testemunho

Lições de misericórdia

Três histórias sobre bispos ocorrem em um cenário que poderia ser chamado nossa “era de construção da paz” na Igreja e no mundo. O trabalho do Arcebispo John Baptist Odama de Uganda, do Bispo Juan Gerardi da Guatemala e do Bispo Carlos Belo do Timor Oriental foi parte de uma onda global de esforços para lidar com as injustiças do passado a fim de poder construir paz e estabilidade. Estes esforços ocorrem no meio de uma terceira onda de democratização que acabou com as ditaduras na Europa do Leste, América Latina, África e Ásia Oriental, depois do fim das guerras civis em lugares tão diferentes como a Iugoslávia e Moçambique, El Salvador e Camboja e depois das intervenções dos Estados Unidos e da OTAN no Iraque, Afeganistão e Kosovo.

Em 14 de julho de 2002, o arcebispo John Baptist Odama, vestido com toda sua indumentária episcopal, efetuou uma difícil caminhada através dos morros de Uganda do norte acompanhado por uma delegação de líderes religiosos, a fim de visitar o esconderijo de Joseph Kony, líder do grupo guerrilheiro Exército de Resistência do Senhor, cuja guerra de duas décadas contra o governo de Uganda teve como resultado a morte de mais de 200.000 pessoas e o seqüestro de milhares de crianças que são depois obrigadas a combater. O safari diplomático de Odama ajudou no estabelecimento de negociações de paz com a guerrilha. O arcebispo defende a reconciliação, opondo-se às acusações de criminosos de guerra da Corte Penal Internacional e, em vez disso, apelando aos ugandeses que perdoem os criminosos, incluindo Kony e que ponham em prática os tradicionais rituais mato oput de reconciliação, visto que podem ajudar a reintegrar os soldados às comunidades civis.

Outro bispo que trabalha pela reconciliação, Juan Gerardi da Guatemala, foi assassinado a golpes por oficiais do exército na garagem de sua casa na Cidade de Guatemala em 26 de abril de 1998. O crime ocorreu dois dias depois da entrega do relatório do Projeto pela Recuperação da Memória Histórica, que havia iniciado em 1995 para divulgar e conseguir a cura depois das atrocidades cometidas durante a guerra civil da Guatemala, que durou uma geração inteira. O projeto de recuperação da memória histórica era único no mundo entre os esforços para conhecer a verdade por sua maneira tão personalista de angariar os depoimentos, feitos mediante centenas de animadores, ou voluntários, que foram repartidos pelos campos para escutar os relatos de camponeses comuns e dar-lhes apoio espiritual e psicológico.

Um terceiro bispo, Carlos Belo do Timor Oriental, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, incentivou a perseguição da responsabilidade penal dos violadores de direitos humanos, especialmente dos generais do Exército da Indonésia que cometeram atrocidades contra os civis do Timor, durante seu longo período de ocupação, entre 1975 e 1999. Mas Belo também falou de reconciliação no Timor Oriental, através de painéis de justiça comunitários que combinam os relatos das vítimas com as desculpas e serviços comunitários que tentam reintegrar os perpetradores das atrocidades em suas comunidades.
Tal como atesta a história de cada um destes bispos, a era da construção da paz está carregada de polêmicos questionamentos sobre a justiça. A anistia deveria ser garantida aos principais criminosos de guerra em aras de assegurar um acordo de paz ou transição para a democracia? Pode-se justificar essa anistia? As vítimas deveriam perdoá-los? Os líderes podem pedir perdão em nome das nações? Os representantes de gerações passadas merecem reparação? Quem está em dívida com eles? A pergunta subjacente é a seguinte: Em que consiste a justiça depois que foi totalmente espoliada?

ENSINANDO RECONCILIAÇÃO

Nas últimas décadas foram criadas mais de 30 Comissões de Verdade. Estabeleceram-se dois Tribunais Internacionais e foi criada uma Corte Penal Internacional permanente. Houve uma combinação sem precedentes de iniciativas de reparação social tanto oficiais como por parte da sociedade civil, para conseguir a reconciliação e a cura dos traumas, manifestados em juízos em tribunais nacionais, leis para impedir que os culpados cheguem a ocupar cargos públicos, reparações, desculpas, museus, monumentos, atos de perdão, rituais tribais tradicionais.

Nunca mais! é a principal resposta à questão de justiça na comunidade de ativistas pró- direitos humanos e advogados internacionais. O julgamento de violadores de direitos humanos e criminosos de guerra é sua maior demanda; a Corte Penal Internacional é sua maior conquista; o manto de anistia, comum na América Latina durante os anos 80, seu maior pesadelo. Seus sócios naturais são os governos ocidentais e as Nações Unidas, para quem a construção da paz significou construir regimes baseados nos direitos humanos, na democracia, livre mercado e no Estado de Direito.

Não obstante, outras vozes articularam um enfoque alternativo: a reconciliação. Provem em sua grande maioria de comunidades religiosas e incluem personagens como os Bispos Odama, Gerardi e Belo. Apesar que habitualmente promovem os direitos humanos e em ocasiões também o castigo, estas vozes advogam por relações mais integrais de reparação de direitos, que envolvam uma gama mais ampla de feridas que as que inflingen a violação de direitos humanos e os crimes de guerra e que envolve uma conjunto mais amplo de ações para curar ditas feridas.

