Reforma agrária

Dorothy Stang. Um crime ainda impune

“O principal legado que a Dorothy deixou foi a forma como ela viveu, ou seja, tratando a terra como se fosse sua mãe”, revela a irmã Kátia Webster na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone. Ela relembra momentos da vida de irmã Dorothy Stang com quem trabalhou durante 11 anos, no Pará, lutando pelos pobres que não têm terra e são oprimidos pelos madeireiros e fazendeiros da região.

No próximo dia 10, o assassino da irmã Dorothy será julgado, quase cinco anos depois de matar a irmã estadunidense. “Os mandantes continuam respondendo em liberdade. Continuam impunes no sentido que os processos de investigação e julgamento não têm chegado ao júri. A esperança é que, no próximo ano, eles sejam finalmente julgados”, explicou a irmã Kátia, que faz parte da Congregação das Irmãs de Notre Dame.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quando a senhora conheceu a Ir. Dorothy?

Kátia Webster – Ela estava aqui desde 1982, e eu cheguei em 1993. Então, ela já tinha 11 anos de moradia e trabalho aqui no Xingu antes de eu vir para cá. Na verdade, acho que ela chegou ao Brasil em 1966. Eu vim para o Brasil porque sempre quis morar aqui e somar forças com o povo que estava lutando pela libertação através da palavra de Deus.

IHU On-Line – Passados quase cinco anos do assassinato de Ir. Dorothy, as coisas mudaram na região de Anapu ou continuam como antes?

Kátia Webster – Mudaram, de certa forma. O povo mudou porque se firmou na luta, e a sua organização é sempre mais firme, pois tem assumido a luta pela segurança na terra. O povo luta, portanto, no sentido de saber que a terra é dele, que lá ele pode ficar e não tem quem tire, e ele tem segurança para comercializar o seu produto. Dessa forma, ele procura aprender novas técnicas para que essa terra não “canse”, ou seja, para que não fique improdutiva.

IHU On-Line – Os mandantes do assassinato de Ir. Dorothy continuam impunes?

Kátia Webster – Os mandantes continuam respondendo em liberdade. Continuam impunes no sentido que os processos de investigação e julgamento não têm chegado ao júri. A esperança é que, no próximo ano, eles sejam finalmente julgados. Os mandantes estão em liberdade sim, não estão pagando por aquilo que fizeram. Mas o caso não foi encerrado.

IHU On-Line – O medo é o principal inimigo na luta contra a impunidade?

Kátia Webster – Talvez seja medo, mas talvez seja também a questão do dinheiro, ou seja, o que o dinheiro pode comprar para poder segurar, para poder fazer com que seus crimes não cheguem à justiça. Os advogados sempre encontram mais um recurso, mas o pobre não tem acesso a isso. O pobre, quando é acusado, vai logo a julgamento e ponto final. Mas quando há muito recurso envolvido, sempre há mais uma brecha para poder prolongar o processo.

IHU On-Line – Houve avanços com o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), origem do conflito que levou Dorothy à morte?

Kátia Webster – Houve. Quando Dorothy morreu, não tinha muita gente morando dentro do Projeto de Desenvolvimento Sustentável onde ela foi morta. Depois do seu assassinato, entrou muito mais gente no projeto. Nós estamos ainda vivendo um processo de liberar lotes que são do PDS na justiça. O contrato original das terras é dos primeiros donos, que nunca vieram, mas receberam por leilão. Esses donos viviam no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais, São Paulo e, como nunca vieram, os contratos foram cancelados. No entanto, alguns espertos venderam esses lotes para o qual foram criados documentos de compra e venda que têm que ser anulados. Este processo de declaração de que as terras são da União é longo. A terra onde Dorothy foi assassinada era assim. Desde que ela morreu, este lote foi declarado para o PDS e para o povo. As estradas já são melhores, ainda não estão perfeitas, as escolas ainda são frágeis, mas a luta continua para que seja uma escola boa. Avanços há, porque o povo está lá dentro e produzindo, mas é preciso ainda mais. Falta assistência técnica aprimorada, precisa terminar as estradas, construir as escolas de alvenaria, terminar as casas, puxar a energia que ainda não chegou e tirar o resto dos lotes que ainda estão com a justiça.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação da ação do governo na região?

Kátia Webster – Estamos com o INCRA e o IBAMA aqui, mas eles ainda são fragilizados, não estão recebendo os recursos necessários para cumprir sua agenda na região. O governo do estado é ainda mais frágil, ele não tem dado o apoio ao povo, assim como o governo do município, que está muito aliado aos fazendeiros e madeireiros.

IHU On-Line – Com quem vocês contam na região?

Kátia Webster – Em primeiro lugar, é o povo mesmo, o desejo de se organizar e ver os filhos seguros. A gente conta com essa organização e com órgãos como o INCRA e o IBAMA – embora sejam extremamente frágeis. Além disso, contamos com as igrejas do município, não apenas a igreja católica.

IHU On-Line – O filme “Mataram Irmã Dorothy” tem auxiliado na luta que se trava na região?

Kátia Webster – Eu acho que sim, porque, de certa forma, abriu os olhos para a luta. Hoje vemos até que ponto tem gente que é capaz de se vender por dinheiro. Além disso, ajudou, valorizando o povo e sua luta, com isso, ele se sentiu fortificado. Essas forças são muito importantes, pois determinou o povo a viver dentro desse processo de sustentabilidade. O filme mostrou isso.

