Bíblia

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no 3º Domingo da Quaresma

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti na missa do 3º Domingo da Quaresma, celebrado em 03/03/2013. A Primeira Leitura, do Livro do Êxodo, revela o amor de Deus pelo povo: Ele vê a aflição, ouve o clamor, conhece o sofrimento e desce para libertá-lo. No Evangelho, Jesus conta uma parábola que demonstra a compaixão de Deus.

Onde sopra o Espírito?

Dom Demétrio Valentini

A festa de Pentecostes, celebrada neste domingo, lembra a vinda do Espírito Santo sobre os primeiros cristãos, reunidos no cenáculo em Jerusalém. Com a força do Espírito, sentiram-se animados a partir em missão.

Daí para a frente, o Espírito Santo iria conduzir a Igreja. Ele se encarregaria de indicar os rumos, e até de antecipar os passos que os cristãos deveriam dar.

Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Pedro foi procurado por Cornélio, um pagão, que o convidava a visitar sua casa. Ao entrar, Pedro se surpreendeu, vendo que o Espírito Santo descia sobre os pagãos, da mesma maneira como tinha descido sobre eles em Pentecostes.

Pedro então compreendeu que os pagãos eram destinatários do Evangelho, tal como o povo de Israel. A Igreja aprendeu a estar atenta aos sinais do Espírito, para tomar suas decisões com segurança.

Foi o que aconteceu em nossa época, com o anúncio do Concílio Vaticano Segundo, em janeiro de 1959. O Papa João 23 não se cansava de testemunhar que a idéia de um concílio tinha surpreendido a ele mesmo. A certeza da inspiração divina lhe vinha da pronta adesão do povo, que de imediato se identificou com a proposta do papa. Com esta certeza, a Igreja pôde levar em frente a realização do Concílio.

Algumas manifestações do Espírito são fáceis de identificar. Sobretudo quando contam com o aval do povo. A própria teologia reconhece que o “sensus fidelium”, a “intuição dos fiéis” é sinal seguro de procedimento eclesial.

Mas existem situações mais complicadas. Nem sempre o clamor do povo é porta-voz do Espírito Santo. Há certas manifestações, também políticas e sociais, cuja ênfase, em vez de manifestar caminhos seguros de procedimentos corretos, esconde interesses não confessados, e tenta forçar rumos que não levam ao bem comum.

Por isto, não dá para colocar na conta do Espírito Santo todas as manifestações populares. A confiança no Espírito de Deus não dispensa o esforço de discernimento, para perceber os valores que estão em jogo.

O próprio Evangelho nos dá uma pista, quando Jesus explica como seria o procedimento do Espírito. Disse Ele que o Espírito “não falará de si mesmo…; mas, receberá do que é meu e vo-lo anunciará” (Jo 16, 13).

Com esta afirmação, Jesus sinaliza a necessidade de constatar a coerência entre o que ele fez e ensinou, com as manifestações que possam ocorrer. Para serem do Espírito, precisam estar em sintonia com as verdades objetivas proclamadas por Cristo.

A Bíblia conta uma bonita história, para advertir da necessidade de discernir a presença de Deus. Elias estava refugiado na caverna, nas proximidades do monte Horeb. Foi avisado que Deus passaria naquela noite. Ele se colocou então na entrada da caverna. Veio um forte furacão que fazia as rochas se contorcerem. Mas Deus não estava no furacão. Depois aconteceu um violento terremoto, que sacudiu a terra. Mas Deus não estava no terremoto. Depois desceu um fogo devorador. Mas Deus não estava no fogo. Por fim, veio uma brisa suave, que amenizou todo o ambiente. Era Deus que estava chegando.

Precedendo a este episódio, o mesmo livro narra a cena do confronto de Elias com os 400 sacerdotes do deus Baal. Desafiados por Elias a invocarem o seu deus para que fizesse descer fogo sobre a lenha da oferenda, os sacerdotes gritaram o dia inteiro, mas não foram capazes de se fazerem ouvir por seu falso deus. Ao passo que Elias, com poucas palavras, foi prontamente atendido por Javé.

