teologia da libertação

Sociedade dos Teólogos Mortos

Roberto Malvezzi, Gogó

Durante uma palestra de Gustavo Gutiérrez na cidade do México, quando foi elaborado o Compêndio de Doutrina Social da Igreja da América Latina, um participante se levantou e lhe perguntou: “a Teologia da Libertação está morta?”

Ele olhou o rapaz com um sorriso e respondeu: “se ela morreu, eu não fui convidado para seu funeral”.

Já citei esse fato em outro artigo, mas foi inevitável sua retomada diante das revelações do WikiLeaks sobre uma conversa entre o representante do Vaticano e o embaixador dos Estados Unidos a respeito da América Latina, da atuação da Igreja Católica no continente, do crescimento dos evangélicos e, sobretudo, de uma tal “ressurreição da Teologia da Libertação”.

Primeiro, chama a atenção a declaração do Monsenhor Stefano Migliorelli, afirmando que a fé por aqui é inconsistente, tendo a evangelização que recomeçar do zero, sendo ainda o continente praticamente um território de missão.

Que seja um território de missão até os bispos latino-americanos sabem, tanto é que o Documento de Aparecida vai ter como centro exatamente a missionaridade. Talvez aí já se explique porque ela se tornou central no documento, isto é, havia a mão de Roma por detrás.

Por outro lado, afirmar que a fé aqui é inconsistente é negar um povo continental. Nosso cristianismo nasceu sob a batuta da cruz e da espada, da escravização e redução indígena, do batismo dos negros nos portos e pelourinhos, da derrubada e usurpação dos templos incas, astecas e maias, da bíblia nas mãos de Cortés como senha para a matança dos Astecas. A matança chegou a tal ponto que Bartolomeu de Las Casas chegou a proclamar: “é melhor índios pagãos vivos, que índios cristãos mortos”. Se os índios brasileiros fossem erguer uma cruz para cada um de seus mártires, o Brasil teria que resgatar seu nome de Terra de Santa Cruz.

Mesmo assim, nosso povo costurou sua fé a partir de baixo, de seus sofrimentos, mas também de sua insuperável alegria e fé na vida. Os santos, Maria, Jesus, são seus familiares, que estão no altar de suas casas, nas suas múltiplas manifestações religiosas. E que ninguém diga que aí está uma fé de segunda classe. Quem vive perto do povo sabe que ali está o lugar de encontro do Deus da Vida com seu povo simples. Aliás, o próprio Documento de Aparecida vai fazer justiça à fé popular, reconhecendo-a como uma fé autêntica e verdadeira.

Quanto à Teologia da Libertação –não há um cristianismo de libertação sem uma teologia correspondente-, nem está ressuscitando, nem jamais morreu. Deixou de ser hegemônica e passou a ser a teologia, a espiritualidade, a prática de minorias dentro da Igreja. Porém, não perdeu sua capacidade de fermentação.

Ela prossegue por razões muito simples de serem compreendidas por aqueles que são movidos pela com-paixão do Espírito de Jesus. Hoje no mundo existe um bilhão de famintos, 1,2 bilhões de sedentos e o planeta Terra pode estar entrando numa extinção em massa semelhante às outras cinco que já aconteceram. Deus não abandona seus deserdados, nem a Terra que criou.

Portanto, a opção pelos deserdados da Terra, e pela própria Terra, antes de ser uma opção da Igreja, é uma opção do próprio Deus.

Pe. José Comblin, Pregador da Palavra de Deus

Domingos Zamagna
Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo

Acabo de participar da Missa de 7º dia em sufrágio do Pe. José Comblin. Presidida por Dom Angélico Sândalo, emérito de Blumenau, ao lado de outros bispos eméritos, foi realizada no Convento dos Dominicanos, em cuja Escola de Teologia (hoje intitulada Instituto Bartolomeu de Las Casas, afiliado à Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino – Angelicum, em Roma) o Pe. Comblin lecionou durante mais de uma década.

Ali fui aluno deste extraordinário mestre e, como centenas e milhares de pessoas, pude aprender com ele as maravilhas da fé cristã. Nossa amizade já durava 46 anos, quando recebi, da querida amiga comum Ana Flora Anderson, a notícia de seu falecimento.

Falando dele para alunos, dentre os quais muitos seminaristas, a maior parte nem sequer sabe quem foi este teólogo. Alguns se recordavam que sobre ele pairava uma proibição de dar conferências em instituições católicas, inclusive na PUC-SP. Eu me recordo que quando a PUC-SP foi invadida em 1977 pelas tropas do Cel. Erasmo Dias (governo Paulo Egydio Martins) para violentamente reprimir estudantes que faziam assembleia, o cardeal Paulo Evaristo Arns (grão-chanceler da universidade) retornou às pressas da Europa e declarou, logo que desceu do avião: “A universidade existe e sempre existiu para debater todos os problemas, sem exceção. É sinal de pouca civilização proibir professores e alunos de debater os seus problemas”. Não temos registro de uma só voz que tenha protestado contra a injustiça feita ao Pe. Comblin, mas temos certeza que várias vozes se ergueriam se a interdição fosse dirigida a algum político corrupto de partido da carcomida coligação de sustentação do governo.

Santo Tomás de Aquino, São Boaventura e tantos outros doutores em Teologia foram debatedores, jamais fugiam das “quaestiones disputatae”. Lecionar, debater, pregar (legere, disputare, praedicare) eram as tarefas próprias dos mestres em Teologia. Por que várias autoridades eclesiásticas fingem ignorar que dezenas de documentos oficiais da Igreja incentivam os teólogos a seguir o exemplo de Santo Tomás que, fidelíssimo à doutrina da Igreja, jamais ensinou sem antes se informar e expor as razões dos objetores? Queremos formar seminaristas e leigos para serem meros repetidores de surradas manualísticas? Para quem não conhece, recomendo a leitura de J. Comblin. A atualidade de Santo Tomás de Aquino. REB 135 (1974), 515-523.

