teologia

Entrevista de Maria Clara Bingemer: O rosto feminino de Deus

IHU – Unisinos

“A pós-modernidade resgatou a transcendência que a modernidade havia tentado banir do horizonte humano, mas resgatou uma transcendência sem absolutos”, explica a teóloga brasileira Maria Clara Bingemer, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Ela comenta as diversas formas de viver a experiência religiosa na modernidade e na pós-modernidade. Também fala sobre as contribuições cristológicas dadas pelos estudos de gênero. “A Cristologia é percebida inclusive por muitas mulheres como sendo a doutrina da tradição cristã que mais freqüentemente foi usada contra elas”, disse.

IHU On-Line – Quem é Jesus? O que destacaria d’Ele, baseada na sua própria reflexão teológica?

Maria Clara Bingemer – Antes de tudo, Jesus é uma pessoa humana. Creio que é esse o caminho que seguem as primeiras testemunhas e que também nós, cristãos, somos chamados a seguir. Jesus (que) é (era) homem, (que) é (era) irmão, (que) é (era) Messias (Cristo),(que) é Filho, é Deus.

Dizer simplesmente “Jesus é Deus”, sem supor a humanidade do mesmo Jesus, pode ser herético, pois significa negar todo o processo da revelação e da salvação. Se não fizermos nenhuma distinção; se não reconhecermos nenhuma alteridade, nenhuma diferença entre as pessoas divinas; se afirmarmos equivalente e simetricamente “Jesus é Deus” assim como afirmamos “O Pai é Deus”, acabaremos por afirmar e identificar “Jesus é o Pai”, e acabaremos comprometendo nosso entendimento do Novo Testamento e a revelação que faz da pessoa de Jesus. Assim, essa é minha experiência com a pessoa de Jesus. Uma experiência de encontro. Só depois virá a reflexão teológica, que faz perceber que aquele homem tem um comportamento essencialmente fraterno com toda e qualquer pessoa que cruza seu caminho. Que nele se encontram os gestos e os fatos que se espera da chegada do Messias. Que ele tem com Deus uma relação única e singular, que ninguém mais tem. Isso é o que faz possível a experiência de vê-lo morto e experimentá-lo ressuscitado e vivo no meio de nós. E proclamar, então, que ele é o Filho de Deus e Deus mesmo.

Para chegar à confissão de fé na divindade de Jesus Cristo, tudo tem que começar em sua humanidade. É por isso que Deus se fez carne em Jesus de Nazaré. Para que nós possamos, a partir do núcleo de nossa humanidade, encontrá-lo e relacionarmo-nos com ele.

IHU On-Line – Como o feminismo ajuda a entender a pessoa de Jesus? O que seria uma cristologia feminista?

Maria Clara Bingemer – Prefiro a palavra “reflexão de gênero” do que “feminismo”. Ou seja, a consciência feita reflexão de que todo conhecimento que se elabora necessariamente é situado, tanto no contexto histórico e cultural onde se vive quanto no gênero ao qual pertencemos. Por isso, o fato de ser mulher e ter disso consciência, obriga a levantar sobre Jesus um tipo de reflexão a partir disso. Uma reflexão teológica, portanto, que os homens não podem fazer.

Entre os diferentes tratados da Teologia que buscam repensar-se a partir da perspectiva da mulher, a Cristologia é talvez um dos mais importantes e, certamente, dos mais polêmicos. Porque se, por um lado, Jesus Cristo é o centro da fé e da teologia cristãs, o ponto de convergência e de possibilidade de acesso da pessoa humana – homem e mulher – à salvação oferecida pelo Deus vivo, e, portanto, à vida em plenitude que é esse Deus em si mesmo, por outro lado, para muitas mulheres, a masculinidade de Jesus – ou seja, o fato histórico teológico de que o Deus de toda glória e majestade se haja encarnado na pessoa de um varão da Palestina há 2.000 anos -, não está isenta de problemas.

Muitas teólogas feministas, em seu intento de pensar o mistério revelado desde sua perspectiva de seres humanos do sexo feminino, encontraram um obstáculo na pessoa de Jesus. A centralidade – o senhorio – deste Deus masculino lhes soava como havendo sido empregado doutrinária, política, psicológica e estruturalmente ao serviço de uma fraternidade de irmãos e padres – a Igreja -, cujos membros femininos foram sempre contados como auxiliares ou subalternos ou, em casos especiais, percebidos como muito semelhantes aos homens para que elas pudessem ser relativamente bem aceitas em sua companhia.

Cristologia e questões de gênero

A Cristologia é percebida, inclusive, por muitas mulheres como sendo a doutrina da tradição cristã que mais freqüentemente foi usada contra elas. Algumas afirmações de grandes mestres da teologia, como Agostinho de Hipona e, na alta escolástica, e Tomás de Aquino, foram interpretadas no sentido de que o macho é o sexo genérico da espécie humana. Somente o macho representa a plenitude do potencial humano, enquanto a mulher, por natureza, é deficiente física, moral e mentalmente. Esta concepção leva a afirmar que não só depois da queda original, mas também na essência original das coisas, a natureza deficiente da mulher a confinou a uma posição subserviente na ordem social. Ela é, por natureza, subjugada. Portanto, a encarnação do Logos de Deus em um macho não seria um acidente histórico, mas uma necessidade ontológica. O macho representa a totalidade da natureza humana, em si mesmo e como cabeça da mulher. Ele é a totalidade da imagem de Deus, enquanto a mulher por si mesma não representa a imagem de Deus e não tem a totalidade da humanidade.