Há certas manifestações que se assemelham à gritaria dos sacerdotes de Baal. Em nada contribuem para o discernimento objetivo dos problemas a resolver.

A análise objetiva da realidade é garantia mais segura do acerto das decisões a serem tomadas.

A frágil flor que perfuma o mundo

Marcelo Barros

Nos oitenta anos do irmão e mestre Carlos Mesters, doutor da fé bíblica para o mundo inteiro, certamente cabe a ele o título que ele deu às comunidades eclesiais de base no primeiro Encontro Intereclesial das CEBs em Vitória, ES em 1975. Se já naquela época elas eram mesmo como uma flor frágil que resiste às intempéries da vida, este aniversário de oitenta anos do frei Carlos é ocasião propícia para celebrarmos como o Espírito presenteou as Igrejas e o mundo dos pobres com a vida e a missão dele, flor frágil, mas muito resistente e que nunca deixou de transpirar e contaminar o universo com o perfume divino.

Atualmente, diversos fóruns mundiais de Teologia e Libertação, além de associações regionais de Teologia e Ciências da Religião espalham pelo continente e pelo mundo novas reflexões teológicas sobre a realidade e expressam novos desafios para uma reflexão de fé inserida nas melhores causas da humanidade e a partir da caminhada dos empobrecidos e excluídos do mundo. Apesar disso, em meios hierárquicos oficiais, há quem diga que a Teologia da Libertação morreu. De fato, alguns hierarcas baniram tanto os teólogos, como seus livros dos seminários e casas de formação oficiais. Ao fazer isso, pensaram decretar a morte da Teologia da Libertação. Entretanto, não podem dizer que a leitura bíblica que tem sustentado e dado força espiritual a este caminho teológico e pastoral esteja morta ou em decadência. Graças a Deus, ao menos na América Latina, vicejam muitas experiências de leitura bíblica a partir da caminhada do povo. Tanto as comunidades católicas, como evangélicas que se abriram a estas experiências novas sabem que entre os pioneiros deste tipo de leitura, o irmão que começou os círculos bíblicos e espalhou por todo o continente e por outros países do mundo esta nova forma de ler a Palavra de Deus foi o frei Carlos Mesters.

Conheci Carlos em 1977, quando comecei a fazer parte do secretariado nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e fui encarregado de escrever um livro sobre “A Bíblia e a Luta pela Terra”. Procurei o frei Carlos Mesters para me situar no que estava sendo pensado, na linha de uma leitura bíblica a partir do povo. Ele me recebeu e me deu uma ajuda inestimável. Desde então, nos tornamos amigos e companheiros de caminho. Quando, em 1979, ele e outros companheiros e companheiras fundaram o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), embora não pude assinar a ata de fundação, fui dos primeiros que participei do Conselho do CEBI e da sua equipe de assessores.

Naqueles anos, vivi uma cena esclarecedora. Em uma livraria católica, um padre tomou nas mãos um dos muitos livros de Carlos Mesters e perguntou: – Este livro é de Exegese, de Teologia Bíblica ou só tem sermões de espiritualidade?

Na época, esta divisão rígida e acadêmica separava a reflexão racional e a prática litúrgica e devocional das Igrejas. Carlos Mesters e, a partir dele, os irmãos e irmãs que fazem o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) derrubaram os muros que dividiam estes diversos campos do conhecimento bíblico. Fizeram uma boa síntese entre um estudo crítico e mesmo científico da Bíblia e uma leitura pastoral e militante, construída a partir da causa dos pobres. Desde então, se espalham por todo o país propostas diversas de leitura bíblica e muitas procuram unir os dados da ciência com a preocupação pastoral de partir da realidade do povo. Carlos Mesters é o pioneiro deste novo caminho teológico e espiritual.

Sem pretender sintetizar toda a riqueza do ensinamento de Carlos Mesters para a leitura bíblica latino-americana, aqui tentarei recordar apenas três elementos entre os muitos outros que podemos descobrir na sua forma de viver a espiritualidade bíblica e de como ele nos comunica a fé e a atualidade da palavra profética.

