impunidade

Beba, mate e fique livre

Frei Betto

Nas últimas semanas, a mídia registrou inúmeros casos de acidentes de trânsito com mortes, provocadas por motoristas embriagados. Foram presos e, graças à fiança, em seguida soltos. Detalhe: sem que suas carteiras de motoristas tenham sido apreendidas. Alguns, aliás, nem possuíam habilitação para dirigir.

O Brasil é o país da impunidade. As leis são feitas apenas para os pobres – que não têm dinheiro para pagar advogados e fianças. Da classe média para cima, nenhum assassino do volante se encontra preso. Nem condenado em última instância. São 57 mortes por dia, no Brasil, associadas ao alcoolismo. Vale, pois, a pergunta: quem é a próxima vítima?

O Brasil é também o país do paradoxo. Há intensa campanha contra o tabagismo. Daqui a pouco haverão de proibir, como nos EUA, até fumar em local público. E, não demora, dentro de casa, sob pretexto de que incomoda os vizinhos…

A publicidade de cigarros desapareceu da mídia. As embalagens de tabaco trazem fotos horripilantes dos efeitos deletérios do produto. Ora, o alcoolismo mata mais que o tabagismo. É o terceiro fator de morte no mundo, precedido pelo câncer e doenças cardíacas. Por que não se proíbe publicidade de bebidas?

Apenas na cidade de São Paulo, em 2010 ocorreram 1.357 mortes no trânsito e 7.007 atropelamentos. O número de motoristas embriagados, parados em blitzen da PM, subiu 38% de janeiro a setembro deste ano, comparado a todo o ano de 2010. Entre jovens de 13 a 19 anos envolvidos em acidentes de trânsito, 45% ingeriram bebida alcoólica.

Os dados são alarmantes: 68,7% dos brasileiros ingerem álcool. Nos hospitais psiquiátricos, 90% das internações são de dependentes de álcool. Os motoristas bêbados são responsáveis por 65% dos acidentes de trânsito. E o Ministério da Saúde gasta, por ano, via SUS, mais de R$ 1 bilhão em tratamentos e internações causados por álcool.

Segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas e Psicotrópicos, vinculado à Faculdade Paulista de Medicina, entre estudantes do primeiro e segundo graus da rede estadual de São Paulo, 70,4% se iniciam na bebida entre 10 e 12 anos. Nos EUA o índice, para a mesma faixa etária, é de 50,2%.

Volta a pergunta que não quer calar, e o governo, o Conar e as agências de publicidade não querem responder: por que não se aplicam as leis de proibição do tabagismo ao álcool?

A resposta existe, o que não existe é a coragem de fechar a torneira do mar de dinheiro que as empresas de bebidas alcoólicas despejam na publicidade. E o mais grave: associa-se álcool a celebridades, como jogadores de futebol e cantores, que fascinam os mais jovens e atraem legião de fãs.

Uma grande emissora de TV anuncia uma série de programas antitabagistas. Quando veremos algo semelhante em relação ao consumo de álcool?

Nunca tive notícia de acidentes de trânsito causados pelo vício de fumar, agressão doméstica decorrente da aspiração da fumaça de tabaco, internação psiquiátrica por dependência de cigarro. Todos nós, porém, conhecemos casos relacionados ao alcoolismo. E haja publicidade de cerveja no horário nobre! Para os jovens, a cerveja é a porta de entrada no consumo de bebidas etílicas.

O cigarro prejudica quem fuma e quem está próximo ao fumante. O álcool, misturado com volante, gera acidentes que envolvem passageiros do veículo causador do acidente, passageiros dos veículos atingidos por ele e pedestres, além de danos à via pública.

Álcool em excesso transtorna os reflexos. Associado ao volante, é perigo na certa. Mas não se preocupe. Você está no Brasil. Confia que jamais terá o azar de ser parado por uma blitz da lei seca. Se acontecer, oferecerá uma grana aos fiscais, na esperança de que sejam corruptos. Caso não sejam, se recusará a pôr a boca no bafômetro. Se for detido, convocará a família e o advogado, pagará fiança e logo estará na rua. Com a carteira de habilitação no bolso. Pronto para se dependurar no volante e repetir a façanha.