Portanto, a cristologia feita pela mulher levanta as seguintes perguntas: se o cristianismo é fundamentalmente seguimento e identificação de e com Jesus Cristo, se nisto consiste a salvação e a plena realização dos desejos do coração humano, como pode a mulher encontrar seu lugar aí, em plena fidelidade a sua condição feminina? Como encontrar o caminho para sentir-se cidadã plena no Reino proposto por Jesus? Como encontrar seu espaço na Revelação de um Deus com características masculinas e numa comunidade de estrutura e corte essencialmente masculinos formada por seus seguidores?

IHU On-Line – O que caracterizaria sentir Deus de um modo feminino?

Maria Clara Bingemer- Foi Jesus quem nos ensinou a chamar a Deus de Pai. E, certamente, ele o fez seguindo os modelos culturais da época, que falavam masculinamente de Deus. Diferentemente de outros povos que tinham também deusas, o povo de Israel sempre se referiu a Javé no masculino. Mas como falar de Deus-Pai nessa nova linguagem? Primeiramente, é preciso lembrar que Deus-Pai não é pai como nossos pais humanos, tão marcados por pecados e imperfeições. Além do mais, o pai entra com apenas uma parcela na fonte e origem da vida de uma criança. Quando dizemos Deus-Pai, já estamos afirmando a paternidade perfeita do Pai, uma paternidade que inclui toda a dignidade e beleza e generosidade, tanto da paternidade quanto da maternidade. Em si, quando dizemos Deus-Pai, já estamos pensando e falando num Deus que também é Mãe. A geração eterna do Filho pelo Pai é tão plena e perfeita que num único Filho resplandece toda ternura materna e todo vigor paterno de seu amor.

Por outro lado, não se pode cair na tentação oposta, e chamá-lo somente de Deus-Mãe. Também nossas mães humanas são marcadas por imperfeições e pecados, e nenhuma delas consegue ser sozinha a fonte da vida de seus filhos. Além disso, em nossa linguagem católica, a palavra “Mãe” é específica para se falar de Maria. Estaríamos correndo um sério risco de promover confusões entre Maria (que não é deusa, mas criatura de Deus) e Deus.

A maternidade de Deus e de Jesus

Não se pode, porém, negar a necessidade e urgência de apresentar a dimensão feminina de Deus. A própria Bíblia fala de Deus-Pai em linguagem feminina. Consola o povo, como a mãe consola o filho (Is 66,13). Compara-se à mãe que nunca abandona o filho (Is 49,15). No Concílio Regional de Toledo, no ano de 675, se afirma em linguagem feminina que “o Filho foi gerado do útero do Pai”. O Papa João Paulo I, o papa-sorriso, disse: “Deus é Pai e Mãe”.

Porém, não se pode aplicar a denominação feminina apenas à primeira pessoa da Santíssima Trindade, ou seja, à pessoa do Pai. O amor de Deus pela humanidade, que flui da economia trinitária, é a imagem e forma da realidade mais funda de Deus. O amor assim misteriosamente entendido é inclusivo, não deixando fora de si o pobre ou os pequenos deste mundo.

A reciprocidade trinitária é matriz para a reciprocidade inter-humana, primeiro e último elemento de tudo que existe. Da mesma maneira que o Filho e o Espírito Santo constituem referências de um Princípio sem princípio, um Mistério absoluto – o Pai -, assim também o homem e a mulher são constituídos através da referência a um dinamismo que os transcende e constitui o mistério do ser humano.

Cada pessoa da Trindade mostra uma harmonização de características masculinas e femininas. Trata-se de uma comunidade de amor que se revelou também no feminino, assim como no masculino.

IHU On-Line – Que características adquire a experiência religiosa na modernidade?

Maria Clara Bingemer – A experiência religiosa na modernidade passa pelo crivo do processo de secularização e o domínio da razão. Toda experiência e, inclusive a experiência religiosa, nos tempos modernos deve passar pela bênção da razão. A crise dessa razão potente que a tudo explica e a tudo justifica traz consigo o advento de um novo tempo juntamente com uma nova maneira de ver as coisas. Ao mesmo tempo, com o advento da pós-modernidade, começa uma nova valorização da gratuidade, da contemplação, do sensível.

Não é mais valorizado apenas aquilo que passa pelo crivo da razão, mas também e muito especialmente aquilo que vai de encontro à afetividade e provoca a sensibilidade. A experiência religiosa irá encontrar aí uma maneira de ser e de existir que está mais de acordo ao perfil do homem e da mulher pós-modernos: sinto, logo existo. A cultura de sensações seduzidas, que caracteriza a pós-modernidade, irá marcar os tempos em que vivemos com a marca indelével da afetividade seduzida e sensibilizada. Apenas às vezes muito superficialmente.

Portanto, se a pura racionalidade, rígida e inflexível da modernidade, engessou a experiência religiosa e distanciou-a do viver das pessoas, por outro lado, a superficialidade e o “à flor da pele” da pós-modernidade corre o risco de torná-la fluida e líquida, como líquidos são os tempos hiper-modernos. A pós-modernidade resgatou a transcendência que a modernidade havia tentado banir do horizonte humano, mas resgatou uma transcendência sem absolutos.

IHU On-Line – Quais são os aspectos mais relevantes das pesquisas científicas sobre o Jesus histórico?

Maria Clara Bingemer – As pesquisas sobre o Jesus histórico trazem, sobretudo, um aspecto relevante: abordar o mistério de Jesus Cristo a partir da história, da humanidade, a partir de baixo, em um movimento ascendente. Uma cristologia ascendente parte do humano, ou seja, trata-se de uma cristologia que parte “de baixo”. Segundo este modo de aproximar-se do mistério cristológico, Jesus foi um homem singular e único. Irrepetível e absolutamente original, viveu a existência ameaçada e insegura de todo ser humano, comprometendo-se na mais radical obediência a Deus para libertar a humanidade, porque para isso havia sido enviado por seu Deus e Pai. Após realizar totalmente e até o fim o plano de Deus, foi por Deus ressuscitado e constituído Senhor e Cristo. Nesta perspectiva, estão necessariamente vinculadas a cristologia e a soteriologia, o mistério de Cristo e nossa salvação, já que uma não se pode compreender sem a outra. Além disso, esta perspectiva teológica tem a vantagem de que salva a cristologia de todo perigo de monofisismo ou de infiltrações míticas, sejam elas quais forem. Nesta cristologia, aparece claro que Jesus Cristo foi um homem inteiramente igual a todos os outros seres humanos, menos no pecado (Heb 4,15; cf. Fil 2,7-8).

