violência

Seres mais humanos

Lilian Sgarioni Roberto

Sempre que há uma comoção em torno de um assunto que desperta a sociedade para um determinado tema como foi o massacre de crianças em Realengo, no Rio de Janeiro, aparecem os especialistas, intelectuais, jornalistas, debatedores, leigos em torno da discussão da tragédia. Uma tragédia que foi isolada ou pode ter sido uma tragédia anunciada, não sabemos. Não saberemos. A verdade é que um jovem abriu fogo contra inocentes, sem nenhum motivo aparente. Ninguém sabe porque isso aconteceu, nem como vivia a pessoa que fez isso, muito menos o que passava na sua cabeça ou na sua vida. Sobram relatos de algumas pessoas que viveram ao seu redor, mas que não viam ali uma ameaça para a sociedade. O que aconteceu só nos faz pensar que todos, homens, mulheres, jovens, crianças precisam ser mais humanos.

Ter princípios e exigir respeito ao próximo desde o começo da educação da criança, explicar claramente o que é certo e o que é errado significa plantar algo positivo para no futuro colher bons frutos. Parece clichê, mais um daqueles temas chatos, certinhos, não é. Criança aprende por imitação, é fato. Vamos ser bons exemplos! Obrigado, por favor, licença são palavras que têm que existir no vocabulário de todos. Cordialidade não depende de classe socio-econômica, raça, credo, partido político, religião, cabe a todos.

A Igreja também tem seu papel formador. Sempre há a pergunta de como se deve atrair o jovem para as paróquias, para Jesus. Porém, numa sociedade que valoriza o ter e não o ser, nem sempre isto é uma tarefa fácil. As possibilidades de diversão e consumo são muitas. Então, às vezes, vale a direção contrária: colocar Jesus no coração do jovem e este levá-lo consigo pela vida. A família, mais uma vez, tem que ser exemplo, exemplo vivo de fé.

Quando rezamos: “Senhor, Manso e Humilde de Coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso” é que temos que pedir para todos. Pessoas com bons princípios, sabendo respeitar e ainda com um coração um pouco parecido com o de Jesus, NÃO vão fazer nada de mal contra ninguém. Com certeza.

Cabe a nós observar aqueles que vivem tímidos, isolados, muitas vezes sofrendo discriminação e tentar acolher, ajudar. Por isso, na comunidade cristã, somos todos bem-vindos. Em nossa paróquia temos o ministério da acolhida. Aquele do primeiro contato, que entrega um folheto, arruma um lugar para a pessoa se sentar, para se sentir bem, uma ovelha no rebanho como todos somos, filhos e filhas de Deus. Irmãos e irmãs.

E você pode estar se perguntando: “Onde estava Jesus quando estas crianças foram assassinadas?” E eu na minha pequenez respondo: “Nas próprias crianças, vivendo seu sofrimento”, pois Ele não nos abandona nunca!

Uma revista de grande circulação semanal publicou na capa o rosto do atirador de Realengo. Não deveria, pois pode estimular outras mentes complicadas a ter este estrelato; e publicou em suas páginas fotos das crianças, já entrando na adolescência, que foram mortas bem como o depoimento de alguns dos familiares. Em um deles, a avó diz que a neta pediu a benção antes de sair e ir para a esola, como fazia sempre. A avó respondeu: “Deus te proteja e te guarde”. Desta vez, segundo a revista, Ele não a guardou. Discordo, a menina está na Glória de Deus, ao seu lado. Para sempre. E não cabe a nós julgarmos Seus desígnios e sim caminharmos ao Seu lado. Como Cristãos. Na fé.

 

Serão chamados Filhos de Deus

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Natal não é ponto de partida, mas de chegada. O povo que esperava o Salvador teve seu desejo atendido! Recebeu o que esperava. Neste fim de ano, nesta nossa amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o desejo que enche o peito e a garganta do povo é um só: paz. Paz para viver, para trabalhar, para construir, para amar, para formar família, para estudar, para fazer arte grande e pequena, para escrever livros e compor musica, para cantar, para viver enfim com tudo que a vida tem de duro e de delicioso, de difícil e de belo.

Avesso ao caos, à desordem, à balburdia, o ser humano anseia pela paz. Seu mais profundo desejo é que finalmente essa paz venha e se instale em seu coração, em sua cidade, em suas relações, em seu país. Desejo adiado, adiado, e às vezes tão pisoteado. Parece que a má notícia da paz e da desordem teima em ocupar espaço, fazer barulho, e bloquear a boa nova de que a paz é possível. E que se encontra entre nós alguém capaz de fazê-la acontecer.

