Matérias do SBT mostram violência policial contra moradores de rua
Reportagem do SBT mostra a violência da guarda civil metropolitana contra moradores de rua. Pe. Júlio participou da matéria.
Assista à segunda matéria sobre o caso:
Alexandre Nunes exclusão, GCM, guarda civil, povo da rua, violência
Reportagem do SBT mostra a violência da guarda civil metropolitana contra moradores de rua. Pe. Júlio participou da matéria.
Assista à segunda matéria sobre o caso:
editor criança, infância, violência
João Batista Libânio
A mídia nos estarreceu com a trágica notícia de um menino de 10 anos que atirou contra a professora e terminou suicidando-se. Que se passa com a sociedade em que uma criança chega a esse extremo?
A curiosidade explicativa vasculhará a família, a escola, os adultos próximos do menor. Os psicanalistas debruçar-se-ão sobre os seus possíveis traumas, sobre o íctus psicótico que o levou a essa loucura. Toda luz seja bem-vinda!
Enquanto isso, nos cabe observar por onde tem caminhado a cultura pós-moderna e como as crianças se inserem nela. Há muitos fatores culturais que nos alertam para eventuais repetições de gestos dessa natureza.
O próprio fato de estarmos escrevendo sobre ele, a publicidade que ele tem adquirido, o sensacionalismo da imprensa marrom, a provocação do impacto de tais fatos sobre a frágil fantasia das crianças correm o risco de acordar naquelas mal resolvidas ímpeto de lançar-se em aventura semelhante. Quanto mais alarde se dê a tais eventos, sobretudo no alcance imaginário das crianças, mais perigos lhes colocam na via.
Os fatos de agressão a diretores e professores nas escolas têm crescido, desde o desrespeito da agressão física até os casos de assassinatos. Isso tem acontecido por parte de alunos, de pais e de outros externos. Parece que a escola se tornou um objeto da violência agressiva da atual cultura ou do descaso do Estado, remunerando ridiculamente os profissionais da educação. Haja vista o caso de Minas Gerais, com longa greve dos professores em busca de mínimo de dignidade.
Voltemos à criança. Que fatores exercem sobre ela efeitos decisivos? Antes de tudo, a presença ou ausência de cuidado nos primeiros anos. A afetividade infantil acumula no profundo de seu ser as experiências positivas de cuidado, como energia para enfrentar a agressividade da vida. Pelo contrário, quando esse lhe falta, torna-se terrivelmente vulnerável à oscilação dos afetos. A bipolaridade se expressa com facilidade por carecer da base sólida do carinho e cuidado materno e paterno dos inícios.
Nunca se insiste demais na importância de tal cuidado para estruturar sadiamente a afetividade. Some-se a esse fato a formação do imaginário infantil. Aqui o papel da sociedade se torna decisivo.
Em vez de incentivar as crianças a viverem a infância na alegria das brincadeiras inocentes com primos e coleguinhas, a mídia tem-lhe povoado a imaginação de vídeos violentos, de horas inativas em face da TV ou do computador. As redes sociais, na infinidade incontrolável de sugestões, incentivos, provocações, têm arruinado em muitas crianças a ingenuidade dos brinquedos. Elas, na verdade, não brincam. Fazem-se adultos precoces. E então se põem a praticar atos de violência que já lhes frequentaram mil vezes a fantasia. Que alguma daquelas imagens se torne realidade não lhes custa muito. Basta um descuido dos pais, e eis o que vimos em São Paulo!
Se a tranquila Noruega se preocupou com os vídeos que açulam violência depois da loucura de Anders, já adulto, que dizer daqueles que batem sobre a imaginação infantil? Os filhos presos à internet enganam os pais quando pensam que eles então tranquilos e seguros. E talvez nesses momentos estejam a preparar alguma tormenta amanhã.
editor 11 de setembro, atentado, paz, perdão, violência, World Trade Center, WTC
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Creio que não há ninguém que não se recorde onde estava e o que fazia no dia 11 de setembro de 2001, há dez anos. Assim como aconteceu com outros fatos marcantes da história recente: o dia do assassinato de Kennedy, por exemplo; ou do atentado à vida do Papa João Paulo II.
Lembro bem de todos. Mas do último especialmente. Minha filha mais velha trabalhava em um banco em plena Manhattan. Meu filho fazia mestrado em Georgetown, Washington DC. Eu participava de um seminário de mística comparada em Juiz de Fora, no delicioso e sossegado seminário da Floresta. Reunidos estudantes de pós-graduação, pesquisadores e professores de várias universidades, refletíamos sobre os textos dos grandes místicos cristãos, sufis, judeus e hinduístas.
E, de repente, o telefonema de meu marido, chamando do Rio de Janeiro, ao meio dia. Fui atender com o coração meio apertado. Ele raramente me chama no meio de um dia de trabalho. Atendi…mas não entendi. Ele dava explicações sobre já haver falado com nossos dois filhos e que estavam todos bem etc… Eu ouvia calada, enquanto me perguntava: Mas por que não estariam bem, meu Deus? Foi quando passei do silêncio à pergunta direta.