É perfeitamente natural que a Igreja Católica se interesse pela reconciliação. A Eucaristia, que é o sacramento de reconstrução do acontecimento através do qual o pecado, a maldade e a morte são vencidas e a amizade com Deus e com a justiça são restabelecidas, está na origem e no vértice da vida cristã. N4ao será certo que talvez a construção da paz seja exatamente uma imitação desta transformação? Ou talvez uma onda geral de sociedades tentando restabelecer a justiça fazem com que o momento presente seja propício para que a Igreja ofereça um ensino de reconciliação social, da mesma maneira que ofereceu ensinamentos sobre a guerra, o desenvolvimento econômico e a democracia, nas enciclicas passadas?

Os fundamentos destes ensinamentos podem encontrar-se na vida e nos escritos do Papa João Paulo II. O fato de ter vivido sob o nazismo e o comunismo na Polônia levou-o a aprender o necessário da reconciliação, e a ter uma devoção pessoal em direção à misericórdia. Esse foi o tema de sua segunda encíclica, Rico em misericórdia (Dives in Misericórdia, 1980), que terminava com a surpreendente declaração de que o perdão e a misericórdia pode ser praticado na política, não só nas relações pessoais ou no confessionário. Aprofundou este ensinamento em declarações posteriores para o Dia Mundial da Paz, culminando em 2002, quando logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, acrescentou ao famoso ditame do Papa Paulo VI “não há paz sem justiça”, a frase “não há justiça sem perdão”. Bento XVI afirmou seu próprio compromisso com estes ensinamentos, em parte ao tomar o nome papal que recorda o Papa Bento XV, que deu profundas mostras de reconciliação durante e depois da Primeira Guerra Mundial.

EDIFICAR SOBRE NOVAS FUNDAÇÕES

A tarefa agora é edificar uma nova ética que possa se encarregar dos dilemas propostos por esta era de construção da paz em relação a como manejar o passado. Essa ética poderia sustentar que a reconciliação é em si um conceito de justiça. Essa proposta poderá soar estranho a ouvidos ocidentais, acostumados a pensar na justiça estritamente em termos de direitos, castigo e distribuição da riqueza. Mas nos textos bíblicos, justiça significa uma relação correta compreensiva entre os membros de uma comunidade e Deus. A reconciliação, que com freqüência aparece como conceito nas cartas de Paulo, significa restauração de um estado de relações corretas e, portanto, de um estado de justiça. Fortes ressonâncias deste significado podem ser encontradas em Deutero-Isaías, que usa a justiça para descrever a restauração integral de Israel por Deus, em última instância através de um servo messiânico sofredor.

A noção bíblica de paz (shalom ou eirene) está intimamente relacionada, implicando numa condição integral de relação correta e de justiça. Há outro conceito bíblico que é essencial e que pode ser considerado como uma virtude que anima a reconciliação: a misericórdia. Tal como a descreve João Paulo II em Rico em misericórdia, “a misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio, quando revalida, promove e extrai o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”, uma virtude ampla e transformadora que se parece à reconciliação.

Reconciliação como justiça, paz e misericórdia, como se manifestam estes conceitos na política de sociedades em processo de cura? Através de uma carteira de seis práticas que em conjunto tratam uma ampla gama de feridas causadas pelas injustiças políticas e que, se não forem tratadas, geram ódios, vinganças e mais injustiças.

SEIS CAMINHOS PARA A RECONCILIAÇÃO E JUSTIÇA

Na primeira destas práticas, os ensinamentos sociais da Igreja convergem intimamente com os postulados da comunidade pró- Direitos Humanos: a construção de instituições socialmente justas baseadas no Estado de Direito, Direitos Humanos e o compromisso da justiça econômica. As relações entre os cidadãos e os estados que estas instituições assumem contituem o objetivo em si da reconciliação no âmbito político e não deveriam ser envolvidos em outros aspectos da reconciliação. Tal era a mensagem dos teólogos negros sul-africanos que escreveram o Documento Kairos em 1985 contra seus colegas da igreja que faziam chamados a favor da reconciliação, mas não se manifestavam contra o apartheid com a mesma força.

Mas direitos humanos e Estado de Direito não são suficientes, devido ao tamnho das feridas da injustiça. Uma destas feridas é a solidão e o isolamento experimentados pelas vítimas quando seu sofrimento não é reconhecido pela comunidade, uma dupla violação, como disse o filósofo político sul-africano André du Toit.

Reconhecimento, a segunda prática da reconciliação, imita o Deus que escuta os lamentos dos pobres e recorda o sofrimento de seu povo. No âmbito político, as Comissões da Verdade são as instâncias mais efetuadas, mas também estão os enterros públicos, os monumentos, os museus e a re-escritura de textos didáticos. Consegue-se a reconciliação, quanto mais pessoal for o reconhecimento, assim como foi estabelecido pelos animadores do Remhi da Guatemala.

A terceira prática também envolve a reparação outorgada pelo estado às vítimas, mas neste caso se trata de um pagamento material. Se bem a reparação só pode aliviar a perda econômica de maneira parcial, seu fim mais profundo é que a comunidade política faça um reconhecimento simbólico do sofrimento da vítima.

Uma quarta prática, o castigo, pode parecer fora de lugar numa ética da reconciliação. Os debates no plano global enfrentam a reconciliação com a retribuição e o castigo com a misericórdia, mas não necessariamente deve ser assim. Sob uma perspectiva católica, o castigo é a prática que restaura o shalom. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja afirma seu propósito, “por um lado promovendo a reinserção da pessoa condenada na sociedade; pelo outro, amparar uma justiça que reconcilie, uma justiça capaz de restabelecer a harmonia nas relações sociais, harmonia que foi violentada pelo ato criminoso cometido”. No caso dos cérebros dos crimes de guerra só a privação de liberdade por longos períodos pode comunicar a gravidade de suas ofensas. No entanto, outros combatentes criminosos podem integrar-se novamente em suas comunidades através de fóruns públicos de restauração, como os que o bispo Belo promoveu no Timor Oriental. As anistias, que deixam completamente de lado a reparação, são incompatíveis com o castigo justo; só deveriam ser aplicadas quando se demonstra que são necessárias para conseguir acordos de paz.

