teologia da libertação

José Oscar Beozzo: Dom Helder, pastor da libertação em terras de muita pobreza

IHU – Unisinos *

Adital – Ao se completarem os 100 anos de nascimento de Dom Helder Camara, no sábado, 07 de fevereiro, a Igreja do Brasil tem muito a agradecer e a se inspirar na vida e na obra do querido “Dom”, como ficou conhecido.

Nesta entrevista especial, concedida por e-mail a IHU On-Line, padre José Oscar Beozzo, um dos maiores historiadores da Igreja na América Latina, comenta alguns traços da vida do grande arcebispo de Olinda e Recife, um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Para Beozzo, os leigos e as leigas foram os “mestres de vida” de Dom Helder “para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais”. O Recife e o Nordeste, segundo o coordenador-geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep), tornaram-se “sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo”. E analisa ainda a atuação internacional de Dom Helder, especialmente durante o Concílio Vaticano II, no qual, mesmo nunca tendo falado na Aula Conciliar, “tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares”.

José Oscar Beozzo é padre e teólogo, com mestrado em Sociologia da Religião, pela Université Catholique de Louvain (Bélgica) e doutorado em História Social, pela Universidade de São Paulo (USP). Faz parte do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil), filiado à Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina e no Caribe (CEHILA). Também é sócio fundador da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (ADITAL). É autor de inúmeros livros, entre os quais “A Igreja do Brasil” (Vozes, 1993).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Há 100 anos, nascia Helder Pessoa Câmara, o futuro arcebispo de Olinda, reconhecido mundialmente pelo seu trabalho voltado a uma igreja mais simples, em contato com os pobres e pela não-violência. Quais foram os grandes passos que levaram aquele pequeno menino a ser um bispo católico reconhecido mundialmente, tendo recebido dezenas de prêmios internacionais, com quatro indicações ao prêmio Nobel da Paz?

José Oscar Beozzo – Os passos de Dom Helder não podem ser desconectados de algumas conjunturas nacionais, latino-americanas e internacionais que o interligaram com pessoas e eventos excepcionais.
Desde os tempos do seminário, interessou-se pela imprensa, tornando-se propagandista de O Nordeste, jornal da diocese, para o qual angariava assinaturas, o que lhe valeu memorável encontro com o Pe. Cícero, no Juazeiro. Começou também a publicar artigos na imprensa de Fortaleza, escondido por pseudônimo, até ser proibido pelo reitor do seminário. Posteriormente, imprensa escrita, rádio e televisão foram sempre instrumentos que manejava com maestria para passar adiante seus ideais, valores e mensagem.

O diácono Helder é ordenado padre em 1929, no turbilhão e desmoronamento do mundo econômico liberal na crise daquele ano. No ano seguinte, com as eleições presidenciais e a revolução de 1930, é o Brasil das oligarquias que rui. Entram em cena novos atores sociais no panorama político: os Estados da federação, de modo particular do Nordeste e do Norte, mais Rio Grande do Sul, até então excluídos da partilha do poder, concentrado em São Paulo e Minas Gerais, pela aliança café-com-leite; as classes médias urbanas; a classe operária; os tenentes do Exército, mas também a Igreja Católica alijada dos jogos do poder pelo laicismo republicano. Getúlio Vargas liquidou com a república velha e seu modelo agrário exportador, dando lugar a um projeto de desenvolvimento nacionalista, apoiado na industrialização do país e num pacto populista que uniria o empresariado nacional e os operários, sob a proteção, mas também controle direto, do Estado.

No Ceará, a Liga Eleitoral Católica (LEC) funcionou quase como partido político, tendo na sua coordenação o jovem Pe. Helder Câmara, que se aproximou dos integralistas de Plínio Salgado, abraçando seu ideário político. Em 1935, foi convidado pelo novo governador para assumir uma secretaria de governo, como diretor geral da instrução pública, no que seria hoje a secretaria de educação, num claro sinal desse retorno das hostes católicas ao jogo político. No final desse ano, atritos com o governador, na condução da política educacional, levam-no a pedir demissão e partir do Ceará para o Rio de Janeiro.

Funcionário público e discípulo de Dom Leme

No Rio de Janeiro, foi acolhido pelo conterrâneo Lourenço Filho no Ministério da Educação, dirigido por Gustavo Capanema. Em 1939, passou em concurso público para funções técnicas no Ministério. Na Igreja do Rio, foi recebido pelo Cardeal Dom Sebastião Leme. O Cardeal representou, internamente para a Igreja Católica, um contraponto ao projeto político de Vargas.