IHU On-Line – É correto afirmar que o caso ganhou repercussão mais forte no exterior do que no Brasil?

Kátia Webster – Acho que não. Sinto que a questão é muito forte no Brasil. Sei que tem certos pontos lá fora onde divulgam. Mas onde teve repercussão foi aqui. Seja onde for, no Brasil, nos lugares onde andamos, há pessoas que nos procuram e perguntam: “você é irmã da Dorothy?”, “como está Anapu hoje?”. Sinto muito respaldo aqui no Brasil.

IHU On-Line – Na opinião da senhora, qual foi o principal legado que a Ir. Dorothy deixou?

Kátia Webster – O principal legado que a Dorothy deixou foi a forma como ela viveu, ou seja, tratando a terra como se fosse sua mãe. Estamos aqui para conviver com essa terra, e não para explorá-la. Estamos aqui para viver de tal modo que não podemos tirar a vida da terra até acabar com ela. A luta tem que ser feita em união, e não apenas por uma pessoa. Precisamos acreditar uns nos outros, a vida se sustenta na união e na convivência com a natureza. Além disso, a persistência da Dorothy é um legado. Ela não desistia. A vida é para todos mesmo, e o sistema econômico vigente oferece lucro apenas para poucos. Vai ocorrer, em Copenhague, um encontro sobre o clima e o meio ambiente. Sobre isso, nós perguntamos: os países maiores, como Estados Unidos e China, estão realmente dispostos a concordar com o uso dos seus recursos? Se isso não acontecer, a coisa não vai andar, pois eles querem os benefícios apenas para eles.

IHU On-Line – A senhora também já recebeu ameaças de morte?

Kátia Webster – Nunca. A gente trabalha muito de forma anônima.

Campo e cidade se unem em apoio ao MST

“Malditas sejam todas as cercas”

Mãos dadas e palavras de ordem. Mais de 350 trabalhadores do campo e da cidade que se utilizaram da “casa do povo” para gritar. Gritar para que parlamentares do Congresso Nacional ouçam a voz de quem não agüenta mais ser criminalizado pelas lutas em busca de justiça social, mas que nunca vão se dar por vencidos diante da ofensiva articulada pelos meios de comunicação e os setores mais conservadores do parlamento e o Judiciário.

Foi dessa forma que terminou o Ato em defesa da Reforma Agrária, da Agricultura familiar e Camponesa e da Democracia, organizado pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária e realizado na terça-feira (10/11), na Câmara dos Deputados. O auditório Nereu Ramos foi o espaço em que se selou a união entre os trabalhadores do campo e da cidade frente a mais um ataque contra os movimentos sociais, em especial o MST.

De acordo com a coordenadora nacional do Movimento, Marina dos Santos, há muito tempo não se via uma unidade tão forte em defesa dos setores progressistas da sociedade brasileira em um momento difícil para os movimentos sociais. “Está havendo um processo de articulação dos setores mais atrasados e conservadores da América Latina. Estão articulados com o capital, com os meios de comunicação de massa, com os setores mais conservadores do parlamento e do Judiciário com o objetivo de desmoralizar as lutas sociais e as conquistas históricas do povo”, disse.

Para Quintino Severo, secretário-geral da Central Única dos Trabalahdores (CUT), o ato demonstra a solidariedade de classe dos movimentos urbanos e dos sindicalistas brasileiros frente ao MST. “Hoje são os trabalhadores sem terra, mas é uma ofensiva contra os setores progressistas. Amanhã, o ataque poderá vir a outras entidades e movimentos”, alertou.

CPMI

Com a recente CPMI instalada no Congresso Nacional, somam-se três investigações contra o MST em sete anos. As anteriores não chegaram a nenhuma prova ou indício que pudesse comprometer as atividades e ações do Movimento.

Durante o ato, várias intervenções mostraram que esta investigação é uma retaliação da bancada ruralista, que não aceita o preceito constitucional de atualização dos índices de produtividade do campo, defasados há mais de 30 anos.

Segundo William Clementino, da Confederação dos Agricultores na Agricultura (Contag) todas as discussões sobre Reforma Agrária só aconteceram devido à pressão dos trabalhadores e trabalhadoras. A Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf) também lamentou a postura do Congresso. “Entristece-nos que o Congresso Nacional desrespeite os movimentos sociais. Temos que trazer para a sociedade a importância da Reforma Agrária”, declarou Elisângela Araújo, coordenadora da Fetraf.

O ato contou com a presença dos seguintes parlamentares: os/ as deputados/as Chico Alencar (PSOL/RJ), Ivan Valente (PSOL/SP), Emília Fernandes (PT/RS), Nazareno Fonteles (PT/PI), Assis do Couto (PT/PR), Jackson Barreto (PMDB/SE), Anselmo de Jesus (PT/RO), Pedro Wilson (PT/GO), Eudes Xavier (PT/CE), além da senadora Serys Slhessarenko (PT/MT). Trabalhadores organizados pela CUT, do MST e representações da CPT, do Movimento de Mulheres Camponesas e da Cáritas Brasileira também se fizeram presentes.

Fonte: site do MST

Freira ameaçada de morte por defender direitos humanos

“Se for preciso darei a minha vida, mas não vou parar com o meu trabalho”, diz Geralda da Fonseca. A religiosa trabalha com os Sem Terra em Minas Gerais

Em entrevista à rádio CBN, a religiosa denuncia que, além dela, outros militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) têm sido ameaçados de morte. A freira dominicana trabalha há 17 anos no Vale do Jequitinhonha na evangelização e conscientização política, em defesa da reforma agrária na região, pelo que tem recebido várias ameaças de morte por telefone.

