Reflexões

Reflexões que você não encontra nos meios de comunicação

Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais

“Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo” é o tema do 50º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado no Domingo da Ascensão de Jesus, 08/05 este ano. Segue a íntegra da mensagem do Papa Francisco para a ocasião:

Queridos irmãos e irmãs!

O Ano Santo da Misericórdia convida-nos a refletir sobre a relação entre a comunicação e a misericórdia. Com efeito a Igreja unida a Cristo, encarnação viva de Deus Misericordioso, é chamada a viver a misericórdia como traço característico de todo o seu ser e agir. Aquilo que dizemos e o modo como o dizemos, cada palavra e cada gesto deveria poder expressar a compaixão, a ternura e o perdão de Deus para todos. O amor, por sua natureza, é comunicação: leva a abrir-se, não se isolando. E, se o nosso coração e os nossos gestos forem animados pela caridade, pelo amor divino, a nossa comunicação será portadora da força de Deus.

Como filhos de Deus, somos chamados a comunicar com todos, sem exclusão. Particularmente próprio da linguagem e das ações da Igreja é transmitir misericórdia, para tocar o coração das pessoas e sustentá-las no caminho rumo à plenitude daquela vida que Jesus Cristo, enviado pelo Pai, veio trazer a todos. Trata-se de acolher em nós mesmos e irradiar ao nosso redor o calor materno da Igreja, para que Jesus seja conhecido e amado; aquele calor que dá substância às palavras da fé e acende, na pregação e no testemunho, a «centelha» que os vivifica.

A comunicação tem o poder de criar pontes, favorecer o encontro e a inclusão, enriquecendo assim a sociedade. Como é bom ver pessoas esforçando-se por escolher cuidadosamente palavras e gestos para superar as incompreensões, curar a memória ferida e construir paz e harmonia. As palavras podem construir pontes entre as pessoas, as famílias, os grupos sociais, os povos. E isto acontece tanto no ambiente físico como no digital. Assim, palavras e ações hão de ser tais que nos ajudem a sair dos círculos viciosos de condenações e vinganças que mantêm prisioneiros os indivíduos e as nações, expressando-se através de mensagens de ódio. Ao contrário, a palavra do cristão visa fazer crescer a comunhão e, mesmo quando deve com firmeza condenar o mal, procura não romper jamais o relacionamento e a comunicação.

Por isso, queria convidar todas as pessoas de boa vontade a redescobrirem o poder que a misericórdia tem de curar as relações dilaceradas e restaurar a paz e a harmonia entre as famílias e nas comunidades. Todos nós sabemos como velhas feridas e prolongados ressentimentos podem aprisionar as pessoas, impedindo-as de comunicar e reconciliar-se. E isto aplica-se também às relações entre os povos. Em todos estes casos, a misericórdia é capaz de implementar um novo modo de falar e dialogar, como se exprimiu muito eloquentemente Shakespeare: «A misericórdia não é uma obrigação. Desce do céu como o refrigério da chuva sobre a terra. É uma dupla bênção: abençoa quem a dá e quem a recebe» (O mercador de Veneza, Ato IV, Cena I).

É desejável que também a linguagem da política e da diplomacia se deixe inspirar pela misericórdia, que nunca dá nada por perdido. Faço apelo sobretudo àqueles que têm responsabilidades institucionais, políticas e de formação da opinião pública, para que estejam sempre vigilantes sobre o modo como se exprimem a respeito de quem pensa ou age de forma diferente e ainda de quem possa ter errado. É fácil ceder à tentação de explorar tais situações e, assim, alimentar as chamas da desconfiança, do medo, do ódio. Pelo contrário, é preciso coragem para orientar as pessoas em direcção a processos de reconciliação, mas é precisamente tal audácia positiva e criativa que oferece verdadeiras soluções para conflitos antigos e a oportunidade de realizar uma paz duradoura. «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (…) Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 7.9).

Como gostaria que o nosso modo de comunicar e também o nosso serviço de pastores na Igreja nunca expressassem o orgulho soberbo do triunfo sobre um inimigo, nem humilhassem aqueles que a mentalidade do mundo considera perdedores e descartáveis! A misericórdia pode ajudar a mitigar as adversidades da vida e dar calor a quantos têm conhecido apenas a frieza do julgamento. Seja o estilo da nossa comunicação capaz de superar a lógica que separa nitidamente os pecadores dos justos. Podemos e devemos julgar situações de pecado – violência, corrupção, exploração, etc. –, mas não podemos julgar as pessoas, porque só Deus pode ler profundamente no coração delas. É nosso dever admoestar quem erra, denunciando a maldade e a injustiça de certos comportamentos, a fim de libertar as vítimas e levantar quem caiu. O Evangelho de João lembra-nos que «a verdade [nos] tornará livres» (Jo 8, 32). Em última análise, esta verdade é o próprio Cristo, cuja misericórdia repassada de mansidão constitui a medida do nosso modo de anunciar a verdade e condenar a injustiça. É nosso dever principal afirmar a verdade com amor (cf. Ef 4, 15). Só palavras pronunciadas com amor e acompanhadas por mansidão e misericórdia tocam os nossos corações de pecadores. Palavras e gestos duros ou moralistas correm o risco de alienar ainda mais aqueles que queríamos levar à conversão e à liberdade, reforçando o seu sentido de negação e defesa.