Pe. Comblin fez da investigação rigorosa um compromisso da sua atividade professoral. Suas aulas e conferências jamais provocaram indiferença, pelo contrário, despertavam o senso crítico e nos incomodavam profundamente. Costumava dizer: “É diante do pobre que a nossa teologia tropeça”. Uma reverberação de Basílio de Cesareia, de João Crisóstomo, de GregórioMagno… de Dom Larrain, Dom Proaño, Dom Romero, Dom Helder, Dom Luciano… e de tantos da Patrística latino-americana.

No ano de 1972, após participarmos do primeiro congresso de Teologia da Libertação em El Escorial, pude acompanhar Pe. Comblin numa longa viagem pela Espanha. Se às vezes parecia-me viajar em companhia de Fliche e Martin, tal a sua cultura e erudição, percebi que eu estava mesmo era ao lado de um discípulo de Jesus, seduzido pela aventura de Deus, apaixonado pela Igreja e pela evangelização, tomado de amor pelos pobres e pecadores, amigo dos santos e dos místicos, que passou horas em contemplação na capela do convento de Calaruega, terra de São Domingos de Gusmão; num misterioso silêncio, ajoelhado, com o Terço na mão, no mosteiro da Encarnação, certamente na intimidade da Virgem Maria e de Teresa d’Ávila; na catedral de Sevilha, quando os tradicionais cônegos, capitaneados por Gonzalez-Ruiz, retardaram a recitação das horas canônicas para ouvi-lo numa improvisada e inesquecível homilia sobre a Igreja na América Latina; no Instituto Fe y Secularidad, de Madri, o Pe. Castilho SJ, após uma palestra de Comblin sem anotação alguma, admirava-se de seu minucioso conhecimento da história e da modernidade da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola. Esses são pálidos exemplos de como nosso teólogo se desdobrava para falar de Deo aut cum Deo, de modo que sobre ele se pode dizer o que Guilherme de Tocco escreveu sobre São Tomás: fora o sono e a alimentação, “o resto do tempo era empregado na oração, no ensino, na pregação, na meditação ou em escrever e ditar questões”.

Nas próximas semanas, meses e anos ouviremos muitos relatos sobre as facetas deste apaixonado Pregador da Palavra de Deus: no campo e na cidade, nas montanhas e nas planícies, entre as monjas e os operários, nas favelas e nas faculdades, entre os clérigos e os índios, diante do soberanos belgas e dos sertanejos nordestinos. Seria bom que os que conviveram com ele mais de perto colocassem tudo por escrito, para que não se perca a memória dessa relevante, porém – nudum Christum nudus sequi – humilde e não obstante alegre página da história da nossa Igreja.

Às vésperas da Páscoa, a imagem do Pe. Comblin se apaga, para que sobressaia a realidade da pessoa e missão de nosso Salvador Jesus Cristo que ele, com singela sabedoria e de diversas maneiras, dócil à graça divina, quis nos transmitir pela pregação e pelo testemunho.

Compaixão: a mais humana das virtudes

Leonardo Boff

Três cenas aterradoras: o terremoto no Japão, seguido de um devastador tsunami, o vazamento deletério de gases radioativos de usinas nucleares afetadas e os deslizamentos destruidores, ocorridos nas cidades serranas do Rio de Janeiro, provocaram em nós, com certeza, duas atitudes: compaixão e solidariedade.

Primeiro, irrompe a com-paixão. A compaixão talvez seja, entre as virtudes humanas, a mais humana de todas, porque não só nos abre ao outro, como expressão de amor dolorido, mas ao outro mais vitimado e mortificado. Pouco importam a ideologia, a religião, o status social e cultural das pessoa. A compaixão anula estas diferenças e faz estender as mãos às vitimas. Ficarmos cinicamente indiferentes mostra suprema desumanidade que nos transforma em inimigos de nossa própria humanidade. Diante da desgraça do outro não há como não sermos os samaritanos compassivos da parábola bíblica.

A com-paixão implica assumir a paixão do outro. É transladar-se ao lugar do outro para estar junto dele, para sofrer com ele, para chorar com ele, para sentir com ele o coração despedaçado. Talvez não tenhamos nada a lhe dar e até as palavras nos morram na garganta. Mas o importante é estar aí junto dele e jamais permitir que sofra sozinho. Mesmo que estejamos a milhares de quilômetros de distancia de nossos irmãos e irmãs japoneses ou perto de nossos vizinhos das cidades serranas cariocas, o padecimento deles é o nosso padecimento, o seu desespero é o nosso desespero, os gritos lancinantes que lançam ao céu, perguntando, “por que, meu Deus, por que?” são nossos gritos lancinantes. E partilhamos da mesma dor de não recebermos nenhuma explicação razoável. E mesmo que existisse, ela não desfaria a devastação, não reergueria as casas destruídas nem ressuscitaria os entes queridos mortos, especialmente as crianças inocentes.

A compaixão tem algo de singular: ela não exige nenhuma reflexão prévia, nem argumento que a fundamente. Ela simplesmente se nos impõe porque somos essencialmente seres com-passivos. A compaixão refuta por si mesma noção do biólogo Richard Dawkins do “gene egoísta”. Ou o pressuposto de Charles Darwin de que a competição e o triunfo do mais forte regeriam a dinâmica da evolução. Ao contrário, não existem genes solitários, mas todos são inter-retro-conectados e nós humanos somos enredados em teias incontáveis de relações que nos fazem seres de cooperação e de solidariedade.