Viva o Brasil e a impunidade! E azar das vítimas por viverem num país como o nosso!

Violência: eles moravam no Brás

D. Odilo Pedro Scherer

Na semana passada, a cidade de São Paulo foi manchada por mais uma chacina brutal e pelo assassinato cruel de dois moradores de rua, queimados com suas carroças para recolher material reciclável. Não sei se moravam no Bairro do Brás, mas foi lá que aconteceu.

Esses tristes casos se somam à infindável lista de violências contra a pessoa em nossa cidade. E aumentam a conta já extensa de agressões contra moradores de rua. Em agosto de 2004, sete moradores de rua foram assassinados no centro da nossa metrópole; depois de sete anos, aquele massacre ainda não foi elucidado e resolvido pela Justiça.

Coisa parecida acontece com o caso dos seis moradores de rua exterminados no Bairro do Jaçanã, em maio do ano passado, e com tantos outros fatos de violência contra essa parcela da população marginalizada e já tão sofrida. Será que desta vez os culpados vão ser identificados e chamados a prestar contas à Justiça?

A impunidade acaba estimulando mais violência contra os moradores de rua, esquecidos das políticas de segurança pública, desinteressantes para a economia, socialmente invisíveis, talvez até sem documentos, um problema para a limpeza da cidade…

Machucá-los, feri-los, por que não?

Matá-los, qual é o problema? Sua morte nem desperta especial reação na opinião pública.

Mataram mais dois moradores de rua, e daí?!

A Arquidiocese de São Paulo protesta contra esse descaso e manifesta sua solidariedade a todas as vítimas da violência, quaisquer que elas sejam. O Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua tem a preocupação de oferecer a essa parcela da população em situação de risco a assistência humana, social e religiosa de que necessita; vários grupos cuidam da saúde e da alimentação, outros assumem a sua defesa contra agressões e violências; alguns não hesitam em passar as noites ao relento, nos lugares onde essas pessoas dormem, para protegê-las.

A violência é um dos maiores desafios da sociedade atual, gerando intranquilidade e ameaçando a paz. Ela impregna todo o tecido social e, por vezes, assume contornos de insensível crueldade. Todos os tipos de violência merecem a nossa mais decidida rejeição.

Há a violência, geralmente aceita de forma resignada, das injustiças sociais e econômicas, que negam vida digna a milhões de pessoas; pobreza extrema e miséria absoluta ainda persistem, camufladas pelos dados ufanistas do crescimento econômico nacional. Esta violência dói tanto mais porque golpeia duramente os órfãos do progresso, gente de todas as idades, mas especialmente crianças, não lhes permitindo um pleno desenvolvimento físico, intelectual e social.

Sem esquecer os horrores da guerra, pensemos na violência do crime organizado, nutrida por enormes interesses econômicos vindos do contrabando, do tráfico de drogas e de pessoas. Há também a violência doméstica, nas escolas, nos ambientes de trabalho e no esporte… E ainda as violências “corriqueiras” de todo dia, físicas, psicológicas e morais, que não ganham espaço na mídia. A violência avilta, machuca, amedronta, cerceia a liberdade, intoxica o convívio social, mata, entristece, envergonha!

Não bastasse o quadro assustador da violência, temos de constatar ainda a sua cínica e doentia espetacularização, como forma de garantir audiência, em certos meios de comunicação. Afinal, aonde queremos chegar?

Se a violência é comparável a um tumor, admitamos que a cultura e a sociedade do nosso tempo estão gravemente enfermas, precisam fazer um exame crítico rigoroso dos fatos e submeter-se a sérias terapias…

As diversas formas de violência desafiam as autoridades para uma ampla reflexão sobre o seu significado político e para a promoção de medidas preventivas capazes de coibir e punir os atos violentos e de promover um convívio respeitoso e pacífico. Há uma justa preocupação pela promoção do progresso econômico e para que o bem-estar chegue a todos. Mas, pergunto, onde estão as políticas de incentivo à formação humana, ética e cidadã? Cuidamos da economia e descuidamos das pessoas! Onde estão as iniciativas para um saneamento da cultura da violência e para a afirmação dos princípios básicos da dignidade humana e dos seus direitos mais elementares? Pode-se matar uma pessoa, morador de rua ou quem quer que seja, como se mataria uma barata?

