Cuba

Pe. Julio convida para a Festa de São Miguel

Pe. Julio convida para a Festa de São Miguel

Na terça-feira, 29/9, dia de São Miguel Arcanjo, a comunidade realiza a tradicional festa do padroeiro, com missas às 7h, 12h, 15h e 20h, todas presididas por convidados.

Assista ao convite feito pelo Pe. Julio durante os avisos paroquiais da semana. A fala inicia com uma crítica ao trabalho da mídia na cobertura da viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos e Cuba:

Osama e Obama

Frei Betto

Estranho que a CIA, ao declarar que assassinou Osama Bin Laden, não tenha exibido o corpo, como fez à sobeja com outro “troféu de caça”: Ernesto Che Guevara.

Bin Laden saiu da vida para entrar na história. Até aí, nada de novo. A história, da qual poucos têm memória, está repleta de bandidos e terroristas, cujos nomes e feitos quase ninguém lembra. Os mais conhecidos são o rei Herodes; Torquemada, o grande inquisidor; a rainha Vitória, a maior traficante de drogas de todos os tempos, que promoveu, na China, a Guerra do Ópio; Hitler; o presidente Truman, que atirou bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki; e Stálin.

O perigo é que Osama passe da história ao mito, e de mito a mártir. Sua morte não deveria merecer mais do que uma nota nas páginas interiores dos jornais. No entanto, como os EUA são um país necrófilo, que se nutre de vítimas de suas guerras, Obama transforma Osama num ícone do mal, atiçando o imaginário de todos aqueles que, por alguma razão, odeiam o imperialismo estadunidense.

Saddam Hussein, marionete da Casa Branca manipulada contra a revolução islâmica do Irã, demonstrou que o feitiço se volta contra o feiticeiro.

Desde 1979, Osama Bin Laden tornou-se o braço armado da CIA contra a ocupação soviética no Afeganistão. A CIA ensinou-o a fabricar explosivos e realizar ataques terroristas, movimentar sua fortuna através de empresas-fantasmas e paraísos fiscais, operar códigos secretos e infiltrar agentes e comandos.

“Bin Laden é produto dos serviços americanos”, afirmou o escritor suíço Richard Labévière. Derrubado o Muro de Berlim, desde 1990 Bin Laden passou a apontar seu arsenal terrorista para o coração de Tio Sam.

O terrorismo é execrável, ainda que praticado pela esquerda, pois todo terrorismo só beneficia um lado: a extrema-direita. Na vida se colhe o que se planta. Isso vale para as dimensões pessoal e social. Se os EUA são hoje atacados de forma tão violenta é porque, de alguma forma, eles se valeram do seu poder para humilhar povos e etnias.

Há décadas abusam de seu poder, como é o caso da ocupação de Porto Rico; a base naval de Guantánamo encravada em Cuba; as guerras ao Iraque e Afeganistão, e agora à Líbia; a participação nas guerras da Europa Central; a omissão diante dos conflitos e das ditaduras árabes e africanas.

Já era tempo de os EUA, como mediadores, terem induzido árabes e israelenses a chegarem a um acordo de paz. Tudo isso foi sendo protelado, em nome da hegemonia de Tio Sam no planeta. De repente, o ódio irrompeu da forma brutal, mostrando que o inimigo age, também, fora de toda ética, com a única diferença de que ele não dispõe de fóruns internacionais para legitimar sua ação criminosa, como é o caso da conivência da ONU com os genocídios praticados pela Casa Branca.

Quem conhece a história da América Latina sabe muito bem como os EUA, nos últimos 100 anos, interferiram diretamente na soberania de nossos países, disseminando o terror. Maurice Bishop foi assassinado pelos boinas verdes em Granada; os sandinistas foram derrubados pelo terrorismo desencadeado por Reagan; os cubanos continuam bloqueados desde 1961, sem direito a relações normais com os demais países do mundo, e uma parte de seu território, Guantánamo, continua invadida pelo Pentágono.

Nas décadas de 1960 e 70, ditaduras foram instauradas no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, na Bolívia, na Guatemala e em El Salvador, com o patrocínio da CIA e sob a orientação de Henry Kissinger.

Violência atrai violência, dizia dom Helder Câmara. O terrorismo não leva a nada, exceto a endurecer a direita e suprimir a democracia, levando os poderosos à convicção de que o povo é incapaz de governar-se por si mesmo.

Vítimas inocentes não podem ser sacrificadas para satisfazer a ganância de governos imperiais que se julgam donos do mundo e pretendem repartir o planeta como se fossem fatias de um apetitoso bolo. Os atentados de 11 de setembro de 2001 demonstraram que não há ciência ou tecnologia capaz de proteger pessoas ou nações. Inútil os EUA gastarem trilhões de dólares em esquemas sofisticados de defesa. Melhor seria que essa fortuna fosse aplicada na paz mundial, que só irromperá no dia em que ela for filha da justiça.