Mais e mais cientistas vindos da mecânica quântica, da astrofísica e da bioantropologia sustentam a tese de que a lei suprema do processo cosmogênico é o entrelaçamento de todos com todos e não a competição que exclui. O sutil equilíbrio da Terra, tido como um superorganismo que se autoregula, requer a cooperação de um sem número de fatores que interagem entre si, com as energias do universo, com a atmosfera, com a biosfera e com próprio o sistema-Terra. Esta cooperação é responsável por seu equilíbrio, agora perturbado pela excessiva pressão que a nossa sociedade consumista e esbanjadora faz sobre todos os ecossistemas e que se manifesta pela crise ecológica generalizada.

Na compaixão se dá o encontro de todas as religiões, do Oriente e do Ocidente, de todas éticas, de todas as filosofias e de todas as culturas. No centro está a dignidade e a autoridade dos que sofrem, provocando em nós a compaixão ativa.

A segunda atitude, afim à compaixão, é a solidariedade. Ela obedece à mesma lógica da compaixão. Vamos ao encontro do outro para salvar-lhe a vida, trazer-lhe água, alimentos, agasalho e especialmente o calor humano. Sabemos pela antropogênese que nos fizemos humanos quando superamos a fase da busca individual dos meios de subsistência e começamos a buscá-los coletivamente e a distribui-los cooperativamente entre todos. O que nos humanizou ontem, nos humanizará ainda hoje. Por isso é tão comovedor assistir como tantos e tantas se mobilizam, de todas as partes, para ajudar as vítimas e pela solidariedade dar-lhes o que precisam e sobretudo a esperança de que, apesar da desgraça, ainda vale a pena viver.

Lições que aprendi com Pe Comblin: liberdade e a história

Jung Mo Sung

O falecimento do Pe Comblin nos faz enfrentar uma realidade inevitável: a primeira geração (provavelmente a mais criativa e rigorosa) da teologia da libertação está aos poucos chegando ao limite da vida. Uma forma de homenagear pessoas como Comblin é continuar a tarefa de uma reflexão crítica séria comprometida com a causa dos pobres e também de divulgar o seu pensamento para novas gerações de estudante de teologia ou de agentes pastorais.

Pensando nisso é que resolvi escrever este pequeno texto. Mas é uma tarefa muito difícil escrever em uma página o que significou a pessoa e a obra de Pe Comblin para as igrejas cristãs na América Latina e também para muitos não cristãos que conheceram, por exemplo, o seu livro “A ideologia de segurança nacional”. Por isso, eu quero simplesmente compartilhar algumas idéias de Comblin que me marcaram nos últimos 30 anos.

Se há uma palavra que marcou a minha leitura da vastíssima obra de Comblin é a liberdade. Ele disse: “Segundo a Bíblia, a liberdade é mais do que uma qualidade, um atributo de ser humano: é a própria razão de ser de humanidade.” E a afirmação de Paulo de Tarso, “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (Gal 5,1)” pode ser visto como o mote que guiou a sua obra. Esta busca de liberdade, que impulsiona a luta pela libertação, não pode ser confundida com uma visão moderna burguesa da liberdade. “Não é livre aquele que diz que faz o que quer, mas, na realidade, não sabe resistir à pressão dos desejos, tornando-se escravo dos objetos que excitam o seu desejo.” Nestes casos, a liberdade pressupõe a libertação dos desejos individuais e a sua realização no assumir o serviço e a causa em favor dos mais pobres.

A sua reflexão crítica não era direcionada somente à visão burguesa da vida e da liberdade, mas também a outras teses presentes no nosso meio. Já na década de 1960, quando muitos do cristianismo de libertação estavam descobrindo o marxismo e o utilizando nas análises sociais e nas propostas políticas, Comblin criticava filosofias da história que anunciam um caminhar necessário da história humana para a erupção do Reino da Liberdade (marxismo) ou para “cristificação do universo” (inspirado em Teilhard de Chardin), quando começaria a verdade história humana, plena de harmonia. A sua crítica constituía em duas idéias centrais: a) a liberdade não pode nascer da necessidade; isto é, se a histórica caminha necessariamente para um ponto, este não é liberdade porque processos históricos necessários não podem gerar a liberdade, pois não haveria opção de não chegar; b) esta visão de que após a “revolução final” iniciaria a verdadeira história humana é um mito que desqualifica a história humana a uma pré-história.

A sua reflexão a partir da liberdade se aplica também sobre a noção de Deus. Para ele, a tradição bíblica difere da tradição Greco-Ocidental que busca em Deus o fundamento da ordem atual ou da nova ordem a surgir necessariamente (Deus como motor criador da nova ordem). “Na Bíblia, todavia, tudo é diferente porque Deus é amor. O amor não funda ordem, mas desordem. O amor quebra toda estrutura de ordem. O amor funda a liberdade e, por conseguinte, a desordem. O pecado é conseqüência do amor de Deus.”

“Que Deus é amor e que a vocação humana é a liberdade são as duas faces da mesma realidade, as duas vertentes do mesmo movimento”. Segundo esta forma de ver Deus e o sentido da existência humana, Deus não é mais um ser todo-poderoso que impõe sobre o mundo a sua vontade conduzindo a história para um fim já pré-estabelecido. Uma visão presente não somente em setores conservadores, mas também em diversos setores considerados “progressistas” e eco-socialmente engajados. Deus vem ao mundo como alguém que se fez impotente diante do ser humano livre: “esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana” (Fl 2,7).