A freira, conhecida como irmã Geraldinha, reside numa casa da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Belo Horizonte. Ela afirma que já apresentou queixa e pretende levar o caso à Justiça. As ameaças têm se intensificado, mas a religiosa tem intenção de retomar o trabalho, não obstante corra o risco de ser morta. “Estou em busca de justiça para continuarmos a nossa luta de libertação pela reforma agrária. Que o povo possa adquirir seu pedaço de terra e trabalhar feliz”.

Em nota divulgada recentemente sobre o assunto, a CPT denunciou “as cobardes ameaças de morte à Irmã Geraldinha”. A mesma nota exige “que o Estado brasileiro assegure a ela e a todos […] os meios necessários para que lhes seja garantido o direito fundamental à vida e à integridade física e moral”. A polícia garantiu à jornalista da rádio CBN que em caso de confrontos poderá reforçar o policiamento e localizar o autor das ameaças à religiosa.

Fonte: Fátima Missionária

Mais uma vez a mídia e os ruralistas investem contra o MST

CPT Nacional

NOTA PÚBLICA DA CPT

A Coordenação Nacional da CPT vem a público para manifestar sua estranheza diante do “requentamento” por toda a grande mídia de um fato ocorrido na segunda feira da semana passada, 28 de setembro, e que foi noticiado naquela ocasião, mas que voltou com maior destaque, uma semana depois, a partir do dia 5 de outubro até hoje.

Trata-se do seguinte: no dia 28 de setembro, integrantes do MST ocuparam a Fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do estado de São Paulo. A área faz parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e que pertencem à União. A fazenda Capim, com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale, uma das maiores empresas produtora de suco de laranja do mundo, para a monocultura de laranja. O MST destruiu dois hectares de laranjeiras para neles plantar alimentos básicos. A ação tinha por objetivo chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União.

As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos econômicos. A Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que houvesse regularização fundiária a seu favor.

As imagens da televisão, feitas de helicóptero, mostram um trator destruindo as plantas. As reações, depois da notícia ser novamente colocada em pauta, vieram inclusive de pessoas do governo, mas, sobretudo, de membros da bancada ruralista que acusam o movimento de criminoso e terrorista.

A quem interessa a repetição da notícia, uma semana depois?

No mesmo dia da ação dos sem-terra foi entregue aos presidentes do Senado e da Câmara, um Manifesto, assinado por mais de 4.000 pessoas, entre as quais muitas personalidades nacionais e internacionais, declarando seu apoio ao MST, diante da tentativa de instalação de uma CPMI para investigar os repasses de recursos públicos a entidades ligadas ao Movimento. Logo no dia 30, foi lido em plenário o requerimento para sua instalação, que acabou frustrada porque mais de 40 deputados retiraram seu nome e com isso não atingiu o número regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu.

A ação do MST do dia 28, que ao ser divulgada pela primeira vez não provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para novamente se propor uma CPI contra o MST. E numa ação articulada entre os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da ocupação da fazenda da Cutrale.

A ação do MST, por mais radical que possa parecer, escancara aos olhos da nação a realidade brasileira. Enquanto milhares de famílias sem terra continuam acampadas Brasil afora, grandes empresas praticam a grilagem e ainda conseguem a cobertura do poder público.

Algumas perguntam martelam nossa consciência:

Por que a imprensa não dá destaque à grilagem da Cutrale?

Por que a bancada ruralista se empenha tanto em querer destruir os movimentos dos trabalhadores rurais? Por que não se propõe uma grande investigação parlamentar sobre os recursos repassados às entidades do agronegócio, ao perdão rotineiro das dívidas dos grandes produtores que não honram seus compromissos com as instituições financeiras?

Por que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), declarou, nas eleições ao Senado em 2006, o valor de menos de oito reais o hectare de uma área de sua propriedade em Campos Lindos, Tocantins? Por que por um lado, o agronegócio alardeia os ganhos de produtividade no campo, o que é uma realidade, e se opõe com unhas e dentes á atualização dos índices de produtividade? Por que a PEC 438, que propõe o confisco de terras onde for flagrado o trabalho escravo nunca é votada? E por fim, por que o presidente Lula que em agosto prometeu em 15 dias assinar a portaria com os novos índices de produtividade, até agora, mais de um mês e meio depois, não o fez?

São perguntas que a Coordenação Nacional da CPT gostaria de ver respondidas.

Goiânia, 7 de outubro de 2009.

Coordenação Nacional da CPT

MST recebe apoio de CNBB e ABI pela revisão dos índices

Diante da ofensiva dos setores mais conservadores da sociedade, o MST recebeu apoio na luta pela revisão dos índices de produtividade do presidente da Comissão Episcopal de Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Dom Pedro Luiz Stringhini, e do presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Maurício de Lima Azêdo.

“Solidarizamo-nos com as centenas de famílias acampadas, algumas delas há muitos anos, às margens das estradas em todo o território brasileiro”, afirma Dom Pedro Luiz, em nota enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual defende a atualização dos índices de produtividade (leia abaixo versão integral). “As Pastorais Sociais compartilham a convicção de que a reforma agrária contribui para a superação da situação de miséria e abandono dos acampados, muitos deles crianças e idosos. Sobretudo, permite destinar as terras, prioritariamente, para a produção de alimentos e a preservação ambiental”.

O presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Maurício de Lima Azêdo, assinou o Manifesto em Defesa da Democracia e do MST. Segundo o documento, “o compromisso do governo de rever os critérios de produtividade para a agricultura brasileira, responde a uma bandeira de quatro décadas de lutas dos movimentos dos trabalhadores do campo. Ao exigir a atualização desses índices, os trabalhadores do campo estão apenas exigindo o cumprimento da Constituição Federal, e que os avanços científicos e tecnológicos ocorridos nas últimas quatro décadas, sejam incorporados aos métodos de medir a produtividade agrícola do nosso País.

O manifesto, que recebeu mais de 3500 assinaturas, foi lançado por intelectuais, escritores, artistas, partidos, entidades nacionais e internacionais. O texto avalia que a ameaça de criação de uma CPI contra o MST é uma represália à bandeira da atualização dos índices de produtividade. “É por essa razão que se arma, hoje, uma nova ofensiva dos setores mais conservadores da sociedade contra o Movimento dos Sem Terra – seja no Congresso Nacional, seja nos monopólios de comunicação, seja nos lobbies de pressão em todas as esferas de Poder”, afirma o manifesto.


A seguir a íntegra da carta enviada por D. Pedro Luiz ao presidente Lula:

Excelentíssimo Senhor
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República Federativa do Brasil

Nós, agentes de pastoral, coordenadores e coordenadoras nacionais e regionais, assessores e bispos referenciais das pastorais sociais, presentes no Encontro Nacional das Pastorais Sociais da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, através deste comunicado, solidarizamo-nos com as centenas de famílias acampadas, algumas delas há muitos anos, às margens das estradas em todo o território brasileiro.

A Constituição Brasileira determina que uma propriedade cumpra sua função social para que o seu proprietário continue tendo direito de posse sobre ela. Segundo a Constituição, os índices de produtividade determinam se uma propriedade é produtiva ou não. De acordo com a Lei, estes dados deveriam ser atualizados periodicamente, levando em conta os avanços tecnológicos e o emprego de novos conhecimentos na produção agrícola.

No início do mês de agosto, Vossa Excelência afirmou que, num prazo máximo de 15 dias, iria atualizar os índices de produtividade da terra, o que representaria avanço no processo de reforma agrária no Brasil. Com esta atualização, os órgãos responsáveis pela reforma agrária passam a ter mais agilidade e ferramentas para determinar que as propriedades cumpram sua função social ou venham a ser desapropriadas para fins de reforma agrária.

A sociedade tem assistido os ataques ao Governo por parte de latifundiários contrários à atualização desses índices. O próprio Ministério da Agricultura se recusou a assinar a portaria interministerial determinada pelo senhor Presidente da República.

Os índices de produtividade utilizados pelo INCRA a partir de dados do IBGE de 1975 estão defasados. Por isso, a atualização dos índices de produtividade é pauta de mobilização dos movimentos de luta pela terra, e do Fórum Nacional de Reforma Agrária.

As Pastorais Sociais compartilham a convicção de que a reforma agrária contribui para a superação da situação de miséria e abandono dos acampados, muitos deles crianças e idosos. Sobretudo, permite destinar as terras, prioritariamente, para a produção de alimentos e a preservação ambiental.

Reafirmando nosso compromisso com o povo do campo, os indígenas, as comunidades negras e quilombolas, que lutam cotidianamente pela democratização da terra, solicitamos a Vossa Excelência, em cumprimento do que estabelece a Constituição Federal, a assinatura do decreto que atualiza os índices de produtividade no campo.

Na oportunidade, expressamos a Vossa Excelência os sentimentos de grande respeito, apreço e confiança.

Fraternalmente,

Dom Pedro Luiz Stringhini
Presidente da Comissão Episcopal de Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Manifesto em defesa do MST

Secretaria Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Bastou realizarmos mais uma jornada de lutas – cobrando o cumprimento de uma pauta de reivindicações apresentada ao governo Lula ainda em 2005 – e exigirmos a atualização dos índices de produtividade agrícola, como estabelece a Constituição Federal para que viesse a reação.

Os setores mais conservadores do Congresso e da sociedade, liderados pela senadora Kátia Abreu (DEM/TO) e os deputados federais Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que começaram a orquestrar uma nova ofensiva contra o MST.

Na semana passada, os parlamentares ruralistas protocolaram mais uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra o MST – a terceira em menos de 5 anos. É exatamente uma represália à nossa ousadia de solicitar a atualização dos índices de produtividade agrícola, que poderá beneficiar os proprietários rurais que realmente produzem em nosso país.

Os que não produzem, certamente, aprovados os novos índices, terão dificuldades de acessar os recursos dos cofres públicos. Assim, os “modernos” defensores do agronegócio não apenas defendem uma agricultura atrasada, em defesa própria, como também expressam, mais uma vez, seu caráter anti-social e parasitário dos recursos públicos.

Os ruralistas, agora parlamentares, alegam que há uma malversação dos recursos públicos destinados à Reforma Agrária para justificar essa CPI. É um direito deles fazer esse questionamento e elogiamos a disposição de prezar pelos recursos públicos.