Leme tentou superar a atomização da Igreja e o isolamento das dioceses entre si, buscando estabelecer uma estratégia clara de ação e uma articulação do Episcopado para implementá-la. Reuniu os bispos em torno de si em maio e outubro de 1931 e depois para o Concílio Plenário Brasileiro, em 1939, com o intuito de traçar linhas de ação comuns. Tirou a Igreja da defensiva em que fora encurralada pela República Velha, trazendo-a para uma agenda propositiva, numa jornada em que foi auxiliado pela combatividade de Jackson de Figueiredo, da revista Ordem, do Centro Dom Vital, e pela densidade cultural, capacidade de escuta e articulação de Alceu Amoroso Lima à frente das instituições fundadas por Jackson de Figueiredo, da Liga Eleitoral Católica e depois da Ação Católica Brasileira (ACB).

Leme criou ainda, em 1935, a ACB, com abrangência nacional, mobilizando o laicato para uma atuação mais aguerrida nas estruturas sociais, políticas e culturais do país. Na capital da república, Helder trabalhou ainda como técnico do Ministério da Educação, entrando em contato com todo o debate sobre os rumos da educação no Brasil e a crescente atuação governamental nesse campo. Esse trabalho rendeu-lhe preciosos conhecimentos e contatos em toda a estrutura governamental. Essas relações seriam fundamentais no campo das relações entre a Igreja e o Estado, em sua posterior trajetória como bispo auxiliar no Rio de Janeiro e como secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Os leigos e as responsabilidades nacionais e internacionais

Através da Ação Católica de Pio XI, leigos e leigas foram seus mestres de vida, para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais. No Rio, o então Pe. Helder Câmara prosseguiu com seu envolvimento com os leigos, iniciado no Ceará com a Juventude Operária Católica, a Legião Cearense do Trabalho e a Liga dos Professores Católicos. Em 1950, tornou-se Assistente da nova ação católica especializada, convertendo em nacional seu raio de ação até então limitado ao Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano de 1950, suas funções de assistente nacional da Ação Católica levaram-no por primeira vez a Roma, para o Congresso Internacional da Ação Católica. Essa viagem propiciou-lhe o primeiro contato com Mons. Giovanni Baptista Montini, principal auxiliar do Papa Pio XII, a quem propusera a criação da Conferência dos Bispos do Brasil.

A criação da CNBB, em 1952, replicou em nível episcopal a plataforma de atuação nacional em que havia operado em nível do laicato. O papel de articulação que havia cumprido Dom Leme, pessoalmente, como cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, até sua morte prematura em 1942, passou a ser cumprido institucionalmente, de certa maneira, pela Ação Católica, mas, sobretudo, pela CNBB. O motor era, porém, o próprio Dom Helder, recém nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro e que assumiu a Conferência como seu primeiro secretário-geral, permanecendo nessa posição estratégica durante 12 anos, até 1964. Sua amizade com o Núncio Armando Lombardi, com quem se reunia a cada sábado, permitiu que uma legião de padres envolvidos na Ação Católica, com trabalhos valiosos na pastoral e na formação, fosse promovida ao episcopado, compondo um novo rosto da Igreja brasileira, mais próxima do povo, mais comprometida em suas lutas por superação da pobreza e por justiça e dignidade.

O XXIX Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955, projetou Dom Helder como o grande organizador desse evento internacional e da I Conferência Geral do Episcopado Latino-americana, realizada logo em seguida. Da Conferência, resultou a criação do Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM. Em 1959, Dom Helder foi eleito um dos seus vice-presidentes.

O Congresso Eucarístico deu-lhe oportunidade para transformar a grande mobilização para organizá-lo, em iniciativas sociais de grande vulto, como a Cruzada São Sebastião, que pretendeu erradicar as favelas do Rio de Janeiro. Dom Helder constataria tempos depois, com certo desalento, que as favelas renasciam logo à frente, mais numerosas e esquálidas. A infra-estrutura humana do Congresso ensejou-lhe a promoção da Feira e do Banco da Providência, retaguarda para inúmeras iniciativas no campo social. O CELAM ofereceu-lhe uma plataforma continental para sua atuação e para a difusão de suas idéias e projetos, em perfeita sintonia com seu entranhado amigo, Dom Manuel Larraín, bispo de Talca, no Chile. O Concílio Vaticano II abriu para os dois – mas de modo particular para Dom Helder, com sua retórica inflamada e sua imaginação e audácia sem limites – a cena internacional.