A queda do Muro de Berlim pôs fim ao conflito Leste-Oeste. Resta agora derrubar a muralha da desigualdade entre Norte-Sul. Sem que o pão seja nosso, nem o Pai e nem paz serão nossos.

 

El Salvador – D. Oscar Romero, FMNL, Mauricio Funes

Selvino Heck

A história anda, sim. Primeiro de fevereiro de 1932: Agustín Farabundo Martí Rodriguez é fuzilado em El Salvador por forças militares organizadas pelos EUA. 24 de março de 1980: D. Oscar Romero, o bispo dos pobres, é assassinado em El Salvador durante a celebração. Abre-se a guerra civil no país e em 10 de outubro de 1980 surge a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional – FMLN, que só termina em 1992, com a transformação da FMLN em partido institucional. 15 de março de 2009, com o lema ‘Nasce a Esperança’, o jornalista Mauricio Funes, indicado pela FMLN, é eleito presidente de El Salvador com 51% dos votos, depois de mais de 60 anos de luta clandestina das forças populares e de esquerda e de 20 anos de hegemonia da direita conservadora.

Em 1977, D. Romero disse: “A missão da Igreja é identificar-se com os pobres”. 2009, o presidente eleito (casado com Vanda Pignato, brasileira, filiada do PT) diz: “Neste dia, triunfou a cidadania que acreditou na esperança e venceu o medo. Esta é uma vitória de todo o povo salvadorenho”; “Monsenhor Romero disse que a Igreja tinha uma opção preferencial pelos pobres. Isso eu farei: favorecer os pobres e os excluídos.”

Nestes momentos não há como escapar da celebração da vitória, da alegria, da lágrima. Os dias não são todos igualmente tristes. Chora-se também de felicidade. A história não é feita apenas de derrotas e derrotados.

Os mais antigos lembram de Fidel, Che e Raul entrando em Havana em 1959, há 50 anos, sob as bênçãos de José Martí. Alguns um pouco mais novos acompanharam a chegada da Frente Sandinista de Libertação Nacional em Manágua em 1979, sob as bênçãos de Augusto César Sandino. Outros tantos aprenderam a admirar a Frente Farabundo Martí e sua luta pela libertação de El Salvador, que agora chega ao governo com a vitória de Mauricio Funes, sob as bênçãos de Agustín Farabundo Martí Rodriguez.

Escreve Emir Sader: “Quando da posse de Fernando Lugo, presidente do Paraguai, em agosto de 2008, a revista ‘The Economist’ afirmou que, com a crise, aquele era o último presidente de esquerda a ser eleito. Com a chegada da crise, os temas centrais passariam a ser favoráveis à direita – ajuste fiscal e violência.”

Os oráculos dos sábios neoliberais mais uma vez erraram em seus vaticínios. A direita perdeu em El Salvador. O presidente Lula, no encontro com o presidente Obama, pede o fim do embargo a Cuba, dizendo que os EUA, através de seu presidente, têm a obrigação de estabelecer uma nova relação com a América Latina: “Uma relação não como a Aliança para o Progresso dos nos anos 60, nem uma política de ingerência, mas uma relação de parceria”. Sobre o embargo a Cuba, Lula afirmou: “Não sei o que os cubanos querem, eu não falo por eles. Mas não existe, do ponto de vista política, sociológico e da racionalidade humana, nada mais que impeça o restabelecimento da relação diplomática entre EUA e Cuba. Não é possível que a gente continue fazendo, no século 21, política com um olhar do que aconteceu no século 20.”

Evo Morales, presidente da Bolívia, publica um artigo no ‘New York Times’, com o título: DEIXEM-ME MASCAR MINHA FOLHA DE COCA. Diz Evo: “A folha da coca é um importante símbolo da história e da identidade das culturas indígenas dos Andes. O costume de mascar folhas de coca existe na região andina da América do Sul desde 3000 AC. Ele ajuda a mitigar a sensação de fome, proporciona energia durante os longos dias de trabalho, ajuda a conter o enjôo da altitude e não causa nenhum dano à saúde.” E o indígena Evo mascou uma folha de coca à frente da imprensa presente na reunião da Comissão da ONU para Drogas e Crime em Viena.

A história anda, sim. Disse Rigoberta Menchú, guatemalteca, prêmio Nobel da Paz de 1992: “As eleições de El Salvador marcam uma nova pauta para a América Central e para a América Latina. Há ordens que já estão no passado, como a recusa à mudança, quando precisamos de uma mudança.” E as palavras de Hugo Chávez: “Esta vitória consolida a corrente histórica que, na primeira década do século XXI, se levantou em toda a América Latina e no Caribe, e abre as portas a outros povos irmãos nos desafios que têm adiante.”