E, no entanto, em meio a essa situação de desavença, ousamos celebrar o Natal. E assim proclamamos que nossa espera foi plenificada. Recebemos o que tanto desejávamos e esperávamos. “Nasceu-nos um menino – disse o profeta Isaías ao rei que tinha ao lado a esposa grávida – …e ele se chamará… Príncipe da Paz”. O povo viveu tempos penosos depois daquela profecia. E chegou a se perguntar: terá o Senhor Deus esquecido de sua promessa? O profeta estaria enganado?

Havia uma jovem em Nazaré prometida a um carpinteiro de nome José. Seu nome era Maria. E antes que coabitassem, ela concebeu um filho. José sofreu diante do mistério que não entendia, mas recebeu o menino e sua mãe. Aquele que Maria recebera em seu seio seria o verdadeiro Príncipe da Paz. E quem viu, ouviu, tocou e apalpou a Palavra da Vida feita carne maravilhou-se e acreditou: este é o verdadeiro Príncipe da Paz, que tanto desejamos e esperamos. Só Ele pode trazer-nos a paz verdadeira que nada nem ninguém pode destruir.

O menino cresceu em graça e sabedoria. Levantou a voz e falou nas praças públicas anunciando a chegada do Reino de Deus, feito de justiça e de paz. Todos os que esperavam e desejavam a paz nunca acontecida o seguiam maravilhados por toda parte. De sua boca saíam palavras de vida e onde pousava seu olhar e suas mãos, o mal era vencido e a paz acontecia.

Aqueles que não queriam a paz o mataram. Mas os que o amavam e o viram morrer logo receberam a boa notícia de que ele estava vivo. Creram e espalharam a novidade, inundados da paz e da alegria que ele prometera. Anunciaram aos quatro ventos que aquele que nascera pequenino do seio de Maria de Nazaré era, na verdade, o Filho de Deus, o Príncipe da Paz.

Só então entenderam aquilo que ele havia ensinado. Lembraram-se de uma vez que falou do alto de um monte e disse “Felizes os que constroem a paz porque serão chamados filhos de Deus”. E entenderam em que consistia essa paz: não em ausência de conflitos, em falsa tranquilidade de consciência, em alienação. Mas em dinamicidade que luta e tudo faz para que a justiça aconteça, dando seu fruto maior, que é a verdadeira paz.

Entenderam que Jesus tinha passado a vida lutando por isso. Morrera por causa dessa luta. E Deus, confirmando sua vida, havia dito: Esse é o meu filho amado. Ouçam-no. Façam como ele.

No Natal celebramos o nascimento do Príncipe da Paz. Ele é o único que pode nos dar aquilo que mais desejamos e esperamos. Mas nós somos responsáveis pela construção e consolidação dessa paz por ele dada, tão cara e fundamental para a vida.

Emmanuel Levinas, grande filósofo judeu do século XX dizia: “…cada um deve agir como se fosse o Messias. O Messianismo não é a certeza da vinda de um homem que detém a História. É meu poder de responzabilizar-me por todos”.

Neste Natal, calemo-nos em adoração diante do menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura. Em sua fragilidade repousa a salvação do mundo. Ele é o príncipe da paz. E ao mesmo tempo, responsabilizemo-nos com Ele a construir essa paz tão desejada por nós e por todos que vêm a este mundo. Ofereçamo-la, sobretudo ao que está próximo a nós. Seremos felizes, bem-aventurados. E chamados filhos de Deus!

Roda Viva entrevista Luiz Eduardo Soares

O programa Roda Viva, da TV Cultura, entrevistou na segunda-feira, 29/11, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública. Ele foi secretário de segurança do Rio e do governo federal e escreveu livros sobre o tema – um deles, “Elite da Tropa”, inspirou o filme “Tropa de Elite”.

Assista à íntegra do Roda Viva, com apresentação de Marília Gabriela e a participação de Augusto Nunes, Paulo Moreira Leite, Luciano Suassuna, Nancy Cardia e do cartunista Chico Caruso:

Bloco 1

2º bloco

Bloco 2

3º bloco

Bloco 3

4º bloco

Bloco 4

A crise no Rio e o pastiche midiático

Luiz Eduardo Soares

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão– quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido–, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia– teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as bênçãos, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

Claro. Mais uma vez.

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias– prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.

Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Cadáver Insepulto

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

[www.provinciasaopaulo.com]

Formas de violência inéditas e imprevistas, pela sua ousadia e criatividade, se multiplicam pelos grandes centros urbanos. Nas últimas semanas, a metrópole do Rio de Janeiro tem sido o cenário principal de inúmeros atos violentos, numa sequência e criatividades sem precedentes. Mas, em maior ou menor grau, eles se estendem igualmente a outras capitais e até às cidades médias e pequenas. Lamentável que, em se tratando do Rio de Janeiro, algumas autoridades e não poucos analistas preocupam-se em primeiro lugar com o risco ao turismo e com as implicações para a realização da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016). Felizmente, para outros, o que está em primeiro lugar é a normalidade da vida e trabalho da população que habita as favelas e periferias da “cidade maravilhosa”.

De um ponto de vista mais abrangente, a violência urbana ganha proporções inusitadas e assustadoras. A guerra entre as forças de segurança, a polícia civil ou militar e o exército, por um lado, e os comandos do narcotráfico e do crime organizado, por outro, continua semeando cadáveres pelo asfalto e pela calçada. As vítimas fatais se constituem, em geral, de jovens ceifados antes dos 25 anos, soldados no cumprimento de seu dever e civis atingidos na trajetória cotidiana. Isso sem falar do pânico da população, que se agrava com os carros incendiados, com os arrastões, com os tiroteios cruzados e com as balas perdidas…

Também é alarmante o crescimento e fortalecimento de grupos nazistas ou neonazistas, extremamente radicais e hermeticamente cerrados, os quais, na calada da noite ou à luz do dia, seguem exibindo cenas de homo e xenofobia, de preconceito e discriminação, de racismo e intolerância. Trata-se, aliás, de um fenômeno que tem históricas raízes na Europa e Estados Unidos, mas atualmente com grande repercussão nos países periféricos, entre eles o Brasil. No alvo desses grupos, quase sempre formados por jovens e adolescentes de classe média, estão os negros, as mulheres prostituídas, os moradores de rua, os estrangeiros, os nordestinos, os homossexuais…

Mas há, ainda, o massacre nem sempre divulgado das pessoas que moram e trabalham na rua. A capital de Maceió, Alagoas, recentemente foi palco trágico de dezenas de assassinatos, mas essa barbárie contra os mais indefesos entre os pobres se repete em outras localidades. A agressividade selvagem e gratuita se revela um vírus contagioso, que parece não conhecer fronteiras nem limites. Os habitantes de Brasília e São Paulo, por exemplo, assistiram pasmados aos ataques brutais a indígenas, empregadas domésticas, menores…

E se ampliarmos o leque da violência, tropeçamos diariamente com sequestros, estupros e pedofilia, crimes passionais, latrocínios, morte no trânsito, vítimas da droga e do álcool, conflitos intrafamiliares. Estes últimos, em geral, são protegidos pela “privacidade do lar”, silenciosos e silenciados, pois, como diz o ditado, “em briga de marido e mulher não se põe a colher”. Com isso, as vítimas costumam ser justamente as pessoas mais próximas e amadas, tais como namoradas e esposas, pais e filhos, crianças inocentes…

A contradição se torna cada vez mais estridente. Por uma parte, cresce de forma exagerada e ostensiva a exuberância e o prazer da vida. O culto ao corpo, com a proliferação das academias, acompanha o culto às celebridades. A tirania da beleza e da juventude sacrifica a saúde, levando ao limite da anorexia e do uso de cosméticos. Termos como hedonismo, voyeurismo, individualismo e subjetivismo florescem abundantemente no vocabulário analítico e jornalístico. Por outra parte, a vida se banaliza, disputando com a morte cada notícia dos telejornais ou cada página de revistas e periódicos. Mata-se por tudo e por nada: a vida vale tanto quanto um par de tênis, um relógio, um celular, alguns trocados. Ao que tudo indica o gosto pela vida e a morte violenta nunca estiveram tão entrelaçados. Sede de viver e sede de sangue parecem se justapor, se sobrepor ou se mesclar. Como já apontou Freud em seus vários escritos, o amor e o ódio são irmãos gêmeos: convivem lado a lado a pulsão de vida e a pulsão de morte, Eros e Tanatos.