IHU On-Line – O que caracterizou o trabalho de Dom Helder Camara como bispo e arcebispo de Olinda? Quem foi o pastor Dom Helder, tanto para a Igreja local quanto para a Igreja do Brasil?

José Oscar Beozzo – Olinda e Recife fizeram, por primeira vez de Dom Helder, o pastor com inteira responsabilidade, de uma porção concreta do povo de Deus, no coração do Nordeste, em terras de muita pobreza, mas também de tradição, lutas e esperança.

No Rio de Janeiro, como bispo auxiliar e depois como arcebispo, mas sempre auxiliar, teve sua ação cada vez mais cerceada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, cujas visões de Igreja e de sociedade foram cada vez mais se distanciando.

Dom Helder chega ao Recife em 11 de abril, sob o estigma de opositor do novo regime militar apenas instalado com o golpe de 31 de março de 1964. Logo depois, em outubro, é despojado da liderança institucional de secretário-geral da CNBB.

Recife e o Nordeste tornam-se então sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo. Mantém um contato diário com seu povo, pela Rádio Olinda, com meditações diárias; anima a criação de grupos de reflexão, leitura bíblica, oração, solidariedade e ação social, apelidados de Encontro de Irmãos.

Lança a Operação Esperança, levando a reforma agrária às terras da arquidiocese e toma outras iniciativas no campo pastoral: noites de encontro com intelectuais e artistas, mas também com sindicalistas, estudantes secundários e universitários. Percorre os bairros, mocambos e favelas do Recife e do interior em contato direto com a população mais pobre.

De Recife, apoiado por um bom número de bispos do Nordeste e superiores religiosos provinciais e articulado por Dom Helder, partiu o primeiro grito mais consistente de crítica social e política ao regime militar, com o Manifesto de 1973: “Ouvi os clamores de meu povo”. O documento, considerado subversivo pelo regime, só pode se espalhar clandestinamente em edições mimeografadas e prontamente recolhidas pelos militares e pela polícia quando encontradas.

Dom Helder foi calado pelo regime militar e colocado no mais rigoroso ostracismo, mormente após o AI-5, em 1968. Foi proibido pela censura que rádios, jornais e televisões de todo o país retransmitissem suas mensagens ou até escrevessem ou pronunciassem seu nome. Só no exterior podia ele falar livremente a multidões cada vez mais numerosas e entusiastas, num sem número de países, mormente na Europa, Estados Unidos e Canadá. Sua forte presença internacional incomodou alguns episcopados, regimes políticos e finalmente Roma, que também cerceou e limitou suas viagens e pronunciamentos.
Nesse sentido, valeu por uma reabilitação, o abraço do Papa João Paulo II a Dom Helder, quando de sua visita ao Brasil em 1980. Ao descer do avião no aeroporto de Guararapes no Recife, ao mesmo tempo em que abraçava o arcebispo banido, exclamou, diante de todos os meios de comunicação do país: “Dom Helder, irmão dos pobres, meu irmão”!

IHU On-Line – Qual foi o papel de Dom Helder dentro do Concílio Vaticano II? Como ele colaborou para que as discussões e mudanças ocorridas em Roma chegassem até o Brasil?

José Oscar Beozzo – No Concílio Vaticano II, Dom Helder cumpriu um duplo papel, de animador e incentivador de propostas e iniciativas corajosas e proféticas, e de articulador incansável da maioria conciliar.

Valendo-se da posição estratégica que ocupava no terceiro maior episcopado mundial, como secretário-geral da CNBB e de sua função de vice-presidente do CELAM, que estreitava laços e de algum modo representava os 600 bispos latino-americanos e caribenhos, quase um quarto do episcopado mundial, Dom Helder mobilizou a ambos os episcopados para uma iniciativa audaciosa. Semanalmente na Domus Mariae, local de residência, durante o Concílio, dos bispos do Brasil, Dom Helder, junto com Larrain do CELAM e Etchegaray, secretário da Conferência Episcopal francesa, com o apoio do Cardeal Suenens, um dos moderadores do Concílio, passou a reunir representantes das conferências episcopais da Europa, Ásia, África, Oceania e Américas.