Mas não basta a ação preventiva ou repressiva do Estado: toda a sociedade precisa fazer a sua parte. Violentos prosperam onde o ambiente lhes é propício… Há um vazio, ou a falta de afirmação de valores essenciais para o convívio social na cultura contemporânea; o individualismo subjetivista reinante privatizou os parâmetros da civilidade e da conduta pessoal e favorece a explosão da violência, como forma de relação social. A civilização perde e retrocede toda vez que a violência consegue impregnar a cultura, qual tumor maligno.

Penso que caberia um pacto contra a violência que começasse pela educação das crianças no lar e na escola e passasse por várias iniciativas comunitárias, como a campanha pelo desarmamento, as manifestações públicas de desaprovação dos fatos e espetáculos de violência e a educação para o diálogo, o respeito pela ética e pela dignidade humana.

Ninguém está livre da violência por habitar em condomínios fechados, vigiados, atrás de altas grades diante da casa e de cercas eletrificadas… Para não ser a próxima vítima cada um deve tornar-se um educador para a paz e participante de um grande mutirão para acordar as consciências, empenhado na rejeição de toda forma de violência.

Massacre de Eldorado de Carajás: Triunfo da impunidade

Natasha Pitts e Karol Assunção
Adital

O Massacre de Eldorado de Carajás deixou muitas marcas da injustiça social. A mais evidente delas é a impunidade. Até o momento, não há registro de que algum dos cerca de 150 policiais envolvidos tenha sido punido. Da mesma forma, o coronel, o capitão e o major que comandavam a tropa de policiais, também não sofreram penalizações. No sábado (17), quando se completam 14 anos do ocorrido, a data segue sob o peso da injustiça.

Josimar Pereira de Freitas, um dos trabalhadores que conseguiu sobreviver à chacina, descreve bem o sentimento que carrega até hoje quando do julgamento dos acusados.

“O julgamento dos acusados foi constrangedor, pois todos foram absolvidos. Algum tempo depois eles receberam indenização por danos morais e praticamente todos já subiram de patente. O major e o coronel envolvidos foram condenados, mas estão soltos e podem não estar trabalhando, mas na certa estão recebendo. Estamos preocupados e revoltados e tem horas que pensamos estar num beco sem saída. No Brasil não tem justiça para pobre”, lamenta Josimar Pereira de Freitas, um dos trabalhadores que conseguiram sobreviver à chacina.

Durante a semana que antecede o 17 de abril, batizado como Dia Mundial da Luta pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, foram realizadas diversas manifestações para que o Massacre de Eldorados dos Carajás não seja esquecido. No Pará, trabalhadores acampados e assentados fazem uma grande marcha até a ‘Curva do S’, local onde aconteceu o Massacre de Eldorado dos Carajás.

“Nós pedimos justiça, mas se não há, pedimos que pelo menos não aconteçam no Brasil nem no mundo tragédias como a que aconteceu no nosso Pará”, apela Josimar.

O advogado da Comissão Pastoral da Terra, João Batista Afonso, que atua no Pará e acompanha os casos de conflito na região, é enfático: “O massacre de Eldorado dos Carajás é o triunfo da impunidade”, uma vez que após 14 anos do episódio, os responsáveis continuam soltos.

De acordo com ele, nenhum dos responsáveis pelas 19 mortes e centenas de feridos foi punido. Afonso explica que dois dos acusados foram condenados, mas até hoje não foram presos porque os recursos da sentença ainda estão sendo analisados.”A impunidade no caso é de 100%”, aponta, comentando que “dificilmente [os condenados] cumprirão a pena imposta”.