Alguns pensam que uma visão da sociedade enraizada na misericórdia seja injustificadamente idealista ou excessivamente indulgente. Mas tentemos voltar com o pensamento às nossas primeiras experiências de relação no seio da família. Os pais amavam-nos e apreciavam-nos mais pelo que somos do que pelas nossas capacidades e os nossos sucessos. Naturalmente os pais querem o melhor para os seus filhos, mas o seu amor nunca esteve condicionado à obtenção dos objetivos. A casa paterna é o lugar onde sempre és bem-vindo (cf. Lc 15, 11-32). Gostaria de encorajar a todos a pensar a sociedade humana não como um espaço onde estranhos competem e procuram prevalecer, mas antes como uma casa ou uma família onde a porta está sempre aberta e se procura aceitar uns aos outros.

Para isso é fundamental escutar. Comunicar significa partilhar, e a partilha exige a escuta, o acolhimento. Escutar é muito mais do que ouvir. Ouvir diz respeito ao âmbito da informação; escutar, ao invés, refere-se ao âmbito da comunicação e requer a proximidade. A escuta permite-nos assumir a atitude justa, saindo da tranquila condição de espectadores, usuários, consumidores. Escutar significa também ser capaz de compartilhar questões e dúvidas, caminhar lado a lado, libertar-se de qualquer presunção de omnipotência e colocar, humildemente, as próprias capacidades e dons ao serviço do bem comum.

Escutar nunca é fácil. Às vezes é mais cómodo fingir-se de surdo. Escutar significa prestar atenção, ter desejo de compreender, dar valor, respeitar, guardar a palavra alheia. Na escuta, consuma-se uma espécie de martírio, um sacrifício de nós mesmos em que se renova o gesto sacro realizado por Moisés diante da sarça-ardente: descalçar as sandálias na «terra santa» do encontro com o outro que me fala (cf. Ex 3, 5). Saber escutar é uma graça imensa, é um dom que é preciso implorar e depois exercitar-se a praticá-lo.

Também e-mails, sms, redes sociais, chat podem ser formas de comunicação plenamente humanas. Não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao seu dispor. As redes sociais são capazes de favorecer as relações e promover o bem da sociedade, mas podem também levar a uma maior polarização e divisão entre as pessoas e os grupos. O ambiente digital é uma praça, um lugar de encontro, onde é possível acariciar ou ferir, realizar uma discussão proveitosa ou um linchamento moral. Rezo para que o Ano Jubilar, vivido na misericórdia, «nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação» (Misericordiae Vultus, 23). Em rede, também se constrói uma verdadeira cidadania. O acesso às redes digitais implica uma responsabilidade pelo outro, que não vemos mas é real, tem a sua dignidade que deve ser respeitada. A rede pode ser bem utilizada para fazer crescer uma sociedade sadia e aberta à partilha.

A comunicação, os seus lugares e os seus instrumentos permitiram um alargamento de horizontes para muitas pessoas. Isto é um dom de Deus, e também uma grande responsabilidade. Gosto de definir este poder da comunicação como «proximidade». O encontro entre a comunicação e a misericórdia é fecundo na medida em que gerar uma proximidade que cuida, conforta, cura, acompanha e faz festa. Num mundo dividido, fragmentado, polarizado, comunicar com misericórdia significa contribuir para a boa, livre e solidária proximidade entre os filhos de Deus e irmãos em humanidade.

Vaticano, 24 de Janeiro de 2016.

Francisco

Síntese da Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” (AL)

Premissa

A Exortação apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. Está dividida em nove capítulos e mais de 300 parágrafos. Tem início com sete parágrafos introdutórios que evidenciam a plena consciência da complexidade do tema, que requer ser aprofundado. Afirma-se que as intervenções dos Padres no Sínodo constituíram um “precioso poliedro” (AL 4) que deve ser preservado. Neste sentido, o Papa escreve que “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”. Por conseguinte, para algumas questões “em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De fato,“as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”” (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante até no modo de articular e compreender os problemas, modo esse que, sem entrar nas questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, não pode ser “globalizado”.

Mas sobretudo o Papa afirma de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: “Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas” (AL 2).

Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”

Enunciadas estas premissas, o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras no primeiro capítulo, que se desenvolve como uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia “aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares” (AL 8) e a partir deste dado pode meditar-se como a família não é um ideal abstrato, mas uma “tarefa “artesanal”” (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (cf. AL 19). Então, a Palavra de Deus “não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho” (AL 22).

Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”

Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo “os pés assentes na terra” (AL 6), bebendo com abundância das Relações conclusivas dos dois Sínodo se enfrentando numerosos desafios, desde o fenômeno migratório à negação ideológica da diferença de sexo (“ideologia de gênero”); da cultura do provisório à mentalidade anti-natalidade e ao impacto das biotecnologias no campo da procriação; da falta de habitação e de trabalho à pornografia e ao abuso de menores; da atenção às pessoas com deficiência ao respeito pelos idosos; da desconstrução jurídica da família à violência para com as mulheres. O Papa insiste no carácter concreto, que é um elemento fundamental da Exortação. E é este carácter concreto e realista que estabelece uma diferença substancial entre “teorias” de interpretação da realidade e “ideologias”.