A crise econômica internacional que afeta, especialmente os EUA, Europa e Japão, criada por eles, é a oportunidade histórica de afirmar a soberania nacional e construir um projeto de desenvolvimento alternativo ao neoliberal e um projeto de sociedade alternativo ao capitalista.

Disse o presidente Lula há poucos dias no Seminário Internacional sobre Desenvolvimento promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social: “Um novo paradigma emerge em meio às ruínas das finanças desreguladas. Consolida-se rapidamente um novo idioma político, que recupera e fortalece a luta por uma sociedade cada vez mais democrática e justa socialmente. A ideologia neoliberal do Estado mínimo experimenta o seu crepúsculo. Emprego e oportunidade, saúde pública e educação de qualidade, infância amparada e velhice digna são as renovadas balizas do desenvolvimento. Permitam-me dizer-lhes – não sem um ponta de orgulho – que na América do Sul e em especial no Brasil, a partir de 2003, essas balizas conquistaram ampla legitimidade em todos os escrutínios a que foram submetidas nos últimos anos. Não me peçam para fazer com que os trabalhadores paguem a crise outra vez, arrochando salário, não me peçam porque estou convencido de que a nossa teoria estava correta. Quando diziam, neste Brasil, que a gente só poderia distribuir se o país crescesse, nós ficamos esperando crescer 30 anos, e cresceu. Alguns poucos comeram e nós ficamos sem nada. E a gente dizia: é preciso distribuir para a gente garantir que a economia cresça.” Lula terminou o discurso com a seguinte frase: “Qualquer política econômica só será séria se for subordinada à produção, à geração de empregos e à distribuição de renda.”

A América latina, finalmente, respira ares de democracia. A vontade popular soberana se espraia. A luta de Bolívar, de José Martí, de Farabundo Martí, Sandino, Che, tantos e tantos outros e outras não foi em vão. Nem a nossa luta está sendo.

François Houtart: ‘…nunca houve tanta riqueza e tantos pobres como agora’

Foro Diamantino
Tradução: Adital

O sociólogo belga François Houtart (Bruxelas, 1925), uma das vozes mais radicais do movimento antiglobalização cristão, inaugurou o curso do Centro Mediterrâneo da Universidade de Granada ‘O caminho que estamos vivendo’, no qual participam destacados intelectuais, como Federico Mayor Zaragoza, Carlos Tablada, Joaquín Estefanía, José Vidal-Beneyto e Riccardo Petrella. Houtart, delegado especial do presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas para a Reforma do sistema Financeiro e Monetário, fundador do Centro Tricontinental da Universidade Católica de Lovaina.

– Como vê a crise atual?

– Fala-se muito de crise financeira; porém, ela é um epifenômeno de um problema muito mais grave que é a lógica da organização econômica mundial. Há uma convergência de diversas crises: alimentar, energética, climática, social, humanitária, ecológica…

– Como será essa ‘sociedade do futuro’ da qual o senhor fala no curso?

– A sociedade do futuro tem que ser pós-capitalista e somente pode ser construída sobre quatro grandes eixos. Primeiro, uma relação de respeito e não de exploração com a natureza. Na prática, significa declarar a água e as sementes patrimônio universal e não permitir sua privatização. O segundo eixo é privilegiar o valor de uso sobre o valor de troca, o que significa que os produtos e os serviços teriam que ser desenvolvidos em função das necessidades e não do usufruto. Estamos em uma situação absurda: nunca houve tanta riqueza e tantos pobres. Para a acumulação do capital é mais interessante desenvolver de maneira espetacular 20% da população mundial do que produzir bens e serviços para os demais 80% que não têm poder de compra. O terceiro eixo é a democratização da sociedade, não somente no campo político, mas em todas as relações sociais coletivas: na economia, nas instituições da saúde, da educação, no esporte e na religião, entre homens e mulheres… E o quarto eixo é a multiculturalidade: a possibilidade de que todos os saberes, filosofias e religiões contribuam para a construção social coletiva. Até agora, identificamos desenvolvimento com ocidentalização e os saberes tradicionais têm sido marginalizados.

– Como acredita que será a transição de um sistema para outro?