A humanidade de Jesus

Por outra parte, nesta cristologia se explicam sem dificuldade toda uma série de afirmações que os evangelhos fazem sobre Jesus: dizem que ele aprendia (Lc 2,40.50), que sentia saudades e se surpreendia (Mt 8,10; Lc 7,9; Mc 6,6), que não sabia ou conhecia certas coisas (Mc 13,32), que tinha tentações (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13; 22,28), que sofreu o medo diante da morte e do fracasso (Mt 26,38; Mc 14,34; Lc 22,43-45; Heb 5,7). Definitivamente, Jesus aparece nestes textos como alguém muito humano, a quem se pode seguir e a quem se pode tomar como modelo e desejar imitar. Igualmente, nesta interpretação, Jesus aparece como um judeu muito consciente de sua pertença ao povo eleito. Mais: aparece como alguém que se dá conta da verdadeira situação de seu povo, e se compromete até o fundo para libertar seus semelhantes das múltiplas cadeias e escravidões (morais, religiosas, humanas) em que estão aprisionados, por obediência a seu Pai , em quem ele vê o Deus libertador que se revelou no Antigo Testamento. Mas esta cristologia tem o inconveniente de que, ao menos em princípio, não explica suficientemente toda uma série de afirmações do Novo Testamento nas quais se fala da preexistência de Cristo e da consciência messiânica de Jesus, que aparece afirmada em alguns textos do Novo Testamento, especialmente o evangelho de João.

IHU On-Line – O que caracteriza o messianismo cristão? Como Jesus o viveu? Como o aspecto messiânico é vivido no cristianismo de hoje e quais as derivações dele?

Maria Clara Bingemer – A messianidade de Jesus é ponto fundamental da fé das primeiras comunidades cristãs. As comunidades cristãs declararam ser Jesus de Nazaré o Messias esperado, o que, em si mesmo, já é uma confissão de fé. O Messias e o carpinteiro Jesus que morreu crucificado pelos romanos são, então, a mesma pessoa, ou seja, o evangelista. Esse Messias é inseparavelmente o Filho de Deus. O evangelista nos dá a fórmula da fé: vincula a pessoa de Jesus a um certo quadro histórico: o do ambiente judaico que espera a vinda de um Messias, que clama pela Redenção.

A tendência da cristologia ascendente, hoje, nos permite afirmar que Jesus experimentou sua autoconsciência messiânica não em termos de um messianismo régio ou monárquico ou mesmo de uma condição de ser preexistente, mas de um chamado divino. O que caracteriza, portanto, o messianismo de Jesus é o fato de sentir-se eleito e enviado para realizar uma missão divina particular e obedecer estritamente ao chamado de Deus.

Nesse sentido, as ações e o ensinamento de Jesus mostram que ele se autocompreendia dentro de uma relação marcante com Deus seu Pai e investido de uma missão especial. O sofrimento e a morte, do mesmo modo que a esperança na ressurreição, foram assumidos como decorrência da obediência irrestrita à vontade do Pai. Essa vontade, necessariamente, contrariava a vontade daqueles que não aceitavam o messianismo de Jesus e sua ação libertadora e desejavam que a configuração do campo religioso judaico oficial permanecesse tal como estava antes de Jesus começar sua pregação. E, embora Jesus tentasse e pretendesse conservar em segredo a natureza da autoridade que o fazia tão especial, sua coerência e a força de seu carisma não deixaram de provocar indignação naqueles que desejavam esse carisma para poder ter maior influência sobre o povo e que, no entanto, não o tinham.

Messianismo sem poder nem reformismo político

Jesus não entende seu messianismo como uma atividade meramente política, de poder, mas sim de serviço, que incluirá a incompreensão, a rejeição e o sofrimento. O povo vê, sim, em Jesus um profeta que se dirige às dimensões religiosa e social do ser humano, mostrando-lhes o sentido da vida e a atitude correta a ter para com Deus e com os outros a fim de viver plenamente. Mas se afasta dele no momento em que compreende com certeza que ele não será nem pretenderá ser o reformador político que eles de alguma maneira esperam.

Jesus mostra que seu messianismo está relacionado com o serviço a Deus. Seu messianismo não é monárquico e triunfal. Do ponto de vista político, Jesus será rejeitado justamente pelas autoridades formadas pelos anciãos, sacerdotes e escribas, representantes das principais correntes do Sinédrio. São esses que o condenarão. O sonho de glória dos discípulos que esperavam participar de um poder terreno de Jesus é transtornado e frustrado pela realidade do sofrimento de Jesus.

Maria Clara Bingemer é professora do departamento de teologia da PUC-Rio e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da mesma universidade. Ela é graduada em Jornalismo, mestre em Teologia e doutora em Teologia Sistemática.

