População em Situação de Rua

Padre Júlio fala aos padres carlistas sobre a população de rua

No último dia 20 de setembro, Pe. Júlio foi conversar com os padres carlistas (Scalabrinianos, da Congregação dos Missionários de São Carlos) sobre seu trabalho junto a população em situação de rua. Vejam alguns trechos do encontro:

Saiba mais sobre o tema e sobre os padres carlistas:

Rostos sem Pátria: a rua como lugar teológico ;

Província São Paulo

População em situação de rua e cidadania

Selvino Heck

Diz o jornal O Trecheiro – Notícias do Povo de Rua -, edição de maio de 2008, Edição Especial: “O Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em suas visitas anuais aos catadores e à população de rua, se comprometeu a criar uma política nacional e possibilitar a inclusão de todos em programas com condições de vida mais dignas. Pelo decreto de 25 de outubro de 2006, ele constituiu o Grupo de Trabalho Interministerial – GTI, com a participação direta de representação da população de rua.”

O II Segundo Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua, realizado em 17/18 de maio na Academia de Tênis em Brasília, teve participação de representantes do povo de rua e de sua entidade, o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), de instituições apoiadoras, de pastorais sociais, de membros do governo federal. Segundo Pesquisa Nacional sobre a População de Rua, realizada pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em 2007, em cidades com mais de 300 mil habitantes, “o número de pessoas em situação de rua nesse conjunto de cidades é superior a 45 mil, sendo que mais de 20% concentram-se na cidade de São Paulo” (O Trecheiro, maio/2009, p. 4).

O II Encontro aprovou os princípios de uma Política Nacional para a População em Situação de Rua, como o respeito à dignidade do ser humano, o direito ao usufruto e permanência na cidade, a garantia e defesa de direitos fundamentais, combatendo práticas higienistas e ações preconceituosas e violentas, o respeito à diversidade humana, garantia de laicidade do Estado na prestação direta e indireta de serviços públicos, direito à convivência familiar e comunitária.

Aprovou também diretrizes como a formulação e implementação de políticas públicas acessíveis de saúde, educação, habitação, lazer e cultura, respeitando a diversidade humana em suas diferentes expressões, o incentivo à organização política da população em situação de rua, a criação de uma Secretaria Especial de Promoção da Política nacional de inclusão da população em situação de rua.

Foram aprovadas ações nas áreas de Direitos Humanos, de segurança pública e justiça, de trabalho e emprego, de desenvolvimento urbano e habitação, de assistência social, de educação, de segurança alimentar e nutricional, de saúde, de cultura, de esporte e lazer.

Na abertura, o Pe. Júlio Lancellotti, histórico apoiador da população em situação de rua, denunciou as políticas de higienização que acontecem em muitas cidades, especialmente São Paulo (que segundo o ministro Patrus Ananias na verdade são ‘sujação’), e que pretendem ‘limpar’ as metrópoles de todos aqueles que vivem nas ruas, perseguindo-os, expulsando-os de seus lugares, ou mesmo os assassinando. Pe. Júlio disse que, para que se soubessem os lugares dos crimes, marcam-se as ruas, as praças, os viadutos com tinta que não se apaga, para fazer a denúncia, significar a resistência e exigir a cidadania de todos os seres humanos.

O ministro Patrus Ananias, do MDS, disse que deveria ser lembrado Paulo VI que, em sua Encíclica sobre o Desenvolvimento dos Povos, escreveu que ‘ao menos os ricos saibam que os pobres estão à sua porta e recebam as sobras do banquete’. Disse Patrus Ananias: “Este Encontro significa que a população em situação de rua não quer apenas isso, e sim direitos. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome foi criado para cuidar das pessoas mais pobres, vítimas do preconceito e da violência. O valor fundamental é a dignidade humana. Por isso, o Encontro deve oferecer projetos ambiciosos nas áreas de trabalho, moradia, assistência social, num pacto em torno do direito à vida. O presidente Lula assumiu um compromisso pessoal e nunca negou apoio, como todo e qualquer governo deveria fazer”.

Gilberto Carvalho, Chefe de Gabinete do Presidente Lula, em tom emocionado, no encerramento do Encontro, reiterou os compromissos do presidente Lula e do seu governo com os mais pobres, especialmente com a população em situação de rua: “Quem é do governo, mais que falar deve ouvir. O Encontro garantiu o direito à fala de quem nunca teve espaço, vez e voz”.

Ao final, o Movimento Nacional da População de Rua e os representantes da sociedade civil presentes no II Encontro Nacional divulgaram a Carta Aberta de Brasília encaminhada ao Presidente Lula, que começa com os versos de Geraldo Vandré: “Vem, vamos embora/ que esperar não é saber,/quem sabe faz a hora/ não espera acontecer.”

A Carta Aberta apresenta a Política Nacional para População em Situação de rua, “como instrumento da realização dos direitos sociais, com vistas a assegurar a universalização do acesso da população em situação de rua a esses direitos, assegurada a igualdade de condições para esse acesso”, abrindo “uma travessia fecunda na direção da felicidade de milhares de brasileiros e da concretização do Brasil como um País de todos!”