– São necessários atores que construam uma nova relação de força -o qual não significa necessariamente violência-, porque o sistema não vai mudar por si mesmo. No século XIX e XX o ator que se opunha ao capitalismo era a classe operária; porém, hoje, com as mudanças no trabalho, com a debilidade das organizações operárias e com a globalização, os atores são todos os grupos sociais subalternos atingidos pela lei do capital: os camponeses sem terra, os indígenas, as mulheres, os estudantes… O novo ator histórico é global. Somente a convergência dessas lutas pode transformar as coisas. O problema é que são resistências um tanto isoladas. Para ter uma força real necessitam da dimensão política, e isso é ainda muito solto. Só na América Latina se vê os primeiros passos de alternativas que vão contra a lógica do sistema dominante: na Venezuela, na Bolívia, no Paraguai, no Equador… Por exemplo, foi a convergência de ONGs, movimentos sociais, igrejas e alguns governos que impediu o tratado de livre comércio entre EUA, Canadá e América Latina, e está tentando outro tipo de integração latinoamericana através da ALBA.

– O senhor afirma que é necessário construir o socialismo. Porém, que socialismo: o de Zapatero ou o de Fidel?

– O pós-capitalismo pode chamar-se socialismo; porém, deve ser definido por seu conteúdo. Do contrário, é uma palavra ambígua: pode ser Pol Pot, Stalín, Tony Blair… Para mim, o socialismo se define em função dos quatro eixos que citei anteriormente.

– Crê que Cuba é um bom exemplo de construção socialista?

– Cuba é um ensaio que tem tido êxitos -especialmente no plano da saúde, da educação, do esporte e da cultura-; porém, também teve o obstáculo da dominação da URSS durante vinte anos, que reorientou o modelo original e do qual Cuba está tentando sair desde o fim dos anos oitenta. Em Cuba, como nos demais países, a construção do socialismo teve que ser feita nas piores condições, guerras, embargos, a queda da URSS…

– O socialismo é incompatível com a democracia?

– Não, de nenhuma maneira. Porém, não podemos dizer que não existe democracia em Cuba. Esse é o argumento habitual dos ataques a Cuba. Há um desejo de mais democracia, mais agilidade, menos rigidez no sistema burocrático e político, mais participação, apesar de que lá existe muito mais democracia do que em qualquer outro país da América Latina… A forte reação do mundo capitalista teve como consequência em Cuba a rigidez do sistema, a militarização, para defender-se. Porém, não são as pressões do exterior que vão conseguir maior democratização em Cuba; ao contrário: quanto mais pressões, mais resistência.

– Crê que o triunfo de Barack Obama é um motivo para a esperança?

– Foi um sinal de esperança porque é a primeira vez que um negro ou um ‘quase negro’ chega ao poder em um país como os Estados Unidos. Isso, simbolicamente, é muito importante e assim foi sentido na África, na América Latina e nos EUA. Porém, daí a pensar que Obama não será o presidente de um império é outra coisa. Não somente pela força das estruturas, mas também porque ele é um homem do ‘stabilishment’. Tem posições mais abertas em relação a Kyoto e temos que aplaudi-lo; porém, no fundo, a lógica não mudou. Como dizem os cubanos: têm que acostumar-se a ter um imperador negro.

– A autoridade de Roma, o que resta da Teologia da Libertação depois de tantos anos de conservadorismo do vaticano?

– A Teologia da Libertação não está morta; porém, sim, sofreu um enorme golpe porque a instituição eclesiástica católica cortou todos os canais de difusão: seus teólogos foram eliminados de todas as faculdades e centros de pastoral controlados pela Santa Sé. Ao mesmo tempo, conheceu uma certa extensão temática nos últimos vinte anos: feminista, ecológica, dos povos indígenas… E, além disso, desenvolveu-se nas universidades leigas e nas comunidades de base (CEBs). Devemos confessar, no entanto, que sim, a política de restauração da autoridade de Roma tem sido muito negativa para esse projeto de pensamento e de ação.

– A sociedade espanhola é cada vez menos católica; porém, os bispos estão sempre em primeiro plano falando do aborto, da eutanásia, da investigação científica… Por quê?

– A cultura e a ética estão em plena evolução sobre esses e outros temas. O fato de que a hierarquia eclesiástica tenha tomado posições extremamente conservadoras e reacionárias frente a essa evolução choca com coisas que são consideradas de sentido comum, como a dignidade da vida, a dignidade da morte, o problema da limitação de nascimentos, etc… E essa imposição é notícia. A razão dessa atitude me parece muito ligada à concepção da autoridade eclesiástica, mais do que a uma questão de doutrina: quem sabe o façam com boa intenção; porém, é uma concepção totalmente equivocada do ser humano, um reducionismo aos fatores puramente biológicos, uma concepção puramente materialista que não considera a cultura, o que deveria ser o papel de uma instância religiosa.

– O senhor é sacerdote. Algum dia pensou em realizar seu trabalho intelectual fora da Igreja Católica?

– Praticamente é o que estou fazendo! Não estou fora do Evangelho, nem fora da igreja como Povo de Deus; porém, não estou em convergência com a instituição central, isso está claro.