Cinco anos de impunidade: Ato protesta contra massacre de moradores de rua em SP

Agência Adital

Cinco anos se passaram desde que houve, em São Paulo, o brutal ataque aos moradores em situação de rua que deixou sete pessoas mortas. Até agora ninguém foi punido e sequer existe denúncia sobre o caso. O processo aguarda decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ). De acordo com irmã Michael Mary Nolan, conselheira do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe-SP), não existe previsão para que isso ocorra.

Entidades que lutam em favor dos Direitos Humanos e aqueles que trabalham em prol dos moradores em situação de rua, realizaram uma série de atividades desde o último dia 14 em memória às vítimas da chacina. O principal objetivo é protestar a impunidade e fazer com que o caso não seja esquecido. “O povo pede justiça e respeito por seus direitos”, enfatiza irmã Michael.

Ela diz ainda que é importante para essa camada da sociedade relembrar a memória de seus companheiros vítimas da violência e do preconceito. “É importante que eles (população em situação de rua) saibam que tem quem se preocupe com eles e que se sintam apoiados”, completou.

Na manhã de terça-feira (18) houve uma Audiência Pública em Guarulhos, município vizinho da capital paulista, envolvendo Prefeitura, Secretarias e Entidades, além dos próprios moradores de rua, a fim de discutirem políticas públicas em favor dessa população.

Segundo informações da irmã Michael, os moradores ficaram satisfeitos com essa audiência, já que o município se dispôs a ajudá-los. Mas a mesma confiança não foi sentida à tarde, quando estava marcada uma Audiência na capital. Segundo ela, nenhuma das autoridades convidadas esteve presente, comparecendo apenas a Guarda Municipal da cidade de São Paulo.

Já ontem (19), membros que participam das atividades em repúdio ao massacre, percorreram os locais onde ocorreram as mortes. A caminhada terminou na escadaria da Catedral da Sé, no centro de São Paulo, onde em seguida aconteceu um Ato Público.

Neste momento algumas autoridades ligadas à defesa dos direitos humanos, e a Vice-Prefeita de São Paulo, Alda Marco Antônio (PMDB), se fizeram presentes. Cerca de 300 pessoas estiveram reunidas no ato ecumênico que finalizou as atividades do dia. Um dos sobreviventes do massacre, que mantém sua identidade em sigilo, acompanhou a caminhada e se emocionou, segundo relatou a freira.

A religiosa, que também é advogada, comentou que essa população é ignorada não só por outras camadas da sociedade, como também pelo poder público. Ela comentou ainda sobre o Projeto de Higienização do centro de São Paulo, no qual os moradores de rua seriam incluídos. “Se pudesse tirar o povo de rua do mapa do mundo, muita gente ficaria feliz”, desabafou.

A semana de atividades encerra hoje (20), com exposição de filmes e debates entre os participantes, jornalistas e pessoas ligadas à cultura, na Estação Pinacoteca.

Massacre

O massacre ocorreu nas madrugadas dos dias 19 e 22 de agosto de 2004, nas ruas de São Paulo, capital. Das 15 pessoas agredidas, 7 morreram. Desde então, movimentos, organizações, grupos sociais e religiosos promovem manifestações em todo o país pedindo justiça e respeito aos seres humanos, não importando se são moradores em situação de rua ou não.

A superação da corrupção na política: Salvaguarda da ética e da democracia

“Na verdade, a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10).

Nós, membros do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunidos em Brasília, DF, nos dias 16 a 18 de junho de 2009, manifestamos indignação diante das repetidas acusações de corrupção nas instâncias dos Poderes constituídos. A corrupção e a decorrente impunidade constituem grandes ameaças ao sistema democrático.

A corrupção aumenta o fosso das desigualdades sociais, como também a miséria, a fome e a pobreza. Além de ferir gravemente o princípio do destino universal dos bens, raramente se tem notícias sobre a restituição dos recursos e bens públicos usurpados. A corrupção trai a justiça e a ética social, compromete o funcionamento do Estado, decepciona e afasta o povo da participação política, levando-o ao desprezo, perplexidade, cansaço, revolta, e ao descrédito generalizado, não somente pelos políticos, mas também pelas Instituições Públicas.