Mesmo sabendo que a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que a senadora Kátia Abreu preside, financiou a campanha eleitoral da senadora e até hoje não foi investigada. Mas se há problemas com esses recursos públicos, para que serve o Tribunal de Contas da União (TCU), subordinado ao Congresso Nacional, ou a Receita Federal?

Há a necessidade de criar uma nova CPI ou os objetivos são apenas imobilizar um movimento social e ocupar espaços na mídia para inibir a bandeira da Reforma Agrária? Parlamentares identificados ou coniventes com esses objetivos é que não faltam.

Mas se não nos faltam inimigos da Reforma Agrária, fortalecidos política e economicamente há cinco séculos pela existência do latifúndio, também não nos faltam solidariedade e apoio de incansáveis e valorosas lutadoras e lutadores da Reforma Agrária.

E por iniciativa de companheiros que nunca nos faltam, principalmente nas horas mais difíceis, surgiu um Manifesto em Defesa da Democracia e do MST. O nosso muito obrigado pela iniciativa desses companheiros.

Agradecemos a iniciativa dos companheiros Plínio de Arruda Sampaio, Osvaldo Russo, Hamilton Pereira, Alípio Freire e Heloisa Fernandes, por escrever o manifesto e fazer o levantamento de assinaturas.

Temos orgulho de receber o apoio e palavras de carinho de Antônio Cândido, Leandro Konder, Fábio Konder Comparato, Fernando Morais, Jacques Alfonsin e Nilo Batista. Do exterior, recebemos o sopro da solidariedade de Eduardo Galeano (Uruguai), István Mészáros (Hungria), Miguel Urbano (Portugal) e Vandana Shiva (Índia).

Da Igreja, recebemos a oração de Dom Ladislau Biernaski (Presidente da CPT), Dom Pedro Casaldáliga (bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia), Reverendo Carlos Alberto Tomé da Silva (Anglicano, Capelão Militar), Dom Tomás Balduino, Frei Betto e Leonardo Boff.

As entidades da classe trabalhadora do nosso país também estão do nosso lado contra essa ofensiva. Os partidos de esquerda manifestaram solidariedade contra a manobra dos parlamentares da extrema-direita

Além desses companheiros e companheiras, agradecemos as mais de 400 pessoas que já assinaram o nosso manifesto. Mais do que o conteúdo expresso no manifesto, a companhia de vocês, e de todas e todos que o subscrever, atesta que estamos na luta e no caminho certo.

Poderá tardar, por conta da mentalidade retrógrada e latifundiária da elite brasileira, mas conquistaremos um Brasil socialmente justo, democrático e com igualdade.

Abaixo segue o link do Manifesto. Assine-o e promova sua divulgação. Para assinar, entre em: http://www.petitiononline.com/manifmst/petition.html

Padre Ezequiel Ramin, mártir da terra!

Hoje fazemos memória dos 24 anos da morte violenta do Pe. Ezequiel Ramin, missionário comboniano assassinado em Cacoal,  Rondônia .

Defensor dos índios e posseiros, vítima de emboscada, foi crivado de balas assassinas pelo seu compromisso com os pobres da terra.

D. Luciano Mendes de Almeida um ano depois inaugurou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Pe. Ezequiel Ramin que atua por 23 anos na defesa da vida e dos direitos humanos em nossa cidade.

Atualmente o Centro de Defesa atua com destaque na área da infância e adolescência no Forum das Varas Especiais, de jovens em conflito com a Lei , atendendo em parceria com a Defensoria Publica, Fundação Casa, Universidade São Judas, Secretaria Especial de Direitos Humanos, cerca de 800 jovens e famílias por mês.

O trabalho é árduo e fecundo na humanização do atendimento no Forum e no devido Processo Legal, tendo por abjetivo maior a diminuição da violência.

O nosso Centro de Defesa passa por grandes desafios e logo iniciaremos, pelo nosso site, uma campanha para ajudá-lo e para manter firme a memória do Pe. Ezequiel Ramin e sua caminhada em Defesa da VIDA!

Padre Ezequiel Ramin: paixão pela missão

Quem foi Padre Ezequiel?
Um servo de Deus, missionário, consagrado sacerdote, pertencente à Congregação dos Missionários Combonianos. Nascido em Pádua, Itália, aos 09 de fevereiro de 1953, em uma família simples e religiosa, e ordenado sacerdote em 29 de setembro de 1980. Em 01 de setembro de 1983, foi destinado a terras brasileiras, para morar em Cacoal, Rondônia, Diocese de Ji-Paraná.

Como diz o canto: “muito tempo não dura a verdade, nessas margens estreitas demais…” (Ir Cecília), e semelhante ao que aconteceu com o próprio Jesus, assim também aconteceu com o Padre Ezequiel. Em tão pouco tempo de missão, sua presença incomodou tanto, a ponto de os ricos tramarem sua morte. E aos 24 de julho de 1985, quando em missão de paz em favor dos indígenas e posseiros, seu caminho foi interrompido pela maldade dos donos do poder. O Padre Ezequiel fez sua entrega plena ao Pai, juntando-se à multidão dos que alvejaram suas vestes com o sangue do Cordeiro (Ap 7, 14).

Por quais motivos mataram o Padre Ezequiel?
Certamente pelos mesmos motivos que mataram o Filho de Deus e, bem como, daí para cá, tantos homens e mulheres que vêm sendo tombados desde a origem da Igreja. O motivo é sempre o anúncio do Reino que consiste na justiça e no bem comum. Podemos afirmar que nossa Igreja nasceu com a perseguição, e por muito tempo foi fecundada com o sangue do martírio. Pois só é possível saber qual a verdadeira Igreja e se somos verdadeiramente Igreja, quando somos perseguidos e mortos pelo Evangelho e pela defesa dos pobres.