Para Comblin lutar pela libertação e uma vida de liberdade não é lutar por um mundo sem mal, pois não é possível vivermos a liberdade sem a possibilidade do mal e do pecado. Deus fez o mundo tal que o pecado é uma possibilidade inevitável. Por isso, ele retoma um texto bíblico muito citado por Juan Luis Segundo, “Já estou chegando e batendo à porta. Quem ouvir minha voz e abrir a porta, eu entro em sua casa e janto com ele, e ele comigo” (Ap 3,20) e diz: “se ninguém abrir, Deus aceita a derrota sabendo que sua criação fracassou. Deus criou um mundo que podia fracassar.”

Essas palavras mostram uma característica de Comblin que sempre admirei: a sua coragem profética de dizer coisas que podem contrariar nossos desejos românticos, desejos que nos levam para fora da história humana e do ser humano real. Assim, ele cumpriu com a sua obra um dos propósitos da teologia da libertação: ser uma reflexão crítica sobre o mundo idolátrico e também sobre a nossa religiosidade e experiência de fé, a serviço da liberdade-libertação dos mais pobres.

 

Fotos de arquivo do O Arcanjo no Ar – na Casa de Oração do Povo da Rua – lançamento do livro A Profecia na Igreja,  do Padre Comblin – març/2009.

Fé e política: de novo?

Jung Mo Sung

Eu sou de uma geração de cristãos que foi marcada intensamente pelo debate sobre “a fé e a política”. Na década de 1980, ser um cristão que assumia a tarefa de anunciar a boa-nova de Jesus ao mundo e de “construir” o Reino de Deus era sinônimo de discutir e fazer política. Como diziam os teólogos e assessores das pastorais de então, a política é o campo da luta pelo bem comum e justiça social e as comunidades cristãs devem participar dela. More →

Carta aberta ao Pe. Ezequiel Ramin

Pe. Dário

Tinha apenas 33 anos, estava no Brasil há pouco mais de um ano… Sempre me pergunto quão forte devia ser a raiva dele, para assinar tão cedo uma condenação à morte.

Missionário Comboniano, Ezequiel Ramin foi morto em 1985, numa Rondônia em plena agitação pela febre colonizadora de fazendeiros e muitos pobres em busca de futuro.

Imensa fronteira em desenvolvimento, onde grupos poderosos disputavam cada palmo de chão. Fazendeiros contra posseiros, grileiros contra pequenos agricultores, fazendeiros e madeireiros contra índios. O missionário tomou o lado dos pobres e foi brutalmente executado. Hoje, a vinte cinco anos de seu martírio, seus companheiros combonianos escrevem uma carta aberta para ele.

Ezequiel, o que é ressurreição?

Diga-nos, mártir da luta: como acreditarmos na vida quando ainda continua tamanha violação dos direitos?

Lembramos de sua paixão pela causa dos povos indígenas. Pois é, ainda hoje mais de 50% das terras deles continuam sem identificação, demarcação ou homologação.

Você deu a vida pelo chão de seu povo, mas ainda hoje o Brasil é campeão mundial na concentração da terra. Imaginamos sua ansiedade a respeito do plebiscito de setembro 2010, para pôr um limite à propriedade, pois a terra é o bem mais essencial que temos.

Ainda ressoam suas palavras: “muitas vezes sinto uma grande vontade de chorar, ao ver os quilômetros de cerca…”.

Ezequiel: como não chorar, hoje, enquanto está sendo aprovada a reforma ao Código Florestal? Em vez de preservar a natureza fonte de vida, isso vai matar as florestas e reduzir as áreas de preservação permanente!

A vida é cada vez mais ameaçada pela ilusão do crescimento e do progresso! Mas que progresso é este que suga das veias abertas da America Latina a madeira do mato, o ferro da terra e a fertilidade do chão?

Na sua Rondônia, no ano passado, quatro mil pessoas durante o Intereclesial das CEBs ajoelharam-se, pedindo perdão frente às enormes barragens para usinas hidroelétricas no rio Madeira. Ainda dá, Ezequiel, para acreditar que Davi vencerá Golias?

Até sua irmã no sangue, Dorothy Stang , ainda não conheceu justiça e os assassinos dela estão impunes em liberdade… Cadê o estado, defensor de direitos?

Cadê a igreja da libertação pela qual você derramou seu sangue? Como e quando essa igreja reconhece e imita seus mártires?

Sumiram os mártires; hoje a medida da fé não parece mais ser a cruz da perseguição, mas o ibope de quem manipula os sentimentos do povo, oferecendo nas praças públicas a religião como um grande espetáculo…

Os próprios movimentos sociais, com que você tanto trabalhou, hoje em vários casos parecem presos a lógicas de controle e de repartição do poder.

No meio das contradições e falências, você costumava repetir que “trabalhar com os pobres é como criar primavera”. Acreditamos nessa primavera, padre!

Sentimos que a vida pulsa nas veias desse povo, apesar das ameaças que pairam em cima dele. Admiramos a cada dia a resistência e dedicação das mulheres líderes de comunidade: é delas que você deve ter aprendido!

Sua paixão não foi em vão: hoje os olhos do povo iluminam-se quando fazem memória de pe. Ezequiel e ir. Dorothy. Luzes distantes, mas permanentes, estrelas fixas no horizonte.

Sim, nossos povos ainda têm horizonte, apesar de tudo.