Sua resposta veio em tom de indignação: O mundo está caindo e você não sabe de nada? Não sabia realmente. Ali não temos televisão e o telefone é escasso. Os celulares pegam mal, o sinal é baixo. Estávamos realmente protegidos, até aquele instante, da terrível notícia que dividia a história contemporânea do Ocidente entre um despreocupado e algo arrogante antes e um traumático e apavorante depois. O centro do império americano fora atacado de maneira inesperada e trágica. As duas torres gêmeas do World Trade Center, símbolo fálico do poderio econômico e financeiro estadunidense, esfacelavam-se sob os olhos atônitos da população mundial, deixando 3 mil vítimas.
Durante estes dez anos que se seguiram, não paramos de referir-nos a esse acontecimento que feriu de morte o início do novo milênio e do recém estreado século XXI. Com várias atitudes e reações diferentes, em ampla gama emocional, indo desde a revanche até o dom solidário da vida e o gesto edificante do perdão gratuito e digno. Em meio a este turbilhão de sentimentos e emoções, registro a minha: o não entendimento.
Há certas coisas na história humana que não entendo, como, por exemplo, que uma ideologia absurda e ensandecida consiga firmar-se a ponto de enviar para a morte certa e cruel seis milhões de pessoas. A Shoa, o holocausto nazista da segunda guerra mundial, sempre foi um mistério para mim. Quanto mais leio e estudo os dados objetivos que a história e a ciência política nos fornecem, menos entendo. Como é possível que o ser humano seja tão cruel e predador? Como é possível que a consigna de eliminar da face da terra todo um povo possa prevalecer e ser justificada por tanta gente? Como é possível que isto tenha de fato acontecido?
Com o macabro acontecimento de dez anos atrás passa-se o mesmo. Estudam-se as hipóteses, sobre elas se reflete, algumas parecem mais verossímeis que outras. Mas confesso que custo a entender como seres humanos acabam com sua vida e a de várias outras pessoas inocentes daquela maneira? Como é possível que aquilo tenha realmente acontecido? Como a violência humana pode chegar a este ponto e manifestar-se com tal requinte e brutalidade?
Hoje, dez anos depois, essa perplexidade continua a acompanhar-me. De posse de outros elementos acumulados ao longo desta década creio poder chegar a algumas conclusões. E uma delas é verificar que a vingança e a revanche não levam a nada nem nada previnem. As guerras unilaterais desfechadas pela nação agredida contra várias outras só fez aumentar e perpetuar o mar de sangue que o ataque às Torres Gêmeas inaugurou de forma tão sombria. Conseguiram apenas que o sangue derramado em Nova York e Washington agora corra como caudaloso rio no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque.
Assim como dos escombros da Shoa emergiu um novo discurso sobre Deus que o identifica com as vítimas e o revela como salvador de todos, inclusive dos carrascos, também pode acontecer algo parecido com as cinzas do 11 de setembro. Urge aprender as lições do evento para encontrar um novo discurso e, sobretudo, uma nova práxis – feita de perdão e misericórdia – capaz de varrer da história humana a violência assassina que a todos vitima e agride toda forma de vida. Mais do que perguntar onde estávamos há dez anos, talvez mais urgente seja perguntar onde estamos agora e o que estamos fazendo concretamente para construir a paz.
João Batista Libânio
A violência lança raízes no coração humano. Os seres de suave índole, como Francisco de Assis, não matam nem uma mosca. Podem viver em mar de conflitos e nunca recorrerão à violência. Infelizmente os Fransciscos rareiam cada vez mais. Por sua vez, Hobbes parece ter mais razão, ao afirmar que “homo homini lupus” – o ser humano é lobo para outro ser humano. Ele faz ressoar versos do poeta latino Plauto na sua obra “Asinaria”, em que acrescenta: “somos advertidos para que tomemos cuidado em face do ser humano, como diante de um lobo”.
Os poetas intuem e alcançam o âmago do ser humano, sobre o qual políticos e sociólogos teorizam. Já nos inícios da humanidade, na poética e maravilhosa narração bíblica, de enorme perspicácia humana, o idílio esponsal entre Adão e Eva durou muito pouco. A nudez, o ser criado à imagem e semelhança de Deus, o ouvir os passos de Deus pelo jardim à brisa da tarde, o senhorio deslumbrante sobre toda a natureza, revelam a aura de harmonia do paraíso, logo desfeita. Veio a cena em que ambos comem do fruto proibido. E imediatamente o homem e a mulher se culpam, mutuamente. Já está aí a raiz da violência entre cônjuges.
A história desenha quadro infelizmente paradigmático. Os filhos Caim e Abel disputam até o assassinato. E depois segue triste história de crimes, de violência, de que Lamec se torna símbolo. Vejam que versos compôs para suas mulheres: “Matei um homem por uma ferida, um jovem por causa de um arranhão. Se Caim for vingado sete vezes, Lamec o será setenta e sete vezes” (Gênese 4,23). Está implantada a violência das violências, até terminar com o dilúvio. E, depois, tudo é retomado de novo.