E, neste dia 24 de julho, a Diocese de Ji-Paraná, em Rondônia, por meio do Projeto Pe Ezequiel, das lideranças, pastorais e movimentos de luta pela justiça, faz memória a este grande missionário, nosso primeiro mártir. E como bem falou João Paulo II: “Ele é testemunha da caridade”. Pois não há caridade maior do que dar a vida pelos irmãos (Jo 15, 13).

A causa que levou o Padre Ezequiel à morte e os que a tramaram continuam bem presentes em nosso meio, disfarçados de muitas maneiras. Continuam mandando e desmandando bem à vontade, porque os que deveriam incomodar simplesmente, com o silêncio, estão consentindo a situação. Não nos assustemos se algum dia as pedras começarem a gritar, pois elas são menos tolerantes com o poder do mal e farão de tudo para quebrar o silêncio do medo que nos domina.

A essência do cristianismo é provada em realidades como a nossa. Porque jamais irão perseguir a igreja que se fecha em sacristias, sem levar em conta o martírio do povo e da Criação-Natureza. Mas com certeza, vão nos atacar e nos matar quando definirmos que estamos do lado do verdadeiro Evangelho de Jesus de Nazaré, cobrando a efetivação da Reforma Agrária e o respeito às áreas indígenas, exigindo atenção do Estado para com a agricultura familiar e sustentável e a valorização da educação rural. Quando tivermos coragem de dizer NÃO ao agronegócio, ao avanço do latifúndio, às construções de barragens para fins de interesses particulares de grupos fechados, que vêm causando a expulsão e a migração forçada de muitas famílias. Quando formos capazes de abrir a boca e denunciarmos os que sustentam a prostituição infantil e a proliferação das drogas que matam nossa infância e juventude todos os dias.

Hoje, 23 anos depois, nossa realidade ainda é cercada de “catuvas, trincheiras e barricadas” que ameaçam calar a voz da verdade. E por incrível que pareça estão conseguindo. É por isso que a Igreja não deve esquecer seus mártires, pois o “esquecimento” pode ser traduzido com o consentimento com o pecado e a fuga do compromisso. E um povo que não faz memória do seu passado é um povo sem história e fácil de ser manipulado.

O Padre Ezequiel deixou muitos escritos relatando a amigos os desafios encontrados na missão. Entre tantos, um deles nos chama muito à atenção, diz o seguinte:

“Esta noite, diante de sua vida, este missionário chorou. Contudo, continuo o mesmo com este povo (…) Estou caminhando com a fé que, como o inverno, cria a primavera. Em minha volta as pessoas morrem – a malária cresceu assustadoramente – os latifundiários aumentam, os pobres são humilhados, os policiais matam lavradores, as reservas indígenas são invadidas. (…) Com dificuldade os meus olhos conseguem ler a história de Deus por aqui”
Pe. Ezequiel Ramin

Padre Ezequiel, você deu exemplo de verdadeiro pastor, colocou sua vida como garantia em favor dos menos favorecidos. A terra de dois continentes alimentou-se do seu SER. O Brasil recebeu todo o seu sangue, e a Itália, o seu berço original, e familiares receberam seu corpo. Por isso, você é nosso também e cada dia mais, você está vivo na luta de mulheres e homens que se doam e tentam manter erguida a mesma bandeira que você segurou até aquele dia 24 de julho de 1985. Ao ler seus escritos percebe-se a dimensão de sua paixão pelo Evangelho e pela justiça. Portanto, o seu sonho mantém vivo em muitos Projetos, CEBs e Pastorais.

Fonte: CEBs Acontecendo, 25 de julho de 2008 – n.º 35– Ano I

Comissão Pastoral da Terra divulga dados sobre os conflitos no campo

Agência Adital – Em 2008, o número de conflitos no campo diminuiu, porém o número de pessoas assassinadas foi mantido em relação a 2007, alcançando 28. As informações foram divulgadas hoje (28) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), durante uma coletiva dentro da 47ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, no Estado de São Paulo.

Os dados de conflitos no campo no Brasil revelam um aumento da violência em 2008, pois, em 2007, registrava-se uma morte em cada 54 conflitos, já em 2008, houve uma morte em cada 42 conflitos. A Amazônia é a região com maior número de mortes, 72%. Mais da metade dos conflitos atingem diretamente as populações tradicionais, o que evidencia o interesse do capital sobre territórios ocupados por essas comunidades.

Segundo a CPT, a ausência da reforma agrária tem mantido a conflitividade e a violência no campo. Mesmo com uma redução de 23% no número total dos conflitos de 2007 para 2008, o número total de pessoas envolvidas continua elevado, bem como o número de assassinatos. A Comissão destaca que 47% dos conflitos no campo ocorreram na Amazônia Legal. O Pará continua a ser o estado com o maior número de conflitos (245), seguido pelo vizinho estado do Maranhão (101) que ocupa o segundo lugar.

De acordo com as análises do professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Walter Porto-Gonçalves, os dados da CPT mostram uma mudança significativa na geografia dos assassinatos, posto que o ano de 2008 retoma o padrão histórico da geografia da violência, onde o Pará ocupa o primeiro lugar com 46,4% dos casos ocorridos no país, enquanto em 2007 ele contava com apenas cerca de 18% do total de assassinatos.