1 – O primeiro livro da revelação divina: a Vida

Foi uma das primeiras intuições de Carlos Mesters. Em seu Tratado sobre a Trindade, Santo Agostinho escreveu que, antes de inspirar a Bíblia, Deus tinha escrito um primeiro livro para se revelar a nós: a própria vida e a história da humanidade. Desde cedo, Carlos percebeu que a Bíblia é mais corretamente compreendida quando quem deseja aprendê-la procura antes compreender o próprio mistério da vida. Quem tem o privilégio de conviver com Carlos Mesters sabe como ele é aberto e sensível às relações de amizade, à sensibilidade com a justiça e à beleza da arte. Tudo ele capta e transforma em parábolas e histórias que nos ajudam a compreender a vida. Desde jovem, inseriu-se na convivência com as pessoas pobres. Isso lhe dá a capacidade de explicar os mistérios mais sublimes da revelação, com imagens simples do dia a dia. A beleza da chuva encharcando um terreno lhe possibilita explicar como a palavra bíblica vem do céu e, ao mesmo tempo, surge do chão da vida. A arte da fotografia e a ciência da radiografia o ajudaram a distinguir e comparar os evangelhos sinóticos com o texto joanino. Se Carlos Mesters resolvesse escrever todas as parábolas da vida que ele criou e contou, no decorrer destes anos, desde que começou em Belo Horizonte (no começo dos anos 70) os Círculos Bíblicos, como diz o evangelho: “nem todos os livros do mundo poderiam conter”.

Ler os livros do frei Carlos é sempre uma experiência espiritual porque, ao mesmo tempo que elabora seus livros com o conhecimento crítico mais atualizado, ele mantém sempre o estilo simples e comunicativo que aprendeu do povo. Ao mesmo tempo que revela, deixa algo para que a pessoa que lê possa aprofundar e concluir.

Sua relação com Deus que, muito discretamente, ele partilha conosco, me recorda sempre uma música que Maria Bethânia cantava em seu primeiro show (Rosa dos Ventos, 1970). A música inglesa do século XIX tem uma letra inspirada no poeta Fernando Pessoa que Carlos conhece e do qual gosta muito. A canção “Doce Mistério da Vida” fala do amor romântico, mas nos parece muito com o Cântico dos Cânticos. Assim como o poema bíblico, estes versos podem ter muitos sentidos, inclusive o de fazer da paixão humana sacramento da relação íntima com o Espírito. Por vários motivos, esta música na linha da balada romântica me lembra o amigo Carlos e seu jeito de viver a fé. A letra diz assim:

“Minha vida que parece muito calma
Tem segredos que eu não posso revelar,
Escondidas bem no fundo de minh´alma,
Não transparecem, nem sequer em um olhar.
Vive sempre conversando a sós comigo,
Uma voz que eu escuto com fervor,
Escolheu meu coração pra seu abrigo
E dele fez um roseiral em flor.
A ninguém revelarei o meu segredo,
E nem direi quem é o meu amor”.

2 – A dimensão subversiva da fé bíblica

Poucos anos depois que o CEBI começou sua missão de animar grupos de estudo e prestar assessoria bíblica aos diversos movimentos de pastoral popular, setores conservadores acusaram Carlos Mesters de fazer leitura bíblica redutiva e tendenciosamente política. Apesar de que os textos do frei Carlos nunca incitaram à luta de classes ou à violência, pelo fato dele interpretar a Bíblia, ligada à vida e à causa dos mais empobrecidos, está tomando posição política e contribui para a transformação do mundo. O CEBI começou a fazer isso em um tempo no qual as comunidades cristãs aprendiam a fazer análise social e a aprofundar o método pedagógico de Paulo Freire. Era comum se falar e buscar o que seria a “conscientização”. Sempre insistindo em fazer uma leitura de fé e contextual, o CEBI proporcionou um método de ler a Bíblia que se uniu neste caminho. Outros companheiros e companheiras desenvolveram mais a atenção para as dimensões sociais e políticas da leitura bíblica. Alguns procuravam sempre interpretar os textos bíblicos a partir das quatro “pernas” da mesa: a dimensão econômica, a social, a cultural e a religiosa. Carlos se inseriu neste diálogo com sua sensibilidade própria. Sempre mostrou que as coisas não podem ser isoladas uma da outra. A vida é sempre mais rica e diversificada do que nossos modelos intelectuais. Alguns exegetas europeus divulgavam o que chamaram de “Leitura Materialista da Bíblia”. Frei Carlos procurou ir além destes esquemas que algumas vezes podem ser muito estreitos. Sem relativizar ou diminuir a importância destas dimensões (social, política e econômica), Carlos nos ensinou a compreender a Bíblia a partir de um triângulo que se tornou famoso em seus cursos: texto, contexto e pré-texto. A leitura do texto pede o cuidado de uma boa compreensão dos termos e uma tradução que seja fiel e clara. O contexto é histórico, social e também literário. O pré-texto é a realidade da comunidade que está lendo o texto e as perguntas que a comunidade ou pessoa faz à Escritura. A preocupação com a realidade aparece no começo da maioria dos roteiros que ele fez para os círculos bíblicos e é elemento fundamental de sua espiritualidade social e política.