Quando lemos essas páginas iniciais da Escritura, não como história que as ciências desmontaram, mas como revelação da raiz mesma da natureza humana, espantamo-nos com o alcance dos ensinamentos. Mais de dois mil anos depois, os nazistas repetiram Lamec, matando dez civis por um soldado morto em alguma emboscada, nas regiões dominadas. Esposos se acusam mutuamente nos cartórios, filhos disputam sangrentamente heranças e a violência campeia por todos os lados.
Ela não data de hoje. Não se funda em causas extrínsecas, mas dorme no interior de cada ser humano. Quem já esqueceu de Anders Breivik, que metralhou jovens em acampamento? E que dizer dos crimes das câmaras de gás, dos campos de concentração, das bombas atômicas lançadas pelos americanos? E as contínuas guerras, agressões armadas que atravessam os séculos e chegam até nós com requintes de violência?
Fica a pergunta: como um ser dito humano é capaz de planejar tanta barbaridade? Nem faltam crimes tramados em altas esferas por pessoas ilustradas e adestradas em universidades de alto reconhecimento acadêmico. Enquanto não movermos o coração para sentimentos humanos de beleza e de transcendência, dificilmente baixaremos o nível de violência.
editor corrupção policial, crime organizado, juíza, justiça, Patrícia Acioli, UPPS, violência
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Difícil acreditar que aquela mulher quase menina, com cabelos longos pretos, lisos e franja pudesse ser uma juíza, responsável pelo cumprimento da lei e emissora de sentenças sobre perigosos bandidos. Pois Patrícia Acioli assim o era. Reconhecida pelos pares, temida por seus juízos severos e sem contemplação, sobretudo com o crime organizado.
A juíza do “martelo de ferro” ou “martelo pesado” como era conhecida ignorava o sentimento do medo. Nem recuava diante do crime. Mais implacável ainda quando os réus em questão eram policiais. Em sua lógica de juíza, magistrado que tem por função ministrar a Justiça, à semelhança de desembargadores e ministros, Patrícia não titubeava em desempenhar sua função.
Conhecida como uma “juíza inflexível”, que durante a última década condenou cerca de 60 policiais envolvidos em esquadrões da morte e milícias, Patrícia costumava pedir a pena máxima quando os acusados eram policiais. Não tolerava o fato de que aqueles que tinham como dever defender a vida e as pessoas passassem a atacá-la, agredi-la, exterminá-la, no descumprimento abusivo da lei.
Era uma servidora pública da justiça e como tal agia. Todas as tentativas de fazê-la “aliviar” sentenças ou tornar mais leves penas aplicadas a membros do crime organizado foram em vão. O martelo se abatia, pesado, manejado pela juíza destemida e incansável no desempenho de seu serviço. Pois não é este o significado da palavra “ministério”?
Essa trajetória implacável foi interrompida por uma saraivada de 21 tiros desfechada com a descarga do ódio e da vingança que explodia em fúria contra o destemor persistente e firme de Patrícia. A família, os filhos, os amigos ainda não conseguiram sair de seu estupor com a bárbara execução. E o estado do Rio de Janeiro treme, assustado com o fato e seus desdobramentos e significado.
Várias análises foram feitas sobre o brutal assassinato. Entre elas, destaca-se a avaliação da Anistia Internacional, que aponta quem verdadeiramente perde com o desaparecimento da juíza. “O assassinato de um juiz por homens armados destaca os profundos problemas da cidade com a corrupção policial e o crime organizado.” E segue: “A morte de um juiz que estava simplesmente realizando seu dever desferiu um duro golpe sobre o Estado de Direito e o sistema judicial no Brasil”.
Quando a justiça é silenciada a tiros, quem defenderá a lei e zelará pela segurança de um povo? Calando a voz de Patrícia Acioli, o crime organizado no Rio avança e ganha terreno. E quem perde é a população, cada vez mais acuada e temerosa de até onde podem chegar os agentes do terror que não se consegue conter. A corrupção avança e o desembaraço dos bandidos também. Não tendo nada a perder, eles não hesitam diante dos assassinatos sumários, como o da juíza, para amedrontar a população e acuar a polícia e a justiça.
O governo do Estado prometeu medidas enérgicas e rápidas para prender e punir os responsáveis pelo crime. A família espera uma solução. Assim também o povo. Espera-se sobretudo que não tenha que morrer violentamente mais um magistrado. Ou dois. Ou mais. Sobretudo que isso não aconteça porque a apuração do crime se arrasta, morosa e pouco eficaz.
O otimismo gerado na população carioca e fluminense pelo estabelecimento das UPPs e sua aparente eficácia em pacificar morros e comunidades antes atingidas pela violência recebeu golpe mortal com a execução da juíza. A corrupção da polícia encontra-se exposta e aberta como ferida purulenta nas entranhas da cidade e do estado.
Enquanto isso, a vida privada da juíza é devassada, exposta à indiscrição pública, comentada nas esquinas. Que importa quem era ou não seu namorado? Em que influi no perfil do caso se a juíza namorava ou não um policial?