Alguns perderam o sonho, vêem-se obrigados a viver dia após dia. Mas outros, ao lado desses, ainda enxergam longe, lutam por mudança, acreditam na honestidade, doam-se até o fim. Você não imagina, Ezequiel, quanto é importante para eles seu exemplo e a vida de muitos outros batalhadores do dia de hoje!

Suas palavras fecundam a vida de muitos jovens: “Tenho a paixão de quem persegue um sonho. Essa palavra tem tamanha intensidade que, quando a acolho em meu ânimo, sinto que uma libertação sangra por dentro de mim”.

A igreja que você sonhava e pela qual trabalhou ainda está em construção: depende de nós dar-lhe um sabor de libertação.

Você comentava: “É um novo jeito de ser igreja. Avanço nessa lógica. As atividades são ligadas ao social, a uma transformação concreta. O papel principal é dos leigos. Eles são igreja. Interessam-se por tudo. O trabalho é de coesão: juntos buscamos saídas para os problemas interconectados da terra, dos índios, da saúde e do analfabetismo…”.

“Meus olhos buscam com dificuldade a história de Deus aqui. A cruz é a solidariedade de Deus para com a caminhada e a dor humanas. O amor de Deus é mais forte do que a morte. A vida é bela e estou feliz em doá-la!”.

Ressurreição é isso, Ezequiel: doar-se com alegria para que esse povo viva! Você ainda vive, mártir da terra e do sonho de Deus. Que essa vida se transmita, apaixonada, nas muitas e muitos seguidores de Cristo que ainda seguem criando primavera!

“Quero dizer só uma coisa,
uma coisa especial para aqueles que
têm sensibilidade para as coisas bonitas.
Tenham um sonho.
Tenham um sonho bonito.
Procurem somente um sonho.
Um sonho para a vida toda.
Uma vida que sonha é alegre.
Uma vida que procura seu sonho
renova-se dia após dia.
Seja um sonho que procure alegrar
Não somente todas as pessoas,
Mas, também, seus descendentes.
É bonito sonhar de tornar feliz
a humanidade toda.
Não é impossível…”.

Padre Ezequiel Ramin,
missionário comboniano
MÁRTIR no Brasil.

Espiritualidade de Prosperidade

J. B. Libanio

Os sistemas políticos e econômicos não vivem só de ideologia e dinheiro. Política e economia satisfazem as necessidades básicas do ser humano. Mas deixam em descoberto seu lado espiritual, religioso. Por isso, todo sistema econômico cria sua espiritualidade ou encampa algo já existente, imprimindo-lhe sua marca.

Os ideais socialistas casavam muito bem com a teologia da libertação, assim como com a luta das comunidades eclesiais de base nas suas reivindicações fundamentais. Sem transformar-se em ideologia socialista, a espiritualidade da libertação alimentava e alimenta até hoje as pessoas que se envolvem com as práticas transformadoras da realidade na linha da emancipação e promoção dos pobres.

E agora, que espiritualidade está a responder ao triunfo do neoliberalismo? Onde ele busca apoio espiritual para preencher o vazio que o puro consumismo e o materialismo deixam atrás de si?

Muitas igrejas pentecostais e neopentecostais têm elaborado a espiritualidade da prosperidade e com isso mantido as pessoas nas redes do neoliberalismo, respaldadas por uma visão religiosa da realidade. Em que consiste tal espiritualidade?

Na base está o individualismo neoliberal com sua concepção de concorrência e competição de modo que vencem os mais fortes, os mais sabidos, os mais “vivos”. Daí resulta o progresso. Pior para quem fica fora dele. Dito desta maneira rude poderia doer aos ouvidos cristãos. Aí entra uma pitada de espiritualidade que tudo tempera.

Deus quer a felicidade, a riqueza, os bens materiais, a felicidade, a saúde, aqui e agora, para seus filhos. Quem são eles se não os cristãos? Pensar de maneira diferente é cair na alienação tradicional. Esta prometia os bens somente para a vida eterna que se obtinha com os sofrimentos aqui na terra.

Cristo já sofreu no nosso lugar. Agora vem-nos a bênção de Deus. Somos “filhos do Rei”. Se vamos para o céu, por que não antecipar um pouco dele nesta vida?

E os pobres? Sempre os haverá entre nós, como diz o Senhor. Eles são os perdidos. São preguiçosos, viciados, idólatras. Se vão mesmo para o inferno, por que não ensaiar um pouco aqui na terra? “O Terceiro Mundo é pobre porque idólatra”, pregava Luiz Palau, evangelista argentino, americano naturalizado. Dois irmãos nordestinos sentenciavam, em São Paulo, que a culpa da pobreza do Nordeste é a devoção idólatra ao Padre Cícero.

Se os cristãos não ficarem ricos, isto é falta de fé. Vem de algum pecado oculto. Confessando-os, conhecerão a prosperidade. Mas se mesmo assim, não ficarem ricos, então a culpa é de algum antepassado.

Nessa espiritualidade, não há lugar para a solidariedade nem para a opção pelos pobres. É estritamente individualista. É uma espiritualidade dos resultados. Os ricos já estão abençoados. Encontram nela paz interior, uma vez que já possuem os bens materiais. Os pobres devem buscá-la para si e seus familiares, recorrendo a ritos religiosos, como o de abençoar ou ungir de óleo santo as carteiras profissionais.

Para a Igreja Universal do Reino de Deus a vida espiritual é uma transação financeira com o céu. Quanto maior a oferta, tanto maior a bênção. A espiritualidade da prosperidade é o coração dessa Igreja. Ela incentiva mais que ter carteira assinada é a criação de microempresas. Um bispo seu, trafegando em luxuoso carro do ano, dizia: “Eu ensino a prosperidade e vivo a prosperidade”.