O mais grave é que esses cadáveres espalhados pelas ruas ou as pessoas mutiladas pelos mais covardes ataques não passam da ponta de um grande iceberg. Representam a parte visível de um enorme cadáver que, há séculos, permanece invisível e insepulto na história do país, apodrecendo no túnel do tempo e gerando cadáveres sem fim. Os atos violentos constituem a expressão de uma violência oculta e legalizada, a qual, diga-se de passagem, se legitima com atitudes genuinamente pacíficas, perpetradas em ricos escritórios ou nas sessões do Congresso Nacional, por personagens de bem – e de bens. Um país tão rico e ao mesmo tempo tão pobre, “terra de contrastes”, na expressão de Roger Bastide, só pode engendrar rancores, vinganças e conflitos abertos. Não que as assimetrias e as desigualdades sociais ou injustiças estejam na raiz de toda violência. A mente humana é muito mais complexa do que a razão é capaz de enxergar. Mas, sem dúvida, os desequilíbrios socioeconômicos agravam as tensões e expõem os excluídos a atos de desespero.

Daí a necessidade distinguir entre ato violento e violência. Normalmente, o tema da violência vem à tona quando os pobres e marginalizados saem às ruas e causam uma série de distúrbios. Mas, enquanto a violência tem sua face pacífica, oculta na própria ordem social, econômica, política e cultural, os atos violentos podem carregar um profundo anseio de mudanças e de paz. Evidente que isso não exime de responsabilidade os chefes mais empedernidos do contrabando de drogas, armas e pessoas humanas, nem as milícias aliciadas para expurgar determinados “elementos”; tampouco exime os casos patológicos dos crimes hediondos, e menos ainda a população que procura fazer justiça com as próprias mãos.

Mas convém lembrar que muitas vezes os “atos violentos” não passam de reação a uma sociedade concentradora e excludente, do ponto de vista estrutural e histórico. Com a maior transparência do abismo que divide a maioria pobre da minoria rica, a tendência é o esgarçamento do tecido social. Laços se rompem, amizades se descartam, contratos são rasgados impunemente. Os referenciais éticos se perdem em um ambiente cada vez mais nebuloso, especialmente no mundo globalizado e urbano. É como se “as estrelas se apagassem no céu, os marcos desaparecessem da estrada e o chão se abrisse a nossos pés”, diria Simone de Beauvoir.

Está em jogo o conceito de liberdade: esta não significa “fazer o que se quer”, mas fazer o que constrói. Buscar novos alicerces para a prática solidária, justa, fraterna e sustentável. Liberdade e limites são duas faces da mesma moeda. Não há convivência possível sem regras estabelecidas. Tal convivência requer, por sua vez, núcleos de encontro, diálogo e intercâmbio recíproco. Requer, igualmente, abertura à pluralidade dos valores, gostos e opções. E requer, ainda, a tolerância diante do conceito de “outro”, enquanto raça, sexo, religião, cultura, etc. Espaços onde as pessoas, muitas vezes órfãs, solitárias e perdidas,  possam resgatar o nome e a história. Erguer a cabeça, levantar-se e caminhar com as próprias pernas.

Mas liberdade e paz só podem vingar no terreno da justiça e do respeito aos direitos humanos. Sem isso não há possibilidade de verdadeira cidadania. “O desenvolvimento é o novo nome da paz”, escreveu Paulo VI, em 1967, na carta encíclica Populorum Progressio. O Papa referia-se ao “desenvolvimento integral de toda pessoa e de todas as pessoas”. Não basta a panacéia do crescimento a qualquer custo. Este tem que ser acompanhado de reformas necessárias e urgentes, onde as oportunidades estejam abertas a todos e todas. Só assim poderemos sepultar o colossal cadáver da exclusão social e, com ele, evitar a proliferação precoce de outros cadáveres.

Ética e o caso Bruno

J. B. Libanio

O delírio e o quase gozo sádico da imprensa sobre o caso do goleiro Bruno nos estarrece. Confunde-se facilmente o horror do crime com a pessoa do criminoso. Nenhum crime merece uma palavra sequer que o justifique. Estupros, assassinatos, pedofilias, assaltos, sadismo perverso, corrupção, suborno formam horripilante ladainha da maldade humana. A ética existe para alertar-nos contra a indignidade de tais condutas que terminam destruindo interiormente os atores e enodoam a humanidade.

Trabalhar eticamente tais temas em profundidade, educar as crianças e jovens para não enveredarem por tais crimes, discutir em nível sério os fatores culturais alimentadores de tais maldades não enchem manchete alguma de jornal.