A imprensa nacional e os órgãos públicos competentes têm divulgado a prática de comprovada corrupção nos meios políticos como um círculo vicioso, um hábito enraizado na inversão dos meios e do fim da “coisa pública”. Ao mesmo tempo em que a mídia funciona como caixa de ressonância, denunciando os males presentes na vida política, muitas vezes pode semear na opinião pública a idéia da inutilidade do Congresso, desvalorizando a democracia.

Diversas instâncias da sociedade civil já se manifestaram em favor da reforma política para, entre outros objetivos, sanar os males da corrupção sedimentados na vida pública. A Igreja quer contribuir para o bem comum, lembrando as exigências éticas do Evangelho. A política é um serviço ao bem comum, na construção da sociedade justa, fraterna e solidária. Os políticos sejam pessoas dotadas de virtudes sociais, como competência, retidão, transparência e espírito de serviço, sendo os primeiros responsáveis pela ordem justa na sociedade. A superação da corrupção exige pessoas e partidos com perfil íntegro para o exercício do mandado público.

Convocamos a todos para que, através do Projeto de Lei de Iniciativa Popular sobre a Vida Pregressa dos Candidatos (Projeto Ficha Limpa), da Reforma Política e outras mobilizações, possamos garantir eleições regidas pela ética em 2010, fortalecendo a participação e garantindo a credibilidade dos processos democráticos. Nesse sentido, a Igreja oferece, por meio das escolas de Fé e Política, uma concreta e valiosa contribuição.

Que Nossa Senhora Aparecida, serva de Deus e da humanidade, ajude o povo brasileiro a combater a corrupção, criando condições para uma sociedade justa e plenamente democrática.

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB

CNBB divulga declaração contra a redução da maioridade penal

Agência Adital

Esteve em pauta nas discussões da última sexta-feira (24), da 47ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em Indaiatuba (SP), a redução da maioridade penal. Após refletirem sobre o assunto, os bispos se mostraram contrários à proposta do Senado Federal. Para eles, reduzir a idade penal não resolve o problema de criminalidade e violência no País.

A declaração aprovada pela CNBB afirma que “A redução da maioridade penal violenta e penaliza ainda mais os adolescentes, sobretudo os mais pobres, negros, moradores de periferias”. Acrescenta que crianças, jovens e adolescentes não são responsáveis por ações violentas como muitas campanhas querem mostrar, e ressaltam que os verdadeiros culpados, muitas vezes, ficam impunes.

“A realidade revela que crianças, adolescentes e jovens são vítimas da violência. Muitas vezes são conduzidos aos caminhos da criminalidade por adultos inescrupulosos”, informa o texto.

De acordo com a conclusão dos religiosos, é necessário buscar as verdadeiras causas para diminuir a violência no País. Entre os principais fatores geradores de criminalidade considerados pelos Bispos estão a desagregação e falta de estrutura familiar, desigualdade social, perda de valores éticos e religiosos, deficiência das políticas públicas sociais e o narcotráfico.

O documento enfatiza a importância de se desenvolver projetos socioeducativos, seja por meio da Igreja, seja por meio de movimentos sociais, que deem acesso a cursos profissionalizantes e tratamento para recuperação dos dependentes químicos. Os bispos ressaltam, ainda, o valor das ações educativas e não punitivas.

No final da declaração, o texto lembra a todos os brasileiros e brasileiras o cumprimento da premissa básica da Constituição Federal, em seu artigo 227: “Criança e Adolescente Prioridade Absoluta”.

Massacre de Eldorado de Carajás completa 13 anos sem desfecho

Em 17 de abril de 1996 policiais militares promoveram o Massacre de Eldorado de Carajás, que ganhou repercussão internacional e deixou marca na história do país, ao lado do Massacre do Carandiru (1992) e da Chacina da Candelária (1993), como uma das ações policiais mais violentas do Brasil. Em 2002, o presidente FHC instituiu essa data como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Passados 13 anos do massacre no Pará, permanecem soltos os 155 policiais que mataram 19 trabalhadores rurais, deixaram centenas de feridos e 69 mutilados. Entre os 144 incriminados, apenas dois foram condenados depois de três conturbados julgamentos: o coronel Mário Collares Pantoja e o major José Maria Pereira de Oliveira. Ambos aguardam em liberdade a análise do recurso da sentença, que está sob avaliação da ministra Laurita Vaz, do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