O que importa, o que horroriza, o que amedronta e causa indignação é que matando Patrícia, o crime expôs seu rosto. E ele é feio, medonho. Odeia a justiça e quer silenciá-la por qualquer meio, não importa quão escuso seja. Ontem foi a juíza Patrícia Acioli. Amanhã poderá ser outro ou outra. Quando os juízes, servidores da lei, encontram-se indefesos e ameaçados, a segurança passa a ser verdade desejada e inexistente no horizonte vital de um povo.
editor Bento XVI, JMJ, Jornada Mundial da Juventude, Londres, Madrid, violência
D. Odilo Scherer
Nos dias 16 a 21 de agosto, será realizada em Madrid mais uma Jornada Mundial da Juventude. Promovida pelo Pontifício Conselho para os Leigos e pelas Conferências Episcopais e dioceses dos países escolhidos para sediar a Jornada, ela acontece a cada 2 ou 3 anos. Em 2008, foi em Sidney, na Austrália.
Madrid será tomada por uma grande multidão de jovens oriundos de todo o mundo; ali também chegará o Papa Bento XVI, no dia 18 de agosto. Mais de 16 mil jovens do Brasil já estão de malas prontas para viajar para a Espanha; levam no coração a esperança de que o Papa anuncie, no final do encontro, o Brasil como país sede da próxima Jornada. A Conferência dos Bispos do Brasil manifestou este desejo ao Papa.
Foi João Paulo II que teve a iniciativa das Jornadas Mundiais da Juventude, com o objetivo de estabelecer uma nova interação da Igreja Católica com a juventude; isso tem se mostrado eficaz pois, além dos jovens participantes nesses encontros, muitos outros são envolvidos por iniciativas promovidas nos respectivos países, antes, durante e depois das Jornadas. A mensagem passada em cada Jornada acaba alcançando um número incalculável de jovens.
Nos próximos dias, Madrid será a “capital mundial da juventude”! Vindos de cerca de 170 países, dos mais variados povos, culturas, raças e línguas, os jovens confraternizarão, partilharão experiências e alegrias, contando suas histórias e expressando a riqueza cultural e religiosa de seus povos. No programa, terão celebrações religiosas e reflexões sobre o significado da fé cristã para o convívio social e para a edificação de seu futuro; mas também haverá muita manifestação cultural e oferta de oportunidades para descortinar horizontes novos na vida e para perceber o mundo a partir do horizonte que outros jovens têm.
Será uma verdadeira experiência de globalização a partir de valores compartilhados, onde as diferenças não dividem nem distanciam, mas somam e ajudam a compreender que, no fundo, as buscas mais imperiosas, os desejos mais ardentes e os valores mais genuínos de cada um são os mesmos de outros jovens também, em todo o mundo. Em Madrid, será facilmente perceptível que a humanidade é, de fato, uma única grande família, com laços comuns, na qual todos são chamados a se irmanar, respeitar e conviver em paz, ajudando-se reciprocamente na edificação de um mundo bom para todos.
A ocasião é oportuna para uma reflexão sobre o que é oferecido hoje às novas gerações, em vista do seu futuro; afinal, é sobre elas que os adultos precisam investir, pensando no amanhã da sociedade e da humanidade. Impressiona-me, por vezes, encontrar jovens sem projeto para a vida, que rejeitam a idéia de casar, constituir família, ter filhos… Impressiona-me ainda mais ver tantos jovens entregues ao consumo de drogas que matam, ou envolvidos em organizações à margem da lei e da sociedade, bem conscientes de que sua vida está sempre por um fio! E quantas vidas em flor são queimadas, como “arquivos” incômodos ou inúteis, depois de terem sido usados inescrupulosamente?! A “mortalidade juvenil” é impressionante!
Alguém observou que os recentes tumultos de Londres mostrariam a “frustração nihilista de jovens urbanos” (O Estado de São Paulo, 10.08, A14). Vemos jovens sem perspectivas de futuro, movendo-se na vida em terrenos movediços, sem convicções nem bases para edificar a existência, para os quais o horizonte se fecha por inteiro sobre o instante fugaz de um gozo passageiro! Lembramos ainda de Amy Winehouse?
É culpa dos jovens? Seria muito cômodo apenas criticar os jovens. É preciso indagar sobre aquilo que lhes é oferecido na educação e na cultura que consomem todos os dias. Em quais fontes bebem para matar sua sede? As bases para os jovens edificarem suas vidas não são postas por eles, mas pela geração adulta e pelo ambiente em que vivem. Como os jovens são preparados para assumirem seu lugar na sociedade, no mundo do trabalho e das responsabilidades sociais? Dados do Centro de Atendimento ao Trabalhador (CEAT) mostram que de cada 4 empregos disponíveis, apenas um é efetivamente ocupado: os candidatos que se apresentam não estão preparados para assumir o posto em oferta! E é jovem a maioria dos candidatos! Sem dúvida, é preocupante. Boa parte deles pode estar perdendo o bonde da história.
Olhemos ainda para um outro aspecto da realidade, que interessa aos jovens. Certezas duradouras estão fora de moda! Vivemos tempos de superficialidade, de coisas descartáveis, de modismos passageiros e novidades “vantajosas”, que suplantam a toda hora as convicções. As coisas valem na medida em que são consumíveis, de acordo com o apetite que podem despertar e satisfazer. O consumismo tomou conta também da cultura e dos comportamentos e se aplica ao próprio ser humano; e tende a invadir o campo das certezas morais e da religião. O subjetivismo e o relativismo produziram uma profunda crise de valores e de referenciais para os jovens. A norma é o politicamente correto, mesmo que esteja desprovido de verdade e de valores! “Ah, esses moços, pobres moços!”
