higienismo

Reportagem denuncia: moradores de rua sofrem violência e desrespeito em São Paulo

Moradores de rua de São Paulo sofrem agressões da Guarda Civil Metropolitana, são espancados por seguranças particulares, desrespeitados e marginalizados. O Vigário Episcopal para o Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, Pe. Julio Lancellotti, denuncia: essas ações fazem parte de uma política de “limpeza”.

Assista aos flagrantes de violência registrados pela série Homens sem Sobrenome, no programa Conexão Repórter, do SBT:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Na festa de São Paulo, D. Odilo questiona: “Senhor, o que queres que façamos?”

A cidade de São Paulo comemora 458 anos no dia em que a Igreja celebra a conversão do Apóstolo Paulo, padroeiro da Arquidiocese. Na Catedral da Sé, o cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer presidiu missa solene, celebrada com outros bispos, padres e diáconos. Milhares de pessoas participaram da cerimônia. Também estavam presentes diversas autoridades.

Na homilia, Dom Odilo lembrou a importância da conversão de Paulo, ex-perseguidor dos cristãos que se transformou em apóstolo:

De lado de fora da Catedral, centenas de pessoas protestavam contra o governo paulista e o prefeito Kassab pelas ações realizadas na chamada cracolândia e pela violência policial na desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos. Os manifestantes acusam os governantes de promover uma política “higienista”, que não resolve os problemas sociais.

Igreja critica ação na “Cracolândia”

Nesta entrevista exclusiva, o arcebispo metropolitano de São Paulo, cardeal dom Odilo Pedro Scherer, fala sobre a ação do poder público na área da chamada “Cracolândia”, na região central da cidade.

O arcebispo afirma que é preciso combater o uso ilegal das drogras e a ação criminosa dos traficantes, mas critica os métodos violentos e desrespeitosos que estão sendo utilizados pela Prefeitura de São Paulo e pelo Governo Estadual na ação de retomada da “Cracolândia”. Dom Odilo fala, também, sobre a presença positiva e eficaz da Igreja nesses locais de degradação humana.

Veja a entrevista do cardeal

O SÃO PAULO – Qual a avaliação do senhor sobre a ação da Prefeitura e do Governo Estadual na área da chamada “Cracolândia”?

Dom Odilo Pedro Scherer – O tráfico e o consumo de entorpecentes é um problema grave, que precisa ser enfrentado com decisão e medidas adequadas pelas autoridades competentes. Além de ser ilegal, e de o tráfico ser criminoso, esse problema traz prejuízo enorme à saúde e degrada a dignidade humana nos usuários e dependentes das drogas. Mais grave ainda, quando se desenvolvem áreas de tráfico e consumo mais ou menos “livres” em alguma área da cidade, como é o caso da cracolândia, de São Paulo. Não é pensável que as autoridades façam vista grossa e deixem certos espaços entregues aos traficantes e gestores do comércio de morte. Por isso, a ação atenta e permanente das autoridades é necessária.

O SÃO PAULO – Os métodos usados estão sendo os mais adequados?

Dom Odilo Pedro Scherer – Outra questão é a que se refere aos métodos empregados na ação das autoridades competentes. É evidente que não se pode aprovar o uso da violência e de métodos desrespeitosos daquilo que resta de dignidade humana nos usuários e dependentes das drogas. Espalhar por outras áreas da cidade os dependentes, sem que seja dada a eles uma ajuda eficaz, também não parece uma boa solução; e a repressão do consumo, sem coibir e punir, com medidas adequadas, a produção e o tráfico de drogas, também não resolve o problema.

O SÃO PAULO – Qual a importância da presença da Igreja neste tipo de ambiente de degradação social?

Dom Odilo Pedro Scherer – Antes de tudo, é preciso afirmar que há uma longa e corajosa presença da Igreja junto aos dependentes químicos, para lhes oferecer a possibilidade de abandonar o consumo e a dependência das drogas. Exemplos bons disso são a Campanha da Fraternidade de 2001, sobre as drogas (“vida, sim, drogas, não!”); as Fazendas da Esperança e muitas outras instituições voltadas para o socorro e a recuperação dos dependentes químicos. Na área da “cracolândia” atuam diversas organizações da Igreja, como o Vicariato do Povo da Rua, a Missão Belém, a Aliança de Misericórdia, os Irmãos de Emaús e outros mais. Tive a informação de que, com a atuação solidária e de convencimento, apenas da Missão Belém, nas últimas semanas, desde antes do Natal, cerca de 150 dependentes de drogas deixaram a área e foram acolhidos nos locais de recuperação. As organizações da Igreja têm seu método próprio, muito eficaz, para tratar o problema e para recuperar os dependentes. Não basta a desintoxicação do organismo, mas é preciso recuperar a pessoa, no seu todo, e ajudá-la a recuperar o sentido da vida. Muito amor, respeito, dedicação, fé em Deus fazem parte desse método.

O SÃO PAULO – E como enfrentar a ação dos traficantes de drogas?

Dom Odilo Pedro Scherer – Este é o problema mais complexo, pois envolve vários tipos de interesses e responsabilidades, com quantias enormes de ganhos com negócios ilícitos e com o “comércio da morte”, como bem definiu o papa Bento 16 na Fazenda da Esperança, em maio de 2007. O enfrentamento desse problema cabe às autoridades constituídas e competentes. A Igreja só pode apelar que os promotores da produção e do tráfico de drogas se convertam e abandonem esse caminho de maldade; foi ainda Bento 16 quem lhes lembrou que, um dia, deverão prestar contas a Deus por toda vida perdida e pelos sofrimentos causados aos outros com suas ações. A penitência e a conversão são caminhos abertos a todos.