Com a sua sensibilidade, unindo profundo e raro conhecimento da ciência exegética com a cultura do povo simples, frei Carlos contribuiu muito com os encontros inter-eclesiais de CEBs, elaborou bons materiais didáticos para a pastoral indígena, pastoral da terra, ação católica operária, comunidades afro-descendentes e no diálogo com as teólogas que nos ensinaram a ler a Bíblia a partir de olhos femininos. Seus livros, aparentemente escritos como introdução aos textos e dirigidos às pessoas simples, são sempre úteis mesmo para quem estuda e aprofunda o assunto.

3 – A leitura pluralista e ecumênica da Bíblia

O amor à Bíblia sempre foi um elemento que uniu os cristãos das diversas Igrejas e possibilitou um contato e colaboração entre eles. Até os anos 70, era comum se dizer que “a Bíblia fechada une católicos e evangélicos. A Bíblia aberta (isto é interpretada) os separa”. Com sua experiência nos Círculos Bíblicos e no CEBI, experiência de quase meio século, Carlos Mesters mostra que isso pode não ser assim. De fato, seu jeito de ser aberto a todos, afável e acolhedor, sempre o aproximou de irmãos e irmãs de outras Igrejas, sedentos de uma leitura bíblica, densa de conteúdo, séria e mais próxima da realidade, ou seja, comprometida com as mudanças sociais.

O CEBI foi fundado com uma profunda vocação ecumênica. Na época se discutiu até se deveria ser chamado “Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos”. Concordamos que ele poderia ser até mais aberto à participação de cristãos de várias Igrejas, sem o título de ecumênico, que ainda assustava alguns setores eclesiais. Na ata da fundação do CEBI, constam nomes de alguns irmãos evangélicos, amigos do frei Carlos. Desde então, em todos os encontros, assembléias e atividades, sempre houve a preocupação de contribuir com o diálogo ecumênico e aprender com a colaboração de crentes de várias confissões.

Em um documento de preparação para o Diretório Ecumênico Mundial, em 1969, a CNBB fazia uma distinção importante entre Pastoral Ecumênica(trabalho que une cristãos de Igrejas diferentes) e o que então se chamou Ecumenismo da Pastoral. Chamava-se assim o esforço de dar a todo o conjunto da pastoral uma dimensão de fé e abertura ecumênica. Isso quer dizer que, mesmo em atividades cotidianas e quando não há a presença de ninguém de outra Igreja, somos chamados a viver a ecumenicidade da fé e do modo de ser cristãos. Sem este cuidado permanente e profundo de ser ecumênicos, seja quando celebramos a eucaristia, seja quando explicamos a fé para uma criança, a própria pastoral ecumênica seria superficial e sem bases. A leitura da Bíblia é um dos mais importantes pólos ou raízes deste Ecumenismo da Pastoral. A leitura bíblica deve ser sempre ecumênica, não tanto por ser inter-confessional (o que nem sempre é ou consegue ser), mas por ser amorosa e acolhedora ao outro e ao diferente.