Economia rasa e economia profunda

Leonardo Boff

Existe uma economia profunda? Embora não dominante, estimo que existe e deva existir. Nos inícios dos anos 70 do século passado o filósofo norueguês, recentemente falecido, Arne Naes introduziu uma distinção, hoje amplamente acolhida nos meios ambientalistas, entre ecologia rasa e ecologia profunda. A rasa seria aquela que separa o ser humano da natureza e o coloca fora e acima dela, pressupondo que as coisas só possuem sentido quando úteis a ele. A profunda vê o entrelaçamento homem-natureza, afirma o valor intrínseco de cada ser e se dá conta de que uma teia de relações envolve a todos, formando a comunidade de vida. Há um Todo orgânico e cheio de propósito e o ser humano é capaz de identificar o fio condutor que liga e religa tudo e o chama de Fonte Originaria de todo o ser, base de valores infinitos (veneração, amor, justiça) que enchem de sentido a vida humana. A profunda ajuda a rasa a se autolimitar e a não ser destrutiva.

Apliquemos estas reflexões ao campo da economia. A economia rasa seria aquela que se centra somente nela mesma, nos capitais, nos mercados, nos investimentos, nos lucros, numa palavra no PIB, sem preocupação com a delapidação da natureza, com a ruptura da autoregulação da Terra e com o crescente fosso entre ricos e pobres. São externalidades, fatores que não entram no cálculo econômico.

Sua lógica é a de um sistema fechado como se a economia fosse tudo numa sociedade. Efetivamente, como foi amplamente denunciado pela escola de Frankfurt, particularmente por Polaniy, no capitalismo avançado, a economia absorveu todas as instâncias sociais (política, ética, estética, ciência), transformando tudo em mercadoria e, por isso, em oportunidade de ganho. Estabeleceu-se como o eixo articulador do todo social. Isso teve como consequência o excesso insano da vontade de enriquecer a todo custo e nos conduziu ao caos sócio-econômico atual. É a loucura da racionalidade econômica rasa.

Que seria a economia profunda? Seria a volta ao sentido originário de economia como técnica e arte de atender as necessidades da casa, hoje, da Casa Comum, a Terra viva, respeitando seus ciclos e sua capacidade suporte. Ela se inseriria no todo que constitui uma sociedade. Nesta haveria uma base que, em última instância, asseguraria a vida material: a economia. Haveria uma forma de organização, de distribuição do poder e leis que permitiram a todos viverem juntos sem demasiados conflitos. Haveria um conjunto de valores morais, éticos e ideais que dariam sentido à vida social e humanizariam as relações sempre tensas entre as diferenças. E por fim, haveria um horizonte de sentido maior que ancoraria a história numa instância mais alta e desenharia o quadro final do universo: a espiritualidade.

Assim teríamos, idealmente, uma sociedade que poderíamos considerar verdadeiramente humana, porque teria uma visão integradora da complexidade humana.

Aqui emergeria a economia profunda, aquela que sabe seu lugar no conjunto da estruturação social e responderia à questão: como produzir o suficiente e decente conservando o capital natural e em harmonia com a comunidade de vida?

O economista profundo pensaria assim face à crise atual: como podemos resolver os problemas da humanidade e não como salvar o sistema econômico em crise?

A mudança da pergunta envolve a mudança da resposta. E esta somente virá se houver uma quebra do paradigma antigo – a ditadura da economia – e recolocarmos a economia no seu devido lugar no conjunto da sociedade. Esse seria um novo paradigma, sustentável a longo prazo. Então, a economia seria parte da política, que seria parte da ética que seria parte da espiritualidade. A economia rasa seria incorporada na profunda. E diferente seria o futuro.

Água, terra e teologia para outro mundo possível

Claudemiro Godoy do Nascimento

Com o tema “Água, Terra e Teologia para outro Mundo possível” realizar-se-á em Belém, estado do Pará, na Amazônia brasileira o III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, entre os dias 21 a 25 de janeiro. Este evento antecede a realização do Fórum Social Mundial que também se realizará em Belém de 27 de janeiro a 01 de fevereiro de 2009.

Esperamos um momento de profunda reflexão e trocas de experiências sobre o papel da Teologia da Libertação no século XXI. A temática indica-nos que o evento terá como eixo norteador a questão ecológica e as perspectivas de outro mundo possível, sustentável e que afirme a soberania dos povos. A água e a terra se tornam lugares teológicos de reflexão e de construção de alternativas que venham superar a lógica desenvolvimentista irracional com seu mito do progresso que se encontra a serviço do deus capital. Portanto, nestes dias, mais de 400 pessoas do mundo todo estarão reunidas em torno de um único objetivo: fazer a utopia necessária de outro mundo que possibilite o respeito com a vida ameaçada no planeta devido à ganância da humanidade que aprendeu a destruir em nome do crescimento econômico irresponsável.

Com seu caráter interdisciplinar, muitas atividades estão programadas, a saber: conferências, plenárias, oficinas, comunicações, rituais matutinos, celebrações e confraternizações, visitas a projetos de desenvolvimento e pastorais em contexto de vulnerabilidade, café teológico e o painel de encerramento. Todas essas atividades estarão sendo realizadas com o intuito de promover a interação dos participantes em diversos espaços de construção desse mundo, tendo como eixo teológico: a água e a terra. Dentre os rituais matutinos, ter-se-á três momentos: o ritual da água, o ritual da terra e o ritual do corpo.