O perdão público, a quinta prática, está-se tornando cada vez mais comum em todo o mundo. Isso envolve o arrependimento dos perpetradores e muitas vezes que o chefe de Estado fale em nome do Estado. Por exemplo, depois do fim da ditadura de Augusto Pinochet no Chile, Patrício Aylwin, seu presidente católico, pediu desculpas públicas às milhares de vítimas da tortura de Pinochet, com grande efeito sanador.

O perdão é a sexta e suprema prática. Também é a mais dramática, já que é a vítima que inicia, que não só renuncia ao seu próprio direito contra o perpetrador, mas põe em movimento uma vontade construtiva para restaurar a relação. Teologicamente, o perdão é a participação na redenção do mundo da parte de Deus –um mundo que inclui os perpetradores de atrocidades– através da cruz.

Politicamente, pode ser restauradora, às vezes de maneira dramática. Eugene de Kock, o mais brutal aplicador do Apartheid na África do Sul chegou a se arrepender de seu passado, após ser perdoado pela esposa de um ativista antiapartheid a quem ele havia assassinado. A Igreja Católica tem incentivado as vítimas a exercerem o perdão em inúmeros lugares, incluindo El Salvador, Chile, Irlanda do Norte, Guatemala, Timor Oriental, Uganda e Polônia.

Estas seis práticas podem funcionar em conjunto, cada uma dirigida a curar uma dimensão diferente das feridas, cada uma exercitando a misericórdia para a restauração da paz, e como conseqüência produzindo mais graus de justiça. Na política, as práticas sempre serão incompletas: postas em perigo pelos poderosos, obstaculizadas pelas diferenças no que se entende por justiça, sobrecarregadas por sua delicada complexidade e debilitada pelas instituições políticas que foram destruídas e só parcialmente reconstruídas. Esta parcialidade também contém uma dimensão teológica: o pecado original também é um componente da ética católica da reconciliação. Mas a fé, principalmente quando está guiada pelo Espírito e se vive como participação na ação redentora de Deus, também obtém vitórias. Nas palavras do poeta irlandês Seamus Heany, inclusive na política, há momentos em que “a esperança e a história rimam”.

A Igreja, perita em humanidade

Pe Almir Magalhaes

O título desta contribuição, “A Igreja, perita em humanidade”, é uma nomenclatura que já se tornou um patrimônio da linguagem eclesial e eclesiástica, e a sua fonte é a Carta Encíclica do Papa Paulo VI – Populorum Progressio (sobre o Desenvolvimento do Povos de 26.03.67, nº. 13) e repetida incontáveis vezes em outros documentos do Magistério e quer significar, em função da sua missão, todo o empenho de se por a serviço de cada homem e do mundo inteiro (Cf. O Esplendor da Verdade, João Paulo II, 06.08.1993, nº. 3).

Colocando o foco das atenções na vida pastoral da Igreja, a preocupação e a prática deste horizonte, levariam a uma reviravolta no modo de compreender a nossa presença junto às pessoas, o nosso modo de julgá-las, às vezes até condenando-as. Esta reviravolta deveria ser uma motivação fundamental para entendermos a missão como encontro, buscando as pessoas lá onde elas se encontram, ajudando a superar uma forma evangelizadora massiva e criando a possibilidade de testemunho, de discipulado.

É interessante como todos os últimos documentos da Igreja de cunho pastoral têm refletido sobre o Ministério do Acolhimento. Isto não seria nenhum favor da nossa parte, se levarmos em conta toda a proximidade de Jesus Cristo junto às pessoas, especialmente os marginalizados e sofredores e acima de tudo aquilo que forma o eixo da sua vida que foi expresso na imagem do BOM PASTOR; ao mesmo tempo é curioso como, em todos os níveis da Igreja e dos mais variados ministérios, esta orientação, que é uma forma de expressar a Igreja como perita em humanidade, é timidamente acolhida.

Tenho defendido peremptoriamente que as Paróquias e Áreas Pastorais elaborem seus Planos de Pastorais, definindo objetivos e prioridades, em função da inculturação do Evangelho e como forma de inserção na realidade. Entretanto, de nada adianta belos planos para serem engavetados ou se não estiverem inspirados na mística do acolhimento, na ternura, no carinho, na atenção às pessoas, como afirma São Paulo – acima de tudo o amor (cf. 1ª Cor 13).

Durante nossas liturgias, sobretudo a Eucarística, temos presenciado em algumas Igrejas esta preocupação louvável de acolher bem as pessoas. Aqui vale a célebre frase “A Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja”, ou seja, ao administrar a Eucaristia, esta deveria inspirar a vida eclesial de acordo com tudo aquilo que ela representa, o que se celebra. Explicitando melhor, se na liturgia Eucarística há este empenho de acolhimento, isto deveria ser ou a expressão da experiência vivida na comunidade eclesial ou, caso contrário, que se construa aquilo que se constitui em ministérios dentro da mesma: os vários ministérios que se exercem na Eucaristia, incluindo aí o acolhimento deveriam deixar de ser uma “cena” uma “virtualidade cúltica, de aparência no templo” para ser uma realidade, vida.