Essas reuniões influenciaram a agenda, as votações e os conteúdos do Concílio, por sua capacidade de refletir, avaliar, propor e articular uma ação concertada dos principais episcopados, vertebrando de certo modo a assembléia conciliar.

Dom Helder participou igualmente de algum dos grupos informais mais atuantes no Concílio, como o Grupo da Igreja dos Pobres, que reunia bispos dos vários continentes preocupados com o compromisso da Igreja com os pobres e com suas lutas para superar os males da pobreza e da miséria, por meio de maior justiça e de um desenvolvimento integral que atingisse a todos, de modo particular, os mais empobrecidos enquanto países e classes sociais.

Articulou o nascimento do Opus Angeli, grupo que acertou uma forma organizada de teólogos e especialistas nas diferentes ciências humanas e sociais de prestarem uma assessoria qualificada ao episcopado brasileiro. Essa colaboração foi estendida depois a outros episcopados e, sobretudo, às conferências episcopais articuladas entre si no Grupo da Domus Mariae.

Em relação ao episcopado brasileiro, tomou iniciativa e incalculável alcance o ciclo de Conferências, que passou a ser organizado na Domus Mariae a partir da primeira sessão conciliar e que se ampliou e a diversificou nas três sessões subseqüentes. Ali, para cada um dos temas em discussão na Aula Conciliar, foram convidados os melhores teólogos e especialistas dos vários países para falar aos bispos do Brasil, qualificando o episcopado brasileiro para uma participação cada vez mais consciente e fundamentada nos debates, propostas e votações conciliares. Fez assim, da CNBB, um verdadeiro Fórum de debates de todos os temas e assuntos conciliares, por mais difíceis e delicados que fossem.
Essa longa e enriquecedora convivência romana ao longo das quatro sessões conciliares fez da CNBB o episcopado que melhor se preparou para a recepção conciliar, o único a sair de Roma com um plano de aplicação do Concílio, pensado, debatido e votado no seu conjunto e detalhes e que foi batizado de PPP: Plano de Pastoral de Conjunto.

Dom Helder, que nunca falou na Aula Conciliar, tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares. Sua voz que não se fez ouvir na Basílica de São Paulo estava quase que diariamente presente nos meios de comunicação social, com inumeráveis entrevistas e conferências, que eram retransmitidas pelas rádios e televisões de todo o mundo.

Sua grande tribuna conciliar foram os meios de comunicação social, tendo-se tornado um amigo de centenas de jornalistas que cobriram regularmente o Concílio de 1962 a 1965. Isso ajuda a explicar e enorme audiência internacional de Dom Helder, também nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II.

IHU On-Line – Muito se comenta sobre o “Pacto das Catacumbas”, documento assinado por cerca de 40 padres, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio, que teve grande influência na Teologia da Libertação. Poderia contar-nos mais detalhes sobre esse pacto?

José Oscar Beozzo – O Pacto das Catacumbas foi firmado pelos bispos pertencentes ao grupo Igreja dos Pobres. Quase 500 outros bispos aderiram ao documento, cujo título era: “O Pacto da Igreja pobre e servidora”, explicando assim seu impacto em praticamente toda a Igreja, indo da Europa, passando pela Ásia, África e chegando a América Latina, onde se encontrava o grupo mais numeroso de bispos comprometidos com essa linha de pensamento e ação.

O Pacto se desdobrava em 13 compromissos assumidos conjuntamente pelos seus signatários no sentido de viverem pobremente, quanto à habitação, vestuário, alimentação e meios de locomoção.
Isso explica porque Dom Helder, assim que pode, deixou o Palácio Episcopal de Manguinhos e foi viver pobremente na sacristia da Igreja das Três Fronteiras, no Recife, ou que nunca tenha tido um automóvel ou motorista ou ainda que usasse sua surrada batina branca, com apenas uma cruz de madeira, como insígnia episcopal.

A entrega das terras da arquidiocese a camponeses pobres que ali trabalhavam, empenhando-se em dar-lhes assistência técnica, jurídica e social para que conquistassem autonomia e cidadania, enquadrava-se nos compromissos do Pacto das Catacumbas que propunha ainda:

“Achando a colegialidade dos bispos sua realização mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

– a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
– a requerermos juntos, ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo, cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres, saírem de sua miséria”.