Sem dúvida, desde o início do CEBI, o estilo humano e a espiritualidade sempre aberta do frei Carlos nortearam o modo de se ler a Bíblia nesta dimensão. Além disso, o amor e a abertura para as culturas oprimidas, como as negras e indígenas, levou este trabalho de investigação e interpretação bíblica a uma dimensão não só interconfessional cristã, mas também macro-ecumênica, intercultural e interreligiosa.

Nos anos 90, Frei Carlos participou do livro que preparava o tema para um dos grandes encontros intereclesiais de CEBs. Como o encontro era em uma cidade na qual a população negra e a presença dos cultos afro-descendentes são fortes, o frei Carlos contava uma parábola. Dizia que Jesus visitou o templo de um culto afro, achou tudo muito bonito e saiu dizendo que Deus está presente e atuante ali. Um grupo de movimento leigo católico conservador protestou junto aos bispos contra o texto escrito por Carlos. Este assunto rendeu certa polêmica, mas, ao mesmo tempo, ajudou muitos irmãos e irmãs a descobrirem que “Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém. Nenhum grupo ou Igreja é dono de Deus, ou seu representante único e exclusivo”.

Atualmente, um dos maiores desafios para a nossa fé e para a teologia cristã é repensar a espiritualidade e a forma de expressar a fé não mais a partir de modelos exclusivistas ou ainda hegemônicamente cristãos e sim no mundo pluralista e no qual as diversas culturas e diferentes religiões devem colaborar para a paz e a justiça, assim como aprenderem umas com as outras a viverem a intimidade com o Mistério e servirem à humanidade e à defesa da natureza ameaçada.

Neste caminho, comumente, precisamos de estudar e aprofundar para sermos capazes de fazer frente a este desafio tão grande. Na relação com frei Carlos Mesters, tenho sempre a impressão de que isso que para nós é fruto de um esforço e resultado de muito aprofundamento, nele é quase natural. Vem do seu jeito simples e aberto de homem de Deus, parecido com Jesus Cristo, irmão de coração e espírito universal.

4 – Oitenta anos de um menino embriagado de Deus

Sem dúvida, a qualquer pessoa que tem contato com Carlos Mesters, um elemento de sua pessoa e do seu jeito de ser que nos impressiona sempre é a jovialidade. Isso é tanto assim que chega a nos espantar quando alguém diz que, de fato, ele está completando 80 anos. Como espantou muita gente quando soube que ele esteve doente. Ele é destas pessoas que parece sempre jovem e brincando com sua saúde. Há anos e anos, vive uma vida peregrina de missionário por todos os recantos do mundo, encantando as pessoas com sua sabedoria e sua arte poética de falar de Deus e da Bíblia como quem apresenta as pessoas a quem mais se ama. Aliás, entre o Deus bíblico e Carlos Mesters se estabeleceu uma intimidade que já tem tantos anos que parece estes casamentos entre homem e mulher de idade avançada. De tanto conviver, marido e esposa começam a se parecer cada vez mais um com o outro. Isso é bom para nós. É como se nos 80 anos do frei Carlos, fôssemos nós, seus irmãos, irmãs e amigos/as que ganhássemos o maior presente: poder contemplar na pessoa e na vida dele o rosto humano do divino. Ad multos annos, meu irmão e amigo.

Um Deus que fala

Maria Clara Lucchetti Bingemer

O tempo da Igreja “deve ser cada dia mais o de uma nova escuta da Palavra de Deus e de uma nova evangelização”, diz o Papa Bento XVI na nova exortação apostólica “Verbum Domini”, lançada no Vaticano, no dia 11 de novembro.

A Verbum Domini é fruto da 12ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, realizada de 5 a 26 de outubro de 2008. Nas páginas do documento, o Papa procura mostrar que, ainda que no século XX tenha havido um renascer de consciência da necessidade da Palavra de Deus em temas como a reforma litúrgica, a catequese e os estudos bíblicos, existe um déficit que deve ser suprido em relação à vida espiritual do povo de Deus. Este tem o direito de ser mais inspirado e nutrido por uma aproximação mais orante e eclesial das Sagradas Escrituras.