As estruturas eclesiásticas deveriam ser construídas com base neste pressuposto. Neste caso, a Secretária (Secretaria Paroquial) deveria ser bem preparada para acolher bem as pessoas; os serviços de atendimento das várias pastorais da mesma forma, desde o momento das inscrições de batismo, crisma, matrimônio e outros, e em todas as ocasiões de relações no cotidiano da vida da Igreja .

Ter uma postura de cortesia e atenção às pessoas atrai muito. Neste sentido as normas, as prescrições criadas por nós (e que são muitas) e aquelas constantes do Direito Canônico e do Catecismo da Igreja Católica não seriam relativizadas, mas a relação entre os protagonistas seria na base do diálogo. A partir do que está exposto, vamos entender que missão não significa fazer muitas coisas, ela não se situa no âmbito da atividade, mas naquele das relações. Novas relações fundamentadas na misericórdia, no perdão e na justiça. Quanto mais aproximação mais eleva o nível do discipulado. As Lei, as Normas são valorizados, mas, antes disto o acolhimento.

Tudo na vida de Jesus aponta para estruturas leves e relacionais, para a cura das feridas e o perdão dos pecados. “Às vítimas da rejeição e do desprezo, declara: “bem-aventurados vós, os pobres (Lc 6,20), fazendo-lhes inclusive, sentir e viver, já, uma experiência de libertação, estando com eles, partilhando a mesma mesa (cf. Lc 5,30; 15,2), tratando-os como iguais e amigos (cf. Lc 7, 34), procurando que se sentissem amados por Deus, e revelando, deste modo, imensa ternura pelos necessitados e pecadores (cf. Lc 15, 1-32)” (ver Redemptoris Missio de João Paulo II, nº. 14).

Sempre partilho com os alunos em sala de aula, sobretudo dirigindo-me àqueles que no futuro serão padres, que nós temos uma dificuldade enorme de renovar as nossas estruturas paroquiais e quando o assunto é abordado sempre surgem as reflexões dos limites que temos, dificuldade de mudar por conta dos próprios paroquianos que estão apegados a uma catequese que receberam e colocam obstáculos para mudanças. Tenho dito que nos últimos anos muitas iniciativas nas paróquias foram assumidas, todas elas reforçando um estilo de conservação, rotina e manutenção (missas para todos os gostos, terço dos homens, louvores e mais louvores), que não levam ao fundamental, que seria criar fraternidade, acolhimento, ambiente familiar e uma mentalidade de que a Igreja é PERITA EM HUMANIDADE. Nós “não sabemos” como começar, e, por incrível que pareça a criatividade vai para outra direção.

Pergunto: Qual o sentido de tanta reza, tantas missas, tantos terços, tantos louvores… se tudo isto não conduz a uma espiritualidade do discipulado, a nos tornarmos mais humanos?

Testemunhas da Ressurreição!

As aparições do Ressuscitado trazem uma mensagem inquestionável: JESUS, o VIVENTE, venceu a morte.

A morte não tem poder sobre ELE!
Não destruiu a sua VIDA e Missão, somos chamados a perpetuar sua presença no mundo pela fé e testemunharmos que a VIDA é mais forte que a morte.

O texto de Lucas (24 , 35-48) mostra que depois da ressurreição JESUS mostra-se mais humano que nunca.
José Maria Castilho, refletindo essa passagem do evangelho nos diz:
“Uma vez que, em JESUS, DEUS se fundiu e se confundio com o humano, quando JESUS ressuscita, por mais divinizado que nos o pensamos e acreditemos, a divinização não traz consigo um afastamento, nem a miníma perda de sua condição humana, ao contrário: precisamente porque nós o vemos mais divino, por isso se faz mais profundamente HUMANO.

Castilho continua:
Isto explica que JESUS é reconhecido ao partir o pão, e sua presença tira o medo e as dúvidas, dando a paz e alegria; se deixa ver, tocar, apalpar, come diante de todos”.

JESUS lhes abriu o entendimento para compreender as Escrituras.

VÓS SOIS TESTEMUNHAS DE TUDO ISSO!

Somos chamados, convocados a testemunhar sua presença e ação na história, a ajudar em seu nome aos paralizados a andar, a sair da apatia e da indiferença, a superar o medo e o individualismo.

Hoje JESUS nos diz:
Por que estais com medo?
Por que surgem dúvidas em seu interior?
Olhai minhas mãos e meus pés, SOU EU em pessoa.
JESUS lhes mostrou as mãos e os pés.

JESUS comeu diante deles!

Todo este texto nos comove e nos envolve, é a pedagogia do AMOR paciente, do AMOR ferido e ressuscitado que nos leva a crer sem impor mas a se propor, doar, conviver e a transformar-se para transformar!
SENHOR da Vida, da dor e do Amor,
é impossível não acreditar em TI,
e na força suave da tua presença,
no pão partilhado, na convivência e no compromisso.

Ajuda-me a testemunhar na e pela vida que sois o SENHOR!
O RESSUSCITADO
O VIVENTE
A força e a ternura do DIVINO AMOR !


Assista abaixo à homilia da missa de 26/04/2009:

Testemunha que transforma

“O conhecimento também é poder.” – F. Bacon

Sem maiores pretensões, peguei o primeiro papel e o conceito de testemunha. Então perguntei às palavras o que poderiam revelar sobre o tema. E falaram com tamanha generosidade que pedi ao menos um tempo para sintetizá-las.

Primeiro veio a lembrança de que testemunhar equivale a tomar consciência. E a certeza, quase cruel porque não aceita desculpas, de que uma vez dado esse primeiro passo podemos nos esconder no fundo do mar ou fugir para o monte mais alto do planeta, e tudo será em vão, porque lá estará nada menos que ela, a nossa consciência, nos lembrando de que já tomamos… consciência.