Citando a Familiaris consortio, Francisco afirma que “é salutar prestar atenção à realidade concreta, porque “os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história” através dos quais “a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado inexaurível mistério do matrimônio e da família”” (AL 31). Sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito. O Papa nota que o individualismo exacerbado torna hoje difícil a doação a uma outra pessoa de uma maneira generosa (cf. AL 33). Eis um interessante retrato da situação: “Teme-se a solidão, deseja-se um espaço de proteção e fidelidade mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais” (AL 34).

A humildade do realismo ajuda a não apresentar “um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são” (AL 36). O idealismo não permite considerar o matrimônio assim como é, ou seja, “um caminho dinâmico de crescimento e realização”. Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as famílias “com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça” (AL 37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos fiéis: “Somos chamados aformar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL37). Jesus propunha um ideal exigente, mas “não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL 38).

Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”

O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família. É importante a presença deste capítulo, porque ilustra de uma maneira sintética em 30 parágrafos a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, da Humanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II.

O olhar é amplo e inclui também as “situações imperfeitas”. Com efeito, lemos: ““O discernimento da presença das semina Verbi nas outras culturas (cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimônio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas”, embora não faltem também as sombras” (AL 77). A reflexão inclui ainda as “famílias feridas”, a propósito das quais o Papa afirma – citando a Relatio finalis do Sínodo de 2015 —”é preciso lembrar sempre um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem a capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza adoutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações,e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 79).

Capítulo quarto: “O amor no matrimônio”

O quarto capítulo trata do amor no matrimônio e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo de 1 Cor 13, 4-7. O capítulo é uma verdadeira e autêntica exegese cuidadosa, precisa, inspirada e poética do texto paulino. Poderemos dizer que se trata de uma coleção de fragmentos de um discurso amoroso que cuida de descrever o amor humano em termos absolutamente concretos. Surpreende-nos a capacidade de introspeção psicológica evidenciada por esta exegese. O aprofundamento psicológico chega ao mundo das emoções dos cônjuges – positivas e negativas – e à dimensão erótica do amor.Este é um contributo extremamente rico e precioso para a vida cristã dos cônjuges, que não tinha até agora paralelo em anteriores documentos papais.

À sua maneira, este capítulo constitui um pequeno tratado no conjunto de um desenvolvimento mais amplo, plenamente consciente do carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: “não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica “um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus”” (AL 122). Mas, por outro lado, o Papa insiste de modo enérgico e firme no fato de que “na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo” (AL 123) precisamente no íntimo daquela “combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres” (Al 126) que é de fato o matrimônio.

O capítulo conclui-se com uma reflexão muito importante acerca da “transformação do amor” uma vez que “o alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha” (AL 163). A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e “cumplicidade”. “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL 163).

Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”

O quinto capítulo centra-se por completo na fecundidade e no carácter gerador do amor. Fala-se de uma maneira espiritualmente e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A Amoris laetitia não toma em consideração a família “mononuclear”, mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.

Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”

No sexto capítulo, o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Nesta parte, a Exortação recorre às Relações conclusivas dos dois Sínodos e às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta-se a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto de evangelização. O Papa observa que “os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro “pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (AL 202).

Em seguida, o Papa desenvolve o tema da orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimônio, do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que “cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232). São analisadas algumas causas de crise, entre elas uma maturação afetiva retardada (cf. AL 239).

Além disso, fala-se também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas e sublinha-se a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e conclui-se: “O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo” (AL 246). Referem-se de seguida as situações dos matrimônios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas das formas de agressão e violência. A parte final do capítulo, “quando a morte crava o seu aguilhão”, é de grande valor pastoral, tocando o tema da perda das pessoas queridas e da viuvez.

Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”

O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É interessante a sabedoria prática que transparece em cada parágrafo e sobretudo a atenção à gradualidade e aos pequenos passos que “possam ser compreendidos, aceites e apreciados” (AL 271).

Há um parágrafo particularmente significativo e de um valor pedagógico fundamental em que Francisco afirma com clareza que “a obsessão (…) não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (…). Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261).

A secção dedicada à educação sexual é notável, e intitula-se muito expressivamente: “Sim à educação sexual”. Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber “se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade”. A educação sexual deve ser realizada”no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua” (AL 280). É feita uma advertência em relação à expressão “sexo seguro”, pois transmite”uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento” (AL 283).

Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”

O capítulo oitavo representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: “acompanhar, discernir e integrar”, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a “lógica da misericórdia pastoral”.

O oitavo capítulo é muito delicado. Na sua leitura deve recordar-se que “muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha” (AL 291). O Pontífice assume aqui aquilo que foi fruto da reflexão do Sínodo acerca de temáticas controversas. Reforça-se o que é o matrimônio cristão e acrescenta-se que “algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica”. Por conseguinte, “a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio” (AL 292).