Em vários pontos da exortação apostólica, Bento XVI insiste que o cristianismo “não é fruto de uma sabedoria humana ou de uma ideia genial”, nem seus textos resultados da indústria humana, mas decorrem, sim, “de um encontro e de uma aliança com uma Pessoa que dá à existência humana sua orientação e forma decisivas.”

Ao longo de quase 40 páginas das muitas mais que compõem o documento, o Papa destaca a necessidade de apresentar uma hermenêutica de forma “clara, construtiva, situando a ciência bíblica, exegética e teológica no interior e a serviço da fé da Igreja.” É preciso – segundo o Pontífice – uma interpretação das Sagradas Escrituras, que deve ser complementada com uma leitura teológica e científica e que, além disso, exige “o valor da exegese patrística” e convida “os exegetas, teólogos e pastores a um diálogo construtivo para a vida e para a missão da Igreja”.

Na verdade, voltar a pensar o lugar da Escritura na vida da Igreja é uma tarefa sempre pendente, ao mesmo tempo que primordial para todos aqueles que crêem. Pois a Bíblia é para todos que professam a fé cristã fonte da Revelação que lhes suscita a resposta da fé e, por isso mesmo, chamada Palavra de Deus.

Nos primórdios da Revelação ao povo de Israel, os homens e mulheres que captaram e falaram sobre essa revelação identificaram Deus como Palavra. Palavra que rompe o silêncio e fala. Mas se sabe e se declara que fala porque existe um ouvinte, ser humano ou mulher, que ouviu, ouve e fala daquilo que ouviu.

A linguagem humana, na medida em que toma consciência de si mesma, perceberá que fala do que lhe foi dado, fala do que ouviu, do que recebeu, do que acolheu do dom primordial, do mistério indecifrável e inefável que é fonte de tudo e de todos e está na origem sem origem que foi caos e agora é cosmos.

Nó de relações aberto ao mundo, aos outros, a Deus, o ser humano vive tensionado como arco cuja flecha mira o infinito lutando com o peso da gravidade que o conduz ao chão onde partilha com os outros seres criados a condição perecível e o destino mortal. Por seu ouvido aberto, no entanto, penetra continuamente a palavra divina que o constitui ouvinte da Palavra criadora, pronunciada antes de todo nome sobre o caos primitivo. E em suas narinas é soprado o “nefesh” divino que lhe imprime o selo que o faz à imagem e semelhança do Criador.

A Revelação chega ao ser humano como graça que surpreende e convoca a liberdade. Proposta graciosa e gratuita, que pede uma resposta igualmente gratuita por ser fruto da graça que a precede. É, portanto, graça de Deus não só o fato de Ele fazer essa proposta ao ser humano, mas também o fato deste último, em sua limitação e finitude, poder ouvi-la, acolhê-la e a ela responder na fé, carente de evidências e comprovações empíricas. O milagre da escrita torna possível consignar esta escuta e esta resposta em signos legíveis e codificados. Mas por ser não apenas série de signos, letra invertebrada, e sim texto vivo e cheio de carne e seiva, a Palavra assim ouvida, assim falada se torna Escritura: escrita do Mistério maior que é Deus.

O homem e a mulher – seres históricos, sujeitos à caducidade do tempo – são referidos ao ser como mistério, ou seja, são seres sob misteriosa disposição alheia. Por isso, são pacientes mesmo quando agentes; desconhecidos mesmo para si próprios. A salvação os alcança como proposta que vem de Deus, mas que deverá ser experimentada e respondida dentro dos limites humanos: históricos, sociais, culturais.

Sendo algo tão fundamental para a compreensão mesma do que implica ser humano, esta categoria passa a ser uma definição da própria identidade humana: “ouvinte da palavra”. Porém, além de ser um ouvinte da Palavra, o ser humano é um ser criador e emissor de palavra, um ser de linguagem. Não apenas ouvinte da linguagem elaborada e proferida por outro, mas também criador de linguagem que transforma a realidade.

A Bíblia – Verbum Domini, Palavra de Deus – é a Palavra que liberta e dá a vida. Sobre ela, o Papa exorta que se torne não apenas letra morta, mas Palavra de vida, que faz o que diz e faz fazer.