O Pacto propunha também uma mudança radical das relações entre os bispos e os leigos e leigas, sacerdotes e religiosos/as:

“Comprometemo-nos a partilhar na caridade pastoral, nossa via com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosas e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço. Assim:

– esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida com eles”;
– suscitaremos colaboradores para serem mais animadores, segundo o Espírito, do que chefes, segundo o mundo;
– procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;
– mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião”.

IHU On-Line – A partir da assinatura do Pacto, qual a relação de Dom Helder com a Teologia da Libertação?

José Oscar Beozzo – Em relação à Teologia da Libertação, Dom Helder instaurou em sua vida e em sua ação pastoral local e internacional, práticas profundamente libertadoras. Tanto no Concílio, como de modo particular em Medellín e Puebla, foi um dos inspiradores e realizadores da opção preferencial pelos pobres.

Sua prática libertadora serviu de inspiração e estímulo à reflexão teológica, e seu Instituto Teológico em Recife, o ITER, foi um dos principais laboratórios e centros de produção de uma teologia da libertação colada à prática das comunidades eclesiais de base e aos movimentos populares.

Dom Helder foi um bispo e um pastor da libertação, não se considerando ele mesmo um teólogo, e sim um inspirador e animador da reflexão teológica libertadora.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

* Instituto Humanitas Unisinos

O deserto fértil de Dom Helder

Eugênio Mattos Viola

“Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista”.

Talvez essa frase possa servir como síntese da vida de Helder Pessoa Camara, nascido em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, no Ceará.

Combatido pelas elites insensíveis ao sofrimento humano e carregando a cruz do preconceito, ele não se deixou abater e chegou a ser indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Percorreu o mundo na luta contra todo tipo de opressão. Mereceu o reconhecimento internacional, enquanto no Brasil seu nome era proibido de ser mencionado pela mídia durante mais de dez anos, no triste período de total cerceamento da ditadura militar, em seguida ao AI-5, em 1968. “A justiça e a paz serão estabelecidas ao fim de tortuoso caminho, de longas marchas e contramarchas em que os homens se irão depurando dos ódios, das vaidades e dos preconceitos. Se o ódio pode ser mais forte e intenso do que o amor, num curto espaço de tempo, só o amor construirá para sempre”, escrevia o editor Ênio Silveira na apresentação de um dos livros de Dom Helder (O Deserto é Fértil), publicado pela Civilização Brasileira, naquele período de trevas. Como Gandhi, abraçou a Perseverança – a Força da Verdade (Satyagraha). Sabia discernir com sua abençoada sabedoria a diferença entre a caridade, que vê no pobre apenas o objeto de sua generosidade – do expurgo de suas culpas conscientes e inconscientes -, daquela que é a verdadeira caridade: a que tenta resgatar os desamparados, ofertando possibilidades concretas de alcançar o que não lhe foi proporcionado na infância ou ao longo da vida, como direito à educação, saúde, salário digno, moradia descente, Ou seja, Esperança e não apenas esmola.

Ordenado padre em 15 de agosto de 1931, em 1952 era nomeado bispo-auxiliar no Rio de Janeiro. Participou da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Dom Helder alcançou altos cargos na hierarquia eclesial, mas a humildade nunca o afastou do povo de Deus. Teve influência marcante nos novos rumos adotados pela Igreja durante e pós o Concílio Vaticano II, que abriu as janelas do Vaticano para que os ventos da História tirassem a poeira do trono de Pedro. Seu espírito se manifestou leve e sábio nos tantos livros que deixou publicado. Os profetas não se calam. Tornam o deserto fértil, mesmo sob o martírio.

“É bom que ninguém se iluda, ninguém aja de maneira ingênua: quem escuta a voz de Deus e faz sua opção interior e arranca-se de si e parte para lutar pacificamente por um mundo mais justo e mais humano, não pense que vai encontrar caminho fácil, pétalas de rosa debaixo dos pés, multidões à escuta, aplausos por toda a parte e, permanentemente, como proteção decisiva, a Mão de Deus. Quem se arranca de si e parte como peregrino da Justiça e da Paz, prepare-se para enfrentar desertos”. E ele soube enfrentar os desertos com firmeza e mansidão de espírito.