Como fugir ao compromisso que ela implica? Não existe como fazer isso com legitimidade. Tomar consciência nos remete automaticamente à idéia de que não nos comprometer equivale à omissão. Portanto, repito, não existe uma saída aceitável quando testemunhamos o que deve ser transformado a não ser a ação transformadora.

E as palavras me propuseram ainda outra questão: como e quando agir? Em que tempo e com qual estratégia devemos transformar consciência em ação eficiente? Todo cuidado é pouco, porque a ingenuidade é a pior cartilha de que alguém pode se servir. De boas intenções… – diz a sabedoria que não vem dos livros.

Tudo estaria pronto, não fosse por um detalhe: sem o desejo de agir, tudo se transforma numa bela e vazia reflexão. Porque se testemunhar é tomar consciência, e isso pede atos concretos, há que se fugir da inércia. Mas sem o propósito de envolver-se, o resultado mais otimista será o vazio e a frustração, individual e coletiva.

Ser testemunha é assumir o controle, exercer com habilidade e determinação o poder de transformar. Ora, isso nos torna perigosamente fortes. Um exército capaz de mudar o que parecia imutavelmente estabelecido.

Rubens Marchioni

Voar com o cardeal Lorscheider

Pe. Geovane Saraiva

Livro sobre o Cardeal Lorscheider, “A Ternura de um Pastor”, com 228 páginas, da Editora Caligráfica Ltda, de minha autoria, será lançado no dia 17.05.2009, as 18h, por ocasião da inauguração da estátua de Dom Aloísio, na Praça da Igreja de Santo Afonso.

Dom Aloísio, um frade menor que se tornou grande, entre todos ele foi o maior, porque colocou a sua vida em favor da vida, da vida por inteiro, marcando decisivamente a nossa história. Bondade sem limites, que em Deus encontrou o sentido da vida e o amor nele se fez dom para os irmãos. Do povo cearense ele afirmou: “A bondade e a acolhida do povo foi grande, com muita compreensão e muito apoio. A alma profundamente religiosa dessa boa gente é uma preciosidade. Senti uma especial acolhida da imprensa local. Foi uma presença bem viva nestes 22 anos […] Aquilo que se diz do sertanejo, deve dizer-se também do povo todo”.

O nosso querido Prof. Miguel Brandão disse algo bonito sobre o nosso amado pastor, com grande sabedoria: “Palavras que se encarna, vida que se oferece, alimento que se faz comunhão e ressuscita – Agradecendo a Deus a presença santificadora e operante de Dom Aloísio, nesses 22 anos, em que conosco viveu, lutou, chorou e sorriu: anunciando e denunciando, indo à frente, no meio, na retaguarda, e celebrando”.

“Doado totalmente, seu dia-a-dia é uma sucessão ininterrupta de encargos relacionados com a missão, abraçados com coragem, coerência e na serena alegria de que fala o Eclesiástico: A alegria do coração é a vida do homem, a alegria do homem aumenta os seus dias” (Eclo 30, 22), foram as palavras sábias de Irmã Maria Montenegro, falecida ano passado.

O Senador Pedro Simon disse “Dom Aloísio foi uma grande reserva moral do país e um grande líder religioso. Representou o pensamento da Igreja principalmente nas horas mais difíceis, mais dramáticas, quando foi Secretário Geral e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Na hora do arbítrio, ele teve coragem e foi um grande mestre da Igreja Católica”. Por aí iremos mergulhar na vida e na ação pastoral do grande pastor dos empobrecidos, a exemplo de Dom Helder Câmara e tantos outros seguidores de Jesus, o Bom Pastor.

O livro “A Ternura de um Pastor” é de nossa iniciativa. Penso que deste modo estamos contribuindo para a história do Ceará, do Nordeste e do Brasil. Dom Aloísio foi extraordinário em tudo e seus escritos não podem ficar só arquivados ou nas gavetas e muito menos cair no esquecimento. Vamos fazer um belo vôo, uma viagem com o Cardeal Aloísio Lorscheider, através dos seus escritos, da sua vida e da sua ação pastoral.

Dom Aloisio: quanta humildade!

Miguel Brandão

Em boa hora, Padre Geovane Saraiva, pároco da Parquelândia em Fortaleza (CE), teve essa feliz idéia de publicar alguns escritos de Dom Aloísio Lorscheider, dentre os inúmeros que escreveu durante os vinte e dois anos de ministério episcopal na Arquidiocese de Fortaleza.

Estes textos são reveladores de sua capacidade de estar ao mesmo tempo intimamente unido ao “Bom Deus”, como ele gostava de tratá-lo, e ao povo que pastoreava. Na meditação da Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração do Ofício Divino se inebriava, se fortalecia, e na ação caritativa, prestimosa, solidária, constante e incansável, se entregava todos os dias para animar seus padres, para consolar os sofredores, para reanimar os fracos, para se solidarizar com os pobres e excluídos, de qualquer espécie, na luta em defesa da vida, da inclusão, da cidadania, contra os poderosos opressores e exploradores do povo.