Os jovens, por natureza, estão projetados para o futuro e têm o direito de sonhar com um mundo melhor, com perspectivas consistentes. Alimentar a sua esperança é tarefa da geração dos adultos, de toda a sociedade. As Jornadas da Juventude querem ser uma contribuição para isso, apontando para os jovens as bases sólidas do Evangelho de Cristo, para que possam edificar sobre elas seu futuro e se enraizar profundamente nos princípios que o Cristianismo: o respeito profundo pela dignidade de cada pessoa, a colaboração e a partilha, a fraternidade, a justiça e a paz. A Jornada de Madrid será uma amostra disso.
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Rose Nogueira
Faz cinco anos e tudo ainda é inacreditável. Em uma semana que começou com o Dia das Mães, 493 pessoas, comprovadamente, foram assassinadas por arma de fogo em São Paulo – uma grande parte delas com os sinais clássicos de execução. Tiros de cima para baixo, nas costas, na nuca, na testa, no peito. Atiraram para matar.
Diante desse número escabroso, só aquelas pessoas muito especiais teriam a força de transformar sua dor em coragem santa: as mães que perderam seus filhos. Elas relatam seu sofrimento no livro Do Luto à Luta – Mães de Maio, lançado no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Do total de mortos, 352 eram jovens, de 11 a 29 anos, homens na quase totalidade. Mulheres foram 18, uma delas grávida de nove meses, prestes a dar à luz. A menina, ainda na barriga da mãe, também foi baleada. Um tiro pegou no seu joelhinho. E ela, mesmo dentro do aconchego do ventre da mãe, levou a mãozinha ao joelho, como se sentisse a dor no local. No laudo oficial, a menina morreu por “insuficiência materna”, e não pelos tiros. A mãe não pode lhe garantir a vida porque morreu na hora, baleada também na cabeça. A menina já tinha nome. Seria Bianca, filha de Ana Paula, que era filha de Vera. E seu pai, que seguia pela calçada ao lado da mãe, também recebeu a carga de balas do mesmo assassino – ou assassinos.
Esse é um dos quase 500 casos daquela semana de cinco anos atrás, e sozinho já seria um escândalo por ultrapassar a barreira do desumano. Aconteceu em São Vicente, na Baixada Santista, onde também morreu Edson Rogério, filho de Débora, que teve o contra-cheque do salário que carregava no bolso manchado de sangue do tiro no peito. Ele abastecia sua moto num posto de gasolina quando os homens vestidos de preto, com máscaras ninja, chegaram e deram cabo de toda vida que houvesse por perto.
A morte por bala de calibre grosso em maio de 2006 encobriu a vida nas periferias e nos bairros mais pobres da capital, mas também de algumas cidades médias e grandes de São Paulo. Citamos dois casos horríveis da Baixada Santista porque lá fatos parecidos voltaram a acontecer no ano passado e agora nos últimos dias.
De comum, e chamou atenção, todos os lugares em que ocorreram os crimes eram pobres e todas as pessoas que morreram eram pobres, a maioria lutando pela sobrevivência. Os agentes do Estado assassinados eram soldados, investigadores de delegacias de bairro, guardas municipais, carcereiros e um bombeiro, servidores que também lutavam para viver. Segundo a polícia, foram 41. Os “outros”, os simples cidadãos que foram mortos apenas pelo fato de cruzarem com assassinos, são mais de 450. Impossível não lembrar que todos, os quase 500, um dia pesaram três quilos, foram abraçados ao nascer e mamaram numa mulher. Todos tinham os direitos garantidos, simplesmente porque um dia foram crianças que fizeram graça, meninos que foram à escola, adolescentes que se apaixonaram, homens e mulheres que talvez sonhassem – e tinham o direito de continuar vivos. Eram seres humanos.
Matou-se em São Paulo naquela semana de 2006 mais do que se mata nas guerras. Na noite de 15 de maio o toque de recolher foi uma realidade. Nunca uma notícia se espalhou tão depressa: “quem estiver na rua à noite corre perigo de vida”, informava o boca-a-boca. Escolas suspenderam as aulas, lojas, oficinas e fábricas dispensaram seus funcionários e São Paulo teve o maior congestionamento do ano às quatro da tarde, um dos poucos horários calmos no trânsito caótico da cidade. No dia seguinte a conta foi alta: a madrugada teve 117 mortos. Quem era o mocinho, quem era o bandido? Que guerra foi essa onde o que restava de humanidade se perdia no medo? A cada dia, as manchetes dos jornais informavam com a naturalidade de quem já se acostumava à barbárie: “Polícia mata mais 90 suspeitos”… como se matar suspeitos fosse normal e permitido.
A perplexidade ainda permanece. A única palavra possível para tal perda de controle do Estado é justiça. Que seja federal, porque não podemos acreditar como de bom senso o “arquive-se”, que tem se repetido. O caminho racional é a federalização dos crimes de tortura, execução sumária e desaparecimento forçado, que continuam a acontecer em grandes proporções. É o caso da Baixada Santista.