Essa queda, segundo o professor, deu-se devido à repercussão do assassinato da freira Dorothy Stang, o que ensejou que os governos federal e estadual tomassem medidas que, como demonstram os dados de 2008, não tocaram no padrão histórico de violência que vem caracterizando a reprodução da nossa estrutura de poder.

Em relação aos protagonistas da luta pela terra, os Sem-Terra participaram de 36,3% dos conflitos em 2008, evidenciando uma queda em comparação com 2007, quando protagonizaram 44% dos conflitos. As populações tradicionais passaram então a ocupar o primeiro lugar em 2008 com 53% do total. A análise afirma que a prevalência dessas duas categorias está relacionada ao fato de que os Sem-Terra de hoje são as populações que ocupavam terras e foram expropriadas e, entre essas, as populações tradicionais ocupam um lugar cada vez mais protagônico, o que indica a atualidade do grave processo expropriatório que está em curso desde os anos 1970.

A CPT destaca também uma nova onda de criminalização dos movimentos sociais do campo e de suas lideranças propagada em 2008. A Comissão cita casos de defensores de direitos humanos que foram condenados à prisão ou ao pagamento de multas. Um dos casos ocorreu em Alagoas. Ex-coordenadores do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), os irmãos Valdemir Augustinho de Souza e Ivandeje Maria de Souza foram condenados a 24 anos de prisão pelos crimes de formação de quadrilha, dano ao patrimônio, roubo qualificado e extorsão.

A Pastoral ressalta ainda o aumento de denúncias de trabalho escravo em 2008. No ano passado, registrou-se 5,6% de denúncias a mais que em 2007. O número de pessoas libertadas alcançou, em 2008, seu segundo maior número histórico desde a criação do Grupo Móvel: 5.266, logo atrás do ano anterior 5.974. O maior número de trabalhadores libertados foi no setor sucro-alcooleiro, 2553 pessoas, 48% do total.

Massacre de Eldorado de Carajás completa 13 anos sem desfecho

Em 17 de abril de 1996 policiais militares promoveram o Massacre de Eldorado de Carajás, que ganhou repercussão internacional e deixou marca na história do país, ao lado do Massacre do Carandiru (1992) e da Chacina da Candelária (1993), como uma das ações policiais mais violentas do Brasil. Em 2002, o presidente FHC instituiu essa data como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Passados 13 anos do massacre no Pará, permanecem soltos os 155 policiais que mataram 19 trabalhadores rurais, deixaram centenas de feridos e 69 mutilados. Entre os 144 incriminados, apenas dois foram condenados depois de três conturbados julgamentos: o coronel Mário Collares Pantoja e o major José Maria Pereira de Oliveira. Ambos aguardam em liberdade a análise do recurso da sentença, que está sob avaliação da ministra Laurita Vaz, do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

O MST – Movimento dos Sem Terra – montou dois acampamento no estado, para cobrar a condenação dos responsáveis pelo massacre e apoio às famílias sobreviventes, com encerramento das atividades no dia 17. Na Curva do S, em Eldorado de Carajás, 500 trabalhadores rurais participam das atividades do Acampamento da Juventude, a partir do dia 10. Em Belém, 600 pessoas estarão mobilizadas depois do dia 14.

“Estamos mobilizados para denunciar que depois de tanto tempo do massacre ninguém foi preso e as famílias ainda não foram indenizadas. Cobramos a indenização de todas as famílias e atendimento médico aos sobreviventes. Defendemos também um novo julgamento para impedir que a morte de 19 companheiros fique impune. Além disso, exigimos a Reforma Agrária para acabar com a violência contra os trabalhadores rurais”, explica o integrante da coodenação nacional do MST, Ulisses Manaças.

Em 2007, os trabalhadores Sem Terra conseguiram uma vitória parcial, com a indenização de 23 famílias que foram vítimas do massacre pela governadora Ana Júlia. No entanto, no ano passado o governo estadual promoveu soldados que participaram do Massacre. O Movimento cobra a indenização do total de 79 famílias, além da regularização do atendimento médico multidisciplinar aos feridos durante o massacre, que ficaram com balas alojadas pelo corpo.

“A gente lamenta essa mentalidade de grande parte dos juristas, que acha que a pessoa deve recorrer eternamente, pela chamada presunção de inocência. Esse processo acaba gerando impunidade total e absoluta” afirma o promotor de Justiça do caso, Marco Aurélio Nascimento.

O advogado Carlos Guedes, que acompanhou o caso desde abril de 1996 até o último julgamento, em maio de 2002, acredita que a Justiça ainda não resolveu o caso. Guedes também alerta que existem dois tipos de responsabilidades em relação ao massacre que a Justiça tem de levar em consideração: as responsabilidades criminal e política.

“Se todos os que foram denunciados, desde o coronel Pantoja até o último soldado, tivessem sido condenados, isso por si só seria insuficiente. Outras pessoas tiveram participação decisiva no massacre, como o governador (Almir Gabriel), o comandante geral da Polícia Militar e o secretário de Segurança Pública (Paulo Sette Câmara). Estes sequer foram envolvidos no caso”, contesta o advogado.