Serão três conferências que terão como função apresentar teologicamente o tema geral sob vários ângulos de análise, considerando os aspectos regionais da Amazônia como lugar socioespacial de importância planetária para o futuro do planeta. São elas: a primeira, com o teólogo Leonardo Boff (Brasil) que irá abordar o tema “Água, Terra, Teologia: rumo a um paradigma ecológico”; a segunda, com Emilie Townes (Estados Unidos) e Steve DeGruchy (África do Sul) que abordarão o tema “Espiritualidade e Ética na Agenda da Sustentabilidade”; a terceira, com Chung Hyun Kyung (Estados Unidos), Mary Hunt (Estados Unidos) e Michel Dubois (França) com o tema “Dimensão Eco-Teológica da corporalidade”. Além dessas três conferências, uma quarta merece especial atenção. Trata-se da Conferência com a Senadora Marina Silva que abordará o tema “A vida no Planeta desde a Amazônia” e como debatedor o teólogo Leonardo Boff. Por fim, uma quinta conferência chamada pelos organizadores de pública que será com Patrick Viveret (França) com o tema “Futuro da Terra”.
Outros dois momentos importantes dar-se-á com a realização das Oficinas e com as Comunicações que estão organizadas a partir de 11 eixos temáticos, a saber: 1) Religiões, ecumenismo e diálogo inter-religioso; 2) Culturas, etnias e teologia; 3) Política, economia e teologia; 4) Direitos Humanos, democracia e teologia; 5) Paz, alternativa à violência e teologia; 6) Textos sagrados e teologia; 7) Ecologia, corporeidade e teologia; 8 ) Gênero, feminismos e teologia; 9) Opção pelos pobres e teologia; 10) Arte, comunicação e teologia; 11) Novas Tecnologias e Teologia. Tanto oficinas como as comunicações possuem os mesmos eixos temáticos.

Algumas temáticas que serão abordadas nas oficinas nos chamam a atenção. Destaco em primeiro lugar, a oficina que será coordenada por Daniela Cordovil (UEPA) sobre “Pluralismo religioso na Amazônia: diálogos entre cultos de origem africana, pajelança, catolicismo e pentecostalismo” (Eixo 1). A questão da crise financeira também será abordada com profundidade por Vitor Galdino Feller e Klaus da Silva Raupp, ambos do ITESC, sobre “Verdades e mitos sobre o deus capital: reflexões a partir da crise financeira de 2008” (Eixo 3). Chamou-nos a atenção também a oficina que será desenvolvida por Lucí Faria Pinheiro (UFF) sobre as “Estratégias dos movimentos sociais em face à conjuntura neoliberal. O MST e o Cristianismo da Libertação” (Eixo 7) que também apresentará o mesmo tema na sessão de comunicações.

As comunicações será um momento importante também para que se conheçam os estudos teológicos e interdisciplinares que estão sendo produzidos na academia ou fora dela, até mesmo, nos próprios movimentos sociais. No primeiro momento, chamou-me a atenção o trabalho que será abordado por Antonio Carlos Teles da Silva com o tema: “Uma Teologia das Águas Amazônicas”, bem como “Identidade Quilombola e Território” que será apresentado por Maria Albenize Farias Malcher, ambos os trabalhos inseridos no Eixo 2. No eixo 3, destaco o trabalho de Geraldo Antônio da Rosa sobre “Contestado: movimento social e seu desdobramento na atual situação educacional da região”, um resgate histórico importante do ponto de vista da educação que poderá nos ajudar a compreender melhor este importante movimento messiânico do campo. Mayra Cristina Faro e Francisca Glena Barbosa irão abordar a seguinte temática “Natureza Sagrada: a ecoespiritualidade na sociedade atual” (Eixo 7). E a mesma Mayra Cristina Faro abordará um tema novo e que me causa muita expectativa, agora no eixo 8 com o seguinte tema: “Mistérios de Patu-Anu: um estudo sobre a pajelança e as mulheres pajés em Soure (Ilha do Marajó)”. No eixo 9, Jairo Cardoso da Costa nos brindará com uma temática pedagogicamente sempre atual, com o tema: “A Pedagogia do Oprimido e a Teologia da Libertação: as contribuições de Paulo Freire e Leonardo Boff” e no eixo 10 abordará “O conceito de Pedagogia e Teologia em Comenius”; Também no mesmo eixo, Leonízia Izabel da Silva abordará sobre as “CEBs, teimosia e resistência no contexto eclesial e social”.

Irei abordar uma comunicação no eixo 9 com o seguinte tema: “Emancipação e Libertação: a opção pelos pobres em tempos de pós-neoliberalismo” onde buscamos Queremos refletir acerca da dialética emancipação-libertação em tempos de pós-neoliberalismo. Emancipar para libertar e libertar para emancipar à luz da opção preferencial pelos pobres hoje é tema de ecologia. A teologia da libertação se torna a fundamentação epistemológica para militantes dos movimentos sociais organizados. Neste sentido, como emancipar e libertar na perspectiva de outro mundo possível? Como pensar a irrupção dos pobres hoje diante da lógica do capital em crise? As experiências são locais e globais. Por isso, queremos possibilitar uma reflexão sócio-educativa de três segmentos da sociedade civil, a saber: trabalhadores rurais, quilombolas e indígenas localizados no Estado do Tocantins que ousam em continuar a teimosia evangélica de libertação e emancipação.

Apontamos de forma subjetiva algumas temáticas de oficinas e comunicações, mas outras serão abordadas com suas importâncias e riquezas. Além disso, o espaço do café teológico, as celebrações e confraternizações possibilitarão o encontros dos sujeitos participantes que buscam também momentos de mística para que possamos nos animar na caminhada dura e árdua em defesa da Água, da Terra e da construção desse mundo possível a todos e todas.

Entrevista especial com Marcelo Barros

Reproduzimos abaixo a entrevista com o teólogo Marcelo Barros, feita pelo Instituto Humanitas Unisinos e publicada na Agência Adital. O entrevistado fala do Fórum Mundial de Teologia e Libertação, comenta os desafios ecológicos e cita como “exemplo e testemunho de espiritualidade liberadora” o trabalho do Pe. Júlio Lancellotti.


Adital – Relacionar a questão do pluralismo cultural e religioso à ecologia é um dos desafios que a teologia enfrenta hoje. Para colaborar nessa discussão, o teólogo e monge beneditino Marcelo Barros participará do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que ocorre em Belém, no Pará, nos próximos dias 21 a 25 de janeiro. Seu desejo é “aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo”. Nesse sentido, a responsabilidade da Teologia, segundo ele, é denunciar.