No entanto, a principal missão da educação na família, na escola, nas Igrejas e por meio da mídia consiste na formação ética das pessoas. Infelizmente se prefere descobrir casos concretos de criminosos e fazer desfilar diante de nós a ficha escura deles, de seus familiares, exibindo o gáudio doentio de delegados a demonstrarem acuidades no desvendamento do crime. O conhecimento do crime e a punição do criminoso são necessários, mas ética e culturalmente serviria mais à humanidade, se tudo fizesse no silêncio respeitoso das pessoas e na serenidade reservada do judiciário.

O crime como espetáculo parece enfermidade de todos os tempos. Crê-se que quanto mais o criminoso se veste de horror em face da sociedade mais se desestimulam outros a se meterem por tais caminhos. Leda ilusão! Desconhecem-se os refolhos da psique humana. Há enorme quantidade de criminosos potenciais que nunca teriam dado o passo ao crime se lhes faltasse um último empurrão. E este vem pelo efeito de demonstração de personagens criminosos exibidos na TV.

A mania dos filmes americanos de longa data de lançarem na tela a violência assassina está certamente, entre outros fatores, na origem do crescimento da criminalidade juvenil e bruta. E para combatê-la lançamos, de um lado, água sobre o seu fogo por obra de melhor serviço repressivo policial e, de outro, jogamos a gasolina da propaganda sedutora do crime pela mídia.

Duvida-se, portanto, da eticidade de ambas as medidas. Suspeita-se que, no fundo, estão interesses de outra natureza. Não se pensa seriamente a gravidade do problema e não se busca na educação da população o caminho de solução. Esse implica paciência, tempo, investimento cultural, melhoria de escola, criação de espaços lúdicos e artísticos em vez de exibição de violência. Em lugar de apresentar a triste e humilhante figura do ex-goleiro do Atlético com monstruosidades verdadeiras ou simuladas, todos ganharíamos com manchetes de artífices da paz, de jovens levando cultura e saúde aos interiores do país, de médicos sem fronteira, de missionários heróis em situações de miséria e sofrimento, de tantas e tantas maravilhas humanas sepultadas no silêncio.

Eleição, agressividade e o Espírito

Jung Mo Sung

É cristianismo uma religião da proibição, que impõe sobre toda a população (seja cristã ou não) seus valores à base da “espada” ou da lei do Estado? A história nos mostra que em parte foi e continua tentando ser esse tipo de religião da imposição através da proibição. Valores religiosos não podem ser impostos a não ser proibindo alternativas, pois valores religiosos e éticos só são valores para as pessoas que os praticam se assumidos livremente. Como não se pode impor o assumir livremente, o que seria uma contradição, a única forma de realizar o desejo da imposição dos seus valores é proibindo alternativas – através da força, do medo do inferno ou da lei do Estado.

No fundo é isso que está acontecendo nesta eleição, como também ocorreu nas anteriores, em torno da questão do aborto e do casamento ou união civil dos homossexuais (tema que está entrando agora na polêmica). Setores da igreja católica e das igrejas evangélicas, que fora da época das eleições se veem como “inimigas”, se unem contra um mesmo inimigo proibindo os seus fiéis de votarem na figura que representaria o mal por não querer obedecer às leis de Deus (leis essas reduzidas ao campo da sexualidade humana e na forma interpretada pela sua igreja).

(A teoria do desejo mimético de René Girard nos oferece uma interpretação muito interessante de como esses dois setores rivais do cristianismo estão, no fundo, imitando uns aos outros, sendo iguais, tanto na eleição quando lutam contra o inimigo comum, quanto na luta de um contra o outro na ausência desse inimigo. É por isso que muitos desses setores evangélicos assumem discursos e ritos católicos, como setores católicos -carismáticos ou mais conservadores- imitam as igrejas evangélicas conservadoras e pentecostais.)

Esta imposição traz consigo uma contradição interna. As pessoas que querem impor, em nome de Deus, os seus valores ou crenças religiosas sobre outros grupos sabem, no fundo, que há algo de errado neste processo. Sabem que tentar impor esses valores a toda população através de proibições é no fundo reconhecer que são incapazes de mostrar, através de testemunho e ensino, o valor dessas crenças e valores morais. Ao tentar impor sobre os diferentes os seus valores, reconhecem que estão falhando na sua missão de anunciar a boa-nova (o evangelho) que só pode ser assumido livremente. Por isso, o discurso da proibição vem acompanhado de tanta agressividade contra os ditos “inimigos” de Deus ou das suas igrejas. No fundo é uma agressividade dirigida contra o “inimigo” e ao mesmo tempo contra o seu sentimento de fracasso no que pensa ser a sua missão.