Schopenhauer dizia que “talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem”. Quando muitos se esforçavam para ‘catequizar’ os jovens, Dom Helder enxergava além e serenamente apontava o caminho: “Os jovens estão sempre com suas antenas ligadas, e sabem muito bem como captar os sinais do amor apaixonado e apaixonante de Deus. Por que falar sempre de ‘prática religiosa’e jamais de ‘prática evangélica’, feita de amor e de coragem, sempre a serviço dos outros? Ao que tudo indica, essa prática não foi abandonada. Muito pelo contrário, eu a vejo em plena ação por onde quer me passe. Se os jovens vão menos à igreja, talvez seja porque nela não encontram adequadamente reunidas a Vida e o Evangelho”. Era uma visão profética, nos idos de 70, do esvaziamento dos templos e seminários, principalmente na Europa e na América do Norte, como constata-se atualmente.”O desespero, na juventude, é a coisa mais terrível que há, tão terrível que mal posso pensar nisso. E, no entanto, me dizem que ele existe aqui, que está ao lado e em torno de vocês! Exorto-vos a não aceitarem de braços cruzados, jamais! A pior coisa que se pode retirar de um jovem é sua esperança no futuro. Tenham coragem e firmeza para auxiliá-los a reconquistá-la”.

Como diz Frei Betto “procura-se incutir nos jovens a idéia de que não adianta querer mudar o mundo, exceto no que se refere à tecnologia e à ciência. Mas há os jovens que lutam por ‘um outro mundo possível’, que preferem injetar utopia na veia do que drogas”. E Dom Helder foi um eterno jovem. A santa utopia corria em suas veias, em seu coração, em suas palavras, dando o fôlego necessário para enfrentar desertos e tempestades.

Não é difícil imaginar o quanto seria enriquecedora a participação de Dom Helder nas atuais divergências entre os irmãos Clodovis Boff e Leonardo Boff sobre a teologia da libertação.

“Não devemos ficar tão presos assim às palavras. É possível que muitas pessoas não hajam compreendido bem a essência da ‘teologia da libertação’, pois ouviram dizer que ela tinha influência marxista, ou coisa parecida. Mas há também os que a entendem, adequadamente, como a redescoberta do poder revolucionário do amor de Deus na história dos homens, o que lhes parece muito perigoso. É por isso que se vê tanto debate em torno da ‘teologia da libertação’, embora seja indiscutível que o Cristo queira que todos os homens lutem pela libertação de seus semelhantes. O progresso humano, a campanha contra as causas das injustiças, a conquista da dignidade, são a maneira mais direta dos homens poderem cooperar para a sua própria redenção e salvação, causas pelas quais o Senhor deu sua vida”. Sem aprofundar muito os pontos de vista levantados por cada um, observo que a síntese do pensamento de Clodovis é de que o pobre não leva necessariamente ao Cristo. O pobre estaria ocupando lugar do Cristo, o que seria uma heresia. Enquanto a visão de Leonardo é justamente contrária, de que “o Cristo leva necessariamente ao pobre, é a Face do Cristo. Diante dessa polêmica, bem ressaltou o teólogo José Comblin: “Quem vai sofrer com essas controvérsias, são os pobres. Os teólogos têm comida garantida, casa garantida. Se são condenados, não vão sofrer muito. Quem vai sofrer serão os pobres na medida em que a Igreja se desinteressa deles por medo de cair numa heresia. Sempre ouvi Gustavo Gutiérrez dizendo que a teologia da libertação pode morrer e não importa. O que importa, são os pobres. Para um cristão a teologia é algo completamente secundário e dispensável. Mas os pobres não são dispensáveis. Não se pode ser cristão sem acolher a mensagem que vem dos pobres”.

Quem terá perdido um pouco da Compaixão? Quem teria trocado – como os fariseus-, o Amor pela Lei? Os que acusam os teólogos da libertação de terem se valido de elementos do marxismo na leitura da História ou os que propõem uma atuação pastoral vertical, voltada para uma dimensão que coloca em segundo plano a Condição Humana?