Nesta entrevista especial, concedida por e-mail à IHU On-Line, Barros afirma que, “para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica”. Para ele, um caminho novo só será possível se os governos perceberem que “o capitalismo é, por essência, depredador” e que não existe um desenvolvimento sustentável dentro dele. E também critica o atual governo, especialmente o PAC, por ainda não ter rompido com a lógica do capitalismo no que se refere às questões ambientais.

Marcelo Barros é monge beneditino e biblista. Membro da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT), é autor de 32 livros, entre os quais o recém-lançado “O Amor fecunda o Universo – Ecologia e espiritualidade” (Editora Agir, 2009), em coautoria de Frei Betto.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Quais são os principais desafios e possibilidades que a Teologia da Libertação enfrenta hoje?

Marcelo Barros – Um importante desafio continua sendo aprofundar a fé e o projeto divino a partir da realidade dos povos empobrecidos e dos atuais problemas do mundo. A Teologia da Libertação se desenvolveu nas décadas de 70 e 80 a partir da inserção dos cristãos nos processos sociais latino-americanos (sandinistas na Nicarágua, FSMN em El Salvador, Cristãos para o Socialismo na Argentina e no Chile, CEBs e movimentos populares no Brasil, e assim por diante). Hoje, existe um processo de transformações sociais em curso em vários países da América Latina. Na Venezuela, fala-se em revolução socialista bolivariana; no Equador, em uma sociedade cidadã; na Bolívia, em uma revolução a partir da valorização das culturas indígenas. Onde está nisso tudo a Teologia da Libertação?

Outro importante desafio atual é reelaborar a Teologia da Libertação a partir da realidade diversa de um mundo pluralista e da responsabilidade das diversas religiões e tradições espirituais de contribuir com a paz, a justiça e o cuidado com a criação.

IHU On-Line – Pode esboçar alguns pontos que vão ser debatidos no Fórum, especialmente em sua conferência?

Marcelo Barros – Não terei propriamente uma conferência no Fórum. Penso que coordenarei uma oficina entre as muitas nas quais os participantes do Fórum de Teologia se dividirão, e essa oficina terá como tema “O Pluralismo Cultural e Religioso e o Desafio Ecológico”. Ali apresentarei o novo livro que está saindo de autoria minha e do Frei Betto: “O Amor fecunda o Universo – Ecologia e Espiritualidade”.

IHU On-Line – Quais são as articulações da teologia hoje? Existem debates teológicos com a sociedade civil em nível nacional ou latino-americano?

Marcelo Barros – Para haver pesquisa teológica, é necessário respirar-se um clima de liberdade e de diálogo respeitoso nas Igrejas e no mundo. Em vários países da América Latina, a teologia índia está presente no processo que, a partir das comunidades índias, repensa a organização social e política da sociedade e do mundo de forma a respeitar a diversidade, a interculturalidade e assim por diante. No Brasil, o fato do Fórum Social Mundial ter escolhido como tema a Amazônia e o 3º Fórum Mundial de Teologia e Libertação ter também assumido o tema da Ecologia conduz, nessa direção, os debates mais atuais.

IHU On-Line – Dados de 2005, indicam que a contaminação das águas no Brasil aumentou cinco vezes desde 1995, e que, desde 2000, o país foi responsável por cerca de 74% da área desmatada na América do Sul. Ao mesmo tempo, muito se critica os desafios ecológicos. Mas por onde se pode iniciar uma proposta mais articulada quando ainda se vê pouco apoio do governo? Por onde iniciar uma reflexão que ajude a uma mudança de mentalidade social e até religiosa com relação à natureza?

Marcelo Barros – Para uma nova relação de respeito e de comunhão do ser humano com a natureza, não basta boa vontade ou ideologia ecológica. Enquanto os governos não perceberem que o capitalismo é, por essência, depredador, e que não existe verdadeiramente um “desenvolvimento sustentável” dentro desse sistema, não temos possibilidade de um caminho novo. Estão aí os projetos de hidroelétricas na Amazônia e do desvio das águas e a construção dos canais do São Francisco para provar. Não é apenas com PAC que o governo cuida dessa questão. Romper com a lógica desse sistema é fundamental. Não podemos continuar aceitando que, entre uma estrada e um matinho, fiquemos com o desenvolvimento.

A responsabilidade da teologia nesse contexto é denunciar (alguns teólogos se pronunciaram com muita propriedade e clareza quando a ministra Marina Silva se sentiu obrigada a pedir demissão do ministério do Meio Ambiente). Além disso, temos de favorecer, desde o início, o processo de uma nova educação nas escolas, nas Igrejas e em todos os setores da sociedade. É por meio de uma nova educação que poderemos mudar isso.

IHU On-Line – Em que pontos a teologia e a ecologia convergem atualmente? Como a teologia pode ajudar a responder aos “gemidos da criação”?

Marcelo Barros – Para responder aos “gemidos da criação”, temos antes de ser capazes de “escutá-los” e compreendê-los em sua natureza complexa e suas causas.

A teologia eco-feminista, que associa a tragédia que ocorre com a Terra à opressão infligida durante séculos à mulher, une a ecologia social (igualdade homem-mulher) à Ecologia ambiental. E a Teologia Pluralista da Libertação procura resgatar e revalorizar as antigas expressões espirituais das culturas indígenas e negras que adoram a divindade nas suas manifestações na terra, na água e em todos os elementos da natureza.

IHU On-Line – A partir da figura de Cristo, que guia e orienta tantas denominações cristãs no mundo, como entender a ecologia? Qual foi a relação dele com a criação e como ele nos ensina a conviver com os demais seres não-humanos?