Agressividade e falta de cuidado em verificar a veracidade das informações difundidas (para dizer o mínimo) revelam que há algo de errado no cristianismo vivido e defendido por esses grupos.

Se é verdade que historicamente o cristianismo foi vivido e se expandiu através desses mecanismos de imposição e proibição do alternativo, do diferente, também é verdade que nem toda a história do cristianismo foi e é assim. Mais importante do que isso, não é compatível com o cristianismo primitivo, muito menos com a vida de Jesus de Nazaré.

A boa-nova aos pobres e às vítimas das situações e estruturas opressivas (nisso resume a evangelização, cf. Lc 4) deve ser anunciada e testemunhada de forma propositiva para que seja aceita e vivida em liberdade. Pois como ensinou são Paulo, “onde está o Espírito, está a liberdade” (2Cor 3,17).

Por isso, a atuação dos cristãos na política deve ser fundamentalmente de modo propositivo e não acusatório e agressivo. Pois estamos anunciando e lutando por valores que “valem por si”; e que só são valores na medida em que são vividos com respeito e tolerância aos diferentes, dentro de espírito da liberdade. Devemos apresentar e lutar por propostas sociais e políticas, baseadas em nossa esperança de um mundo mais justo e solidário, onde até os mais pobres possam viver dignamente, com “respeito e mansidão” (cf 1Pe 3,15).

É claro que entre cristãos pode e deve haver diversidade nas linhas de propostas políticas e sociais, pois o evangelho não nos oferece programa político concreto para os nossos dias, mas nos ensina que devemos lutar para que todos e todas tenham vida em abundância (cf Jo 10,10). O que significa que lutar pelo “pão” dos mais pobres e o reconhecimento da dignidade humana de todas as pessoas devem ser uma prioridade na ação social e política dos cristãos e das igrejas.

A forma como se faz a política e atua nas eleições revela o verdadeiro espírito que move os seus agentes. É verdade que no “mundo” há muitos políticos que crêem que tudo é válido para alcançar os seus objetivos. Há muitos que acreditam que a agressividade nas acusações (e calúnias) revela a seriedade do seu compromisso religioso e ético. Mas, eu penso que a agressividade revela outra coisa, um outro espírito, diferente do Espírito do Amor-solidário (ágape) que deveria mover as comunidades e pessoas cristãs.

Ato pela vida, em repúdio à chacina de moradores de rua

O cardeal arcebispo de São Paulo, D. Odilo Pedro Scherer, participou do ato em repúdio à chacina de moradores de rua, realizado quinta-feira, 20/05, no centro de São Paulo. Os manifestantes concentraram-se em frente à Catedral da Sé e saíram em caminhada até a Câmara Municipal de São Paulo. O evento foi organizado pelo Movimento Nacional da População de Rua com apoio do Vicariato para o Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Leia a íntegra da fala de D. Odilo:

Quero dizer uma palavra que já disse, numa nota publicada outro dia, quando houve aquela chacina lá no Jaçanã. Primeiramente, uma palavra de forte e firme repúdio a esses tipos de ações e chacinas contra a população de rua ou contra quem quer que seja. Não é permitido fazer justiça desta forma. É contra os direitos humanos, e contra a dignidade humana, e contra o Estado, contra a convivência civilizada. Por isso, a população toda deveria se organizar e deveria protestar fortemente contra essas chacinas que a cada tanto estão acontecendo.

Segundo, a impunidade leva facilmente a cometer novos atos semelhantes. Por isso, o meu pleno apoio às iniciativas que reclamam por investigação e elucidação sobre os fatos já acontecidos. Nós ainda estamos aguardando conhecer melhor o que aconteceu em 2004. Depois disso, quantas chacinas aconteceram! E agora mais uma.

Essas chacinas, naturalmente, têm causas, têm autores, têm mandantes, têm uma lógica e essa lógica precisa ser investigada, elucidada e claramente assumida pela Justiça do Estado. Se não, a população que vive em situação de fragilidade, continuará frágil e, de alguma maneira, exposta a ser um dia surpreendida por um ato de chacina.

Terceiro, eu gostaria de dar a minha palavra de solidariedade a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, são vítimas de violência. Ninguém pode ser sujeito à violência por parte de outrem. Existe o caminho da legalidade e da normalidade da Justiça, que deve ser seguido. Ninguém está autorizado a cometer atos de violência, porque são atos criminosos. Por isso, a população mais frágil, como é a população de rua, não deve ser desprotegida.

