produz destruição, e deixa conseqüências trágicas.

Ao passo que o bem é discreto, lento, persistente, e no final, vencedor.

Assim o 11 de outubro de 1962. Foi um evento singular, reunindo bispos do mundo inteiro. Um pentecostes atualizado, com a diversidade de fisionomias representativas de “todas as raças e línguas”.

Nem comparar com o 11 de setembro de 2001! Só os números são semelhantes. O resto é contraste.

Em todo o caso, precisamos buscar na história, não só os fatos que nos lembram os difíceis problemas que afligem a humanidade, mas também as datas que renovam nossas esperanças de um mundo de paz e de reconciliação, mas justo e fraterno.

Este ano nos oferece a oportunidade de colocar em destaque um evento histórico que suscitou tanta participação, envolvimento, esperanças, alegrias e certezas de que vale a pena retomar as grandes inspirações do Evangelho de Jesus Cristo, e colocá-las em prática para que moldem com rosto novo a fisionomia cansada da humanidade.

A celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II torna o dia 11 de outubro deste ano a data de referência para a organização do calendário. Desta maneira, as outras datas se situam melhor a parte desta. A referência ao Concílio se torna indispensável.

E em vista deste fato que o Papa vai convocar um “Ano da Fé”. A data que ele colocou para o seu início é o dia 11 de outubro. E´ evidente a referência ao Concílio.

Durante o mês de outubro será realizado em Roma o Sínodo sobre a nova evangelização e a transmissão da fé. Tudo para recordar o Concílio.

Em todo o caso, este é o ano de constatar que a história não tem só episódios tristes, existem também aqueles que nos trazem recordações positivas.

Não existe só o 11 de setembro. Existe também o 11 de outubro!

A pedagogia do Advento

Domingos Zamagna

Em Minas Gerais tive um professor alemão que costumava pilheriar com os alunos dizendo que “a História é a sucessão de sucessos que se sucedem sucessivamente”. Mas depois ele nos falava, com palavras adequadas para adolescentes, da história como processo, animado por uma espécie de poder secreto que se desvela no tempo e no espaço. A história, com suas chances e fracassos, ambigüidades e conquistas. Falava com a experiência de duas guerras mundiais, uma longa fuga pela Sibéria e muitos anos de magistério no Brasil, de coração transbordante de fé e amor. Saudades desses velhos mestres que nos enriqueciam cultural e moralmente, sem jamais envenenar as inteligências dos jovens com ideologias tolas e preconceitos!

O reinício do Ano Litúrgico, com o primeiro domingo do Advento e a preparação imediata para o Natal, nos proporciona a reflexão sobre o mistério da história e da sua salvação. A Bíblia entende a história como uma sucessão de gerações. E cada geração dá a sua contribuição para, guiadas todas pela Providência divina, descobrirem o desígnio de Deus. Um desígnio sempre “novo”, mas um novo que não se reduz às “novidades”, que estas podem converter-se num retumbante, superado e estéril arcaísmo. Um novo que pode transformar, e habitar permanentemente, até mesmo no que alguns chamam de banalidade do quotidiano.

O que importa é saber que Deus -eterno em si mesmo- quis se relacionar com a nossa raça, e a divinizou, na forte expressão dos Padres Gregos. Tocou a fragilidade do tempo, a precariedade do espaço e a ambigüidade da história: enviando-nos o seu Filho para, pelo mistério da Encarnação, ser um de nós, ele deu dimensão de santidade a todas as realidades humanas. Noutras palavras: deu-nos a possibilidade de nos subtrair à sedução mítica e idolátrica do quotidiano, que nos impedia de ampliar nossos horizontes. A graça que nos vem do Redentor nos projeta para além dos limites espaciais, temporais e históricos: “novos céus e novas terras”, como profetizou Isaías.

O ano litúrgico da Igreja, que está prestes a se iniciar, é uma maravilhosa e atualíssima pedagogia: dia após dia, ciclo após ciclo, somos encaminhados -a história da Igreja é uma caminhada- para o esperançoso amadurecimento da fé, pelo aumento da compaixão, da solidariedade (ágape) e o gozo da paz salvífica.

Piratas, ontem e hoje

Frei Betto

São estarrecedoras as notícias sobre piratas nas costas da Somália. Para mim, é quase como encontrar, hoje, dinossauros em plena Amazônia. Piratas eram, até agora, lendários personagens de minha infância. No carnaval, fantasiados ou não de piratas (lenço de seda vermelho na cabeça, tapa-olho preto e espada de pau), cantávamos alegres a famosa marchinha de 1947: “Eu sou o pirata da perna de pau / do olho de vidro / da cara de mau…”

Súbito, eis notícias de que, em pleno século XXI, há piratas de verdade atacando grandes embarcações no litoral da Somália. É Homero quem, na Odisseia, cita pela primeira vez ‘pirata’, termo que deriva do grego ‘assaltar’.

Entre os séculos XVI e XVIII, os piratas infestaram os mares do Caribe. A atual Ilha da Juventude, em Cuba, era conhecida como Ilha do Tesouro e ensejou várias histórias de aventuras. Ali os piratas escondiam seus botins.

Todos os piratas são bandidos? O historiador usamericano Marcus Rediker, no livro Villains of all nations (Vilões de todas as nações), descreve as dramáticas condições em que trabalhavam os marujos ingleses nos séculos passados. Viviam num inferno flutuante, tratados como escravos. Quem se rebelasse era chicoteado como o nosso João Cândido, o “almirante negro” da Revolta da Chibata (1910). Os reincidentes, atirados aos tubarões; os sobreviventes, recebiam salários de fome.

Os marujos foragidos da desumana marinha de suas majestades tornaram-se piratas e criaram, diante disso, uma “outra marinha possível”: aboliram a tortura, passaram a escolher seus comandantes por eleição, partilhavam entre si os botins. Enquanto eles assaltavam navios, a marinha européia saqueava países – na Ásia, na África e na América Latina. A história de nosso Continente que o diga…

Segundo Rediker, os piratas, que acolhiam a bordo escravos africanos para libertá-los, implantaram “um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século XVIII”.

A Somália entrou em colapso em 1991 e, desde então, seus nove milhões de habitantes vivem em situação de miséria. O litoral do país é utilizado pelas nações metropolitanas como lixeira da sucata nuclear. Junto ao lixo atômico, outros tipos de dejetos têm sido jogados no mar da Somália, causando enfermidades na população, como erupções de pele, náuseas e bebês malformados. Após o tsunami de 2005, muitos apresentaram sintomas de radiação. Morreram cerca de 300 pessoas. E inúmeros navios europeus pilham a pesca do litoral da Somália. Por ano, carregam dali toneladas de atum, camarão e lagosta.

Assim, os “piratas” somalianos – que se autonomeiam “Guarda Costeira Voluntária da Somália” – são pescadores afetados em seus direitos e em busca de alguma compensação frente ao saque e à contaminação de suas águas por nações européias. Em entrevista ao jornal The Independent, Sugule Ali, um dos líderes dos “piratas”, declarou: “Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam o nosso peixe.”

Johann Hari, colunista do jornal inglês, se pergunta: “Por que os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se morrer de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente aos pesqueiros europeus (dentre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passam 20% do petróleo do mundo, imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.”

No século 4 a.C., um pirata foi levado preso à presença de Alexandre, o Grande, que indagou se ele pretendia tornar-se senhor dos mares. O homem respondeu qual era a sua intenção: “O mesmo que você, fazendo-se de senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado de ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador.”

E hoje, quem é o principal ladrão?