No ano passado, em apenas alguns dias do mês de abril, quando também houve o “toque de recolher”, 26 pessoas foram executadas em Santos, Guarujá, São Vicente, Cubatão e Praia Grande. A matança só parou quando uma autoridade diplomática dos Estados Unidos aconselhou aos cidadãos de seu país que não fizessem turismo por lá, pois nada poderia garantir suas vidas. Quase vinte policiais militares foram presos, suspeitos de participação em grupos de execução, mas foram soltos em seguida. Não sabemos como andam os inquéritos.
Neste ano, novamente em abril, motos com homens vestidos de preto e máscara ninja passam atirando, ferindo e matando. Em Santos, na semana passada, a câmera de segurança de um prédio flagrou uma execução, com o motorista de um carro chamando dois homens de meia-idade, como se pedisse uma informação. Ao se dirigir ao motorista os dois foram baleados no meio da rua. Um morreu na hora, o outro ficou gravemente ferido. As imagens foram parar no noticiário das TVs pela manhã.
O que isso representa, além da perversidade? Continuamos indignados. É que somos da espécie humana e diante da impunidade que gera impunidade só podemos ter uma certeza: ficamos muito menores diante de cada tragédia dessas. Quem nos dá um pouco de grandeza ainda são as Mães de Maio. Benditas mulheres! Benditas mães!
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D. Odilo Pedro Scherer
Na semana passada, a cidade de São Paulo foi manchada por mais uma chacina brutal e pelo assassinato cruel de dois moradores de rua, queimados com suas carroças para recolher material reciclável. Não sei se moravam no Bairro do Brás, mas foi lá que aconteceu.
Esses tristes casos se somam à infindável lista de violências contra a pessoa em nossa cidade. E aumentam a conta já extensa de agressões contra moradores de rua. Em agosto de 2004, sete moradores de rua foram assassinados no centro da nossa metrópole; depois de sete anos, aquele massacre ainda não foi elucidado e resolvido pela Justiça.
Coisa parecida acontece com o caso dos seis moradores de rua exterminados no Bairro do Jaçanã, em maio do ano passado, e com tantos outros fatos de violência contra essa parcela da população marginalizada e já tão sofrida. Será que desta vez os culpados vão ser identificados e chamados a prestar contas à Justiça?
A impunidade acaba estimulando mais violência contra os moradores de rua, esquecidos das políticas de segurança pública, desinteressantes para a economia, socialmente invisíveis, talvez até sem documentos, um problema para a limpeza da cidade…
Machucá-los, feri-los, por que não?
Matá-los, qual é o problema? Sua morte nem desperta especial reação na opinião pública.
Mataram mais dois moradores de rua, e daí?!
A Arquidiocese de São Paulo protesta contra esse descaso e manifesta sua solidariedade a todas as vítimas da violência, quaisquer que elas sejam. O Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua tem a preocupação de oferecer a essa parcela da população em situação de risco a assistência humana, social e religiosa de que necessita; vários grupos cuidam da saúde e da alimentação, outros assumem a sua defesa contra agressões e violências; alguns não hesitam em passar as noites ao relento, nos lugares onde essas pessoas dormem, para protegê-las.
A violência é um dos maiores desafios da sociedade atual, gerando intranquilidade e ameaçando a paz. Ela impregna todo o tecido social e, por vezes, assume contornos de insensível crueldade. Todos os tipos de violência merecem a nossa mais decidida rejeição.
Há a violência, geralmente aceita de forma resignada, das injustiças sociais e econômicas, que negam vida digna a milhões de pessoas; pobreza extrema e miséria absoluta ainda persistem, camufladas pelos dados ufanistas do crescimento econômico nacional. Esta violência dói tanto mais porque golpeia duramente os órfãos do progresso, gente de todas as idades, mas especialmente crianças, não lhes permitindo um pleno desenvolvimento físico, intelectual e social.
Sem esquecer os horrores da guerra, pensemos na violência do crime organizado, nutrida por enormes interesses econômicos vindos do contrabando, do tráfico de drogas e de pessoas. Há também a violência doméstica, nas escolas, nos ambientes de trabalho e no esporte… E ainda as violências “corriqueiras” de todo dia, físicas, psicológicas e morais, que não ganham espaço na mídia. A violência avilta, machuca, amedronta, cerceia a liberdade, intoxica o convívio social, mata, entristece, envergonha!
Não bastasse o quadro assustador da violência, temos de constatar ainda a sua cínica e doentia espetacularização, como forma de garantir audiência, em certos meios de comunicação. Afinal, aonde queremos chegar?
Se a violência é comparável a um tumor, admitamos que a cultura e a sociedade do nosso tempo estão gravemente enfermas, precisam fazer um exame crítico rigoroso dos fatos e submeter-se a sérias terapias…
As diversas formas de violência desafiam as autoridades para uma ampla reflexão sobre o seu significado político e para a promoção de medidas preventivas capazes de coibir e punir os atos violentos e de promover um convívio respeitoso e pacífico. Há uma justa preocupação pela promoção do progresso econômico e para que o bem-estar chegue a todos. Mas, pergunto, onde estão as políticas de incentivo à formação humana, ética e cidadã? Cuidamos da economia e descuidamos das pessoas! Onde estão as iniciativas para um saneamento da cultura da violência e para a afirmação dos princípios básicos da dignidade humana e dos seus direitos mais elementares? Pode-se matar uma pessoa, morador de rua ou quem quer que seja, como se mataria uma barata?