E aí o meu quarto apelo, para que a sociedade olhe com muito carinho a população de rua, que está aumentando em nossa cidade, como já foi dito. Infelizmente, não é só a nossa cidade, mas outras passam pelo mesmo problema. Aqui nós temos, graças a Deus, algum trabalho que já tem um caminho andado.

E, por isso, temos a possibilidade de que as organizações ligadas ao povo que vive na rua possam conseguir um diálogo com as representações do Poder Público, com os vereadores da nossa cidade, com o Poder Executivo, com as organizações empresariais e demais organizações da cidade para encontrar uma saída para esta situação que ninguém quer. A população de rua não quer permanecer na rua, e eles mesmos há pouco disseram.

É preciso que haja, por isso mesmo, uma política pública eficaz, que inclua, por um lado, a questão da moradia, que inclua a questão do trabalho, que inclua a questão da educação, da saúde, a questão da segurança e a reinserção social. Portanto, uma política abrangente para esta situação de população de rua.

É isso que nós gostaríamos de falar e de manifestar hoje, para que possa ser ouvido e que vocês, agora, continuando a sua caminhada, possam levar esses anseios para quem representa o poder de legislar para esta cidade, para que o vosso grito seja ouvido e efetivamente levado à solução.

Esta é uma situação que a todos nós, de alguma maneira, ofende e questiona. Essa situação de violência, de fragilização da população de rua também a todos nós deixa perplexos porque mancha e agride a dignidade humana, a dignidade de todo o cidadão que olha para o seu próximo como um irmão.

Deus ajude e abençoe vocês! Deus proteja a todos os movimentos e organizações da população que vive em situação de rua. E agora vamos invocar a benção de Deus para que vocês continuem o seu caminho, o seu trabalho e a sua luta.

A benção de Deus todo poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça para sempre!

Vocês estão vendo ali, no meio da praça da Sé, ali está o apóstolo São Paulo, mostrando a todos a Palavra de Deus, aquilo que nós aprendemos da Palavra de Deus sobre a dignidade de todo o ser humano, de todo o filho e filha de Deus. Está recordando isso à cidade.

Mais adiante, está o padre Anchieta, fundador da cidade. Ele que viveu no meio da população indígena, como missionário. Será que ele está contente com o que está vendo hoje por aí? Acho que não! Padre Anchieta seja alguém que ajude a nossa cidade, ajude a dar rumo e indicações para aquilo que podemos fazer hoje para melhorar a vida desta cidade.  Obrigado!

Massacre de Eldorado de Carajás: Triunfo da impunidade

Natasha Pitts e Karol Assunção
Adital

O Massacre de Eldorado de Carajás deixou muitas marcas da injustiça social. A mais evidente delas é a impunidade. Até o momento, não há registro de que algum dos cerca de 150 policiais envolvidos tenha sido punido. Da mesma forma, o coronel, o capitão e o major que comandavam a tropa de policiais, também não sofreram penalizações. No sábado (17), quando se completam 14 anos do ocorrido, a data segue sob o peso da injustiça.

Josimar Pereira de Freitas, um dos trabalhadores que conseguiu sobreviver à chacina, descreve bem o sentimento que carrega até hoje quando do julgamento dos acusados.

“O julgamento dos acusados foi constrangedor, pois todos foram absolvidos. Algum tempo depois eles receberam indenização por danos morais e praticamente todos já subiram de patente. O major e o coronel envolvidos foram condenados, mas estão soltos e podem não estar trabalhando, mas na certa estão recebendo. Estamos preocupados e revoltados e tem horas que pensamos estar num beco sem saída. No Brasil não tem justiça para pobre”, lamenta Josimar Pereira de Freitas, um dos trabalhadores que conseguiram sobreviver à chacina.

Durante a semana que antecede o 17 de abril, batizado como Dia Mundial da Luta pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, foram realizadas diversas manifestações para que o Massacre de Eldorados dos Carajás não seja esquecido. No Pará, trabalhadores acampados e assentados fazem uma grande marcha até a ‘Curva do S’, local onde aconteceu o Massacre de Eldorado dos Carajás.

“Nós pedimos justiça, mas se não há, pedimos que pelo menos não aconteçam no Brasil nem no mundo tragédias como a que aconteceu no nosso Pará”, apela Josimar.