Apela-se então para um “poder” nas palavras o qual libera “energias positivas” e combate o baixo astral com efeito sobre as coisas, doenças. A realização dessa espiritualidade é “vida longa e próspera”.

Outra expressão é a idéia de que Deus não fez seu povo para ser “cauda” do mundo, mas sua “cabeça”. Incentivam-se os cristãos a ambicionar postos de mando na Terra. Aos “perdidos” cabe impor obediência e evitar que façam males maiores.

A participação na política não visa a uma transformação social, mas a travar a luta do bem contra o mal, sem lugar para o pluralismo. O bem se identifica com os ideais e interesses da própria igreja e de seus dirigentes. Volta-se à velha idéia da batalha espiritual que transforma em inimigo tudo com o que essa espiritualidade não concorda. Divide o mundo em dois campos: o lado de Deus (o lado da igreja) e o lado do mal, do demônio: todas as forças que divergem de sua maneira de ver a realidade.

A espiritualidade da prosperidade é uma resposta ao momento atual. Corresponde muito bem ao clima dominante da cultura pós-moderna a serviço do neoliberalismo. Daí sua sedução. Oferece o caminho rápido do sucesso sem passar pelo trabalho, pela renúncia, pelo esforço. O êxito econômico se faz até mesmo por vias suspeitas. Ele é sinal da bênção de Deus. A riqueza é vista no seu valor em si mesmo, sem nenhuma responsabilidade social. Muito distante da doutrina social da Igreja que defende a hipoteca social sobre toda posse. Os bens materiais são vistos como privilégio e bênção para alguns escolhidos de Deus e não destinados a todos. Produz-se uma identificação rápida entre a bênção de Deus e os bens materiais dos ricos.

Atém-se a uma interpretação literal e unilateral do Antigo Testamento. Esquece-se de que Jesus veio dar-lhe o verdadeiro sentido. Não se tem a mínima sensibilidade pela dimensão social nem pelo amor predileto de Deus pelo pobre. Os verdadeiros bens para o cristão encontram-se retratados por Jesus no sermão da montanha e na sua vida.

Jesus proclama bem-aventurados os pobres e não aqueles que nadam em riqueza e a ambicionam para si. Jesus invectiva aquele rico que só pensava em armazenar ainda mais seus bens. “Insensato! Esta noite mesmo a tua vida ser-te-á reclamada e o que tu preparaste, quem é o que o terá?” E conclui com um dito lapidar: “Eis o que acontece a quem reúne um tesouro para si mesmo, em vez de enriquecer junto a Deus” (Lc 12, 16-21)

Como se vê, é exatamente o oposto da espiritualidade da prosperidade que só pensa em entesourar para si e quanto mais, melhor. Esquece da condição mortal.

Mais ainda. Jesus refere-se diretamente à fragilidade dos bens terrestres que as traças e os vermes corroem; que os ladrões roubam. Conclui: “acumulai para vós tesouros no céu, onde nem as traças nem os vermes causam estragos, onde os ladrões não arrombam nem roubam”. E termina com um dito de sabedoria: “onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração” (Mt 6, 19-21).

O ensinamento de Jesus sobre o seguimento situa-se em posição diametralmente oposta à espiritualidade da prosperidade. Na base está o desprendimento e não a acumulação. “Qualquer um de nós que não renuncia a tudo o que lhe pertence não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 33).

Precisa ser de uma absoluta cegueira a respeito do evangelho de Jesus para propor uma espiritualidade da prosperidade como expressão do projeto de Deus. Este se manifestou em sua plenitude na pregação e pessoa de Jesus. As passagens do Antigo Testamento, que parecem identificar a bênção de Deus com a abundância dos bens, revelam um aspecto de seu projeto criador. Os bens criados estão destinados a todos os seres humanos e não a serem privilégio de alguns que se engolfam neles enquanto outros carecem de tudo. O Novo Testamento avança. Relativiza os bens materiais na perspectiva do irmão, do serviço aos outros, da própria missão.

A espiritualidade da prosperidade inverte o sentido cristão. É materialista, pagã. Nada cristã. Não se opondo ao canto de sereia do neoliberalismo, capitula. É a espiritualidade que justifica a injustiça social, tranqüilizando a consciência com tintura religiosa. Camufla a verdade da injustiça social, transferindo para Deus – bênção e maldição – a diferença social entre os humanos, fruto do sistema econômico, ao menos, na forma atual.

Os Padres da Igreja na América Latina segundo Concilium: Mestres na Fé, Profetas e Mártires

Claudia Fanti

Não é nada exagerado comparar vários bispos latinoamericanos da geração do Concílio, de Medellín e de Puebla aos “Padres da Igreja” orientais e ocidentais do IV e V século. Esta comparação é assumida pela prestigiosa revista internacional de teologia Concilium (Editora Queriniana, Itália), que dedica o último número de 2009 ao tema dos “Padres da Igreja na América Latina”, com a convicção de que o ensinamento e o testemunho desses “mestres na fé” não pertençam a um período cronologicamente encerrado”, mas sejam “fontes de inspiração de novos caminhos de seguimento evangélico não somente na América Latina”. Estes novos Padres da Igreja se tornaram elementos fundamentais de referência “pelo ambiente de fé que criaram; pelos estilos e práticas que suscitaram; pela solidariedade que criaram; pelas heranças que deixaram para a sucessiva estação eclesial e teológica”.