Estive pertinho de Dom Aloísio nos seus últimos anos de arcebispo de Fortaleza, já com a saúde debilitada, coração fraquejado. Posso testemunhar algumas coisas eclesialmente bonitas, humanamente edificantes:

1.A colegialidade dos bispos era uma preocupação permanente em seu ministério episcopal. Quer com os bispos auxiliares, no âmbito da Arquidiocese de Fortaleza, com os quais trabalhava em comunhão permanente, quer com os bispos das outras dioceses, no âmbito do Regional Nordeste 1, do qual era Presidente, Dom Aloísio não tomava decisões isoladamente, nem agia solitariamente. Isso se traduzia na multiplicidade de reuniões, encontros, assembléias, sempre com o seu caderno na mão, atento a todos, anotando tudo. Ele costumava dizer que a ascese, hoje, é ficar sentado, participando de reuniões para agir em comunhão.

2.Dom Aloísio zelava pela formação permanente dos presbíteros e pela participação deles e dos leigos nas decisões pastorais da arquidiocese. Inteligente e sábio, vislumbrava as necessidades pastorais, sabia de antemão o que fazer, que caminho tomar. Mas esperava… esperava pacientemente que os assuntos fossem sendo discutidos por padres e leigos, fossem amadurecendo aos poucos, até um consenso, até uma votação consciente e de ampla maioria nas assembléias arquidiocesanas. Assim foi com a criação das Regiões Episcopais, cujo processo durou praticamente três anos (1984-1986); assim com a partilha dos 10% das paróquias para a redistribuição, conforme as necessidades da Arquidiocese; assim, com o Projeto do Batismo, cujo texto mártir, durante dois anos, sofreu muitos estudos, emendas com supressões e alterações, desde as bases, em comissões nas paróquias, nas regiões episcopais, até ser submetido o texto final aos participantes da Assembléia Arquidiocesana de 1992, quando foi aprovado quase por unanimidade, mais de 95% de votos favoráveis; assim com o Projeto do Dízimo, cujo texto base foi feito e trabalhado em comissões e reuniões do Conselho Pastoral, durante o final do seu episcopado entre nós e foi retomado, aprovado e promulgado por Dom José Antonio Tosi, atual arcebispo de Fortaleza.

3.Dom Aloísio sempre estava perto do povo, de todo o povo, sobretudo do povo sofrido e maltratado. Aceitava os convites, não apenas para celebrar, mas também para visitar, para estar junto, para escutar os desabafos, para ver o sofrimento, para levar coragem e solidariedade, nas cadeias e presídios, nos hospitais, nas ocupações urbanas e assentamentos rurais, nas favelas e áreas de risco. Por isso, mudou junto com seus bispos auxiliares, escutando as Regiões Episcopais, o modelo de Visita Pastoral. Implantou a Visita Pastoral Missionária em que ele, os bispos auxiliares, o coordenador de pastoral, o vigário episcopal, os padres da Região, religiosas e missionários leigos voluntários, visitavam o povo de Deus. Era uma Visita pastoral missionária colegiada, ou comunional. E ele ia andando pelas ruas e vielas, pelas estradas e caminhos, nas ladeiras e no plano, de carro ou a pé, visitando as famílias, as comunidades eclesiais de base, os hospitais, os presídios, as escolas dos centros urbanos ou das periferias, das vilas ou povoados, do Sertão, da Serra e da Praia. Foi numa Visita Pastoral à Região Episcopal Metropolitana 1 que ele, seus bispos auxiliares, o vigário episcopal, alguns agentes pastorais e acompanhantes da Visita foram seqüestrados no Instituto Penal Paulo Sarasate. Mas foi um caso isolado, todos os presídios eram visitados nas visitas pastorais. Eu o vi conversando nas celas e nos corredores, com os presidiários do Instituto Penal Olavo Oliveira, no Itapery. Grandes encontros aconteciam nesta Visitas com o objetivo de ele e os missionários visitantes escutarem o que o povo da Região Episcopal, católico ou não, tinha a dizer: encontros com professores e educadores, com jovens, com trabalhadores rurais e assentados, com índios, com famílias, com catequistas… Duas de suas últimas cartas pastorais foram feitas no final de Visitas Pastorais. E as redigia com seus bispos auxiliares. Lembro-me que no dia do encerramento de uma Visita Pastoral à Região Serra, ele me entregou, manuscrita por ele, a Carta Pastoral sobre a Missão, para que desse minha opinião, tirasse ou acrescentasse alguma coisa. Quanta humildade! Um sábio e santo que pede o parecer de um simples pecador.

4.Tinha um carinho especial com os leigos e leigas, apoiando e ajudando a organização do Conselho de Leigos, os movimentos e pastorais que iam surgindo, as comunidades religiosas inseridas. Praticamente não faltava, participando integralmente, aos encontros do Cursilho de Cristandade, às Assembléias das CEBs, do Conselho de Leigos, da Pastoral Operária e de outras pastorais e movimentos. Tinha um carinho todo especial com os excluídos, sofredores de qualquer tipo de exclusão. Participou de vários encontros dos padres casados de Fortaleza e abriu uma sala da Prainha para sede do Movimento dos Padres Casados e o Seminário de Teologia, no bairro Dias Macedo, para realização do Congresso dos Padres Casados do Nordeste, do qual participou. Incentivou e animou a criação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, da Pastoral Indigenista, da Pastoral do Menor, da Pastoral do Solo Urbano. Sobre o Solo Urbano fez uma carta pastoral que está transcrita neste livro.