Mas não basta a ação preventiva ou repressiva do Estado: toda a sociedade precisa fazer a sua parte. Violentos prosperam onde o ambiente lhes é propício… Há um vazio, ou a falta de afirmação de valores essenciais para o convívio social na cultura contemporânea; o individualismo subjetivista reinante privatizou os parâmetros da civilidade e da conduta pessoal e favorece a explosão da violência, como forma de relação social. A civilização perde e retrocede toda vez que a violência consegue impregnar a cultura, qual tumor maligno.
Penso que caberia um pacto contra a violência que começasse pela educação das crianças no lar e na escola e passasse por várias iniciativas comunitárias, como a campanha pelo desarmamento, as manifestações públicas de desaprovação dos fatos e espetáculos de violência e a educação para o diálogo, o respeito pela ética e pela dignidade humana.
Ninguém está livre da violência por habitar em condomínios fechados, vigiados, atrás de altas grades diante da casa e de cercas eletrificadas… Para não ser a próxima vítima cada um deve tornar-se um educador para a paz e participante de um grande mutirão para acordar as consciências, empenhado na rejeição de toda forma de violência.
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Frei Betto
Doze adolescentes, de 13 a 15 anos, foram cruelmente assassinados, a 7 de abril, nas salas de aula de uma escola de Realengo, Rio. Outras tantas ficaram feridas. O criminoso, de 23 anos, disparou na própria cabeça a 66ª bala saída de seus dois revólveres.
Massacre como este nunca havia ocorrido no Brasil. São frequentes nos EUA. E enchem o prato da mídia em busca de audiência. A cada telejornal, reaparecem as fotos das crianças, o depoimento de parentes e amigos, os sonhos que nutriam…
Em Antígona, de Sófocles (496-405 a.C.), a mulher que dá nome à peça rebela-se contra o Estado que a proíbe de sepultar seu irmão. Hoje, a exploração midiática torna os corpos insepultos. As famílias das crianças sacrificadas, ontem no anonimato, agora ocupam manchetes e são alvos de holofotes. É a morte como sucesso de público!
O assassino foi o único culpado? Tudo decorreu de um “monstro” movido por transtornos mentais? A sociedade que engendra esse tipo de pessoa não tem nenhuma responsabilidade?
Um gesto brutal como o do rapaz que matou à queima-roupa 11 meninas e 1 menino não é fruto de geração espontânea. Há um histórico de distúrbios familiares, humilhações escolares (bulliyng) e discriminações sociais, indiferença de adultos frente a uma criança com notórios sinais de desajustes.
Quando pais têm mais tempo para dedicar à internet e aos negócios que aos filhos; adolescentes ingerem bebida alcoólica misturada a energéticos; alunos ameaçam professores; crianças se recusam a dar lugar no ônibus aos mais velhos… o sinal vermelho acende e o alarme deveria soar.
O que esperar de uma sociedade que exalta a criminalidade, os mafiosos, a violência, através de filmes e programas de TV, e quase nunca valoriza quem luta pela paz, é solidário aos pobres, trabalha anonimamente em favelas para, através do teatro e da música, salvar crianças de situações de risco?
Há anos acompanho o trabalho do Grupo Tear de Dança, que congrega jovens de baixa renda da zona Norte do Rio. Embora seus espetáculos sejam de boa qualidade artística, sei bem das imensas dificuldades de patrocínio, de divulgação, de espaço na mídia para noticiar suas apresentações.
É triste e preocupante ver o talento de um jovem bailarino se perder porque, premido pela necessidade, ele deve retornar ao trabalho de ajudante de pedreiro ou, a bailarina, de vendedora ambulante.
Como evitar novos massacres semelhantes ao de Realengo? Quase dois terços dos eleitores brasileiros aprovaram, no plebiscito de 2005, o comércio de armas. As lojas vendem armas de brinquedo presenteadas às crianças. Os videogames ensinam como se tornar assassino virtual.
Há no Brasil 14 milhões de armas em mãos de civis, das quais metade ilegais, como as duas que portava o assassino dos alunos da escola Tasso da Silveira.
Segundo o deputado Marcelo Freixo (PSOL), existem no estado do Rio 805 mil armas em mãos de civis, da quais 581 mil são ilegais, muitas em mãos de bandidos. “O cidadão que compra uma arma para ter em casa, pensando em se proteger, acaba armando os criminosos”, afirmou no Rio o delegado Anderson Bichara, da Delegacia de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas.
Como dar um basta à violência se o Instituto Nobel da Noruega concede o prêmio da Paz a guerreiros como Henry Kissinger, Menachem Begin, Shimon Peres e Barack Obama?
Monstro é tão-somente quem entra armado numa escola, num supermercado, num cinema, e mata a esmo? Como qualificar a decisão do governo dos EUA de, após vencer a guerra contra a Alemanha e o Japão, jogar a bomba atômica sobre a pacífica população de Hiroshima, a 6 de agosto de 1945 (140 mil mortos), e três dias depois outra bomba atômica sobre a população de Nagasaki (80 mil mortos)?