Como representante da população em situação de rua, falou Anderson Lopes de Miranda: “Este é o único governo que olhou para o povo. Esta é uma política que não vem de cima pra baixo, mas de baixo para cima, construída por todos nós.” E cantaram todos e todas um refrão de esperança: “Traga a bandeira de luta/ deixa a bandeira passar/ essa é a nossa conduta/ vamos unir pra mudar.”

Construção de Cidadania

Fonte: O Trecheiro – Maio de 2009
Por Pe. Júlio Lancellotti

A construção da Lei nº 12,316 em São Paulo, que anuncia a política pública de atenção à população de rua foi construída com forte participação das entidades sociais, Igrejas e, principalmente, com a participação da população em situação de rua.

O mesmo tem acontecido com a Política Nacional. O método é exigente e trabalhoso, mas é garantia de êxito na contrução de cidadania, vista como relação de direitos e deveres. Fator importante sempre foi o de não isolar na Assistência Social toda a responsabilidade de garantia de direitos sociais.

Todo esse trabalho num imenso e complexo processo tem como pano de fundo a filosofia da Pessoa Humana vista em sua totalidade e relações e não a busca fragmentada e imediatista de soluções falsas ou temporárias que respondem muito mais a outros interesses que aos da população em situação de rua.

A promulgação legal da política pública não encerra o processo de sua construção, mas o inicia, tornando o desafio maior ainda, porque tem direção e sentido. O marco legal torna-se ferramenta e instrumento de trabalho que poderá em diferentes maios e tempos significar avanços e vitórias na emancipação de grupo social tão vulnerável e de diferentes respostas para tão diferentes necessidades.

A construção da Política Nacional para a população em situação de rua é fruto de um longo e amadurecido processo de mobilização que ganhou reconhecimento nacional e, este clamor não poderia mais se calar.

Hoje a população em situação de rua se faz representar em várias instâncias de participação nos âmbitos federal, estadual e municipal.

As visitas do Presidente da República à população de rua todo fim de ano em São Paulo e a criação do Grupo de Trabalho Interministerial foram passos decisivos para se chegar hoje, apesar de todos os acidentes de percurso, à elaboração de uma proposta de Política Nacional para a População em Situação de Rua.

Nesse longo caminho, muitos foram os aliados, os desafios, idas e vindas, mas maior será a possibilidade de tornar realidade a Esperança que durante todo esse tempo nos alimentou.

Leia a notícia sobre o II Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua clicando aqui.

II Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua

Fonte: O Trecheiro – Edição de maio de 2009

O II Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua previsto para os dias 19 e 20 de maio de 2009, em Brasília, representa um marco fundamental no caminho da conquista de políticas públicas que superem o atraso e descaso dos governantes, uma dívida histórica em relação à população em situação de rua.

Ao longo dos anos, o Estado tem-se comportado de forma preconceituosa com ações discriminatórias e assistencialistas em muitas cidades brasileiras. O descaso predomina, além da higienização e extermínio por meio de violência institucional e policial muitas vezes com apoio de setores da sociedade civil. Não há políticas consistentes de saída das ruas nas três esferas de governo. A situação se agrava pelas duras condições de vida observadas nas ruas e nos serviços geralmente paliativos.

Apesar disso, desde a década de 1980, pessoas em situação de rua procuraram se organizar, principalmente, nas grandes cidades brasileiras contando, principalmente, com o apoio de organizações não governamentais. Tanto em conjunturas políticas repressivas quanto nas mais propícias à participação, a população de rua enfrentou de forma organizada desmandos dos poderes públicos e violência policial, procurando dar visibilidade à sociedade de suas condições sociais e avançar nas conquistas fundamentais de seus direitos.

Por outro lado, a violência e mortes nas ruas em muitos municípios no ano de 2004 mobilizaram manifestações públicas de denúncia e de necessidade de políticas eficazes de atendimento que muito reforçaram a organização em torno do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR).

A partir de 2003, o governo federal reconheceu a necessidade de implementar políticas públicas para catadores de materiais recicláveis e para a população em situação de rua e adotou várias medidas na construção desse processo, além da presença do Presidente Lula e de ministros nas cerimônias de Natal realizadas em São Paulo, nesses últimos seis anos de sua gestão.

De um lado, a pressão de setores populares, incluindo o MNPR e organizações sociais, de outro, o compromisso de determinados setores e dos profissionais dos ministérios, particularmente o empenho do presidente Lula, resultaram na criação, em 26 de outubro de 2006, do Grupo de Trabalho Interministerial – GTI.

Portanto, a política proposta é resultado de uma luta histórica empreendida por diferentes grupos em muitas cidades brasileiras que vivem sem reconhecimento social e, ainda, altamente discriminados nas ruas e nos serviços.

Leia a reflexão do Pe. Júlio Lancellotti clicando aqui.

(Ver proposta apresentada ao MDS por representantes da sociedade civil, integrantes do GTI em maio de 2009 no site http://www.rederua.org.br).