O MST – Movimento dos Sem Terra – montou dois acampamento no estado, para cobrar a condenação dos responsáveis pelo massacre e apoio às famílias sobreviventes, com encerramento das atividades no dia 17. Na Curva do S, em Eldorado de Carajás, 500 trabalhadores rurais participam das atividades do Acampamento da Juventude, a partir do dia 10. Em Belém, 600 pessoas estarão mobilizadas depois do dia 14.

“Estamos mobilizados para denunciar que depois de tanto tempo do massacre ninguém foi preso e as famílias ainda não foram indenizadas. Cobramos a indenização de todas as famílias e atendimento médico aos sobreviventes. Defendemos também um novo julgamento para impedir que a morte de 19 companheiros fique impune. Além disso, exigimos a Reforma Agrária para acabar com a violência contra os trabalhadores rurais”, explica o integrante da coodenação nacional do MST, Ulisses Manaças.

Em 2007, os trabalhadores Sem Terra conseguiram uma vitória parcial, com a indenização de 23 famílias que foram vítimas do massacre pela governadora Ana Júlia. No entanto, no ano passado o governo estadual promoveu soldados que participaram do Massacre. O Movimento cobra a indenização do total de 79 famílias, além da regularização do atendimento médico multidisciplinar aos feridos durante o massacre, que ficaram com balas alojadas pelo corpo.

“A gente lamenta essa mentalidade de grande parte dos juristas, que acha que a pessoa deve recorrer eternamente, pela chamada presunção de inocência. Esse processo acaba gerando impunidade total e absoluta” afirma o promotor de Justiça do caso, Marco Aurélio Nascimento.

O advogado Carlos Guedes, que acompanhou o caso desde abril de 1996 até o último julgamento, em maio de 2002, acredita que a Justiça ainda não resolveu o caso. Guedes também alerta que existem dois tipos de responsabilidades em relação ao massacre que a Justiça tem de levar em consideração: as responsabilidades criminal e política.

“Se todos os que foram denunciados, desde o coronel Pantoja até o último soldado, tivessem sido condenados, isso por si só seria insuficiente. Outras pessoas tiveram participação decisiva no massacre, como o governador (Almir Gabriel), o comandante geral da Polícia Militar e o secretário de Segurança Pública (Paulo Sette Câmara). Estes sequer foram envolvidos no caso”, contesta o advogado.

Na opinião dos sobreviventes do massacre e dos advogados do MST, a justiça ainda não veio. As pessoas mutiladas, assim como as 13 viúvas que tiveram seus maridos executados naquele dia, ainda não receberam indenizações. Tanto para o coordenador nacional do MST no Pará, Charles Trocate, quanto para os mutilados do massacre, o Estado foi o culpado pelo incidente.

“A cultura da violência gera a cultura da impunidade. Carajás evidenciou um problema em proporções maiores, mas o Estado não foi capaz de criar instrumentos que corrigissem isso. Primeiro se negou julgar e condenar o governador, o secretário de Justiça e o comandante geral da PM. Segundo, nestes 13 anos, não foi produzida nenhuma condenação porque é o Estado que está no banco dos réus”, afirmou Trocate.

O 17 de abril foi marcado como dia internacional da luta das lutas dos camponeses, em homenagem à luta pela terra pelos camponeses de Carajás e de todas as partes do mundo. Todos os anos, a Via Campesina realiza mobilizações nesse período do ano para cobrar o julgamento dos responsáveis pela violência no campo e pela realização da Reforma Agrária.


Caminho do processo na Justiça

Junho de 1996 – Início do maior processo em número de réus da história criminal brasileira, envolvendo 155 policiais militares. Em 10 anos, o processo ultrapassou as 10 mil páginas.