Hitler e Stalin também podem ser qualificados de “monstros” e seus crimes são sobejamente conhecidos. Mas não há uma certa domesticação de nossas consciências e sensibilidades quando somos coniventes, ainda que por inação ou omissão, frente ao massacre dos povos iraquiano, afegão e líbio?
A paz jamais virá como resultado do equilíbrio de forças. Há nove séculos o profeta Isaías alertou-nos: ela só vigorará como fruto de justiça.
Mas quem tem ouvidos para ouvir?
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Maria Clara Bingemer
Infelizmente não se trata do belo chorinho de Waldir Azevedo. Nem de nada que a isso se assemelhe. A não ser o vocábulo “choro”, que na obra de Waldir significa graça, molejo e dança ritmada . Mas no triste assunto que aqui nos ocupa “choro” quer dizer pranto desesperado, dor inconsolável de famílias inteiras e legiões de amigos. Na verdade, de toda uma cidade, um país. “Choro” era o que embargava a voz da presidente Dilma Roussef ao se referir às jovens vítimas do ataque de Realengo: brasileirinhos. Pequenos, jovens, indefesos cidadãos retirados da vida tão cedo.
A morte dos doze adolescentes – crianças ensaiando o rito de passagem para a idade adulta – feridos de morte pela fúria desenfreada de um psicopata na escola Tasso da Silveira em Realengo, Rio de Janeiro, passará à história como um dos episódios mais dilacerantes que o Rio já viveu.
Começou cedo naquela manhã. Ouvia-se falar de Realengo, ligava-se a televisão e lá estava. O espetáculo era desolador e macabro. Policiais tentando conter pais, parentes e amigos dos alunos da escola com um inútil cordão de isolamento. E a tragédia acontecida minutos, horas antes ainda sem explicação nem esclarecimento. E as mães, com olhar esgazeado, queriam informação sobre onde estavam seus filhos. De suas gargantas saía aquela voz deformada pela dor que quer saber e ao mesmo tempo não quer.
Dos doze mortos, dez eram meninas. Bonitas, cabelos longos, graciosas e charmosas. Estreando a feminilidade, vivendo os primeiros amores. O assassino mirou em sua face, em seu pescoço, no centro de sua beleza. Queria desfigurá-las, destruí-las. O reconhecimento dos corpos pelos pais era difícil. Dor sobre dor aconteceu no IML. A carta deixada pelo assassino permite entrever traumas profundíssimos, um psiquismo absolutamente tenebroso onde o único lampejo de afeto se dirige à mãe adotiva junto à qual pede para ser enterrado.
Estaria na morte da mãe a raiz do seu aparente ódio pelo outro sexo? Ou nos retorcidos e obscuros elementos religiosos relativos a purezas e toques deixados no seu testamento? Não importa agora. Ao menos não importa tanto quanto o fato de que um desequilibrado neste nível conseguiu levar armas e munição abundante para perpetrar seu bárbaro crime. Mais: aparelhos sofisticados para acelerar a recarga das armas que pretendia descarregar integralmente sobre suas vítimas.
No passado recente de Wellington Menezes, uma solidão sempre mais profunda, um isolamento em uma casa distante do bairro onde cresceu e da escola onde estudou. Barba longa cortada poucos dias antes do crime. Horas e horas na internet e na TV. Horas e horas onde sua doença ia crescendo, tornando-se mais e mais grave, até explodir na matança caótica do último dia 7 de abril.
A tentativa de rastrear o porte de armas com as quais matou as doze crianças e feriu outras tantas identificou uma pessoa de quem a arma fora roubada. Como Wellington a terá obtido? E a farta munição que carregava em sua mochila e que usou para atirar a torto e a direito, matando e ferindo? Isso é o que importa saber. Não tanto para expô-lo mais e mais à execração pública. Não tanto para morbidamente fazer as famílias já tão golpeadas viver e reviver uma e outra vez a tragédia que para sempre marcará suas vidas. Mas sim para retomar uma discussão que o Brasil espera e necessita e que foi interrompida em 2005.
O plebiscito do desarmamento, acontecido há seis anos, levava consigo uma consistente esperança de que o porte de armas livre fosse abolido no país. Muitas pessoas, grupos e instituições que lutam pela paz fizeram campanha, se empenharam e lutaram. Mas o resultado foi uma derrota fragorosa nas urnas. Ganhou o lobby da indústria armamentista, o medo de pessoas que ainda crêem que estão mais seguras contra a violência possuindo as armas que multiplicam e perpetram a mesma violência que temem, apesar de todas as explicações e provas em contrário.
No entanto, a tragédia de Realengo tem que trazer de volta a discussão e gerar um novo referendo. Não é possível que armas trafeguem livremente pelas mãos de assassinos, doentes, perversos, ceifando vidas e destruindo o futuro da cidade e da nação. Retomar a luta pelo desarmamento é, a partir da última quinta-feira, obrigação de todo brasileiro. A memória dos doze brasileirinhos vitimados em Realengo é um instigante convite a fazer isso rápida e decididamente.