Marcelo Barros – Quando o quarto evangelho diz: “A Palavra de Deus se fez Carne”, podemos compreender que todo o universo, com a imensidade da sua “comunidade da vida”, não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida mesmo pela encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo. Os evangelhos e cartas, escritos tantos anos depois, não tinham nenhuma preocupação de falar em ecologia ou de aprofundar o que Jesus poderia nos dizer sobre isso. São testemunhos de como ele nos manifestou o projeto divino que os evangelhos chamam de “reino de Deus”.

Diversas parábolas do evangelho e diversas palavras de Jesus nos mostram que a comunhão com a natureza é fundamental como caminho de intimidade com Deus. É assim que, no sermão da montanha, ele nos convida a “olhar as aves do céu e os lírios do campo” (Mateus 6, 27-28), para aprender deles a simplicidade e a viver no essencial, preocupação, hoje, tão atual com o desafio de uma sociedade que não é sustentável e não pode mais manter o mesmo ritmo de crescimento de antes. Ele nos estimula a construir a casa sobre a rocha e a abrir os olhos aos sinais do reino presentes em torno a nós no mundo. Hoje, todo o universo parece crucificado com Cristo (não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, “os povos crucificados”). É preciso crer na ressurreição e ser testemunhas disso. Eu procuro desenvolver uma teologia ecológica da eucaristia: a ceia da partilha e da comunhão na qual a presença de Cristo se dá através dos elementos básicos da vida e da natureza.

Hoje, cada vez mais aumenta o número das pessoas que levantam a questão dos direitos dos animais e a necessidade da nossa sociedade mudar totalmente a forma como os animais são tratados como objeto para o consumo e maltratados imensamente para engordar mais rápido e para ser sacrificados com mais lucro. Quem aprofunda uma espiritualidade ecológica começa a pensar em um vegetarianismo de paz e não-violência com as outras espécies animais.

IHU On-Line – O que seria uma espiritualidade libertadora? Que grupos e/ou experiências você pode salientar nesse sentido?

Marcelo Barros – Se a espiritualidade significa “deixar-se conduzir pelo Espírito”, a experiência de muitos de nós é que podemos vivenciar isso na prática da solidariedade. Desde 1978, assessoro e acompanho a Pastoral da Terra. Tenho de confessar que, poucas vezes, vivi experiências verdadeiramente místicas, quase de êxtase, como quando acompanhei uma ou outra comunidade de lavradores sem-terra a ocupar um terreno incultivado. Cantando e orando pela madrugada, eu me senti plenamente refazendo o Êxodo bíblico e pude experimentar a presença divina junto àquele povo.

É verdade que vivo isso também quando participo de algum culto afro-brasileiro no Candomblé. Todo dia, procuro encontrar essa intimidade com Deus no sacramento e posso dizer que a encontro na escuridão e sobriedade da fé, Mas, no outro e no diferente, parece que ele se excede e grita para nós sua presença e seu amor. Todos os grupos que vivem a solidariedade como expressão de fé vivem uma espiritualidade libertadora.

Para mim, são exemplos e testemunhas de espiritualidade libertadora, o padre Júlio Lancelotti em São Paulo (ele, as irmãs beneditinas e equipe) no trabalho com o povo da rua e com as crianças que têm Aids. Continuo vibrando com o testemunho profético de irmãos como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e outros pastores que não descansam na sua profecia. E devo dizer com sinceridade que o MST, mesmo sendo um movimento leigo e que não tem nenhuma opção religiosa, sempre me toca pela força espiritual que sinto neles, em cada contato e em cada evento do qual participo.

Os riscos da inserção

Marcelo Barros

Vivemos em uma sociedade na qual, diante de certos problemas sociais, as pessoas costumam reagir dizendo: “não vi, não ouvi, não sei de nada”. Provavelmente, isso parece mais seguro e cômodo. Os meios de comunicação nos enchem de notícias de guerra e de tragédias humanas e nós assistimos a tudo impotentes e distantes.

As comunidades tradicionais e os mais diversos caminhos espirituais da humanidade ensinam as pessoas a se comprometerem com a vida e com os acontecimentos. Todos os ritos de iniciação contêm certos riscos para significar um compromisso novo com a sociedade e o mundo. Nas aldeias indígenas, adolescentes correm riscos em caçadas perigosas para voltar à aldeia e serem considerados cidadãos na comunidade. No Judaísmo, o rito da circuncisão celebra o sangue derramado como sinal de um sofrimento que vale a pena viver pela inserção na comunidade. No Cristianismo, o batismo deveria ter esta função. Batismo é um termo grego que significa mergulho. No mundo antigo, para serem aceitos ao batismo, os cristãos deveriam provar que enfrentavam os riscos de serem mal vistos pelo Império, além do assumir um estilo de vida alternativa. O batismo, feito nas águas, continha certa noção de afogamento, do qual a pessoa saía para uma vida nova.

Na tradição popular, muitas vezes, as pessoas ainda batizam filhos para eles não ficarem pagãos. Em alguns casos, pensam até que, batizados, terão mais saúde. Na realidade, com a massificação da Igreja e o costume de batizar crianças recém-nascidas, ficou mais difícil perceber a natureza profética do batismo. Neste domingo, ao recordar a festa do batismo de Jesus, – uma festa importantíssima para as Igrejas do Oriente – católicos, luteranos e anglicanos são convidados a retomar o sentido mais profundo da fé e do batismo como inserção profética no mundo.

O batismo de Jesus foi um ato de inserção. Ele se assumiu como dos muitos devotos que recebia a benção e o perdão do profeta João Batista. No caso de Jesus, a novidade foi que, segundo os evangelhos, neste momento do batismo, o Espírito de Deus desceu sobre Jesus e lhe deu uma vocação profética. Ele assumiu a figura do profeta servidor de Deus e se tornou sinal e instrumento do amor divino no mundo.