O que é inquestionável é que a Conferência de Medellín, em 1968, foi o ‘aggionarmento’ da Igreja na América Latina, deixando no passado uma atuação condenável em relação aos índios, aos escravos, aos desamparados, firmando pacto com os Estados e a aristocracia, com as forças opressoras que de cristã nada tinham. Essa chama não pode morrer, ainda que muitos apontem que haveria ‘poeira ideológica’. É um debate rico, que convida à participação até de ‘não-crentes’ na busca de um mundo mais digno e fraterno, como fez o Cardeal Carlo Maria Martini ao se abrir no belo diálogo epistolar com o escritor Umberto Eco no livro “Em que crêem os que não crêem?”. Dom Helder com o olhar voltado para o Ecumenismo já tinha declarado anos antes: “desculpem-me se porventura lhes dei a impressão de que apenas os crentes, os cristãos, é que podem trabalhar por um mundo melhor. Não é assim que penso de modo algum. Quando olho em torno de mim, logo percebo que nem todos os que se dizem crentes têm esperança verdadeira de paz, justiça e felicidade para os homens, para os que vivem nesse mundo de riscos e incertezas, ao passo que muitos daqueles que em nada crêem, que sequer reconhecem a existência de Deus, estão dispostos a participar nos combates da esperança sem receio de colocar suas próprias vidas em jogo. Bem imagino a surpresa que muitos terão quando souberem que o Senhor dirá àqueles que sem O conhecerem – ou reconhecerem – viveram a fraternidade universal: ‘Agradeço-vos por me terdes acolhido, tratado, vestido, alimentado, defendido e amparado contra a injustiça’. Muitos cristãos, muitos católicos terão surpresa ao constatar que não serão eles os únicos convidados a entrar na casa Pai. Pois o coração do Pai é muito mais amplo do que os registros de todas as paróquias do mundo, e o Espírito Santo sopra em todas as direções, mesmo aquelas onde os pés dos missionários não tenham ainda pousado”.

Nesses dias de angústia em que nos sentimos impotentes diante do ‘holocausto dos palestinos’, da fúria israelense sobre Gaza – sem poupar crianças, mulheres e idosos -, Dom Helder dizia ‘por mais que o homem avance na ciência e na técnica, enquanto houver guerras no mundo daremos um triste atestado de falta de amadurecimento espiritual’.

Como as muitas vozes que hoje apontam para a urgência de aprofundamento dos avanços do Concílio Vaticano II de João XXIII, como a necessidade do fim do celibato, da eleição direta dos bispos, da maior participação dos leigos na construção do Reino, da maior inserção das mulheres na hierarquia eclesiástica, do fim da condenação ao homossexualismo. Como as vozes dos apaixonados pela Igreja, que enxergam além de nosso tempo cronológico e sofrem com o esvaziamento dos templos, abrindo espaço ao surgimento e fortalecimento dos falsos pastores e profetas que arrebatam multidões aflitas e assumem o controle da mídia. Como vozes que não atingem o coração da Cúria Romana e são até perseguidos. Como vozes que vêem da América Latina do bispo Dom Clemente Isnard ou da Europa do Cardeal Martini, Dom Helder também já havia se manifestado e deixado como legado em sua biografia espiritual: “sou um velho bispo, e não tenho receio em pedir-lhes que jamais se conformem com as fraquezas, os compromissos, ou talvez até mesmo com as traições da Igreja, assim como jamais perderem a confiança no Espírito do Senhor, que sempre está dentro dela”.

Certa vez, questionado por um grupo de jovens franceses sobre a razão de Deus permitir o sofrimento humano, Dom Helder despiu-se de todas as doutrinas, de toda fria intelectualidade e, numa demonstração de humildade, de quem também chorou no Monte das Oliveiras, respondeu: “Eu bem que gostaria, quando chegar a minha hora de partir para a eternidade, de levar comigo um bom número de perguntas que desejo fazer, um bom número de questões sobre as quais preciso ser esclarecido, um bom número de hipóteses que pretendo verificar. E isso sem falar nos mistérios que jamais chegarei a esclarecer, a respeito dos esforços que Deus faz para ser entendido perfeitamente. Bem sabemos que o Senhor conheceu o sofrimento. Ele foi capaz de chorar. Ele teve de alimentar, de curar, de consolar. Ele já teve de reconduzir um filho aos braços de seus pais. No entanto, quando a agonia O acometeu, Ele próprio não teve dúvida em implorar piedade. Ele jamais nos disse que o sofrimento era bom, necessário ou Justo”.

Dom Helder Camara foi ao encontro do Senhor no dia 28 de agosto de 1999, aos 90 anos de idade. Para ele, já não há mais mistérios ou dúvidas. Para nós, ficou a certeza de uma vida dedicada em plenitude ao amor, humildade e fé. Em fevereiro do ano passado, a Comissão Nacional de Presbíteros, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), encaminhou à Congregação para a Causa dos Santos o pedido de beatificação de Dom Helder Pessoa Camara. Em seu deserto, nasceram flores.

(Eugênio Mattos Viola é jornalista e o artigo acima foi publicado originalmente na Agência Adital)