No que respeita ao “discernimento” acerca das situações “irregulares”, o Papa observa: “temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 296). E continua: “Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita””(AL 297). E ainda: “Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral” (AL 298).

Nesta linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais , o Papa afirma que “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo”. “A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…).Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos” (AL 299).

Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: “Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300). O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja “sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre “as normas e o discernimento”, afirmando: “É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma” (AL 304).

Na última secção do capítulo, “A lógica da misericórdia pastoral”, o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma com vigor: “A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônio se assim evitar as ruturas” (AL 307). Mas o sentido abrangente do capítulo e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras finais: “Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja” (AL 312). Acerca da “lógica da misericórdia pastoral”, o Papa Francisco afirma com força: “Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho” (AL 311).

Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”

O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, “feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL 315). Diz-se com clareza que “aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística” (AL 316). Tudo, “os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL 317). Fala-se de seguida da oração à luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre diante do desafio e do desejo de envelhecer e gastar-se juntos, refletindo a fidelidade de Deus (cf. AL 319). E, por fim, a espiritualidade “da solicitude, da consolação e do estímulo”. “Toda a vida da família é um “pastoreio” misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro” (AL 322), escreve o Papa. “É uma experiência espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e reconhecer Cristo nele” (AL 323).

No parágrafo conclusivo,o Papa afirma: “Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

A Exortação apostólica conclui-se com uma Oração à Sagrada Família (AL 325).

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Exortação na íntegra

Guia de estudo – “A alegria do amor”

Democracia posta à prova

Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo Emérito de Jales

Estamos na iminência de uma ruptura constitucional. Em momentos assim, se faz necessário um apelo à consciência democrática, e uma advertência dos riscos de uma decisão política profundamente equivocada.

Falando claro e sem rodeios: com a tentativa de impeachment da Presidente Dilma, procura-se revestir de legalidade uma iniciativa política com a evidente intenção de destituir do poder quem foi legitimamente a ele conduzido pelo voto popular.

Isto fere o âmago do sistema democrático, que tem como pressuposto básico o respeito aos resultados eleitorais.

É preciso desmascarar a trama que foi sendo urdida, para criar artificialmente um pretenso consenso popular, para servir de respaldo aos objetivos que se pretende alcançar.

É notável que desde as últimas eleições presidenciais, os derrotados não aceitaram o resultado das urnas, e traduziram seu descontentamento em persistentes iniciativas de deslegitimar o poder conferido pelas eleições.

Outra evidência é a contínua e sistemática obstrução das iniciativas governamentais, praticada especialmente por membros do Congresso Nacional, com o evidente intuito de inviabilizar o governo, e aplainar o caminho para o golpe de misericórdia contra ele.

Está em andamento um verdadeiro linchamento político, conduzido sutilmente por poderosos meios de comunicação, contra determinados atores e organizações partidárias, que são continuamente alvo de acusações persistentes e generalizadas, e que se pretende banir de vez do cenário político nacional.

Causa preocupação a atuação de membros do Poder Judiciário, incluindo componentes da Suprema Corte, que deixam dúvidas sobre as reais motivações de suas decisões jurídicas, levando-nos a perguntar se são pautadas pelo zelo em preservar a Constituição e fazer a justiça, ou se servem de instrumento para a sua promoção pessoal ou para a vazão de seus preconceitos.

Em meio a esta situação limite, cabe ao povo ficar atento, para não ser ludibriado.

Mas cabe ao Judiciário a completa isenção de ânimo para garantir o estrito cumprimento da Constituição.

E cabe ao Congresso Nacional terminar com sua sistemática obstrução das iniciativas governamentais, e colaborar com seu apoio e suas sugestões em vista do bem comum, e não de interesses pessoais ou partidários.

Em vez deste impeachment sem fundamento legal e sem justificativa, que nos unamos todos em torno das providências urgentes para que o Brasil supere este momento de crise, e reencontre o caminho da verdadeira justiça e da paz social.

Nota da CNBB sobre o momento atual do Brasil

Nota da CNBB sobre o momento atual do Brasil

No final da missa de domingo, 13/03/2016, o Pe. Julio Lancellotti leu a mensagem da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – sobre o momento político e a crise do país:

Segue a íntegra da nota:

“O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz” (Tg 3,18)

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, reunidos em Brasília-DF, nos dias 8 a 10 de março de 2016, manifestamos preocupações diante do grave momento pelo qual passa o país e, por isso, queremos dizer uma palavra de discernimento. Como afirma o Papa Francisco, “ninguém pode exigir de nós que releguemos a religião a uma intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos” (EG, 183).

Vivemos uma profunda crise política, econômica e institucional que tem como pano de fundo a ausência de referenciais éticos e morais, pilares para a vida e organização de toda a sociedade. A busca de respostas pede discernimento, com serenidade e responsabilidade. Importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça.

A superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer corrupção, pelo incremento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade. É inadmissível alimentar a crise econômica com a atual crise política. O Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético de favorecer e fortificar a governabilidade.

As suspeitas de corrupção devem ser rigorosamente apuradas e julgadas pelas instâncias competentes. Isso garante a transparência e retoma o clima de credibilidade nacional. Reconhecemos a importância das investigações e seus desdobramentos. Também as instituições formadoras de opinião da sociedade têm papel importante na retomada do desenvolvimento, da justiça e da paz social.

O momento atual não é de acirrar ânimos. A situação exige o exercício do diálogo à exaustão. As manifestações populares são um direito democrático que deve ser assegurado a todos pelo Estado. Devem ser pacíficas, com o respeito às pessoas e instituições. É fundamental garantir o Estado democrático de direito.

Conclamamos a todos que zelem pela paz em suas atividades e em seus pronunciamentos. Cada pessoa é convocada a buscar soluções para as dificuldades que enfrentamos. Somos chamados ao diálogo para construir um país justo e fraterno.

Inspirem-nos, nesta hora, as palavras do Apóstolo Paulo: “trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, tende o mesmo sentir e pensar, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13,11).

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, continue intercedendo pela nossa nação!

Brasília, 10 de março de 2016.

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo S. R. Krieger
Arcebispo de S. Salvador da Bahia-BA
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília-DF
Secretário-Geral da CNBB

Mensagem do Papa Francisco para a Campanha da Fraternidade 2016

Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Em sua grande misericórdia, Deus não se cansa de nos oferecer sua bênção e sua graça e de nos chamar à conversão e ao crescimento na fé. No Brasil, desde 1963, se realiza durante a Quaresma a Campanha da Fraternidade. Ela propõe cada ano uma motivação comunitária para a conversão e a mudança de vida. Em 2016, a Campanha da Fraternidade trata do saneamento básico. Ela tem como tema: “Casa comum, nossa responsabilidade”. Seu lema bíblico é tomado do Profeta Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e a justiça qual riacho que não seca”. (Am 5, 24).

É a quarta vez que a Campanha da Fraternidade se realiza com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). Mas, desta vez, ela cruza fronteiras: é feita em conjunto com a Misereor, iniciativa dos católicos alemães que realiza a Campanha da Quaresma desde 1958. O objetivo principal deste ano é o de contribuir para que seja assegurado o direito essencial de todos ao saneamento básico. Para tanto, apela a todas as pessoas convidando-as a se empenharem com políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.

Todos nós temos responsabilidade por nossa Casa Comum, ela envolve os governantes e toda a sociedade. Por meio desta Campanha da Fraternidade, as pessoas e comunidades são convidadas a se mobilizar, a partir dos locais em que vivem. São chamadas a tomar iniciativas em que se unam as Igrejas e as diversas expressões religiosas e todas as pessoas de boa vontade na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico. O acesso à água potável e ao esgotamento sanitário é condição necessária para a superação da injustiça social e para a erradicação da pobreza e da fome, para a superação dos altos índices de mortalidade infantil e de doenças evitáveis, e para a sustentabilidade ambiental.

Na encíclica Laudato Si´, recordei que “o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos” (n.30) e que a grave dívida social para com os pobres é parcialmente saldada quando se desenvolvem programas para prover da água limpa e saneamento as populações mais pobres (cf. ibid.) E, numa perspectiva de ecologia integral, procurarei evidenciar o nexo que há entre a degradação ambiental e a degradação humana e social, alertando que “a deterioração do meio ambiente e da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta” (n. 48).

Aprofundemos a cultura ecológica. Ela não pode se limitar a respostas parciais, como se os problemas estivessem isolados. Ela “deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático” (Laudato Si´, n. 111). Queridos irmãos e irmãs, insisto que o rico patrimônio da espiritualidade cristã pode dar uma magnífica contribuição para o esforço de renovar a humanidade. Eu os convido, principalmente durante esta Quaresma, motivados pela Campanha da Fraternidade Ecumênica, a redescobrir como nossa espiritualidade se aprofunda quando superamos “a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor” e descobrimos que Jesus quer “que toquemos a carne sofredora dos outros” (Evangelii Gaudium, n. 270), dedicando-nos ao “cuidado generoso e cheio de ternura” (Laudato Si´, n. 220) de nossos irmãos e irmãs e de toda a criação.

Eu me uno a todos os cristãos do Brasil e os que, na Alemanha, se envolvem nessa Campanha da Fraternidade Ecumênica, pedida a Deus: “ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa, a contemplar com encanto, a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas no nosso caminho para a vossa luz infinita. Obrigado porque estais conosco todos os dias. Sustentai-nos, por favor, na nossa luta pela justiça, o amor e paz (Laudato Si´, n. 246). Aproveito a ocasião para enviar a todos minhas cordiais saudações com votos de todo bem em Jesus Cristo, único Salvador da humanidade e pedido, que, por favor, não deixem de rezar por mim.

Papa Francisco

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2016

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2016

“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13).
As obras de misericórdia no caminho jubilar

1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada

Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que “a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus” (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa “24 horas para o Senhor”, quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.

Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.

Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: “Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.

Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a misericórdia divina. Nele sobressai “a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado” (Evangelii gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que “sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese” (Ibid., 164). Então a Misericórdia “exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar” (Misericordiӕ Vultus, 21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d’Ele. E faz isto na esperança de assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.

3. As obras de misericórdia

A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia. É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em actos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo. Por isso, expressei o desejo de que “o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina” (Ibid., 15). Realmente, no pobre, a carne de Cristo “torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga… a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós” (Ibid., 15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3, 5); e mais ainda, quando o pobre é o irmão ou a irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.

Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de omnipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco “sereis como Deus” (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem actualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais directamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os “soberbos”, os “poderosos” e os “ricos”, de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: “Têm Moisés e o Profetas; que os oiçam!” (Lc 16, 29). Esta escuta activa preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda.

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

Vaticano, 4 de Outubro de 2015
Festa de S. Francisco de Assis

Francisco

Menino Jesus versus Papai Noel

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

– Olá, Menino Jesus, tenho a impressão que preferes o silêncio ao clima dos festejos. E no entanto, és tu a razão de todo esse vaivém! Afinal de contas, o que está acontecendo? As pessoas olham para ti com um ar de mistério, mas, ao mesmo tempo, não parecem muito interessadas em falar contigo.

– Por enquanto, Sr. Papai Noel, não podes entender. Mais tarde talvez te seja permitido penetrar o que chamas de mistério. Então verás que meu reino, embora comece neste mundo, não é deste mundo!

– Que queres dizer com isso? É neste mundo que nos movemos: não vês o fascínio das luzes, das cores, da música, do brilho nos olhos das pessoas frente aos atrativos que a loja oferece! Certo que és apenas um recém-nascido, mas tens de abrir os olhos aos apelos que nos cercam de todos os lados.

– Apesar de recém-nascido, bem sei o que pensas. Vês tudo com os olhos do mercado e das férreas leis de lucro e acúmulo de capital. O marketing, a propaganda e a publicidade te deixaram míope ou cego. Ofuscaram o sentido oculto por trás de tanto rumor e tanta correria.

– Mas que sentido oculto? A vida está aí para ser vivida. Olha a montanha de panetones, os vinhos, os produtos importados, os jogos eletrônicos… E tantas outras coisas próprias das festas de final de ano. Olha o riso largo, o peito aberto e a despreocupação no olhar e no rosto das crianças e jovens, dos adultos e idosos? As famílias se reencontram.

– Reencontro? Toda essa euforia, em grande parte, não passa de aparência enganosa. Para além do movimento e da luz, esconde-se um mistério. Desculpe se insisto nesta palavra, mas no interior mesmo dessa atividade vertiginosa existe, sim, um mistério ao mesmo tempo real e invisível.

– Mistério, mistéro, mistério!… Enquanto te revestes com essa roupagem secreta e misteriosa, as crianças me procuram, me sorriem, me abraçam, registram tudo com fotos… E o é mais importante, compram nossas mercadorias e brinquedos… E os pais se mostram felizes com a felicidade dos filhos. Não te dás conta disso! Tu, ao contrário, te escondes aí, como que de escanteio, meio envergonhado. Dir-se-ia que eu tomei teu lugar no presépio, como referência máxima das festividades natalícias!

– Para ser sincero, pergunto-me seriamente o que atrai as pessoas à sedução do brilho que tu representas. Olhando com maior atenção, vejo que muitos buscam dissimular algo, varrer o lixo para debaixo do tapete. A festa é ambígua: pode ser genuína, sem dúvida, mas pode também camuflar ou compensar uma crise, um desencanto profundo, uma falta de sentido consciente ou inconsciente. Não me é difícil surpreender olhares oblíquos, sorrisos forçados, palavras envenenadas.

– Acabas de nascer e já vens com a mania de filosofar. Deixa as pessoas se divertirem enquanto é tempo. Depois vem janeiro, dívidas, contas a pagar… Menos mal que o carnaval está às portas!

– Justamento isso me preocupa. A alegria que circula e se respira neste ambiente festivo parece ter um carárer superficial e passageiro, transitório e efêmero. Por trás de olhares e rostos aparentemente luminosos, é possível identificar pontos obscuros e obtusos, até mesmo desesperados. Há perguntas sobre a existência que brotam de corações feridos, de almas angustiadas. Perguntas sem remédio e sem resposta. Há medos e fugas, becos sem saída. É sobre essa realidade que me concentro.

– Perguntas, perguntas, perguntas! Deixa as perguntas para outro momento!

– Mas são elas – as dúvidas e perguntas, bem como os sonhos, buscas e esperanças – que movem o curso da história. Toda essa corrente frenética não faz mais que deslocar as interrogações de um lado para outro, protelando-as. Minha missão e meu foco é mostrar “o caminho, a verdade e a vida”.

Roma, 7 de dezembro de 2015

Sínodo: A letra e o espírito

“os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o ser humano; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e seu perdão… O primeiro dever da Igreja não é distribuir condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, de chamar à conversão e de conduzir todos os homens à salvação do Senhor”.

Papa Francisco

Para quem esperava mudanças retumbantes e todas as permissões havidas e por haver, talvez o final do Sínodo e seu documento de conclusões represente uma decepção. No entanto, para quem conhece um pouco da Igreja, há muitas razões para alegria e, sobretudo, esperança. Portas foram abertas, suavemente, discretamente. E o Papa testemunhou que pretendia entrar por elas.
Havia duas grandes expectativas neste Sínodo: uma em relação a um avanço concreto sobre a visão das relações homoafetivas. As bombásticas declarações do monsenhor polonês Charamsa, na véspera do Sínodo, não ajudaram. Pelo contrário, a meu ver atrapalharam bastante. Sem querer emitir nenhum julgamento sobre sua pessoa, esse gênero de confrontações diretas não funciona em termos eclesiais. Endurecem-se ainda mais as posições e agudizam-se as polarizações. E foi o que parece haver acontecido.
Em todo caso, no documento conclusivo é reafirmado claramente o princípio da misericórdia que afirma que “toda pessoa, independentemente da própria tendência sexual, seja respeitada em sua dignidade e acolhida com respeito, a fim de evitar “qualquer marca de injusta discriminação” (n. 76). Apesar de negar enfaticamente qualquer abertura ao matrimônio homossexual reconhecido pela Igreja Católica, permanece a abertura para o acolhimento daqueles e daquelas que até bem pouco tempo eram severamente marginalizados na vida eclesial.
Já com a segunda grande expectativa – a admissão à plenitude da vida eclesial aos casais divorciados e recasados – creio que houve um maior avanço. A questão é posta sob o signo do discernimento. Há um convite aos pastores em todos os níveis – padres, bispos e outros – devem ser “mais integrados na comunidade cristã nos diversos modos possíveis”. A razão é simples e cristalina: “são batizados, são irmãos e irmãs, o Espírito Santo derrama sobre eles dons e carismas para o bem de todos” (n. 84)
A “Familiaris Consortio”, documento escrito por João Paulo II, já assinalava que havia matizes diferentes nos diversos casos. Enquanto alguns cônjuges abandonaram o companheiro/a sem motivo justo, outros sofreram amargamente por se verem abandonados pelo cônjuge. Outros ainda desfizeram a união após haverem encetado todas as tentativas possíveis para salvá-la. Em suas consciências estavam convencidos de que o primeiro casamento não havia sido válido sacramentalmente (n. 85).
O n. 86 é o decisivo. Afirma que cada caso deve ser acompanhado e discernido, para que se estabeleça se é o caso de obstaculizar ou liberar a participação mais plena na vida da Igreja e os passos que possam favorecê-la. O parágrafo anterior já fornecia a base para este, ao afirmar que “em determinadas circunstâncias as pessoas encontram grande dificuldade de agir de modo diferente. Por isso, ainda que mantendo uma norma geral, é necessário reconhecer que a responsabilidade com respeito a determinadas ações ou decisões não é a mesma em todo caso.” E novamente apela ao discernimento: “O discernimento pastoral, sempre tendo em conta a consciência retamente formada das pessoas, deve encarregar-se destas situações”.
O documento foi entregue ao Papa, que agora deverá pronunciar-se definitivamente sobre ele, seja com a forma de uma exortação pós-sinodal, seja validando-o tal como está. No entanto, na conclusão do Sínodo, o Papa apresentou um discurso que ilumina o acontecimento como um todo, dando a toda a Igreja e à sociedade uma chave de leitura para ler as conclusões deste grande acontecimento eclesial.
Ao descrever o que foi a experiência sinodal, acentuou positivamente, com a transparência e a contundência que lhe são próprias, o fato de a Igreja não haver tido medo de “sacudir as consciências anestesiadas e de sujar as próprias mãos”. Assim também o fato de o Sínodo ter posto a descoberto “corações fechados, que frequentemente se escondem no interior dos ensinamentos da Igreja ou por trás das boas intenções para sentar-se na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas“.
Indo mais longe e falando mais forte, o Pontífice não temeu entrar de cheio e na prática no ano da Misericórdia, lembrando que a Igreja “não é apenas de justos e santos, mas dos pobres e pecadores em busca de perdão”. E que por isso tentou e conseguiu abrir os horizontes “para superar toda hermenêutica conspiratória… para transmitir a beleza da novidade cristã, às vezes coberta pela ferrugem de uma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível“.
Finalmente, fiel à sua perspectiva sempre atenta ao contexto, relembra que as culturas são diferentes em tudo, inclusive na concepção da moral. Pois “o que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo, para o bispo de outro continente… Em geral as culturas são muito diferentes entre si e todo princípio geral necessita ser inculturado se quer ser observado e aplicado“.
Com chave de ouro fechou o Papa seu discurso, relembrando que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o ser humano; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e seu perdão“. Pois – relembrou ainda, inspiradamente, o Papa – “o primeiro dever da Igreja não é distribuir condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, de chamar à conversão e de conduzir todos os homens à salvação do Senhor”.
Fiados e confiados nesta misericórdia que a todo pecado recobre e resgata, caminhamos enquanto comunidade eclesial para o tempo pós-sinodal, crendo firmemente que já é e será mais ainda um tempo de misericórdia e inclusão, e não de exclusão e rigidez.

* A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão” (Edusc)

Fonte: Site Observatório da Evangelização (https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/)

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.

Cadáveres da migração

Pe. Alfredo j. Gonçalves, cs

  1. No dia 25 de agosto de 2015, as autoridades da Comunidade Europeia, responsáveis pela operação de salvamento no mar Mediterrâneo, encontram um barco superlotado, numa tentativa desesperada de chegar ao sul da Itália.

A embarcação carregava mais de 600 imigrantes a bordo e, entre eles, 51 cadáveres, pessoas mortas por sufocamento na chamada rota do Mediterrâneo.

  1. No dia seguinte, 26 de agosto, numa das rodovias que atravessam a Aústria, nas proximidades da fronteira com a Sérvia, a polícia desconfia de um caminhão parado à beira da estrada.

Ao ser abordado, verififou-se que o automóvel tinha sido abandonado com 71 cadáveres de imigrantes que tentavam cruzar a chamada a rota balcânica (Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia e Hungria). Também estes haviam morrido por sufocamento, não se sabe exatamente há quanto tempo.

  1. Três dias depois, 28 de agosto, próximo às costas da Líbia, um outro barco, igualmente superlotado, sofre um naufrágio. Vira, tomba e vai a pique.

Dos mais de 400 imigrantes  que estavam a bordo, apenas 200 foram resgatados pela patrulha de salvamento. Resutam cerca de 200 cadáveres, dezenas deles à deriva e outros afundados junto com a embarcação.

Em menos de uma semana, o número de cadáveres de imigrantes que se aventura por um futuro melhor na Europa ultrapasa a cifra dos 300. Sem dúvida, um espinho na consciência de todos os que lutam pelos direitos e pela dignidade da pessoa humana.

A igreja do não e a igreja do sim

Frei Betto

O teólogo Antônio Moser costuma repetir que há a Igreja do Não e outra do Sim. Fui catequizado na Igreja do Não. Pecado tinha nome: sexo. Era pecado se masturbar, apreciar o corpo de uma mulher, ter “maus pensamentos”.

“Deus me vê”, estampava a tabuleta de madeira pregada em cada cômodo do colégio marista, inclusive nos banheiros. Um deus juiz, fiscal, inspetor, de cujos olhos panópticos nada escapava.

Sentadão lá no Céu, alisando com a mão esquerda a longa barba branca; com a direita, Deus anotava cada um de meus pecados no Grande Livro da Contabilidade dos Mortais, cujos inadimplentes eram punidos com as chamas eternas do Inferno.

A Igreja do Não ostentava os Dez Mandamentos, assim como o rótulo do veneno descreve os riscos letais do conteúdo. Além dos mandamentos divinos, havia os da Igreja. Faltar à missa aos domingos era pecado.

Aos pecados mortais, as profundas do Inferno. Aos veniais, séculos afins no Purgatório, onde os mais ardentes verões se alternavam com frigidíssimos invernos. Havia que purgar os pecados cometidos deste lado da vida para, um dia, merecer o direito de ser alçado ao Céu.

Nessa vida sísifa de constantes tropeções na tortuosa via das virtudes, minha pobre alma poderia ser salva graças à confissão auricular, verdadeira terapia sacramental. Ajoelhado aos pés do confessor, eu contava tudo, ainda que escrúpulos fossem confundidos com pecados.

Em nome de Deus, o confessor indagava: “Quantas vezes?” A culpa do penitente em diálogo com a luxúria auricular do confessor. Recebia-se a absolvição, rezava-se meia dúzia de orações em penitência e saía-se em paz.

Mas em débito. Para zerar, só as nove primeiras sextas-feiras do mês ou se fazer presente em Roma no Ano Santo, quando o papa concedia indulgência plenária. Daqui da Terra, o papa tinha o poder de passar uma borracha no livrão da contabilidade divina.

Felizmente a Ação Católica, a Teologia da Libertação, o Concílio Vaticano II e os papas João XXIII e, agora, Francisco, me abriram as portas da Igreja do Sim.

A Igreja da tolerância e da misericórdia de Jesus. Das surpresas inovadoras do Espírito Santo. Do Deus Pai e Mãe que, como o pai do filho pródigo, acolhe o filho pecador com ternura e festa.

Igreja que enfatiza como pecado, não a pulsão sexual da adolescência, mas a opressão social, a discriminação racial ou homofóbica, a apropriação avarenta das riquezas.

Igreja que prefere as Bem-Aventuranças, que apontam os caminhos da felicidade, aos Dez Mandamentos. Igreja samaritana, que deixa sua zona de conforto para se colocar solidária ao lado dos excluídos. Lava os pés dos pobres. Cuida dos enfermos. Ama os inimigos.

Igreja que ultrapassa os catálogos de leis e as doutrinas congeladas para professar e praticar o amor, a alegria, a compaixão. Igreja que ora, medita e se faz fermento na massa. E diz Sim a todos os valores e virtudes humanos, tragam eles ou não o carimbo da fé cristã.

Igreja que encarna Jesus ao dar pão a quem tem fome e liberdade a quem se encontra aprisionado.