5.Lembro-me do prazer e carinho que tinha em escutar as pessoas. Presenciei isso numa das visitas que fez ao Artesanato Vocacional Escola – AVE, obra filantrópica, caridade social, de minha querida esposa Maria de Lourdes, em Messejana. Ficou até tarde da noite escutando as lamentações e dores, econômicas e morais, de homens e mulheres de favelas e ocupações vizinhas. Era para mim um prazer ouvir suas intervenções, suas homilias, seus pronunciamentos. Só sua presença já me fazia bem. Bebia a sabedoria de suas palavras e aprendi muita coisa com ele. Que, por exemplo, a opção preferencial e evangélica pelos pobres não significa que vamos evangelizá-los, mas que eles é que nos evangelizam, que nos apresentam e nos revelam a face de Cristo, que nos anunciam o Reino de Deus. Minha inteligência se satisfazia, minha fé se alimentava e enchia-me de entusiasmo (entusiasmo, etimologicamente, é ficar cheio de Deus). Os minutos passavam e eu não cansava.

Dom Aloísio foi-me um pai, um pai querido, que me escolheu, que me chamou, que me jogou de novo na lida…

O padre Geovane Saraiva, querido amigo, está de parabéns por esta iniciativa. Enquanto Dom Aloísio se preparava para viajar e fazia as malas para Aparecida, recolhi em sua casa para o Secretariado de Pastoral e para a Sala de História da Arquidiocese vários de seus escritos que não pretendia levar consigo, prometendo-me a mim mesmo que iria publicá-los. Não o fiz. Pelo menos ainda não. Espero um dia fazê-lo ou ajudar a Arquidiocese a tal. Os escritos de Dom Aloísio são preciosos demais para ficarem apenas arquivados numa sala de História. Muito menos podem cair no esquecimento. Que o exemplo do padre Geovane seja seguido.

José de Broucker : Dom Hélder Câmara : místico, fraternal, servidor fiel

Patricia Fachin

Jornalista, o francês José de Broucker foi amigo de Dom Hélder Câmara por três décadas. Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele relembra o tempo que conviveu com o arcebispo de Recife e revela admiração profunda pelo brasileiro de ideias liberais que ajudou a construir uma Igreja diferente. Numa fórmula breve, Broucker define o que qualifica como a complexidade paradoxal de Dom Hélder: “três pessoas em um só homem : homem de Deus, homem do mundo e homem da Igreja”.

Ao lembrar do amigo, ele diz que “Dom Hélder despertou numerosos engajamentos por um mundo mais juto e mais humano”. Neste ano em que comemoramos seu centenário de vida, “ele ainda está mais eloquente em seus escritos”. Sua mensagem ainda está viva e ‘a visão e os engajamentos que ele trabalhava para promover são vividos hoje por quantidades de organizações de sociedades civis em um número muito grande de países, inclusive na América Latina e no Brasil”. Seus escritos, continua, “dos quais muitos ainda estão para ser publicados, constituem uma herança extremamente preciosa para as gerações atuais e futuras”.

Biógrafo de Dom Hélder Câmara, José de Broucker escreveu diversas obras, entre as quais destacamos As noites de um profeta. Dom Hélder Câmara no Concílio do Vaticano II (São Paulo: Paulus, 2008). O autor é presidente da Associação Dom Hélder – Memórias e Atualidade, e diretor das Informações Católicas Internacionais no Tempo do Concílio.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O senhor conviveu com Dom Hélder aproximadamente 30 anos. A partir dessa convivência, como descreve a personalidade humana e cristã de Dom Hélder Câmara?

José de Broucker – Tenho o hábito de expressar em uma fórmula a complexidade seguidamente paradoxal de Dom Hélder: três pessoas em um só homem: homem de Deus, homem do mundo e homem da Igreja. Por assim dizer: místico, fraternal, servidor fiel.

IHU On-Line – Como a trajetória de Dom Hélder nos ensina e repensar a Páscoa hoje? O que a mística desse momento revela sobre o espírito de Dom Hélder Câmara?

José de Broucker – A invencível e comunicativa esperança da qual Dom Hélder testemunhou em todas as circunstâncias não me parece sem relação com sua fé na ressurreição do Senhor: “Quanto mais negra é a noite, mais brilhante será a aurora.” Nem sem relação com sua atenção privilegiada aos pobres: “Não cabe aos pobres compartilhar da minha esperança, mas a mim de compartilhar da esperança dos pobres.”

IHU On-Line – Em que sentido as ideias liberais e libertadoras de Dom Hélder Câmara podem servir como fonte de energia para novas ações na sociedade, considerando também esse momento de crise (capitalista, institucional, de valores) que vivemos?

José de Broucker – Durante a sua vida, por todos os lugares onde passava e falava, Dom Hélder despertou numerosos engajamentos por um mundo mais justo e mais humano. O que ele chamava de “minorias abrahâmicas” que exercem “pressões morais libertadoras” sobre as estruturas de poder estão cada vez mais presentes e ativas. Hoje, Dom Hélder não está mais aqui. Mas ele está ainda mais eloquente em seus escritos do que em suas conferências. Aos atores sociais que são tentados pelo desânimo diante dos desafios da história, recomendo a leitura de suas Cartas Circulares conciliares e Interconciliares, de suas Meditações do Padre José, de suas alocuções radiofônicas. São inesgotáveis reservatórios de energias renováveis!

IHU On-Line – O senhor conheceu Dom Hélder na cobertura do Concílio Vaticano II. O que motivou a amizade entre vocês? Pode nos contar um pouco sobre os elos que os uniram durante três décadas?

José de Broucker – Meu primeiro encontro prolongado com Dom Hélder data de 1968, quando fui a Recife para realizar uma pesquisa-retrato do “arcebispo das favelas” a pedido de um editor parisiense (La violence d’un pacifique) [A violência de um pacífico]. Este encontro me fascinou, mas não esgotou a minha curiosidade de jornalista e de cristão: quarenta anos mais tarde, eu a persigo de todas as formas e maneiras. Também colaborei com a edição francesa de vários de seus livros, desde os anos 70. De sua parte, Dom Hélder me concedeu a sua confiança e me pediu para ser, de alguma forma, uma “antena” na França, notadamente para preparar e acompanhar suas viagens: eu era, de certa forma, com minha mulher e meus filhos, uma modesta “peça trazida” da “Família Mecejanense”.