O advogado da Comissão Pastoral da Terra, João Batista Afonso, que atua no Pará e acompanha os casos de conflito na região, é enfático: “O massacre de Eldorado dos Carajás é o triunfo da impunidade”, uma vez que após 14 anos do episódio, os responsáveis continuam soltos.

De acordo com ele, nenhum dos responsáveis pelas 19 mortes e centenas de feridos foi punido. Afonso explica que dois dos acusados foram condenados, mas até hoje não foram presos porque os recursos da sentença ainda estão sendo analisados.”A impunidade no caso é de 100%”, aponta, comentando que “dificilmente [os condenados] cumprirão a pena imposta”.

Em Salvador (BA), assassinatos evidenciam violência contra moradores de rua

Natasha Pitts
Agência Adital

Na madrugada do dia 16 de janeiro, os moradores do Cabula VI, bairro residencial de Salvador,capital da Bahia, região Nordeste do Brasil, foram acordados com os tiros que vitimaram quatro moradores de rua. Itamar Silva de Jesus, Luís Eduardo da Paixão, Élio Barreto Silva e Rosalvo foram assassinados à queima roupa com tiros na cabeça. As investigações ainda não foram concluídas e não há indícios de quem praticou os crimes e qual a motivação.

Próximo aos corpos dos quatro homens não foram encontradas drogas ou armas. A pouca informação que se tem sobre os moradores de rua é que juntavam lixo para sobreviver. Com medo, os moradores do bairro não querem se pronunciar. Assim, mais um episódio envolvendo a população de rua corre o sério risco de ficar sem solução e cair no esquecimento.

Em memória aos cinco moradores de rua assassinados apenas neste ano, foi realizada, no sábado, dia 20, uma celebração no local da chacina. Na ocasião estiveram presentes cerca de 500 pessoas, entre eles moradores de rua, moradores do Cabula VI, deputados, vereadores e pessoas engajadas na luta pela transformação da vida dessa parcela da população. A celebração foi organizada pelo povo da rua.

“Após a celebração uma senhora me disse que nunca tinha ouvido falar dos moradores de rua como foi colocado na ocasião. Acredito que após participar da celebração muitas pessoas poderão ver os moradores de rua como homens e mulheres capazes de encontrar uma aurora em sua vida. A força do testemunho dos moradores de rua foi mostrada por meio da atuação na celebração”, afirmou Frei Henrique Peregrino, membro do Conselho Editorial do jornal Aurora da Rua.

A partir da mudança no modo como as pessoas veem esta parcela da população, Frei Henrique acredita que pode haver um impacto positivo a longo prazo. “Esperamos que a sociedade possa despertar e ter um olhar diferente. Que possam ver o morador de rua como um ser humano cheio de potencial e que tem a possibilidade de viver em plenitude. Nós temos o dever de permitir que estas pessoas vivam tendo todos os seus direitos respeitados”, almeja.

Em 2008, a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, realizada durante o ano de 2007 pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) mostrou um pouco da realidade da população da rua do Brasil. A pesquisa mostrou que, de cada cem pessoas em situação de rua, 71 trabalham e 52 têm pelo menos um parente na cidade onde vivem. O trabalho mais frequente é a coleta de recicláveis, seguida pela atuação como “flanelinha”, carregador, atuação na construção civil e no setor de limpeza.

Para Frei Henrique, pela quantidade de moradores de ruas, de 50 a 60 mil pessoas em todo o Brasil, é difícil e complexo tentar traçar um perfil. “Existem vários fatores que motivam alguém a ir para a rua, não é possível definir uma causa única. Por este motivo, a saída da rua é uma construção a longo prazo, pois se vai reconstruir uma história. É necessário haver uma construção da identidade, reconstrução dos laços familiares, depois vem a entrada no mercado de trabalho e como último passo a aquisição de uma moradia”, explica.

Plano Nacional para População de Rua

Dia 23 de dezembro, o presidente Lula assinou decreto que institui a Política Nacional Para a População de Rua. A iniciativa deverá unir todas as ações do Governo Federal e será coordenada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. Um Comitê Nacional já foi formado e está se reunindo para criar propostas concretas que visem atendem a população de rua. Segundo Frei Henrique, entre as propostas encaminhadas já estão a criação de Centros nacionais e regionais de Direitos Humanos para a população de rua.

“Esperamos que este plano possa realmente mudar a situação das pessoas de rua e que casos como o da chacina em Salvador não possam se repetir e muito menos ser apagado da memória das pessoas”, ambiciona Frei Henrique.