Entre as muitas personalidades de bispos que podemos considerar como “Padres” de uma nova Igreja latinoamericana, a escolha dos autores do citado texto de Concilium, Sílvia Scatena, Jon Sobrino e Luiz Carlos Susin -escolha nada fácil como eles mesmos admitem no editorial- caiu em cinco deles: Helder Camara, cujo centenário de nascimento foi celebrado em 2009 e de cujo exemplo relata, no seu artigo, Luiz Carlos Luz Marques; Leónidas Proaño, “bispo dos índios”, que, como lembra Giancarlo Collet, “no lugar do hábito eclesiástico vestia o poncho, o vestido dos pobres; e, desta forma, dava um sinal, mostrando com que pessoas ele se identificava; Sérgio Méndes Arceo, bispo de Cuernavaca, de quem Alícia Puente Lutteroth lembra o caminho episcopal de “conversão permanente”, às fronteiras do pensamento e das práxis sócio religiosas” e sempre do lado dos excluídos (“Me dá medo -dizia- ser cachorro mudo, me toca profundamente a impotência, a frustração, a rebelião diante as estruturas injustas”); Aloísio Lorscheider, secretário e depois presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latinoamericano) de ’76 a ’79, firme adversário da ditadura, mais de uma vez ameaçado de morte e chamado de “bispo vermelho” mas, na verdade, “homem do diálogo”, considerando o diálogo, frisa Tânia Maria Couto Maia, “o aspecto mais importante na construção da comunhão”; e, por último, Oscar Arnulfo Romero, de quem Jon Sobrino lembra a contribuição à teologia (“ver Deus a partir do pobre e o pobre a partir de Deus”), à cristologia (olhar os lavradores e lavradoras perseguidos e assassinados como o Corpus Christi, e ao povo como “servo sofredor de Jahvé), à eclesiologia (“ser bispo como pastor, não como rei, e muito menos como mercenário”) e o seu jeito específico de traduzir na vida as famosas palavras de Pedro Casaldáliga: “Tudo é relativo menos Deus e a fome”.

Com Medellín ou contra Medellín

Muitos outros bispos, todavia, são lembrados no artigo introdutório de José Comblin, que destaca em todos eles as qualidades próprias dos Padres da Igreja: a “santidade explícita” (só para dar um exemplo, Helder Camara “vivia realmente pobre. Morava na sacristia de uma velha capela dos tempos da Colônia. Não tinha carro, não tinha empregada. Almoçava no bar da esquina, onde almoçam os operários que trabalham naquela área. Ele mesmo abria a porta e atendia a todos os mendigos que por ali passavam”); a fidelidade ao Evangelho com todo o rigor possível; a compreensão profunda aos sinais dos tempos; a veneração que gozavam por parte de todos que os conheceram; a perseguição por parte do poder civil e eclesiástico. “Muitas vezes”, escreve Comblin, “ouvi Dom Proaño, voltando da Conferência Episcopal onde tinha defendido a causa dos índios, dizer ‘Me deixaram sozinho’”.

A todos eles, continua Comblin, o Vaticano II ofereceu a oportunidade de se encontrar e de chegar a uma verdadeira sintonia ao redor da temática da pobreza da Igreja: o “Pacto das Catacumbas da Igreja servidora e pobre”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de S. Domitila, por um grupo de 40 bispos (a quem depois se agregaram vários outros) constitui uma das expressões mais altas. “Aqui já se encontra -escreve Comblin- todo o espírito de Medellín. Como em Medellín, os bispos afirmam em primeiro lugar os compromissos que ‘eles mesmos’ irão assumir”.

E é Medellín (a segunda Conferência Geral do Espiscopado Latinoamericano e Caribenho, em 1968) que se constitui no verdadeiro “acontecimento fundador” da nova Igreja latino-americana, embora tenha suas origens, como explica José Oscar Beozzo, numa trajetória cujas raízes se encontram não só no Vaticano II (“quando se estabeleceu o vínculo entre colegialidade e magistério episcopal”), mas também na primeira evangelização no século XVI (“quando o anúncio do evangelho foi vinculado com o compromisso pela justiça”).

“Desde então -afirma Comblin- o mundo se divide em duas opções: com Medellín ou contra Medellín”. Embora, no final, parece que esta segunda opção prevaleceu: “Em Medellín -resume telegraficamente Jon Sobrino- a conversão eclesial aconteceu de maneira audaciosa. Em Puebla manteve-se suficientemente. Em Santo Domingo desapareceu. E em Aparecida só houve um pequeno freio ao retrocesso e se conseguiu alguma melhora”.

Continua Sobrino: “Na situação em que se encontra a Igreja, é importante voltar ao Vaticano II, e quem sabe com bons resultados. Frente à situação em que está o nosso mundo dos pobres, devemos voltar a João XXIII, Lercaro, Himmer e à Igreja dos pobres: só no Concílio encontramos tais sinais. Mas frente à situação de um mundo de vítimas, precisamos das referências de monsenhor Romero e da Igreja dos mártires”.

A patrística latinoamericana

Não existem, porém, somente os “Padres”: é preciso lembrar também as “Madres”, aquelas mulheres cristãs que tomaram sobre si, como fala o artigo de Ana Maria Bidegain e Maria Clara Bingemer, “a maior parte das tarefas no trabalho eclesial na América Latina”. E tanto mais é preciso lembrá-las em quanto a natureza mesma do pensamento teológico e do trabalho eclesial delas -“intersubjetivo, relacional, dialógico e comunitário”- favorece “uma certa tendência ao anonimato”, contribuindo (apesar da existência de grandes personalidades “com vozes claras, fortes e profundas”) à “grande disparidade entre o trabalho que desenvolveram e desenvolvem as mulheres na Igreja e a falta de reconhecimento dado a elas como construtoras da comunidade eclesial”.