IHU On-Line – Qual a principal contribuição de Dom Hélder para o Concílio Vaticano II?

José de Broucker – Como observou P. Congar, Dom Hélder tinha uma qualidade “tão rara em Roma”: uma visão. Uma visão do mundo – que não é somente europeu e rico, e uma visão da Igreja – servil e pobre, colegial, participativa, ecumênica no sentido mais amplo do termo. Esta visão estereoscópica, ele soube dividir, de minoria em minoria episcopal, até que ela fosse, em seus pontos mais importantes, a da maioria. Uma outra contribuição foi a de despertar e entreter um diálogo entre a assembleia conciliar e a opinião pública, pelo número de vezes que ele falou em público fora dos muros da Basílica de São Pedro.

IHU On-Line – De que maneira o pensamento de Dom Hélder permanece vivo ainda hoje? Que heranças o sacerdote deixou na Europa, onde esteve mais de 30 vezes?

José de Broucker – Na França e talvez na Europa, as mais antigas gerações guardam de Dom Hélder lembranças vivas e lamentos: lamentos de não mais poderem se ouvir interpelados por vozes tão livres e libertadoras. Mas, se ainda são raras as pessoas e os grupos que solicitam Dom Hélder, a realidade é que a visão e os engajamentos que ele trabalhava para promover são vividos hoje por quantidades de organizações de sociedades civis em um número muito grande de países, inclusive na América Latina e no Brasil. E, de maneira muito concreta, considero que seus escritos, dos quais muitos ainda estão para ser publicados, constituem uma herança extremamente preciosa para as gerações atuais e futuras.

IHU On-Line – Dom Hélder era conhecido como um homem de vários dons. Para o senhor, é possível destacar uma qualidade imprescindível do arcebispo de Recife?

José de Broucker – Sua preferência por convencer mais do que vencer, e a arte com a qual ele sabia colocar em prática, sem nunca separar verdade e bondade.

IHU On-Line – Como os ensinamentos de Dom Hélder podem ajudar a construir uma nova Igreja? Para o senhor, na visão de Dom Hélder, que mudanças seriam cruciais na Igreja de hoje?

José de Broucker – Após Dom Hélder, eu diria: que ela aplique a si mesma os belos princípios que prega, tanto em nome do Evangelho como do direito natural.

A ternura de um pastor

O livro “A ternura de um Pastor”, do Pe Geovane Saraiva, prestes a ser lançado, propõe-se a relembrar (e homenagear) D. Aloisio Lorscheider. Sua vida toda de doação é uma dádiva, é dom de Deus! Ele foi um exemplo que devemos seguir. Sua vida toda, colocada, com muita disposição interior, ternura e coerência, a serviço do Reino, construindo a esperança, colocando remédio em todo tipo de ferida, numa palavra: animando as pessoas marcadas pelo sofrimento, animando os desanimados.

Em Dom Aloísio, com o nosso humilde trabalho, iremos reviver a sua vida e a sua paixão por Jesus Cristo e seu Reino e, colocar diante dos nossos olhos, na nossa mente e no nosso coração, com a sua vida e o seu exemplo, a figura Jesus, o Bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas.

Eis o que ele disse ao ser transferido do Sul do Brasil para o Nordeste: “[…] Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade do povo. No nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para os problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra feição”.

Vejamos o que os nossos pastores e outras pessoas disseram a seu respeito:

Dom José Antonio disse: “Dom Aloísio realizou até o fim o que a inspiração divina lhe tinha proposto como luz para a sua vida: Na cruz a salvação e a vida. Identificado com o Senhor em sua cruz, foi instrumento de salvação e vida”.

A Palavra de Dom Geraldo Lírio da Rocha sobre Dom Aloísio: “A gratidão toma conta de nossos corações ao celebramos nesta noite de 08.04.2008 a homenagem da Conferência dos Bispos do Brasil. Homem do equilíbrio, que se manifestava na vida diária através da inteligência e da humildade […] Entre a ação e oração, entre a doutrina e a caridade, entre o poder e o serviço, entre um olhar exigente e um coração bondoso”.

Dom Sinésio Bohn no seu artigo: “Seu amor a verdade, o apego ao Evangelho como critério de vida e de pastoreio, sua capacidade de dialogar e o amor aos pobres. Permaneceu humilde, serviçal, irmão entre irmãos. Morreu com o habitual sorriso nos lábios. Um homem bom, íntegro, discípulo de Cristo. Um exemplo a seguir”.

O Senador Pedro Simon falou de Dom Aloísio assim: “[…] sua voz, naturalmente doce, alternava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da justiça […] […] quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de Dom Aloísio se alternou. Ecoou pelos corredores das prisões […]”.

Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”.

“Ele foi o Cardeal que mais ajudou os movimentos populares no Ceará. Ele foi sempre acolhedor, na sua tranqüilidade e amabilidade, recebendo os movimentos populares e procurando intermediar, da melhor maneira possível […] (Dep. Chico Lopes).

É uma pequena contribuição para a história do Ceará, do nordeste, do Brasil e do mundo inteiro, porque nosso saudoso amado Pastor era, a exemplo do fundador da sua ordem, o pobrezinho de Assis, cidadão universal, cidadão do planeta.

É por aí que vamos voar. Aguardem!