16 de agosto de 1999 – Primeira sessão do Tribunal do Júri para julgamento dos réus em Belém, presidida pelo juiz Ronaldo Valle. Foram absolvidos três oficiais julgados – coronel Mário Colares Pantoja, major José Maria Pereira de Oliveira e capitão Raimundo José Almendra Lameira. Foram três dias de sessão com cerceamento dos poderes da acusação, impedimento da utilização em plenário de documentos juntados no prazo legal, permissão de manifestações públicas de jurados criticando a tese da acusação e defendendo pontos de vista apresentados pela defesa.

Abril de 2000 – O Tribunal de Justiça do Estado do Pará determinou a anulação do julgamento, decisão mantida em um segundo julgamento, em outubro de 2000. Antevendo a anulação do julgamento, o juiz Ronaldo Valle solicitou o afastamento do caso. Dos 18 juízes criminais da Comarca de Belém, 17 informaram ao Presidente do Tribunal de Justiça que não aceitariam presidir o julgamento, alegando, na maioria dos casos, simpatia pelos policiais militares e aversão ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e aos trabalhadores rurais.

Abril de 2001 – Nomeada uma nova juíza para o caso, Eva do Amaral Coelho, que designou o dia 18 de junho de 2001 como data para o novo julgamento dos três oficiais. Alguns dias antes do início da sessão, a juíza determinou a retirada do processo da principal prova da acusação, um minucioso parecer técnico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com imagens digitais que comprovavam que os responsáveis pelos primeiros disparos foram os policiais militares. O MST reagiu e a juíza reviu sua posição, suspendendo o julgamento sem marcar nova data.

14 de maio a 10 de junho de 2002 – O julgamento foi retomado. Após cinco sessões, entre os 144 acusados julgados, 142 foram absolvidos (soldados e 1 oficial) e dois condenados (coronel Pantoja e major Oliveira), com o benefício de recorrer da decisão em liberdade. Em decorrência dos benefícios estendidos aos dois únicos condenados, as testemunhas de acusação não compareceram mais ao julgamento, em função de ameaças de morte e por não acreditar na seriedade do julgamento. Durante vinte dias, jornais do Estado do Pará publicaram detalhes sobre intimidações e ameaças de morte que estariam recebendo as principais testemunhas da acusação, principalmente Raimundo Araújo dos Anjos e Valderes Tavares. Nada foi feito em relação à proteção e salvaguarda de tais testemunhas. O MST não aceitou participar de um julgamento onde não estivessem sequer garantidas a segurança e a tranqüilidade das pessoas fundamentais para a acusação.

Novembro de 2004 – A 2ª Câmara do Tribunal de Justiça do Pará julga numa só sessão todos os recursos da defesa e da acusação e mantém a decisão dos dois julgamentos realizados pelo Tribunal do Júri, absolvendo os 142 policiais militares e condenando o coronel Pantoja (228 anos de prisão) e o major Oliveira (154 anos de prisão).

22 de setembro de 2005 – O coronel Pantoja é posto em liberdade por decisão do Supremo Tribunal Federal.

13 de outubro de 2005 – O major Oliveira é posto em liberdade por decisão do Supremo Tribunal Federal.

2006 – Recurso especial é apresentado ao Superior Tribunal de Justiça e, posteriormente, recurso extraordinário é apresentado ao Supremo Tribunal Federal.

Abril/2007 – A governadora do estado Ana Júlia Carepa assinou decreto que concede indenização e pensões especiais a 22 famílias de trabalhadores sem-terra vítimas da chacina. “O que eu fiz foi reparar uma injustiça, reconhecendo a responsabilidade do governo do Estado”, disse Ana Júlia. A governadora classificou o massacre de Eldorado do Carajás como “um dos episódios que mais envergonhou não só o Pará diante do Brasil, mas o Pará diante do mundo”.

Setembro/2008 – O governo de Ana Júlia Carepa promoveu os soldados que participaram do Massacre de Eldorado do Carajás. Entre 87 e 90 policiais foram promovidos a cabo. Apesar de todos os promovidos já terem sido absolvidos em primeira instância pela acusação de homicídio qualificado, ainda há um recurso no STJ (Supremo Tribunal de Justiça) que pede suas condenações.