Todavia, como esclarece o artigo, a contribuição das mulheres à teologia latinoamericana não é nada secundário: Se a Teologia da Libertação, como explicou Ivone Gebara, não chegou a provocar uma mudança de visão “da antropologia e da cosmologia patriarcais sobre as quais se baseia o cristianismo”, foi tarefa das teólogas colocar em discussão o conjunto da teologia dominante, patriarcal e machista. Recolocaram em discussão não só o modo de pensar, o dado da revelação e o texto das Escrituras, mas também o modo “de pensar o mundo, as relações das pessoas com a natureza e com a divindade”.

(Tradução: Lino Allegri)

Crime na universidade

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Foi Leonardo Boff quem me anunciou, com voz embargada, ha exatos vinte anos atrás: “Mataram Ellacuria”. Custei a realizar o que me dizia. Pouco a pouco sai de meu espanto e ouvi minha voz perguntar, longe e apesar de mim mesma: “E o Jon Sobrino?” Leonardo me contou que escapara por estar na Tailândia, dando um curso que ele, Leonardo, lhe havia pedido.

Senti o alivio de saber poupado o que era mais amigo, mais próximo, mas uma enorme perplexidade diante do acontecido. Naquela ocasião conhecia pouco sobre Ellacuria. Só me lembrava de sua tremenda simpatia e sua brilhante inteligência quando o conhecera rapidamente em Madrid, aonde fora acompanhando a Lina Boff, colega de teologia e Irma de Leonardo, que iria participar de um programa na TV espanhola. Encantou-me aquele basco de sorriso fino e tiradas brilhantes, que falava com paixão e exatidão sobre a opção pelos pobres e a teologia da libertação.

Corria o ano de 1989 e aquele era o assunto em pauta. A Teologia da Libertação era discutida e controvertida, mas chamava atenção e atraia os olhares. E Ellacuria, como reitor da Universidade Católica de El Salvador, não perdia oportunidade de viajar e ocupar todas as tribunas que se apresentavam para falar da grande prioridade em que consistia naquele momento a libertação de todos os oprimidos do mundo. Lembrava-me do grande “banner” que vira com sua foto, microfone na mão e gesto inflamado com o braço levantado, dizendo a celebre frase: «”É preciso reverter a historia e lançá-la em outra direção.”

Com sua morte, vieram a tona muitas outras grandes e importantes coisas sobre ele: grande filósofo, maior especialista no pensamento de Zubiri, – o famoso filósofo espanhol, – em todo o mundo; reitor da UCA; presença marcante em El Salvador, país pequeno e triturado por cruel ditadura, com o povo em extrema pobreza submetido a esmagadoras forças de opressão; interlocutor privilegiado de Monsenhor Romero, o grande bispo, mártir, assassinado nove anos antes, enquanto celebrava a Eucaristia.

Agora ele jazia morto, com seus outros seis companheiros, a senhora que trabalhava na residência jesuíta e sua jovem filha de dezesseis anos. Depois de barbaramente torturados, foram todos mortos, sendo encontrados horas depois no jardim da residência. Jon Sobrino, de longe, seria avisado do ocorrido, transformando-se em uma perpétua testemunha de um crime do qual também seria vítima se ali estivesse. Condenado a viver para sempre com o desconforto dos sobreviventes, passaria a vida dando testemunho de seus irmãos e não deixando que sua memória caísse no esquecimento e no olvido, assim como a de Monsenhor Romero.

Ellacuria, basco de nascimento, salvadorenho de nacionalidade, assim como quase todos os outros jesuítas assassinados naquela noite sabiam do risco que corriam. Sabiam os perigos que comporta o seguimento radical de Jesus de Nazaré quando e levado a sério e tomado à risca, sobretudo naquilo que diz respeito a luta contra as injustiças de todo tipo. Cada vez que viajava, Ellacuria era avisado, de uma ou de outra maneira, que voltar a El Salvador implicava risco de vida certo. Desta vez sobretudo, o clima no país era quente e inseguro. Muitos lhe aconselharam não voltar.

Voltou. Voltou porque acreditava na missão que assumira mais que na própria vida. Voltou porque dar brilhantes conferencias de filosofia na Europa e alhures era algo que fazia com grande competência, mas não implicava o sentido principal de sua vida. Voltou porque era um homem consagrado a Deus e aos outros e tinha uma aliança de vida e destino com aquele povo ao qual servia.

À sua espera estavam as armas e as balas dos assassinos que entraram na residência na calada da noite, encobertos pela escuridão e escondidos pelo silencio. Sua boca foi calada, mas sua vida nunca foi tão eloqüente e inspiradora. Tal como escreveu um companheiro jesuíta sobre sua morte: “Querido Ellacu, agora sim, acreditamos em você, ao te ver assim, abatido e caído ao chão como Jesus. Perdão por havermos dito que você falava a partir do ar condicionado da UCA.”

Vinte anos depois, o crime bárbaro que resultou no martírio dos seis jesuítas e das duas leigas colaboradoras da residência continua impune. Todos os esforços de apuração não conseguiram ainda trazer à luz as responsabilidades e punir os culpados. O sangue dos mártires, no entanto, fala mais alto e ensina ao mundo para que serve a Universidade de confissão cristã. Para fazer crescer o saber e o conhecimento, sim. Mas também e inseparavelmente, para lutar com todas as forças, até o dom da própria vida, para que a história seja revertida e lançada em outra direção. Ignácio Ellacuria e seus companheiros estão vivos em Deus e iluminam essa história tão cheia de obscuridades mas que pode ser história de salvação. Oxalá continuem vivos também e não menos em nossas memórias e em nossas vidas.