Na opinião dos sobreviventes do massacre e dos advogados do MST, a justiça ainda não veio. As pessoas mutiladas, assim como as 13 viúvas que tiveram seus maridos executados naquele dia, ainda não receberam indenizações. Tanto para o coordenador nacional do MST no Pará, Charles Trocate, quanto para os mutilados do massacre, o Estado foi o culpado pelo incidente.

“A cultura da violência gera a cultura da impunidade. Carajás evidenciou um problema em proporções maiores, mas o Estado não foi capaz de criar instrumentos que corrigissem isso. Primeiro se negou julgar e condenar o governador, o secretário de Justiça e o comandante geral da PM. Segundo, nestes 13 anos, não foi produzida nenhuma condenação porque é o Estado que está no banco dos réus”, afirmou Trocate.

O 17 de abril foi marcado como dia internacional da luta das lutas dos camponeses, em homenagem à luta pela terra pelos camponeses de Carajás e de todas as partes do mundo. Todos os anos, a Via Campesina realiza mobilizações nesse período do ano para cobrar o julgamento dos responsáveis pela violência no campo e pela realização da Reforma Agrária.


Caminho do processo na Justiça

Junho de 1996 – Início do maior processo em número de réus da história criminal brasileira, envolvendo 155 policiais militares. Em 10 anos, o processo ultrapassou as 10 mil páginas.

16 de agosto de 1999 – Primeira sessão do Tribunal do Júri para julgamento dos réus em Belém, presidida pelo juiz Ronaldo Valle. Foram absolvidos três oficiais julgados – coronel Mário Colares Pantoja, major José Maria Pereira de Oliveira e capitão Raimundo José Almendra Lameira. Foram três dias de sessão com cerceamento dos poderes da acusação, impedimento da utilização em plenário de documentos juntados no prazo legal, permissão de manifestações públicas de jurados criticando a tese da acusação e defendendo pontos de vista apresentados pela defesa.

Abril de 2000 – O Tribunal de Justiça do Estado do Pará determinou a anulação do julgamento, decisão mantida em um segundo julgamento, em outubro de 2000. Antevendo a anulação do julgamento, o juiz Ronaldo Valle solicitou o afastamento do caso. Dos 18 juízes criminais da Comarca de Belém, 17 informaram ao Presidente do Tribunal de Justiça que não aceitariam presidir o julgamento, alegando, na maioria dos casos, simpatia pelos policiais militares e aversão ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e aos trabalhadores rurais.

Abril de 2001 – Nomeada uma nova juíza para o caso, Eva do Amaral Coelho, que designou o dia 18 de junho de 2001 como data para o novo julgamento dos três oficiais. Alguns dias antes do início da sessão, a juíza determinou a retirada do processo da principal prova da acusação, um minucioso parecer técnico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com imagens digitais que comprovavam que os responsáveis pelos primeiros disparos foram os policiais militares. O MST reagiu e a juíza reviu sua posição, suspendendo o julgamento sem marcar nova data.

14 de maio a 10 de junho de 2002 – O julgamento foi retomado. Após cinco sessões, entre os 144 acusados julgados, 142 foram absolvidos (soldados e 1 oficial) e dois condenados (coronel Pantoja e major Oliveira), com o benefício de recorrer da decisão em liberdade. Em decorrência dos benefícios estendidos aos dois únicos condenados, as testemunhas de acusação não compareceram mais ao julgamento, em função de ameaças de morte e por não acreditar na seriedade do julgamento. Durante vinte dias, jornais do Estado do Pará publicaram detalhes sobre intimidações e ameaças de morte que estariam recebendo as principais testemunhas da acusação, principalmente Raimundo Araújo dos Anjos e Valderes Tavares. Nada foi feito em relação à proteção e salvaguarda de tais testemunhas. O MST não aceitou participar de um julgamento onde não estivessem sequer garantidas a segurança e a tranqüilidade das pessoas fundamentais para a acusação.

Novembro de 2004 – A 2ª Câmara do Tribunal de Justiça do Pará julga numa só sessão todos os recursos da defesa e da acusação e mantém a decisão dos dois julgamentos realizados pelo Tribunal do Júri, absolvendo os 142 policiais militares e condenando o coronel Pantoja (228 anos de prisão) e o major Oliveira (154 anos de prisão).

22 de setembro de 2005 – O coronel Pantoja é posto em liberdade por decisão do Supremo Tribunal Federal.

13 de outubro de 2005 – O major Oliveira é posto em liberdade por decisão do Supremo Tribunal Federal.

2006 – Recurso especial é apresentado ao Superior Tribunal de Justiça e, posteriormente, recurso extraordinário é apresentado ao Supremo Tribunal Federal.

Abril/2007 – A governadora do estado Ana Júlia Carepa assinou decreto que concede indenização e pensões especiais a 22 famílias de trabalhadores sem-terra vítimas da chacina. “O que eu fiz foi reparar uma injustiça, reconhecendo a responsabilidade do governo do Estado”, disse Ana Júlia. A governadora classificou o massacre de Eldorado do Carajás como “um dos episódios que mais envergonhou não só o Pará diante do Brasil, mas o Pará diante do mundo”.

Setembro/2008 – O governo de Ana Júlia Carepa promoveu os soldados que participaram do Massacre de Eldorado do Carajás. Entre 87 e 90 policiais foram promovidos a cabo. Apesar de todos os promovidos já terem sido absolvidos em primeira instância pela acusação de homicídio qualificado, ainda há um recurso no STJ (Supremo Tribunal de Justiça) que pede suas condenações.