O batismo dos cristãos não tem relação com o batismo de João. É mais um gesto para aplicar à nossa vida as conseqüências da morte e da ressurreição de Jesus. Isso significa que quem é batizado deveria viver um estilo de vida nova e propor ao mundo um novo modo de organizar a vida e a sociedade. Por isso, o batismo deve sempre conter um rumo de inserção em uma comunidade e um projeto de vida nova.

Este janeiro de 2009 será marcado no Brasil pelo evento do 9º Fórum Social Mundial e por vários fóruns que acontecerão em Belém nesta ocasião. Um destes fóruns é o 3º fórum mundial de Teologia e Libertação. Para quem se perguntava se a Teologia da Libertação ainda existia ou se tinha morrido, este fórum revela que não só continua forte, como atualmente não é mais somente latino-americana e sim mundial. Teremos teólogos/as da Ásia, da África, da Europa e da América do Norte, ao mesmo tempo, contaremos sim com os nossos pioneiros que vieram da América Latina.

Há 40 anos, em meio aos movimentos sociais que buscavam a transformação do continente, muitos cristãos e cristãs, em nome do seu batismo, começaram a se inserir nesta caminhada pela justiça. No decorrer da história, muitos deles foram mortos por isso. Desta experiência, se fortaleceu a Teologia da Libertação, uma reflexão de fé a partir da realidade da história para ajudar as pessoas a ligarem a fé com a justiça.

Ao me consagrar a uma Teologia Pluralista da Libertação, tenho muita em lidar com uma linguagem cristã que fala do Cristo de forma arrogante, como fundamento primeiro da Teologia, desligando-o das pessoas comuns e de tantos sinais do amor divino, como Buda, Maomé, Xangô, Zumbi dos Palmares e tantos outros instrumentos da atuação de Deus no mundo. Ao aceitar ser batizado, justamente, Jesus se insere nesta realidade e se torna um irmão no meio dos outros a recordar ao mundo o projeto divino.

Como batismo quer dizer mergulho, não podemos deixar de recordar que as águas se tornam instrumentos desta inserção profética na vida divina e na realidade humana. No mundo antigo, os pais da Igreja diziam que quando Jesus desceu às águas do Jordão, as águas foram lavadas e ele foi o restaurador de todo o universo. Hoje, trabalhamos pelo respeito e dignidade da água e vemos no sinal do batismo um gesto que é de profecia divina e é de cuidado ecológico. Aliás, o tema do 3º Fórum Mundial de Teologia e Libertação é justamente “Teologia e Ecologia”.

Para muitos que insistem em uma espiritualidade que consiste apenas em rezar e confessar o nome de Jesus, de uma forma meio desligada da vida, Jesus recorda no Evangelho: “Não é quem me diz ´Senhor, Senhor´ que entra no reino, mas quem faz a vontade do meu Pai que está no céu” (Mt 7, 21). E com relação aos pobres: “é o que fizeste a um destes pequeninos, a mim o fizeste” (Mt 25, 40).

Curso de Teologia

Curso de Teologia do Setor Belém

O Setor Belém realiza em 2009 e 2010 o Curso de Teologia, com aulas às segundas-feiras, das 19h30 às 21h30, no Centro Pastoral São José (Av. Álvaro Ramos, 366). As disciplinas são:

1. Introdução à Teologia
2. Bíblia
3. Eclesiologia
4. Liturgia e Sacramentos
5. Cristologia
6. Mariologia
7. Pneumatologia
8. Missiologia

O curso terá aulas expositivas, trabalhos em grupos, apresentações em datashow – num total de 128h/aula. A taxa mensal por aluno é de R$ 15,00.

Interessados devem ligar para (11) 2693-0287. Para se inscrever on-line, entre no endereço abaixo
http://www.saojoaobatistadobras.com.br/cursoteologia/inscricao

Mística e compaixão

Este é o título de um livro publicado pelas Paulinas, de autoria de Getúlio Antonio Bertelli, mestre e doutor pela PUC do Rio e professor da Universidade do Estado do Paraná.

O subtítulo diz: “A teologia do seguimento de Jesus em Thomas Merton”.

O livro tem sido para mim um bálsamo e uma leitura gratificante e de grande reflexão.

Thomas Merton é considerado um grande místico do século XX, monge trapista, um dos grandes convertidos do nosso tempo.

Na minha família ouvi falar dele desde criança e ainda hoje guardo como relíquia uma das primeiras edições da “Montanha dos Sete Patamares” que pertencia à minha tia avó Alexandrina, depois à minha mãe e agora a mim.

O que me chama a atenção no livro de Getúlio é a maneira familiar e respeitosa, competente e profunda com que trata o tema, desvelando os conflitos vividos pelo nosso Merton e a serenidade, firmeza e indignação com os que os enfrentou e viveu.

“O autor mostra que a teologia do seguimento de Jesus em Merton embasa a espiritualidade latino-americana;

– uma espiritualidade de resistência profética diante das forças desumanizadoras e opressoras do mundo globalizado excludente;

– uma espiritualidade da solidariedade que se coloca ao lado das vítimas em seu sofrimento e se engaja na utopia de minimizar a fome e a miséria no mundo até se tornar topia;

– e, finalmente, uma espiritualidade da criação, morada de Deus e do humano.”

Vale a pena ler, reler, recomendar. Um livro como este é como oxigênio quando nos falta o ar!

Pe. Júlio R. Lancellotti

Pe. Júlio com o livro 'Montanha dos Sete Patamares' de Thomas Merton

Pe. Júlio com o livro Montanha dos Sete Patamares de Thomas Merton


Por sugestão da professora Lilian Mesquita, da Universidade São Judas Tadeu, reproduzimos abaixo um vídeo sobre Thomas Merton: