Reflexões

Reflexões que você não encontra nos meios de comunicação

Os migrantes e a favela de Calais

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Em torno de 5 mil imigrantes e refugiados encontram-se acampados numa espécie de “favela” junto à cidade portuária de Calais, no extremo norte da França. Sua esperança é cruzar o Eurotúnel que liga esse país à Inglaterra, sob o canal da Mancha.

A duras penas, após a via crucis de deixar o próprio país escapando da pobreza ou violência, cruzar o Mediterrâneo e atravessar todo o território de Itália e França, tentam agora infiltrar-se no tráfico do Eurotúnel.

As autoridades francesas e britânicas, junto com a polícia de ambos os lados, os rechaçam de todos os modos. Erguem muros e cercas de arame farpado ao redor da entrada e saída do túnel. Mas os migrantes seguem pressionando: abrem buracos nos obstáculos para atingir o outro lado do canal.

Nas vizinhanças do canal, são frequentes os conflitos entre policiais e migrantes. Estes, a bem dizer, já criaram uma “nova” e precária  cidade nos arredores de Calais.

Essa pressão crece e sobe do norte da África e do Oriente Médio em direção ao velho continente europeu. Ali, bate-se com redobrada força contra a intolerância da União Europeia diante da imigração. E é justamente David Cameron, Prmeiro Ministro do Reino Unido quem vem mostrando particular intrasigência.

Uma e outra vez, sós ou em grupos, os migrantes tentam romper a barreira. Descobertos, voltam atrás e começam a preparar uma nova investida. Está em jogo a sobrevivência, os direitos e a dignidade humana e, num voo mais ousado, um futuro diferente do que lhes reserva a terra de origem.

Mas está em jogo não apenas o amanhã dos migrantes, mas também o futuro dos próprios países que lhes negam a entrada. Constituem sociedades envelhecidas, avizinhando-se ao outono, que necessitam de força jovem para trabalhar e contribuir com o desenvolvimento. Uma nova página da história está sendo escrita.

Jesus estava na barca

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

A tarde chega. Jesus e os discípulos decidem “atravessar para o outro lado do mar”. Mas quando a noite cai, “começa a soprar um vento muito forte”,  o mar se agita e “as ondas se lançam dentro da barca”. Improvisamente, três poderosos elementos da natureza – o vento, as trevas e as águas – fundem sua fúria devastadora numa tempestade que aterroriza os discípulos, deixando-os à deriva de uma turbulência imprevista. O caos ignoto, primitivo, os envolve de forma assustadora. O naufrágio se faz iminente, a vida parece suspensa por um fio. Jesus, porém, “estava na parte de trás da barca, dormindo com a cabeça num travesseiro” (Mc 4, 35-41).

“Mestre, não te importas que morramos?” – é o grito dos discípulos acordando-o. Não se trata de um grito único, isolado. Ao contrário, faz coro ao clamor de todo o ser humano. No vórtice voraz do desespero, onde predomina a dor, o mal, a violência e o sofrimento, essa é a linguagem que une a todos. Insegurança e terror são as coisas que melhor se condivivem. O grito é tanto mais forte quanto menos coerente a lógica dos acontecimentos. Tanto mais espantoso e incompreensível quanto maior a inocência dos envolvidos. Tanto mais estridente quanto mais silenciado ou silencioso. Tanto mais paralisante quanto mais se agitam os elementos enfurecidos.

A barca em meio à escuridão e à tempestade: metáfora que, só em pensar, provoca calafrios. De imediato, a imagem nos transporta ao ventre da embarcação. Túmulo com as portas escancaradas, ao invés de útero protetor. Querendo ou não, fazemo-nos solidários com seus pobres ocupantes. Afinal, a existência humana não deixa de ser uma travessia “por mares nunca dantes navegados”, como diz o poeta português Camões. Esperam-nos ondas bravias, ameaçadoras, mais ainda se acompanhadas pelas sombras da noite. Daí o medo e o apelo agônico: salva-nos!

Temor e súplica se levantam igualmente do fundo escuro de nosso sofrimento. O grito ou o silêncio, gestados ambos no núcleo duro da dor oculta e sem remédio, se convertem em oração. Erguem-se ao céu com redobrada energia e ardor. Especialmente quando não entendemos o por que de tanto suor, tantas lágrimas e tanto sangue na carne viva e ferida da história. Do ponto de vista pessoal ou coletivo, nem sempre as chagas cicatrizam. Pior ainda: tendem não raro a reabrir-se, expostas aos golpes imprevisíveis do destino. Sequer nos damos conta que Jesus também está na barca.

Jesus desperta e impõe sua autoridade sobre as forças tenebrosas e avassaladoras. Elas ameaçam fugir ao controle, transbordar do seu leito normal e destruir tudo que encontram pela frente, reconduzir à desordem primordial: “Cale-se! Acalme-se”! O Mestre acalma-os em seu furor, reorganiza-os e refaz a ordem, possibilitando o retorno ao curso livre e fecundo da vida. Impede que o caos possa prevalecer. Com a sua palavra realiza, assim, um ato criador, em meio às forças da violência e do mal que tudo parecem querer varrer e devastar. “Quem é este homem, a quem até o vento e mar obedecem?” – é a pergunta que surge espontânea!

Eis o poder criativo da oração contra as forças do mal. Quando imperam a injustiça, a exploração e a tirania, do ponto de vista socioeconômico e político, ou emergem os instintos, paixões e desejos egoístas e incontidos, do ponto de vista pessoal, é preciso despertar o Mestre. A oração como que toca as cordas mais sensíveis da misericórdia e da compaixão divinas. Se e quando soltas, as forças da natueza semeiam a desordem, nos reconduzem ao olho do furacão, onde tudo é noite, tormenta e tragédia. E onde não passamos de náufragos em braçadas vãs e desesperadas. Mas nenhum poder supera o amor daquele que é Pai/Mãe, e que envia seu Filho como um passageiro nesta embarcação grágil da história. Ao mesmo tempo, envolve-nos com a luz do Espírito Santo para que encontremos sempre o rumo da farol e do porto seguro.

Laudato Si’: ecologia da libertação

Fr. Marcos Sassatelli
Adital

“A nossa casa comum se pode comparar
ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência,
ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços” (1)

O Editorial da Folha de S. Paulo do dia 20 de junho afirma: “apesar de bem recebida por ambientalistas, a Encíclica (Laudato Si’ – Louvado sejas) do papa Francisco sobre a mudança climática defende solução utópica para a questão”. Para o Jornal, solução utópica é solução impossível, distante e que não trata da realidade. Em outras palavras, é solução ingênua. Esse é o pensamento daqueles que (como a Folha de S. Paulo) acham que o capitalismo – com as adaptações conjunturais necessárias – é o “fim da história”.
Ao contrário, aqueles que (como o papa Francisco) acreditam que o capitalismo – que é “um sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida – DA, 385) – pode ser superado, têm um sonho, uma utopia, um ideal, que – mesmo no meio de muitas ambiguidades e contradições – é um projeto possível de ser realizado na história. É o projeto do “bem-viver”, que – à luz da fé – é o Reino de Deus acontecendo na vida do ser humano e do mundo.

O Editorial diz ainda: “a ênfase moral da Encíclica lhe confere por vezes um tom anticapitalista”. Eu afirmo: não só por vezes, mas sempre. A Encíclica é anticapitalista e defende um modelo de sociedade estruturalmente novo.

A Folha de S. Paulo – querendo justificar a tese que a solução apresentada por Francisco é utópica (ou seja, impossível e ingênua) – coloca como título do Editorial: “Ecologia da libertação”. Com esse título, porém, o Jornal (mesmo que não tenha sido intencionalmente) acaba reconhecendo – dando-lhe um destaque especial – que a Encíclica é, pelo seu conteúdo, “ecologia da libertação”.

O método ver (analisar), julgar (interpretar) e agir (libertar), usado pela Encíclica, confirma isso. É o método da Filosofia e da Teologia da Libertação, e também de muitos documentos da Igreja latino-americana e caribenha. Ele é constituído de três momentos interligados e interdependentes. O ver suscita o julgar, o julgar suscita o agir e, por sua vez, o agir suscita novamente o ver e assim por diante num processo de continuo aprofundamento e crescimento vivencial.

Nos cristãos e cristãs, o método ver, julgar e agir suscita também a necessidade de, periodicamente (sobretudo aos domingos), celebrar a vida no mistério pascal de Cristo e, ao mesmo tempo, o mistério pascal de Cristo na vida.

No primeiro momento (o ver, o analisar), a Encíclica começa vendo e analisando “o que está acontecendo com nossa casa”: a poluição e as mudanças climáticas (resíduos e cultura do descarte, o clima como bem comum), a questão da água, a perda da biodiversidade, a deterioração da qualidade de vida humana e a degradação social, a desigualdade planetária, a fraqueza das reações, a diversidade de opiniões (cf. cap. I).

“As reflexões teológicas ou filosóficas sobre a situação da humanidade e do mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia, se não forem apresentadas novamente a partir de um confronto com o contexto atual no que este tem de inédito para a história da humanidade. Por isso, antes de reconhecer como a fé traz novas motivações e exigências face ao mundo de que fazemos parte, proponho que nos detenhamos brevemente a considerar o que está acontecendo com nossa casa comum” (17).

No segundo momento (o julgar, o interpretar), a Encíclica apresenta “o Evangelho da criação”: a luz que a Fé oferece (e que ilumina a razão humana em sua capacidade de julgar a realidade), a sabedoria das narrações bíblicas, o mistério do universo, a mensagem de cada criatura na harmonia de toda criação, a comunhão universal (cf. cap. II).

“Se tivermos presente a complexidade da crise ecológica e suas múltiplas causas, devemos reconhecer que as soluções não podem vir de uma única maneira de interpretar e transformar a realidade. É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se queremos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com sua linguagem própria”.

Diz ainda Francisco: “a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e razão”. E ainda: “no que diz respeito às questões sociais, pode-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios”.

Afirma, pois: “embora a Encíclica se abra a um diálogo com todos para, juntos, buscarmos caminhos de libertação, quero mostrar desde o início como as convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis” (63). È justamente por buscar, em diálogo com todos e à luz da fé, “caminhos de libertação” que a Encíclica é ecologia da libertação. Ora, sendo ecologia da libertação, ela é também filosofia e teologia da libertação, e – em especial – ética filosófica e teológica da libertação.

O segundo momento nos permite discernir e entender “a raiz humana da crise ecológica”: a tecnologia (criatividade e poder), a globalização do paradigma tecnocrático, a crise do antropocentrismo moderno e suas consequências, o relativismo prático, a necessidade de defender o trabalho, a inovação biológica a partir da pesquisa” (cf. cap. III).

O segundo momento nos permite também defender e construir “uma ecologia integral”: a ecologia ambiental, econômica e social, a ecologia cultural, a ecologia da vida cotidiana, o princípio do bem comum, a justiça intergeracional (cf. cap. IV).

No terceiro momento (o agir, o libertar), a Encíclica aponta “algumas linhas de orientação e ação”: o diálogo sobre o meio ambiente na política internacional, o diálogo para novas políticas nacionais e locais, o diálogo e a transparência nos processos decisórios, a política e a economia em diálogo para a plenitude humana, as religiões no diálogo com as ciências (cf. cap. V).

“Procurei examinar a atual situação da humanidade, tanto nas brechas do planeta que habitamos, como nas causas mais profundamente humanas da degradação ambiental. Embora esta contemplação da realidade em si mesma já nos indique a necessidade de uma mudança de rumo e sugira algumas ações, procurarei agora delinear grandes percursos de diálogo que nos ajudem a sair da espiral de autodestruição onde estamos afundando” (163).

Diz ainda o papa Francisco: “desde meados do século passado e superando muitas dificuldades, foi se consolidando a tendência de considerar o planeta como pátria e a humanidade como povo que habita uma casa comum”. O Mundo interdependente “obriga-nos a pensar num único mundo, num projeto comum” (164).

Sempre no terceiro momento, a Encíclica desperta também para a vivência da “educação e espiritualidade ecológicas”: um outro estilo de vida, a aliança entre a humanidade e o ambiente, a conversão ecológica, a alegria e a paz, o amor civil e político, os sinais sacramentais e o descanso celebrativo, a Trindade e a relação entre as criaturas, a Rainha de toda a criação, para além do Sol (cf. cap. VI).

Termino com parte da “Oração pela nossa terra” de Francisco: “ó Deus dos pobres, ajudai-nos a resgatar os abandonados e esquecidos desta terra (…). Curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos (…). Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa, a contemplar com encanto, a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas no nosso caminho para a vossa luz infinita. Obrigado porque estais conosco todos os dias. Sustentai-nos, por favor, na nossa luta pela justiça, pelo amor e pela paz”.

Papa Francisco: Igreja em saída de onde para onde?

Leonardo Boff

Celebrando ainda a extraordinária encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum”, voltamos a refletir uma perspectiva importante do Papa Francisco, um verdadeiro logotipo de sua compreensão de Igreja: “uma Igreja em saída”.

Essa formulação encerra uma velada crítica ao modelo anterior de Igreja que era uma Igreja “sem saída” devido aos diversos escândalos de ordem moral e financeira, o que forçou o Papa Bento XVI a renunciar, uma Igreja que perdeu seu melhor capital: a moralidade e a credibilidade dos cristãos e do mundo secular.

Mas o logotipo “Igreja em saída” possui um significado mais profundo, tornado possível porque veio de um Papa fora dos quadros institucionais da velha e cansada cristandade europeia. Esta havia encerrado a Igreja dentro de uma compreensão que a tornava praticamente inaceitável pelos modernos, refém de tradições fossilizadas e com uma mensagem que não mordia os problemas dos cristãos e do mundo atual. A “Igreja em saída” quer marcar uma ruptura com aquele estado de coisas. Essa palavra “ruptura” irrita os representantes do establishmenteclesiástico. Mas nem por isso deixa de ser verdadeira. E então se coloca a pergunta: “saída” de onde para onde? Vejamos alguns passos:

– Saída de uma Igreja-fortaleza que protegia os fiéis contra as liberdades modernas para uma Igreja-hospital de campanha que atende a toda pessoa que a procura, pouco importa seu estado moral ou ideológico.

– Saída de uma Igreja-instituição absolutista, centrada em si mesma para uma Igreja-movimento, aberta ao diálogo universal, com outras Igrejas, religiões e ideologias.

– Saída de uma Igreja-hierarquia, criadora de desigualdades para uma Igreja-povo de Deus, fazendo de todos irmãos e irmãs: uma imensa comunidade fraternal.

– Saída de uma Igreja-autoridade eclesiástica, distanciada dos fiéis ou até de costas a eles, para uma Igreja-pastor que anda no meio do povo, com cheiro de ovelha e misericordiosa.

– Saída de uma Igreja-Papa de todos os cristãos e bispos que governa com o rígido direito canônico para uma Igreja-bispo de Roma, que preside na caridade e só a partir daí se faz Papa da Igreja universal.

– Saída de uma Igreja-mestra de doutrinas e normas para uma Igreja de práticas surpreendentes e do encontro afetuoso com as pessoas para além de sua inscrição religiosa, moral ou ideológica. As periferias existenciais ganham centralidade.

– Saída de uma Igreja de poder sagrado, das pompa e circunstância, dos palácios pontifícios e titulaturas de nobreza renascentista para uma Igreja-pobre e para os pobres, despojada de símbolos de honra, servidora e porta-voz profética contra o sistema de acumulação de dinheiro, o ídolo que produz sofrimento e miséria e mata as pessoas.

– Saída da Igreja-que fala dos pobres para uma Igreja-que vai aos pobres, conversa com eles, abraça-os e os defende.

– Saída de uma Igreja-equidistante dos sistemas políticos e econômicos para uma Igreja-que toma partido em favor das vítimas e que chama pelo nome os produtores das injustiças e convida a Roma representantes dos movimentos sociais mundiais para discutir com eles como buscar alternativas.

– Saída de uma Igreja-automagnificadora e acrítica para uma Igreja-da verdade sobre si mesma contra cardeais, bispos e teólogos zelosos de seu status, mas com cara de “vinagre ou de sexta-feira santa”, “tristes como se fossem ao próprio enterro”, enfim, uma Igreja feita de pessoas humanas.

– Saída de uma Igreja-da ordem e do rigorismo para uma Igreja-da revolução da ternura, da misericórdia e do cuidado.

– Saída de uma Igreja-de devotos, como aqueles que aparecem nos programas televisivos, com padres artistas do mercado religioso, para uma Igreja-compromisso com a justiça social e com a libertação dos oprimidos.

– Saída de uma Igreja-obediência e da reverência para uma Igreja-alegria do evangelho e de esperança ainda para esse mundo.

– Saída de uma Igreja-sem o mundo que permitiu surgir um mundo sem Igreja para uma Igreja-mundo, sensível ao problema da ecologia e do futuro da Casa Comum, a mãe Terra.

Estas e outras saídas mostram que a Igreja não se reduz apenas a uma missão religiosa, acantonada numa parte privada da realidade. Ela possui, além disso, uma missão político-social no sentido maior desta palavra, como fonte de inspiração para as transformações necessárias que resgatem a humanidade para um tipo de civilização do amor e da compaixão, que seja menos individualista, materialista, cínica e destituída de solidariedade.

Esta Igreja-em-saída devolveu alegria e esperança aos cristãos e reconquistou o sentimento de ser um lar espiritual. Granjeou pela simplicidade, despojamento e acolhida no amor e na ternura, a estima de muitas pessoas de outras confissões ou de simples cidadãos do mundo e mesmo de chefes de Estado que admiram a figura e as práticas surpreendentes do Papa Francisco em favor da paz, do diálogo entre os povos e da renúncia a toda violência e a guerra.

Mais que doutrinas e dogmas é a Tradição de Jesus, feita de amor incondicional, de misericórdia e de compaixão que por ele se atualiza e revela sua inesgotável energia humanizadora. Pois, entre outras coisas, está é a mensagem central de Jesus, aceitável por todas as pessoas de todos os quadrantes.

Os padres não sabem dançar o tango do papa Francisco

Estadão – coluna Sonia Racy – dia 01/junho/2015

Estudioso do mundo católico, Fernando Altemeyer analisa a ousadia diplomática do Sumo Pontífice e define o desafio da Igreja: mais do que funcionários, ela precisa é de missionários

Um sopro renovador no Vaticano. É assim que muitos estudiosos e milhões de fiéis, em todo o mundo, veem o papa Francisco em seus dois anos de Vaticano, completados em abril. Seja pela ousadia como diplomata, decisivo na reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, ou pela coragem ao receber, abraçar e chamar de “anjo” o chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e canonizar duas freiras palestinas. Seja, ainda, pelo rigor com que manda investigar abusos de padres e bispos, trazer à luz casos de pedofilia e homossexualismo nas dioceses e mandar punir fraudes financeiras.

“Mas há hoje um grande desafio na Igreja: é que os padres não conseguem dançar o tango do Francisco”, adverte o professor Fernando Altemeyer, do Departamento de Ciência da Religião da PUC de São Paulo, brincando com a origem argentina do Sumo Pontífice. “Na sua maioria, os padres foram formados para serem burocratas, funcionários, e o Francisco pede que sejam missionários. O que a Igreja precisa, e muito, é de gente que vá pra rua”.

Professor de Teologia, grande conhecedor do mundo católico, Altemeyer lança daqui a alguns dias, ao lado de uma equipe de especialistas, um inédito e detalhado Dicionário do Vaticano II – cerca de 1.200 páginas, trabalho de fôlego que nenhum estudioso europeu se atreveu até hoje a produzir e bancar. Nesta entrevista à coluna, ele define Francisco como “um operário do diálogo” e analisa o futuro do imenso rebanho católico do planeta – cerca de 1,25 bilhão de fiéis, dos quais 123 milhões no Brasil. Fala, também, do encantamento do papa com a imagem de Aparecida, que ele revisitará em 2017.

Na última sexta-feira, os EUA tiraram Cuba da sua lista de Estados “que apóiam o terrorismo” – e Francisco tem parte do mérito nisso, pois ajudou a reaproximar os dois países. Duas semanas antes, canonizou duas freiras palestinas. Qual o impacto desses gestos? Melhora o diálogo?

Essa é a palavra-chave, diálogo. Francisco é um operário do diálogo. Sem ele, na Igreja ou no mundo, não se avança. Onde não há diálogo há bloqueio – seja ideológico, político, social, e se cria um clima rancoroso, preconceituoso. Isso tem que ser quebrado. E eis que o papa Francisco pega seu martelinho e sai dando marteladas. Como o seu peso simbólico é enorme, cada martelada repercute. No caso cubano, ele fez o que se esperava. É um absurdo que depois de 50 anos continue essa excrescência da guerra fria.

Mas ele tem uma estratégia por trás disso? Ou são apenas impulsos pessoais?

Há, sim, uma estratégia. Ele quer mexer com as periferias existenciais. O que é isso? É trazer para o centro quem está nas margens, dar palavra aos que estão em silêncio. Cuba é um exemplo, Líbano é outro, Síria também. E Francisco sai pelo mundo fazendo, com os elementos de que dispõe.

A canonização das duas freiras palestinas é parte disso?

As duas palestinas já eram santas pelo que faziam na vida. Mas, ao colocá-las no altar e incluir no Livro do Martirológio (o catálogo dos santos e beatos), o papa faz algo retumbante. Ele vê as realidades daquele pedaço de mundo e diz: “Não sou antissemita, mas não vou concordar com esse muro”. Ao pôr o periférico no centro inverte a lógica, para de novo qualificar o diálogo. Afinal, o diálogo só existe quando diferentes falam.

E dentro da própria Igreja, ele melhorou esse diálogo?

Tem feito isso na Igreja também. No Sínodo dos Bispos, na questão dos divorciados, que é uma pedra no sapato da Igreja católica. A agenda dele não é só ad extra, para fora, mas também ad intra, para dentro. Não sei se terá fôlego, até onde conseguirá ir. Mas acho que ele não está preocupado. Talvez esteja pensando: “Quando eu morrer, já dei a guinada. O próximo que se vire”.

Antes dele Bento 16 preparou outra guinada, ao investigar a vida interna do Vaticano.

Sim, e acabou sendo afastado por isso. Teve a coragem de rejeitar pressões e dizer: “Não seguirei”. E abriu caminho para que o atual papa chegasse às origens da atual crise. Francisco foi atrás das irregularidades, do roubo de milhões de dólares no Banco do Vaticano, dos abusos de tantos padres e bispos. Ele chegou dizendo: “Chega, não tem lugar pra pedófilo!”. Mandou entregá-los ao Estado, à polícia civil, que fossem laicizados.

O que ele fez foi levar adiante a causa de Bento 16…

Sim, e ainda continuou, com o consistório e o conclave. A ideia que passou e a maioria aceitou era: “Olha, isso aqui não dá, estão jogando o Evangelho e a Igreja no lixo, por causa de algumas patologias bem localizadas”. Porque de fato não é o grosso da Igreja. Dos temas que estavam na penumbra, foi como se ele dissesse: “Isso tudo tem de vir à luz. Quem tem medo da luz é o capeta. Então vamos lá”.

Como analisa esse duplo papel, de quem circula à vontade entre a fé e a diplomacia?

Francisco dá a impressão de ser um enigma, mas não é indecifrável. O que me parece é que ele transita à vontade entre dois alteregos. Em um, ele se faz Thomas Morus, o grande chanceler britânico degolado por Henrique VIII. Como ele, assume uma fidelidade absoluta aos grandes valores do Evangelho, sem cair na mera defesa da instituição como se fosse corporativismo. Não custa lembrar, Morus é o padroeiro dos políticos.

E o segundo alterego, qual é?

No outro ele assume o escritor russo Fiodor Dostoievski, de quem é leitor assíduo. A literatura, cabe lembrar aqui, foi sua segunda área de formação, depois da bioquímica. Com Dostoievski, ele assume a questão existencialista – com seu drama, o ser humano na sua realidade de cada momento.

E o que resulta desse pêndulo?

Que ele está atento a esse humanismo, a essa angústia, ao se perguntar: por que esse povo está tão machucado? Palestinos, sírias, argentinos? Mesmo o Brasil, que vive essa angústia momentânea? Ao mesmo tempo tem olhos para ver como Thomas Morus, buscando entender a alma humana e este momento da história. É solidário no sofrer sem deixar de alertar que os valores maiores precisam ser anunciados. Como quem diz: “Que permaneça o que é mais valioso, mesmo que custe a minha cabeça”.

Essa missão chega a pôr a cabeça dele em risco?

Ele não tem medo da morte. Veja só, há algum tempo ele recebeu um informe da Argentina dizendo que o sobrinho dele, que é padre, foi ameaçado de morte. Um imbecil ligou vezes seguidas para ele dizendo: “Se não for você, matarei seu tio…”. O rapaz ligou para o Vaticano e avisou Francisco, que respondeu rindo: “Ah, isso é uma imensa bobagem…”

É algo inédito, esse modo de tocar seu imenso rebanho?

Sim e não. Sim, porque ele tem esse feeling, uma proximidade incrível com cada pessoa. O Barack Obama saiu diferente de seu encontro com ele. O Raul Castro chegou a dizer que vai rezar. Francisco recebeu a bispa luterana e a chamou de “minha irmã”. O Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, foi chamado por ele de anjo palestino… É uma sintonia inédita, ele tem essa capacidade de ver por dentro.

E por que o “não”?

Porque já houve papas com virtudes semelhantes. Não muitos. Da última safra do século passado, só dois, o João 23 e o Papa Paulo 6º. Mas o Paulo 6º foi só no começo, depois ficou temeroso e paralisado diante da pressão da Cúria Romana. João 23, ao contrário, nunca pagou pedágio pra nada da Cúria e fez a revolução do Vaticano II. Quanto ao Francisco, é difícil haver um personagem tão livre, tão fresco. Metido numa máquina de dois mil anos, enrijecedora, ele está solto, não sente o peso do cargo.

Até que ponto esse estilo pessoal tem impacto para fortalecer o catolicismo?

Os processos culturais e econômicos – a tal mundialização – não nos dão critérios absolutos, mas é óbvio que a Igreja é proselitista. “Vai para a ponta do mundo e onde houver alguém que aceite a mensagem, faça discípulos”, já pregava o evangelho de Matheus. Acho que convivem hoje diversos processos. O catolicismo cresce na África – aliás, numericamente o futuro do catolicismo é africano – mas enfrenta tensões graves porque o Islã é muito duro, até pelos extremistas que lá promovem verdadeiros massacres. E tem crescido muito também, na África, a Igreja Luterana. Na Europa é um zero a zero. O total de católicos no mundo passou de 1,17 bilhão em 2005 para 1,254 bi em 2013 ­ algo como 12%, numa população mundial que foi de 6,2 bilhões para 7 bilhões. O índice de católicos em todo o planeta está em torno de 17,7%, mais ou menos o que vinha sendo. E o Islã cresce muito. No cômputo geral, me parece que estamos em um terreno de areia movediça.

E no Brasil?

Entre nós, o Censo do IBGE de 2010 apontou 123,2 milhões de católicos, ou 64% da população, e outra pesquisa de 2014, do PEW Research Center, fala em 61%. Nesta, a soma de protestantes, anglicanos, batistas e pentecostais chega a 26%, mais 8% sem filiação religiosa e 5% de outros credos. Mas o processo recente de pentecostalização foi gigante, com perto de 40 milhões de pessoas. E isso afetou profundamente a Igreja católica.

Esse avanço preocupa as lideranças da Igreja? O que elas podem fazer a respeito?

Esse é o desafio. Se os padres católicos não se aproximarem das pessoas de forma convicta, haverá um dilema. Nas suas palavras e ações, Francisco está pedindo: “Saiam, não fiquem presos nas paróquias, deixem de parecer príncipes!” Mas o que é que se vê? Que os padres não conseguem dançar o tango do Francisco. Eles foram formados para serem burocratas, funcionários, e o Francisco pede missionários. A Igreja precisa de gente que vá para a rua. São Paulo, por exemplo, tem uns 700 padres. Precisaria que pelo menos 500 fossem para as ruas. Mas a maioria não foi educada para isso. Então, essa reação e esse crescimento vão depender da persistência e dos grandes gestos de Francisco

Mas ele visita, recebe, manda mensagens, os brasileiros o sentem atento e próximo. E há outra visita dele anunciada, para 2017, em Aparecida.

O impacto das visitas é positivo. É impressionante como, hoje, tudo para em volta, quanto ele sai, em Roma ou outra cidade, para circular e cumprimentar fiéis. Mas esse é um processo que se reflete no médio prazo. Como assinalei, as igrejas pentecostais de fato se expandiram, mas estão muito pulverizadas. Há uma delas realmente grande, a Assembleia de Deus. Sobre a vinda dele a Aparecida daqui a dois anos, é importante assinalar, aqui, como Aparecida é importante para ele. Francisco tem uma paixão tremenda, ele se eletrifica quando está diante da imagem dela. / GABRIEL MANZANO

Família, essa frágil embarcação!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

A famíla é hoje uma das instituições mais batidas pelos ventos da chamada pós modernidade. Ventos furiosos, cínicos ou indiferentes. Além de trazerem em suas asas o “canto enganoso da sereia”, costumam abalar de forma irremediável os alicerces a “casa construída sobre a areia”.

  1. Até que a morte vos separe?…

Tudo começa com o próprio matrimônio. A vida de um casal, mais do que nunca, se mantém por um fio à beira de um abismo sempre pronto a engolir as boas intenções, proclamadas no altar ou no cartório. Em tempos idos, e não tão longínquos, a expressão separação/divórcio era a última carta do jogo a ser utilizada por um ou outro dos cônjugues. Uma espécie de trunfo que somente era colocada sobre a mesa após esgotadas todas as tentativas e possibilidades de reconciliação, ou retomada do relacionamento. Hoje essa carta salta fora do baralho à primeira discórdia ou adversidade.

Diante da promesa de fidelidade “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza”, a pressa tomou o lugar da paciência. Uma ansiedade mórbida e febril atropela a reflexão e o diálogo. Com frequência inusitada, a via lenta, longa e laboriosa da reconstrução é substituída pelo atalho mais curto, imediato, do “cada um por si”. Improvisamente, com uma rapidez extraordinária, os caminhos se bifurcam. O importante é desembaraçar-se logo um da outra. Esquecer, deletar e jogar pela janela é fácil, muito mais fácil do que enfrentar a dois, olho no olho, a dura tarefa de recomeçar, ainda que seja a partir das ruínas de uma união desfeita ou mal feita. Junto com o casamento, atira-se pela janela a máxima de que é possível reerguer uma fortaleza sobre uma simples gota de amor e afeto. Também nas relações amorosas, impõe com toda força e cultura do “líquido e descartável”.

  1. Lares ou pensões?

Depois, crescem progressivamente as dificuldades da vida em família. É bem verdade que os “tempos modernos” contribuiram, e não pouco, para o processo de erradicação dos os vírus medievais do patriarcalismo, do autoritarismo e submissão da mulher e filhos, da desigualdade de gênero, do machismo e outros “ismos” de igual teor. Em boa parte dos casos, porém, o pêndulo oscila para o extremo oposto. Confunde-se liberdade com o ato de “fazer o que se quer” e não de “fazer o que constrói o bem comum” ou “o que procura fazer a felicidade de todos”. Com esse falso conceito de liberdade, não raro tropeçamos nos becos sem saída da prostituição precoce ou como vítimas do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, bem como nos riscos do roubo e da droga, da violência sob as mais diversas modalidades…

Mesmo sem apelar para os casos extremos, quantos “lares” se convertem em uma espécie de “pensão” a baixo preço. Cada membro da família usa a própria casa para comer ou dormir, pouco mais que isso. Entra e sai sem qualquer outro tipo de compromisso com os demais moradores. A sala de televisão toma o lugar da mesa como lugar de encontro. Ou de desencontro, uma vez que a TV converteu-se em nova “rainha do lar”, atraíndo todas as atenções. Ai de quem incomodar os que querem acompanhar a novela ou o telejornal para tratar “assuntos familiares”! Do ponto de vista do casal, de sua relação afetivo-sexual, para um dos dois o sofá acaba por vezes substituindo a cama. Na rotina do cotidiano, desgasta-se e deteriora-se as os laços elementares entre os esposos, entre pais e filhos e entre irmãos, para sequer tomar em consideração os contatos mais amplos de parentesco.

  1. Riscos que interpelam!…

Três perigos rondam a frágil embarcação que é a família, fazendo-se cada vez mais notórios. De um lado, as tensões e conflitos que jogam, uns contra os outros, aqueles que se abrigam debaixo do mesmo teto. A tal ponto que, com uma frequência crescente, busca-se fora de casa o refúgio, o consolo ou o carinho que é impossível encontrar no interior da família. Semelhante fuga vale tanto para marido e mulher quanto para os filhos. O segundo perigo consiste na indiferença. Costuma ser pior que o próprio conflito, pois significa que o interesse pela saúde do grupo familiar morreu de forma definitiva. Quando há tensão e discórdia, pelo menos permanece viva a preocupação de reconstruir as coisas. No indiferentismo, contudo, simplesmente volta-se as costas àqueles que, até agora, nos haviam sido tão caros e íntimos. Aqui os caminhos se bifurcam ou trifurcam antes mesmo da separação ou divórcio. Por fim, o perigo relacionado às crianças envolvidas no tortuoso e conturbado processo de separação. Neste caso sobram perguntas e faltam respostas. Como se desenvolverão nelas a imunidade física,  a estabilidade emocional e a estrutura psíquica – elementos indispensáveis à saúde integral da pessoa humana?

Além dos três perigos apontados, um tabú esconde sob um véu de cumplicidade muitas cenas de abuso intra-familiares. “Em briga de marido e mulher, melhor não meter a colher”, diz o provérbio. É um dos casos em que a realidade desmente a dita sabedoria probervial. As páginas policiais dos noticiários jornalísticos e as estatísticas da sociologia não se cansam de mostrar quão vulneráveis se tornam as mulheres e crianças sob essa falsa proteção da família. Multiplica-se a violência física e moral, as tragédias emergem da noite para o dia, precisamente onde menos se esperava. Onde “tudo parecia andar às mil maravilhas”!

  1. Desafios e potencialidades!..

Uma vez mais, convém retornar ao conceito de liberdade. A liberdade é não apenas um dom de Deus e uma conquista da humanidade, mas também um potencial de energias inesgotáveis. Em nenhuma hipótese, todavia, pode ser desconectada de normas, leis, limites, renúncias e escolhas acertadas. Faz um par indissociável com a responsabilidade. Um exemplo simples e banal: não é difícil imaginar o terraço, aberto e livre, do último andar de um alto edifício. A área, porém, não possui muros de qualquer espécie. Tomemos uma criança de dois anos e a coloquemos sobre esse espaço. “Você é livre, divirta-se”! Qual o resultado? Liberdade sem muros é abismo, sinônimo de inevitável tragédia. A imagem é extrema, caricatural, justamente para alertar sobre os riscos de uma liberdade sem freios. E no entanto, não é exatamente essa a concepção de liberdade que muitas vezes se vê veiculada pelo marketing, a publicidade e a propaganda mais apelativa e desenfreada!

Em tempos não tão distantes, era comum afirmar que a família constitui um jardim. Quando o terreno é sólido e sadio, fértil e bem irrigado, no jardim nascem, crescem e desenvolvem-se plantas viçosas e saudáveis. Folhas, flores e frutos – os mais belos – são a promessa da casa/família. Cheira a romantismo? Sem dúvida, mas sem um mínimo de poesia e imaginação, sem um mínimo de criativdade, sem o mínimo de cuidado  e empenho, o solo se torna vulnerável às pedras, espinhos e ervas daninhas. Os resultados falam por si só: ao lado do matrimônio e da família, deteriora-se igualmente a educação inicial e primordial. Somente o potencial energético da liberdade, regulado pela ética da corresponsabilidade, poderá reverter esses dados.

A família costuma ser o lugar privilegiado não só para os primeiros balbucios, as primeiras palavras e os primeiros passos, mas também para entrar em contato com as primeiras experiências, as primeiras relações interpessoais e os primeiros valores (ou antivalores). Hoje, com o aprofundamento dos estudos de psicologia, sabemos o quanto essas primeiras “aventuras” sejam decisivas para todo o resto da vida, em sentido negativo ou positivo. Daí derivam traumas ou equilíbrio psico-social. Ocorre que uma série de fatores de ordem socioecônomica e político-cultural retirou da família a “tarefa” de educar a criança desde o berço, seja porque os pais não estão preparados para os desafios das novas gerações, seja porque encontram-se em condições difíceis, precárias e inadequadas para semelhante compromisso. Crianças, adolescentes e jovens, mesmo quando inseridas em uma família, nunca se sentiram tão órfãos, sós e perdidos! Igualmente perdidos se sentem os pais diante das turbulências que rondam portas e janelas de casa.

Ao mesmo tempo, porém, a família não foi substituída por nenhuma outra instituição capacitada e idônea para assumir aquela tarefa. Com o passar do tempo, gerou-se uma perigosa lacuna que se torna sempre mais estridente, profunda e flagrante. O “lar infantil”, a creche, a escola e as igrejas (entre outras instituições) tratam de levar a termo essa educação “inicial e primordial”, mas de forma parcial e com “luvas de pelica”, por um duplo motivo. Por um lado, os educandos permanecem mais tempo em casa ou pelas ruas, com demasiado tempo ocioso, do que em tais instituições; por outro, verifica-se não raro uma vigilância excessiva por parte do Estado, o qual, em grau nada desprezível, não somente se revela negligente quanto à responsabilidade de preencher essa lacuna, mas ainda por cima, por vezes vezes impede que outras entidades o tentem. Numa palavra, não faz e não deixa fazer!

  1. O caminho das soluções!…

A referida educação “inicial e primordial” se dificulta ainda mais quando levamos em conta as mudanças rápidas e profundas ocorrem no interior da família moderna ou pósmoderna. A cada ano e a cada década, ela se torna mais diversificada e complexa Mais do que família, no singular, fala-se de famílias, no plural. Atualmente, as ciências sociais colocam em cena variados tipos de núcleos familiares, com necessidades, exigências e desafios especiais e específicos. Além disso, com a crise da economia globalizada, o desemprego crônico e as carências crescentes, as assimetrias sociais e econômicas, junto com as migrações massivas, pulverizam não poucos núcleos familiares. Resulta que, temporária ou definitivamente, rompem-se inclusive as ligações de parentesco que ajdam a manter de pé as famílias mais debilitadas.

Qual a solução ou soluções? Em prmeiro lugar, é preciso tomar conhecimento das transformações em curso na sociedae contemporânea. A elas, corresponde um novo leque no quadro das famílias, como também no contexto do pluralismo cultural em que vivemos. Pluralismo que, dia-a-dia, vai abrindo horizontes desconhecidos, descortinando novas formas de convivência familiar e de patentesco. A cada dia que passa, a criança encontrar-se-á com amiguinhos e coleguinhas que vivem experiências distintas no interior de suas casas. Por mais esforços que se façam para esconder isso dos “meninos e meninas”, esse dado hoje enconra-se escancarado aos olhos de todos e todas.

Depois, faz-ze urgente criar e/ou fortalecer instrumentos e mecanismos necessários para devolver à célula familiar meios, apoio e condições necessárias para manter o jardim preparado para as plantas que virão. Sem tal preparação do terreno, as ervas daninhas tomam conta de todo campo. Enfim, ao lado do grupo familiar, as instituições governamentais ou privados podem estimular e desenvolver outras redes de sustentabilidade desse grupo nuclear, o qual, bem ou mal, queiramos ou não, segue sendo a base de um organismo social sem enfermidades crônicas.

Tanto o organismo de uma pessoa adulta, forte e saudável, quanto o organismo de uma sociedade sadia, igualitária e equilibrada mergulham suas raízes mas profundas na infância. E especialmente na infância remota: os especialistas alertam para o fato de que os primeiros anos de vida, desde a concepção, serão decisivos para o desenvolvimento integral e íntegro do ser humano. Esse broto, ao mesmo tempo frágil e forte, necessita dessas raízes firmes na terra. Necessita igualmente de um contexto sociohistórico justo, fraterno e solidário, seja do ponto de vista socioeconômico, seja do ponto de vista político e cultural. Somente desse modo, sem medos nem traumas que o paralizem, será capaz de erguer-se do chão para buscar a luz do sol e o azul infinito do céu, como flor colorida e bela, aberta e livre. Ou como criança alegre e saudável, que brinca, pula, sorri e respira a brisa suave que refresca a face da terra.

Roma, 28 de maio de 2015

Oscar Romero, o bem aventurado

Maria Clara Bingemer

O povo salvadorenho está em festa e saiu às ruas no sábado, 23 de maio, para celebrar a beatificação de Monsenhor Oscar Romero, arcebispo de San Salvador – capital do país – assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia. Após mais de trinta anos, Oscar Romero é declarado beato, o que na Igreja Católica é o passo anterior à canonização, que declara alguém santo.

Por que proclamar beato ao manso, bondoso e ao mesmo tempo aguerrido profeta Oscar Romero?  O que significa a Igreja considerá-lo beato?

A palavra “beato” quer dizer “feliz”, ditoso, bem-aventurado.  Beato é feliz em latim, assim como makarios é feliz em grego.  A última é a palavra usada no Novo Testamento, em Mateus 5 e em Lucas 6, para falar daqueles que são felizes segundo a lógica de Jesus de Nazaré.  Lendo integradamente Mateus e Lucas, beatos – felizes – são os pobres, os famintos que passam fome, mas também têm fome de Deus e confiam nele.  São aqueles que tratam com amor e carinho os outros; os que têm olhos limpos e puros para ver a verdade e dizê-la.  E também os que têm fome de justiça e lutam contra a injustiça e a mentira.  E por isso sofrem perseguição.

Ao proclamar beato Monsenhor Romero, a Igreja o declara feliz, bem-aventurado, segundo a lógica do Evangelho de Jesus.  Como encontramos essa felicidade, essa bem-aventurança na vida desse arcebispo algo tímido, que, de repente, se fez consciente da injustiça que padecia seu povo e transformou-se no mais intrépido e corajoso profeta de que já se ouviu falar na América Latina?

Ao anunciar que Oscar Romero seria beatificado, o Vaticano o declarou “mártir por ódio à fé”. No entanto, é importante deixar bem claro que a Romero não o mataram por recitar bem ou mal um credo, ou por enunciar correta ou incorretamente verdades dogmáticas.  Quem o matou não foram bandidos ou marginais da sociedade salvadorenha.  E sim pessoas que se consideravam e eram vistas como  muito católicas.

Aí vemos a diferença entre fé e religião.  Monsenhor Romero foi acusado de comunista, traidor da pátria e outras tantas ofensas por defender os pobres e contestar os que os perseguiam e matavam.  Seus assassinos eram católicos de missa dominical e ritos praticados, mas não lhes interessava a defesa que o arcebispo fazia dos pobres.  Queriam continuar a gozar em paz de seus privilégios.  Talvez os assassinos de Romero fossem muito religiosos, mas é de se perguntar se realmente tinham fé.  Romero, por outro lado, acusado de, como religioso, meter-se em política, sem dúvida, tinha fé.  E por ódio a essa fé foi morto.

Odeia-se a quem tem fé e põe em prática a justiça que brota da fé e é sua consequência.  Praticar essa justiça é mostrar um grande amor aos que sofrem o peso mortal da injustiça.  Esse é o amor maior, segundo o Novo Testamento, em palavras de São João Evangelista. Amor maior de quem é assassinado por defender os pobres que não têm quem os defenda.

Os que conheceram de perto Oscar Romero são unânimes em afirmar que ali estava um homem de paz: que não queria violência nem morte, mas ao contrário, que a paz florescesse e brotasse como fruto maduro.  Mas também um homem que sabia que a paz é fruto da justiça e, portanto, há que combater a injustice, a fim de que a paz possa florir e frutificar.

Era igualmente um homem de Deus.  É bem conhecida a frase de Ignacio Ellacuría, padre jesuíta igualmente assassinado nove anos depois de Romero, na mesma cidade de San Salvador, reitor da Universidade Católica e amigo próximo do arcebispo: “Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador”.

O padre Jon Sobrino, que igualmente trabalhou muito próximo ao arcebispo mártir, nos transcreve essa oração que monsenhor Romero escreveu em seu último retiro antes de ser assassinado.

“Assim concretizo minha consagração ao coração de Jesus, que foi sempre fonte de inspiração e alegria cristã em minha vida.  Assim também ponho sob sua providência amorosa toda a minha vida e aceito com fé nele minha morte por mais difícil que seja.  Nem quero dar-lhe uma intenção como gostaria pela paz de meu país, e pelo florescimento de nossa Igreja, porque o coração de Cristo saberá dar o destino que queira.  Me basta para estar feliz e confiante saber com segurança que nele estão minha vida e minha morte; que apesar de meus pecados, nele pus minha confiança e não serei confundido, e outros prosseguirão com mais sabedoria e santidade os trabalhos da Igreja e da Pátria.“

Bastava-lhe para estar feliz, bem-aventurado, “beato”, sua fé e sua confiança em Deus.  Que o beato Oscar Romero nos ensine essa felicidade tão diferente da que o mundo de hoje propõe, a fim de que possamos investir nossa vida naquilo que é realmente importante.  Amém.

Quaresma

Fernando Altemeyer Junior

Quaresma: Dos quarenta dias que precedem a festa maior dos cristãos, a Páscoa. Até o século VII, a quaresma começava no Domingo da Quadragésima (quadragesima dies, o quadragésimo dia – que na realidade era o quadragésimo segundo dia – antes da Páscoa). Tendo em conta os domingos, durante os quais o jejum era interrompido, o número de dias até a Páscoa efetivamente era inferior a quarenta, e para continuar fiel ao simbolismo do número 40 (quarenta anos no deserto, 40 dias de jejum de Cristo) antecipou-se o começo da quaresma para a Quarta-feira precedente ao Domingo da Quadragésima: dia das Cinzas.

Na Igreja primitiva era a última etapa da preparação do batismo para os catecúmenos, que seria administrado na noite de Páscoa.

Nestes quarenta dias a Igreja incentiva a prática do jejum, da solidariedade com os pobres (chamada antigamente de esmola) e da oração. É como que um tempo especial de Retiro espiritual. É tempo de voltar para Deus, de reaquecer a fé e de mudança de vida e superação das atitudes patológicas. Muitos ainda hoje se abstêm das carnes vermelhas, mas olvidam-se dos pobres, agindo de forma hipócrita e medíocre. Já lembrava S. Leão Magno: “é inútil tirar ao corpo a comida, se não tira d’alma o pecado.” A intuição central da Quaresma é a mudança de atitudes e práticas favorecendo a solidariedade e a fraternidade.

Neste ano de 2015 a quaresma irá de 18 de Fevereiro até o dia 2 de abril.

Silêncio

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

À primeira vista, escrever sobre o Silêncio não deixa de parecer uma contradição. Mas logo nos damos conta que a contradição é apenas aparente, superficial. O silêncio, de fato, constitui a fonte primordial e mais cristalina da palavra: palavra viva, libertadora, criativa e autêntica. É somente no terreno fértil do silêncio que ela – a palavra – cria raízes, nasce, cresce, desenvolve-se e produz folhas, flores e frutos. Enquanto a multidão rumorosa ou o excesso de palavras tendem a distrair, dispersar e semear confusão, a escuta silenciosa é capaz de captar os “não ditos” ocultos nas experiências inéditas e irrepetíveis da pessoa humana. Dessa forma o silêncio, descendo às profundidades mais íntimas e recônditas das entranhas, torna-se fecundo. E assim, em lugar de palavras ocas e vazias ou de discursos inócuos, descobre a Palavra nova viva e ativa. Aquela que é capaz de um encontro único com a natureza, consigo mesmo, com o outro e com o totalmente Outro.

Por isso é que nada tem a dizer de novo quem é incapaz de fazer silêncio (cinco, dez, vinte, trinta minutos… uma hora!). Quem não conhece a silenciosa escuta tampouco está preparado para falar em termos de novidade. Se o fizer, estará irremediavelmente condenado a repetir a si mesmo ou aos outros. Sem o exercício do silêncio e a capacidade de escuta, tornamo-nos facilmente uma espécie de “papagaios ou macacos”: com uma rapidez inusitada e surpreendente aprendemos a imitar a fala e os gestos de um e de outro, mas nada de inovador e criativo teremos a transmitir. Com razão diz o ditado que “quem na reflete, se repete”! Somente o silêncio rejuvenesce as palavras, por um lado conferindo-lhes um significado sempre vivificante, por outro desvendando nelas e em suas entrelinhas o segredo da Palavra. Em outras palavras, o silêncio é o invólucro de um “tesouro oculto” – do mistério que dá sentido à existência humana.

“O sagrado da existência humana” – dizia o atormentado escritor russo Dostoiévski – “não está somente em viver, mas especialmente em saber porque se vive”. Em certo sentido vai além do grande dramaturgo inglês Shaskepere, na tragédia de Hamlet: “to be or not tobe, that is the question” (Ser ou nao serm eis a questão). Ou seja, não nos basta a consciência de ser ou não ser. Desde o nascimento até a morte, do berço ao túmulo, de forma consciente ou inconsciente, carregamos sobre os ombros essa pergunta fundamental: de saber não apenas quem somos, mas também de onde viemos, para onde vamos, e sobretudo saber o “por quê” nos encontramos sobre a face da terra. O que fazer com os dias, meses, anos que nos restam viver? Prgunta fundamental com a qual conseguimos conviver mais ou menos serenamente e sem maiores preocupações, mas que, à primeira crise, emerge do fundo das correntes subterrâneas mais profundas, provoca ondas incontroláveis, reclamando uma resposta. Instalam-se as dúvidas e as perguntas, os medos e as inquietações, ao mesmo que se impõe a necessidade de enconrar uma razão, por mais irracional e momentânea que seja.

São exatamente esses momentos de crise, essas lacunas cheias de interrogações angustiantes que exigem uma parada para o silêncio e a escuta. Infelizmente, na grande maioria dos casos, quando essa pergunta fundamental da existência se levanta diante de nós, costumamos nos assustar, não raro caímos no desespero, procurando a todo custo fugir dela. Incômoda como “uma pedra no meio do caminho” – diz o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, é preciso contorná-la e seguir adiante. A tendência é esconder-nos em meio à multidão anônima ou buscar proteção na televisão, no rádio, no computador, no telefone, na presença dos companheiros, na conversação despreocupada, quando não no álcool, na droga ou na violência! Bem mais fácil e mais cômodo do que parar, refletir, cultivar e digerir em profundidade o silêncio e suas interpelações, é continuar a caminhar como se nada de grave estivesse acontecendo. Rugas e outros sintomas do tempo e do sofrimento costumam nos afastar do espelho – esse incorrigível delator!

Mas há silêncios e silêncos que, embora entrelaçados, se diferenciam. E ao dizer isso, logo tropeçamos com o silêncio despovoado. Mais exatamente, o isolamento e a recusa da comunicação, o ato de encaramuja-se sobre o próprio umbigo. Silêncio que, em lugar de pontes e relações interpessoais, produz muros e guetos intransponíveis. Encontramo-lo no matrimônio, na família, no convívio entre pais e filhos, irmãos e irmãs, na vida comunitária e/ou consagrada, no ambiente de trabalho, nos meios de transporte, nas feiras, nos supermercados, nos pontos de ônibus e estações… Cada um se fecha sobre si mesmo, faz todo o esforço para ignorar o que se passa ao redor. É o silêncio ensurdecedor da cidade, da indiferença, da ausência, do individualismo exacerbado, por exemplo. Símbolo disso é o uso (e abuso) dos fones de ouvido que servem não somente para apreciar a música preferida, mas sobretudo para “não ver, não ouvir, não saber” o que ocorre ao redor. Daí o conceito hoje recorrente de sociedade atomizada, onde as partículas (interesses e desejos, esforços e paixões), giram em torno do próprio núcleo (sujeito).

Semelhante despovoamento, porém, pode contrapor-se ao que poderíamos chamar silêncio povoado de fantasmas. Costuma manisfestar-se em roupagens estranhas, tais como pânico, sentimento de perseguição, pesadelos, medos, frustração – uma verdadeira fobia! Por mais que a essa atitude fóbica se oponham motivações racionais para exorcizar os fantasmas, estes continuam teimosa e persistentemente a visitar suas vítimas indefesas e impotentes. Tudo e todos, dependendo de uma série de circunstâncias, podem aparecer sob a forma de fantasmas. No fundo, uma atitude doentia e mórbida precede qualquer tentativa de ver as coisas à luz do dia ou da razão.  Os fantasmas sempre retornam, falam uma linguagem de sons estranhos, promovem danças macabras, que só a pessoa é capaz de ver, ouvir e sentir. Traumas, mágoas e situações não resolvidas são, em geral, o combustível de tais “visões”, sejam elas noturnas ou diurnas.

Vem depois o silêncio envenenado. Caracteriza-se por olhares oblíquos e atravessadas, poucas palavras e sempre de duplo sentido, expressões mudas e mais afiadas que as armas prontas ao combate. Neste caso, em lugar de silêncio, seria mais adequado falar de mutismo. O ambiente torna-se excessivamente carregado, o ar pesado e irrespirável. Dois fillósofos nos ajudam a comprender esse veneno que se interpõe entre pessoas, grupos, povos e nações. De um lado, o ingês Thomas Hobbes, autor do famoso Leviatã, mostra que “o homem é o lobo do próprio homem”; de outro, o francês Jean-Paulo Sartre lembra que “o inferno são os outros”. Disso resulta uma vigilância constante contra tudo e contra todos, onde a autodefesa se reduz a um permanente ataque, passivo ou ativo. A disputa profissional e carreirista na política e em outros âmbitos (academia, religião, etc.) podem ser exemplos desse silêncio permeado de veneno.

Por fim, o silêncio povoado por um tesouro. É a contemplação silenciosa de feitos, encontros e recordações sadias e saudáveis. Coisas, pessoas e fatos que formam um “tesouro”, do qual podemos destilar um verdadeiro elixir para a saúde do corpo e da mente, da alma e do espírito. Consiste na lembrança e no cultivo da memória em dimensão positiva. Um olhar retrospectivo e repleto de gratidão e reconhecimento, capaz de descobrir e recolher as pedras preciosas sepultadas pelo pó e as cinzas do tempo, reavivando seu brilho luminoso. Os próprios traumas, sofrimentos e mágoas, vistos sob os raios de uma nova luz, convertem-se em um tesouro de lições a serem apreendidas e ensinadas à posteridade. Numa palavra, é a arte de rever e resgatar a história (pessoal e familiar, comunitária ou coletiva) numa perspectiva simultaneamente fiel e criativa. Em lugar de repetir seus erros, estes mesmos podem ensinar a superar os novos desafios que virão pela frente. Talvez seja a verdadeira alquimia da oração! Para concluir, só este silêncio será capaz de garimpar, em meio aos escombros e ruínas do passado, uma Palavra viva, capaz de iluminar os caminhos do presente e, ao mesmo tempo, conferir novo vigor à construção de um futuro justo, fraterno e solidário.

Roma, 09 de fevereiro de 2015

Meu amigo decidiu ficar cego

Fernando Altemeyer Jr.

Um belo dia, eu descubro que um amigo de infância, muito querido e inteligente, decidiu ficar cego. Fiquei pasmo e atordoado. A vida inteira soube que cegos querem ver e que gente inteligente quer o mais e o melhor, mas ao encontrar e ouvir este amigo percebo que, de fato, decidiu cegar-se e que o processo patológico da perda da visão já havia avançado muito. Ele quase não vê mais ninguém. Percebi que está sofrendo e traz marcas na alma. Suas palavras são cada vez mais insensatas e amargas. Ele está se isolando no círculo vicioso que o sufoca e anestesia, sem perceber que piora a cada dia. Tornou-se uma pessoa obcecada e arrogante. Como lembrou o padre de Henri de Lubac (1896-1991): “Quanto mais espessa é a ignorância mais se crê possuidora da verdade (Paradojas seguido de nuevas paradojas, Madrid: PPC, 1989, p. 73)”.

Porque tomou esta decisão inumana e retrógrada? Como alguém tão brilhante e promissor começa a agir, pensar e viver de modo tão fundamentalista? Fui ler dois pensadores contemporâneos essenciais: Zigmunt Bauman e Leônidas Donskis. Ambos mostram que a doença oftalmológica de meu amigo atinge dezenas de pessoas no Ocidente em todas as classes sociais. Tornou-se nova epidemia: uma cegueira moral assumida e desejada. Eis o que eles dizem: “Essa é a cegueira moral – voluntariamente escolhida e imposta ou aceita com resignação – de uma época que, mais que qualquer outra coisa, necessita de rapidez e acuidade na compreensão e no sentimento. Para que possamos recuperar nossa sagacidade em tempos sombrios, é preciso devolver a dignidade à multidão de extras, ao individuo estatístico, às unidades estatísticas, à massa, ao eleitorado, ao homem da esquina e ao querido povo – ou seja – todos aqueles conceitos ilusórios construídos por tecnocratas que se apresentam como democratas propagandeando a noção de que sabemos tudo que há para saber sobre as pessoas e suas necessidades, e que todos esses dados são apontados com exatidão e totalmente explicados pelo mercado, pelo Estado, pelas pesquisas sociológicas, pelas avaliações e por qualquer outra coisa que transforma as pessoas em anônimos globais (BAUMAN, Zigmunt; DONSKIS, Leônidas. Cegueira moral, Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 18-19).”

Cheguei ao diagnóstico: o meu querido amigo foi tão manipulado pela mídia, pelo mercado totalitário e por grupos ideológicos que quis ser cego. Vive uma vida robotizada, conduzido por mecanismos invisíveis e se tornou consumidor, submisso às mercadorias ao perder a dignidade de sujeito livre e consciente. Houve um esquecimento deliberado do sofrimento dos outros, a perda de sensibilidade pela hipervalorizarão da razão tecnológica. Deixou de ser cidadão, pois agora professa o credo do deus-lucro. Para ele vale o que for útil para o seu culto individualista. Recusa e não quer saber das dores alheias e isto o tem conduzido à supressão simbólica e afetiva de todos os que o incomodam. É como se a vida se transformasse em um imenso ambiente de Facebook onde se inclui ou se exclui pessoas ao simples toque da tecla do computador. Amizades são feitas ou desfeitas em segundos e ao final não se tem nenhum amigo ou comunhão real. Ao destituir os seres humanos de seus rostos e romper com as individualidades emergiu o medo. Brota uma intolerância compulsória, que faz buscar com sofreguidão o disfarce cínico da insensibilidade moral.

Meu amigo assumiu um comportamento empedernido, desumano e insensível pela firme decisão de viver indiferente. Não quer mais saber das dores dos outros. Não quer ouvir histórias reais de dores e alegrias. Tornou-se um novo Pôncio Pilatos lavando suas mãos. Quer ficar acima do bem e do mal como um ser superior. Acabou marcado por grave normopatia (termo introduzido na psicanálise por Joyce McDougall para designar um tipo de paciente aparentemente bem adaptado e normal, diferentemente do neurótico e psicótico, mas cuja análise chegava a um impasse em razão de sua impossibilidade de mergulhar no mundo interno, exigência básica para o trabalho analítico). Virou um funcionário do sistema e reprodutor dócil e assustadoramente normal. Faz tudo para que nada mude. Quer ser um funcionário padrão que vê e não enxerga. Que olhe, mas não compreenda. Que fale e não explique. Repete como papagaio as frases impostas pela mídia e como na música de Luiz Gonzaga se fez um açum-preto cego que canta bonito dentro de sua gaiola dourada. Perdeu a liberdade para viver a segurança. Sua melodia nunca ultrapassa 140 palavras. Tornou-se um homem-tuitado, como uma nova espécie humana que perde a capacidade de dizer o mundo de forma complexa e conflitiva. A insensibilidade gerou sua cegueira, a cegueira gerou a afasia que produz solidão e um vazio existencial depressivo. Sem voltar a sentir, meu amigo pós-humano foi afundando em seu próprio ego, repleto de coisas, mas sem sentimento e paixão. Está conectado com o planeta via modem e internet, mas tem poucos amigos de carne e osso e uma ínfima reflexão crítica. Decidiu ficar livre da dor, e em troca perdeu muito de sua humanidade.

Este meu amigo para fugir do grande mal que o afligia, pretendeu exorcizar todos os demônios de nosso tempo, rompendo com os vínculos e a comunhão essencial entre os humanos. Só não percebeu que o mal assumiu a máscara da fraqueza. E que a sedução do mal não reside na força, mas na sua frágil invisibilidade. Ao banalizar o mal e impor o bem, ficou doente e insensível. Assim, enquanto a economia vai sempre sofisticando, as pessoas e a ética vão adoecendo e perdendo espaço. As coisas passam a ser desejadas e os seres humanos passam a ser descartados. Os objetos se tornam mais importantes que crianças, índios, negros, mulheres, famílias, comunidades. As pessoas e os amigos se tornam assustadoramente normais, sensatos e robotizados. Somos vistos por milhões e até bilhões de pessoas, mas não nos vemos e nem sabemos quem somos de verdade. É como se a luz que vem de dentro se apagasse e assim nós sofremos ainda mais ao nos afastar de toda a sensibilidade por uma cegueira assumida. Diz o monge beneditino Freeman: “Uma das grandes causas de tristeza e de sofrimento é a nossa incapacidade de nos comunicarmos. Frequentemente, o que tentamos exprimir ou o próprio meio de expressão distorce o que sentimos ou o que queremos dizer. O que de fato nos bloqueia em relação ao nosso verdadeiro eu? Não é resposta fácil, porém é simples. Nada. Não há nada entre nós e nosso verdadeiro eu. Não há nada mesmo, além da falsa ideia de que realmente existe algo. Esta falsa ideia é aquilo que chamamos de ego. E o ego, que é a causa de toda solidão e isolamento, existe apena como ilusão, não é realmente nada. O ego simplesmente distorce a percepção da realidade, é falsa lente que embaça a visão e provoca má interpretação em relação a nós mesmos e os outros por dupla visão. Não há nada entre nosso eu e nós mesmos porque, obviamente, nós somos o verdadeiro eu. A experiência de viver nossa luz interior em unidade com a realidade da Luz Divina chama-se inspiração. Para concretizá-la, temos que aprender a ser nós mesmos, temos que nos libertar da ideia falsa e corrigir a visão embaçada do ego. O ego é um engano (FREEMAN, Laurence. A luz que vem de dentro – o caminho interior da meditação, São Paulo: Paulus, 1989, p. 109-110)”.

Os cegos morais passam a ser devotos do deus-consumo, bonecos mecanizados dos mercados, rejeitando a cidadania inata do ser humano para livrar-se da realidade e viver o mundo ficcional sem freios onde se realizem todos os desejos, como compradores e usuários. Cada loja de um Shopping Center ou aeroporto se transforma neste mundo consumista e hedonista em “farmácia que fornece tranquilizantes e anestésicos, neste caso, remédios que servem para aliviar ou amenizar dores morais, não físicas (Cegueira moral, p. 181)”. Zigmunt Bauman confirma tristemente que: “Como a negligência moral está crescendo em alcance e intensidade, a demanda por analgésicos aumenta cada vez mais, e o consumo de tranquilizantes morais se transforma em vício. Por conseguinte, uma insensibilidade moral induzida e manipulada se torna uma compulsão ou uma segunda natureza: uma condição permanente e quase universal – e as dores morais são despidas de seu papel salutar de prevenir, alertar e mobilizar. Com as dores morais aliviadas antes de se tornarem verdadeiramente perturbadoras e preocupantes, a teia de vínculos humanos tecida com os fios da moral torna-se cada vez mais débil e frágil, vindo a descosturar-se (Cegueira moral, p. 181)”.

Assim o diagnóstico de meu amigo é claro e triste. Ele faz parte da geração que foi adestrada para ser cínica, insensível e pragmática. Grandes temas utópicos foram varridos para a lata do lixo. O que vale é o consumo, a grife das roupas, o mostrar-se exteriormente e, sobretudo a solidão e a depressão precoces. Vive vida precária sob o manto do infinito. Transformaram as coisas em divindades e percebem que isto é vazio e sem sentido. Meu amigo foi cegado antes de decidir cegar-se. Ele não tem a menor ideia do que o futuro lhe reserva ou de onde ele está situado no presente. Perdeu o senso de história e de valores. A vida e os sentimentos parecem fazer parte de um vídeo game. E nele sempre pode aparecer um personagem fantasma a tirar nossa vida. E o ‘game over’ sempre está por um fio. E assim muitos se sentem peças descartáveis de um jogo. E aprendem a jogar por opção ou necessidade. E ao entrar neste mar bravio e feroz, descobrem que o oceano não tem cabelo e não há onde segurar-se. Começa a faltar pé e correntes subterrâneas mexem com nosso pensar e agir.

Transplante de córneas

Se meu amigo perguntasse o que acho de tudo isso e da triste decisão de cegar-se, preciso encontrar palavras de superação. Em primeiro lugar diria que é preciso enfrentar o fatalismo do sistema e deixar o rei nu. Não podemos aceitar as cartas viciadas deste jogo macabro sem quebrar regras tão negativas. Não é fácil curar as cegueiras, e pior ainda, a cegueira moral assumida. Será preciso vontade ética e discernimento. Não será curado de uma vez. Será um longo processo terapêutico que envolverá várias etapas, como aquele processo feito por Jesus junto ao cego de Betsaida (cf. Mc 8,22-26). Esse modo processual de curar muitas cegueiras urbanas me foi ensinado pelo padre Júlio Lancelotti, profeta nas ruas da cidade de São Paulo.

Em segundo lugar, direi ao amigo que é preciso recuperar a dimensão afetiva na profundidade e densidade originais. Deixar o coração falar. Não submeter-se aos caprichos e medos da razão tecnológica. O coração tem razões que a própria razão desconhece, disse Blaise Pascal. Isto significa que podemos reencontrar pela via do sentimento, da compaixão e do coração o caminho da visão e da contemplação. Este foi o caminho de alguns cegos feitos visionários. Pode-se recordar de Tirésias, de Tebas. Ficara cego, pois vira a nudez da deusa Atenas banhando-se e por ela é cegado como punição. Para consolar a mãe, a ninfa Chariclo, a deusa grega purificará os ouvidos de Tirésias de modo que este possa compreender a linguagem dos pássaros, e ainda com um bastão, guiar-se melhor que quando via e ainda receber o dom da profecia. Sua cegueira se metamorfoseia em vidência e clarividência. Vê o que os outros nem imaginam existir. Vê mesmo sem os olhos, pois tem ouvidos apurados, senso de futuro e, um olfato que sabe que há alguém presente mesmo sem ver. Os quatro sentidos (ou portais) são hipertrofiados para compensar o portal perdido. Este modo valente e visionário de curar cegueiras aprendi do deputado Adriano Diogo, presidente da Comissão da Verdade, homem construtor da justiça e da memória verdadeira.

Em terceiro lugar, é preciso retomar uma disciplina moral que evite o que é mau e tudo que se pareça com o mal. Assim ensinava o Catecismo dos primeiros cristãos: “Meu filho, não seja mentiroso, porque a mentira leva ao roubo. Não seja ávido de dinheiro, nem cobice a fama, porque os roubos nascem de todas estas coisas. Não se engrandeça a si mesmo, nem se entregue à insolência. Não se junte com os grandes, mas converse com os justos e pobres (Didaqué, São Paulo: Paulinas, 1989, p. 12-13)”. A cegueira moral é consequência de uma grande insensibilidade e orgulho. Ela é fruto da ignorância e negligência pessoais. Será preciso aquecer corações, e aplicar-se ao exercício do amor fraterno (1 Jo 2,11). Este modo de ver as pessoas sem orgulho, aprendi da irmã vicentina Helena Maria Rodrigues, hoje atuando no Instituto de Cegos Padre Chico, no bairro do Ipiranga.

Enfim, para sair deste redemoinho energético que suga esperanças e sonhos, é preciso assumir/reassumir valores existenciais. Para superar a neurose pessoal e política será preciso romper com o ego inflado, com o narcisismo doentio que vive do consumo voraz. É preciso valorizar o simples, o austero como ensina o líder tibetano Dalai Lama: “Siga os três erres: respeito por si mesmo; respeito pelos outros; responsabilidade por todas as suas ações”. Será preciso sair da ilha e lançar-se ao mar, assumindo os riscos da travessia humana, um náufrago pelo outro (FORTE, Bruno. Um pelo outro, São Paulo: Paulinas, 2006). Abrir-se ao braço estendido dos amigos para curtir um afago, sem preço, sem qualquer utilidade que não fosse a da pura gratuidade. É preciso ser criativo, e permitir-se o toque da compaixão. Ninguém pode ser guia de cegos, se permanece cego (Mt 23,24). O suborno cega e tira a nossa perspicácia (Ex 23,8). Restaurar a vista aos cegos está no núcleo da mensagem de Jesus (Lc 4,18 e Lc 7,22). Para voltar a ser um amigo sadio, feliz, prudente e discreto será preciso fazer um “transplante de córneas”! Ver com outros olhos. Conhecer a vida de outra maneira e com outra métrica. Como diziam os padres da igreja: é preciso fazer que o melhor seja a justa medida de nossa decisão moral e vital. E isto só pode ser feito em comunidade de amigos e irmãos. Ela pode ser o lugar básico para fazer surgir um novo olhar que supera a cegueira e a solidão.

Jesus nos dá uma bela lição em sua vida pública quando participa de uma ceia e nela ele faz alguns cegos morais mudarem seu preconceito. Assim consta do delicado relato do Evangelho de Lucas no capítulo 7. Jesus é convidado por um fariseu de nome Simão para cear com ele e seus convidados solenes. De forma imprevista surge na cena uma mulher reconhecida na cidade como pecadora. Ela entra sem convite, e em lugar de comer, fica beijando os pés de Jesus com lágrimas, perfume e amor (MONTES, Fernando. As perguntas de Jesus, São Paulo: Loyola, 2005). O anfitrião desdenha de Jesus, pois seu olhar estava contaminado por preconceitos e ódio. Simão era um cego moral como tantos no mundo da religião. Jesus interrompe a ceia e faz a pergunta radical: “Simão, vês esta mulher? (Lc 7,44)”. Na resposta dada a Jesus está o necessário transplante de córneas. Ao dar a boa resposta nasce a visão transparente e evangélica. Um novo olhar nítido e cristalino. Uma perspectiva nova a ser assumida. Ver com o olhar de Deus que é o olhar da compaixão. Ver como somos vistos por Deus. Jesus vê o humano para além das aparências, opções sexuais, sociais e de classe. Vê a ternura e a piedade. Vê o amor. Vê a dor e sente o toque frágil de quem clama por amor. Jesus vê como se entrelaçam a fraqueza e o amor. Será perdoado aquele que ama muito e amado quem perdoa muito. Jesus nos convida a higienizar pupilas e córneas. Jesus oferece o seu colírio e pede uma adesão personalizada. Quando enxergarmos com o coração, emergirá a visão penetrante dos mistérios humanos e divinos.

Publicado na revista O Mensageiro de Santo Antonio, edição de dezembro de 2014.